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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Destrinchando Zeitgeist – Parte 5: Religiosos Políticos

2 comentários:
Refutar o documentário Zeitgeist não é uma missão difícil. Como nós pudemos ver ao longo dessa série, o filme é ridículo, do ponto de vista acadêmico. Comete erros cavernosos de metodologia histórica, se baseia em especulações, comparações forçadas e distorções e não tem a menor vergonha de mentir descaradamente. Seus produtores beiram o mais alto estágio da mitomania.

Entretanto, mesmo mostrando da maneira mais clara as mentiras presentes nessa produção, não é fácil convencer uma pessoa de que o documentário é mentiroso. Existe um motivo bem simples para isso: todos tendem a acreditar que pessoas não-religiosas são mais amigas da razão. É como se elas não tivessem nenhuma crença para defender e, por isso, nenhum dogma. Elas não se guiam pela fé, mas pela razão.

Mas o que o leitor diria se descobrisse que o documentário que se esforça tanto para condenar a religião tradicional (alegando que ela se baseia em crenças irracionais e pode ser usada para o mal) defendesse crenças de outra religião, muito mais irracional e muito mais perigosa? Seria digno de confiança um documentário desses?

Pois bem, o que nós vamos analisar nessa última postagem da série é como que o documentário Zeitgeist defende com uma fé fervorosa a chamada religião política. Ou seja, veremos como seus produtores não passam de religiosos políticos.

A crença no homem em Zeitgeist

A crença no homem é o principal dogma humanista. É a crença antropocêntrica de que o ser humano é bom por natureza e altamente capaz de transformar o mundo em um paraíso com suas próprias mãos. Para o humanista, os males do mundo não resultam de uma inclinação natural do ser humano à imperfeição, mas sim de algo externo ao ser humano que, se for extirpado, mudará a história do mundo.

E qual são as evidências de que realmente o homem é bom por natureza e pode fazer o céu na terra? Nenhuma. Conforme observo na postagem “A crença no homem: uma análise crítica”, as evidências são justamente contrárias a essa idéia. Do ponto de vista darwinista, o homem é apenas um animal como outro qualquer. Ele tem instintos e características naturais também presente nos animais como: a luta pela sobrevivência, o territorialismo, o gregarismo, a luta pela liderança de seu bando, o predadorismo, a luta pelas mesmas fêmeas e etc. A diferença entre o homem e os animais é que o primeiro possui razão. Não obstante, é exatamente isso que o torna um animal mais perigoso que todos os outros. Ele é capaz de maquinar o mal, de cometer excessos e de transformar as piores maldades em hábito.

É por esse motivo que muitas vezes vemos crianças de dois anos de idade com ciúmes excessivos de um brinquedo ou invejando o brinquedo do outro. Não foram os pais ou a sociedade que ensinaram isso a ela. É uma característica natural. Os homens são inclinados ao erro desde o nascimento até a morte, e o drama da humanidade é essa constante luta de cada pessoa contra as suas próprias inclinações. (Lembrando que ainda que o mal no homem fosse tão-somente social, também não há evidências de que os homens podem se descorromper por completo e não se corromperem socialmente de novo. Em vez disso, a história do mundo evidencia justamente o oposto).

No entanto, como se não bastassem todos os problemas que advém ao mundo em função dessa natureza corrupta do homem, o humanismo existe. O humanismo é o pior dos tumores do mundo porque nega a natureza do homem e tenta incutir na mente das pessoas a idéia de que dá para mudar a história. Como resultado, cria-se uma legião de bitolados que procuram colocar a culpa do mal em algum agente externo que não seja a natureza do homem. É neste ponto que a ingênua crença humanista se torna uma arma perigosíssima.

Cada crente humanista começa a ver a si mesmo e ao seu grupo de crentes como o poder revolucionário que ajudará a trazer a redenção para o mundo. Define-se, então, o inimigo mundial, a raiz de todos os males, e uma retórica de ódio a esse inimigo se inicia. Podemos enumerar os passos do humanista da seguinte forma:

(1) defini-se que o mal da sociedade não está na natureza humana;

(2) busca-se um bode expiatório para pôr a culpa desse mal (a burguesia, ou os conservadores, ou os judeus, ou os cristãos ou qualquer outro);

(3) instiga-se o ódio aos “culpados”, pois eles não deixam o paraíso ser formado;

(4) legitima-se toda e qualquer ação contra os “culpados”, em prol de um bem maior e supremo, que será alcançado quando eles forem eliminados.
Muito bem, é justamente essa mentalidade revolucionária que define o que chamamos de religião política. A religião política é a religião de todo humanista e de todo esquerdista. É a fé que coloca o ser humano como o próprio Deus e que elege um grupo de pessoas inimigas, que levarão a culpa de todos os males do mundo, sendo, por isso, demonizadas.

Essa era a religião dos ditadores Lênin, Stálin, Mao Tsé Tung e Pol Pot, que são considerados heróis pela esquerda, embora tenham levado à morte mais de 100 milhões de pessoas em menos de um século. Essa era a religião de Hitler, que levou cerca de 50 milhões de pessoas à sepultura. Essa foi a religião do ditador King Jong, da Coréia do Norte, que é o país mais fechado do mundo. Essa é a religião de Fidel Castro, também um ditador. Essa foi a religião do famoso Che Guevara, que era um assassino frio. Essa foi a religião de Robespierre, talvez o primeiro homem a fazer discursos bem explícitos que legitimavam o assassinato de qualquer que parecesse ser contrário à revolução – foi sob seu comando que cerca de 50 mil pessoas foram mortas no chamado Período do Terror (1793-1794), a maioria inocente. E eu não comentei sobre as atrocidades que eram feitas com os vivos como estupros, esquartejamentos e torturas.

Com efeito, a religião política matou e oprimiu muito mais gente em um século do que a Igreja Católica em 1200 anos de supremacia. As tão difamadas “Cruzadas” e “Santa Inquisição” (que, eu concordo que não foram coisas boas), não mataram juntas nem 10% do que matou a religião política. As estimativas mais exageradas giram em torno de 800 mil a 2 milhões de mortes.

Neste ponto, o leitor já deve ter compreendido aonde eu quero chegar. Zeitgeist é um documentário altamente religioso. Só que político. A sua intenção é instigar o ódio à religião tradicional. Para seus produtores, a religião tradicional é uma pedra no sapato do mundo e eles, por sua vez, são os heróis da humanidade.

O religioso político acredita ter a missão de iluminar o mundo, de dizer a todos que a religião tradicional é uma farsa e que ela é a causa de todo o mal. O religioso político vê a si mesmo como um santo, que faz parte de um grande movimento que fará um paraíso na terra. Por esse motivo, qualquer coisa que fizer para alcançar esta meta, estará legitimada. Em um primeiro estágio, isso inclui mentir descaradamente. É o que o documentário Zeitgeist faz. Não importa que isso seja imoral. Os produtores acreditam veementemente que a religião tradicional é o mal do mundo. Então, qualquer mentira contra a religião é uma mentira santa.

É por causa de pessoas assim que ditaduras, opressão e genocídio se instauram no mundo moderno. Não que elas realmente queiram isso, mas em prol de um “bem maior”, as pessoas são levadas a apoiar qualquer atrocidade contra os inimigos. Quanto mais pessoas houver que estão convencidas de que o mal provém de um grupo e não da natureza humana, mais atrocidades poderão surgir daquele meio. E é assim que surgem oportunistas e pessoas que se corromperam ao ter o poder nas mãos. Ambas se utilizam da retórica da religião política para manter-se no poder e continuar com a opressão.

Zeitgeist constitui o primeiro estágio da mentalidade revolucionária no que diz respeito à luta contra a religião tradicional. Ele leva ateus, agnósticos, deístas, panteístas, umbandistas, candomblecistas e até alguns teístas a terem ódio da religião tradicional, vendo-a como opressora. O ódio é importante, porque ele é a antecâmara da agressão verbal e física. É o elemento justificador da atrocidade. E é só com sua evolução gradual que um governante consegue explorá-lo, a fim de perseguir determinado grupo.

O Projeto Vênus

Zeitgeist não faz um serviço incompleto para a religião política. Apenas apontar a religião tradicional como uma pedra no sapato do mundo seria muito pouco. Afinal, sabemos que nem todos os problemas do mundo são de ordem religiosa. Por isso, o documentário relaciona a religião tradicional aos grandes capitalistas. É a velha ladainha marxista de reduzir a religião a um produto fabricado pela classe opressora para oprimir e controlar os mais pobres.

No fundo, Zeitgeist é um filhote do marxismo. E como bons marxistas, os seus produtores também apresentam idéias para solucionar o problema do mundo. A solução seria algo como o Projeto Vênus, uma idéia apresentada no segundo filme, Zeitgeist: Addendum. Em suma, o Projeto Vênus é uma organização existente desde 1995, fundada por um designer e futurologista chamado Jacque Fresco. Seu objetivo é oferecer idéias de recriação da sociedade através de tecnologia, projetos sustentáveis e uma economia baseada em recursos.

Explicando melhor, para o Projeto Vênus, o que alimenta a ganância do homem e todos os problemas do mundo é a economia monetária (o dinheiro). E o dinheiro só existe porque os recursos (aquilo que as pessoas necessitam) têm sido limitados. Então, o plano seria explorar a tecnologia ao ponto de produzir recursos de sobra para todas as pessoas. Isso faria o dinheiro se tornar obsoleto, as pessoas teriam acesso a tudo o que necessitassem, não haveria mais motivo para roubar, matar, cometer crimes, enfim, todo o mal do mundo seria resolvido. Então, o estado seria abolido e viveríamos em um céu anarquista, bem ao estilo Jonh Lennon.

Mas como fazer isso? Como bons marxistas, os proponentes do Projeto Vênus se baseiam em profecias marxistas. Segundo eles, o capitalismo está cavando a sua própria sepultura. A crescente luta das indústrias por velocidade na produção está substituindo o homem pela máquina. Assim, o índice de desemprego crescerá vertiginosamente até que as pessoas não possam mais comprar os produtos fabricados por essas indústrias. Então, a economia monetária se tornará insustentável e mesmo os grandes empresários irão se sentir pressionados a aderir ao projeto.

Não precisa ser muito inteligente para ver que isso tudo é uma tremenda utopia tecnicista. Uma mistura de positivismo, de Comte (a religião da humanidade, como ele mesmo chamava a sua doutrina) e de marxismo ortodoxo. Na teoria é tudo muito bonito e desejável, mas na prática não dá para fazer. A verdade é que as coisas são assim:

1) O ser humano é ganancioso por natureza. É por isso que nenhum projeto de uma nova sociedade, remodelada, deu certo até hoje. É possível melhorar as coisas, por certo, e devemos perseguir isso. Mas não dá para fazer o céu na terra.

2) Não, o desemprego não vai subir a ponto de grandes empresários e governos aderirem a uma economia baseada em recursos. Primeiro porque existe um número bem grande de profissões que não podem ser substituídas por máquinas. Bombeiro, policial, médico, enfermeiro, anestesista, taxista, motorista de ônibus, atendente, padeiro, gerente de banco, gerente de loja, funcionário de loja, estilista, pedreiro, engenheiro, arquiteto, advogado, juiz, lixeiro, professor, diretor de colégio, segurança, esportista, feirante, empregada doméstica, o pessoal da manutenção das máquinas das grandes empresas e uma infinidade de outras profissões.

Segundo porque, ainda que o número de pessoas em cada uma dessas profissões se torne menor e o desemprego aumente muito, a ganância do homem não permitirá que se faça um projeto de salvação do mundo. Em vez disso, é mais provável que a crise cause a morte de muitas pessoas pobres e guerras. Isso não é conformismo meu, mas é uma observação baseada no que tem ocorrido no mundo desde sempre. Os homens não resolvem as coisas de maneira a beneficiar a todos. “Sad, but true”.

Fugir dessa realidade não é a melhor solução. Nada contra quem gosta de olhar o mundo como Polyana, a menina feliz. Mas o problema dessas utopias globais é que elas sempre terminam deixando a situação muito pior. É sempre assim: você leva milhões de indivíduos a crerem em uma utopia. Eles apoiam e até fazem todo o tipo de atrocidade e opressão em prol dela. No final, a utopia não se realiza (é óbvio) e o que resta, além da desilusão, é uma classe de novos opressores no poder que se utilizaram da ingenuidade alheia para criarem uma ditadura.

Foi assim com o Terror Jacobino (na França), com o comunismo (em todos os países que vigorou), com o progressismo dos democratas americanos (a quem se deve o Estado inchado e belicista, que detonou Hiroshima e Nagasaki), com o fascismo italiano e com o nazismo alemão.

Ok, sejamos honestos, o Projeto Vênus não incita a violência e nem pretende que um governo mude a história do mundo. Mas dificilmente uma utopia de reconstrução do mundo é deixada de lado quando se percebe que ela não dá certo. Em vez disso, o que se faz é reformular a utopia, procurar pontos que possam estar errados, criar vertentes ou reinterpretá-la à luz dos novos acontecimentos.

O ponto é: se aceitamos que dá para mudar o mundo e que o que nos impede é o capitalismo e a religião (como Zeitgeist quer nos fazer crer), cedo ou tarde, uma legião de esquerdistas anti-religiosos cheios de ódio irá tomar medidas mais drásticas. Afinal, o mundo não pode esperar a boa vontade dos burgueses e dos religiosos, não é? É essa mentalidade que gera as perseguições. Como o leitor acha que os nazistas conseguiram apoio dos alemães para perseguir os judeus? Começa-se explorando um preconceito e justificando-o como “a justiça contra os opressores”. No momento correto, alguém dá o ponta pé inicial na perseguição física.

O leitor acha que isso não é possível? Então, dê uma olhadinha nos comentários anti-religiosos que existem pela internet. Você irá se surpreender com a agressividade com que os religiosos políticos tratam os religiosos tradicionais. Com toda a certeza, se alguém colocasse um fuzil na mão de cada um deles, eles não hesitariam em exterminar “o mal que assola o mundo”. É por isso que documentários e livros como Zeitgeist, que mentem descaradamente contra religião tradicional e que tentam nos empurrar crenças humanistas irracionais devem ser considerados instigadores de genocídios.

O sistema que o próprio esquerdismo criou

O aspecto mais irônico que encontramos no esquerdismo (ou religião política, se preferir) é que grande parte das coisas contra as quais ele luta foi e continua sendo fruto do próprio esquerdismo. Por exemplo, quando um religioso político apóia um governo que dificulta a vida das empresas com altos impostos e muitas regulamentações, ele não se dá conta que está favorecendo a criação de hegemonias. Afinal, somente as grandes empresas sobrevivem a essas dificuldades.

E quando um religioso político apóia um governo interventor e cheio de funções e serviços, ele não se dá conta de que está criando fortes laços entre as mega empresas e o governo. Também não percebe que quanto mais dinheiro passar pelos cofres públicos, mais chance haverá de ocorrer má administração e corrupção. Também não percebe que quanto maior o setor público, pior tende a ser o serviço prestado.

O que o religioso político faz é apoiar todos os dias da sua vida um inchamento da máquina estatal doando-lhe, com um sorriso no rosto, mais impostos, mais serviços, mais funcionários, mais funções, mais áreas de atuação e mais poder. Isso me lembra a célebre frase do líder do fascismo italiano Benedetto Mussolini: “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”. Essa é a síntese do esquerdismo. Mesmo um cara como Karl Marx, que no fim das contas era um anarquista, não abria mão de um Estado inchado temporário, dono de todos os meios de produção (uma oportunidade de ouro para líderes como Lênin e Stálin se tornarem ditadores vitalícios).

O deus dos religiosos políticos é o ser humano. E a encarnação da vontade desse deus é o Estado. Não creio que o próprio governo americano tenha planejado o ataque às torres gêmeas ou que exista uma conspiração mundial organizada de banqueiros que intentam dominar o mundo. Entretanto, ainda que fosse, a religião política apenas tem facilitado isso. Empresários só têm poder se estiverem unidos ao governo. E o governo só tem poder se ele seguir uma linha interventora. E a linha interventora faz parte do DNA da religião política que, para alcançar as suas utopias ou após vê-las dando errado, acreditam que o caminho é intervir radicalmente por meio do Estado. E assim o Estado continua ganhando poder.

Religião Tradicional x Religião Política

Existe um ponto do documentário Zeitgeist que é típico de qualquer obra que aponta a religião tradicional como um mal: ele omite o fato de que o cristianismo é uma religião apolítica. “Como assim?”, o leitor pode estar perguntando. Vou explicar.

No mundo antigo, era comum que política e religião andassem juntas. Entretanto, conforme a visão bíblica cristã, esse nunca foi um objetivo de Deus. O judaísmo só teria sido uma teocracia por uma questão de necessidade: o judaísmo era a única religião monoteísta do mundo e a única que detinha em sua doutrina uma moral duradoura. Não fosse um governo teocrático, o judaísmo não teria chegado nem até os dias de Cristo. E assim não haveria cristianismo, nem monoteísmo e nem moral judaico-cristã hoje. Não teria havido nem a vinda de Jesus.

Em função da teocracia judaica, portanto, o judaísmo pode ser conservado até Jesus vir (e até hoje, inclusive) e tal teocracia se tornou obsoleta. Jesus, então, fundou um novo contexto. A partir de sua vinda, a religião passou a ser uma questão pessoal e não mais estatal. Em outras palavras, a vinda de Jesus e a forma como ele criou um movimento de pessoas que viajavam espalhando o evangelho, possibilitou a cisão entre a religião do Deus judaico-cristão e a política.

Qualquer que leia o Novo Testamento compreende isso. Jesus diz: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:25). Diz também: “O meu reino não é desse mundo” (João 18:36). O apóstolo Paulo diz: “Foquem mais nas coisas lá do alto e não nas que são daqui da terra” (Colossenses 3:2).

O Novo Testamento deixa claro (claríssimo) que o cristianismo não era para ser uma instituição estatal, mas sim uma filosofia de vida pessoal. Não significa dizer que o cristão não pode ter participação política. Mas ele deve fazê-lo como um cidadão. Sua opção pelo cristianismo nada deve ter a ver com a política, assim como sua opção de se casar ou não, de ter filhos ou não, de fazer faculdade ou não. São questões pessoais e que não interessam à política.

Bem, é interessante ressaltar que foi exatamente dessa maneira que os cristãos trataram sua opção pelo cristianismo de 37 d.C. até 321 d.C.: como uma questão pessoal e não estatal. À bem da verdade foi o governo romano que agiu durante todo esse tempo de modo como se o cristianismo fosse assunto de Estado. Isso explica as perseguições e, posteriormente, a observação de seria interessante acoplar o cristianismo ao governo.

Aonde quero chegar com tudo isso? É simples. A qualquer cristão que realmente siga a Bíblia, é fácil entender que religião e política são duas coisas diferentes há mais de dois mil anos. Em outras palavras, não é da Bíblia que governantes tiram a idéia de criar uma ditadura cristã. Mas, então, como explicar o domínio político do catolicismo durante mais de 12 séculos da história? Como explicar o apoio de padres e intelectuais da idade média a essa mixagem entre política e religião? Eu explico: deram um gelo na Bíblia. Fizeram o que a Bíblia diz para não fazer. Por isso deu merda.

Felizmente, o problema foi resolvido. Os iluministas foram lá, meteram o malho na Igreja, “criaram” o conceito de Estado Laico (que Jesus já tinha inventado, diga-se de passagem), o conceito se desenvolveu, se espalhou e, hoje, grande parte dos países do mundo são laicos (muitos países islâmicos ainda não aderiram ao conceito, contudo, por algum motivo os esquerdistas não criticam muito os islâmicos). A Igreja Católica não domina mais. Não há mais inquisição, nem cruzadas, qualquer imbecil pode blasfemar contra Deus e só dá dinheiro para pastor ladrão quem quer dar. Ou seja, o mandamento de Jesus sobre o laicismo está sendo cumprido, enfim.

Isso mostra que, ao contrário do que o esquerdismo diz, o problema não está em existir cristãos, mas sim em existir cristãos que não seguem o cristianismo da maneira como ele realmente é. Se os cristãos da época de Constantino tivessem boicotado essa mistureba entre religião e Estado que o imperador estava propondo, por certo a história da igreja teria sido bem diferente. Seja como for, deve-se isentar o cristianismo e culpar o deturpação da doutrina cristã pela opressão que se seguiu na idade média.

Mas e a religião política? Bem, essa aí, ao contrário do cristianismo, não precisa ser distorcida para fazer um monte de merda no mundo. Ela só necessita ser seguida de maneira fiel e fundamentalista. Porque a religião política diz: “Semeie o ódio a algum grupo de pessoas (burgueses, religiosos, conservadores, cristãos, judeus e etc.)”, “Tente se sentir o salvador do mundo”, “Aumente o Estado”, “Dê mais poder aos políticos”, “Dê-lhes mais impostos”. É claro que isso não pode levar a um bom lugar.

Não importa o quão bem intencionado um religioso político pode ser. Tais idéias não dão certo. Nunca darão. São idéias feitas para falharem. E é somente sendo fanático e fundamentalista para não enxergar isso. Há dois vídeos muito bons que nos ajudam a entender o que estou dizendo. Um deles é de um anime (desenho animado japonês) que gosto muito, chamado Death Note (Caderno da Morte). O outro é do filósofo Olavo de Carvalho. Vejam os vídeos e farei alguns comentários.
            

O primeiro vídeo é um trailler do Death Note. Como o leitor pode ver, o anime conta a história de um jovem inteligente do ensino médio de nome Yagami Laito, que encontra um caderno mágico no chão. Esse caderno tem o poder de matar qualquer pessoa que o portador do mesmo escrever o nome e tiver em sua mente o rosto de sua vítima. A pessoa morre no lugar, no horário e da forma como o portador do caderno da morte escreve. Se apenas escrever o nome, a pessoa morre de ataque cardíaco.

Yagami, que era um jovem desiludido com os problemas sociais do mundo e as injustiças, fica fascinado com a idéia de poder matar quem quiser apenas tendo o nome e a imagem do rosto. Ele poderia matar todos os criminosos e fazer um mundo perfeito através daquele caderno. É o que ele começa a fazer e isso atrai a atenção da polícia. É aí que começa a saga de Yagami matando friamente criminosos e qualquer pessoa que se colocava em seu caminho (e tentando esconder sua identidade).

Nas palavras de “L”, o brilhante detetive que investiga o caso: "(...) sua justiça está mal guiada, pois agindo como Deus, ele mesmo se tornou o criminoso". Eu acrescentaria: frio, autoritário e incapaz de ver a si mesmo como mera criatura e pecador também (para usar a terminologia da religião tradicional).

O segundo vídeo é uma excelente palestra de Olavo de Carvalho que mostra que não é necessário ter má intenção para fazer um estrago terrível. Tudo isso nos coloca a pensar sobre a diferença entre a religião tradicional e a religião política. A tradicional pode, eventualmente, ser deturpada. Não por uma falha sua, mas pela própria condição pecaminosa do ser humano. Mas a religião política leva invariavelmente para o mesmo caminho de opressão e genocídio. E Zeitgeist é um documentário feito para disseminar a religião política.

Considerações Finais

Sem dúvida uma das partes mais irônicas e cômicas do documentário Zeitgeist é o trecho em que o locutor diz o seguinte:

Foi sempre o poder político que tentou monopolizar a figura de Jesus para controle social. Em 325 d.C., em Roma, o imperador Constantino reuniu o ‘Concílio Ecumênico de Nicéia’. E foi durante esta reunião que as doutrinas políticas com motivação cristã foram estabelecidas. E assim começou uma longa história de derramamento de sangue e fraude espiritual.

E nos 1600 anos que se seguiram, o Vaticano dominou politicamente com mão de ferro toda a Europa, conduzindo-a a um período conhecido como a ‘idade das trevas’, paralela a eventos ‘esclarecedores’ como as cruzadas e a santa inquisição.

O Cristianismo, bem como todas as crenças teístas, são a fraude desta era. Serviu para afastar o ser humano do seu meio natural, e da mesma maneira, uns dos outros. Sustenta a submissão cega do ser humano à autoridade. Reduz a responsabilidade humana sob a premissa de que ‘Deus’ controla tudo e que por sua vez os crimes mais terríveis podem ser justificados em nome da perseguição divina. E o mais importante, dá o poder àqueles que sabem a verdade e usam o mito para manipular e controlar sociedades. 
O mito religioso é o mais poderoso dispositivo jamais criado e serve como base psicológica para que outros mitos possam florescer.
Enquanto o locutor diz a última frase, ainda aparece na tela a seguinte frase: “A religião não pode transformar a sociedade, porque a religião é escravidão”. É irresistível querer parodiar todo o trecho, voltando a crítica para o esquerdismo, a religião política. O trecho ficaria assim:
Foi sempre o poder político que tentou monopolizar a idéia de fazer um paraíso na terra para controle social. Em 1793, na França, o partido jacobino deu um golpe na assembléia legislativa e tomou o poder. E foi durante esse período que o radicalismo político com motivação humanista foi ratificado. E assim começou uma longa história de derramamento de sangue e fraude intelectual.

E nos 200 anos que se seguiram, as ideologias esquerdistas começaram a lançar raízes em toda a Europa, conduzindo-a a um período conhecido como o ‘século mais sangrento da história’, paralelo a eventos ‘esclarecedores’ como a Revolução Cultural de Mao e o Genocídio no Camboja.

O marxismo, bem como todas as crenças humanistas, são a fraude desta era. Serviu para enganar o ser humano sobre sua situação natural, e da mesma maneira, instigar o ódio de um grupo pelo outro. Sustenta a submissão cega do ser humano à autoridade. Reduz a responsabilidade humana sob a premissa de que o ser humano tem capacidade de fazer o paraíso na terra e que por sua vez os crimes mais terríveis podem ser justificados em nome da perseguição humanista aos responsáveis pelo mal no mundo. E o mais importante, dá o poder àqueles que sabem a verdade e usam o mito para manipular e controlar sociedades.

O mito da religião política é o mais poderoso dispositivo jamais criado e serve como base psicológica para que outros mitos possam florescer”.
Como cobertura do maravilhoso bolo, a frase de fundo usada por Zeitgeist não pode faltar nessa paródia: “A religião política não pode transformar o mundo, porque a religião política é uma utopia”.

Não é bom ser redundante, mas gostaria de terminar a postagem com um vídeo que usei na postagem: “A crença no homem: uma análise crítica”. É um vídeo de Olavo de Carvalho também e que mostra bem a periculosidade dos projetos mirabolantes da esquerda política. Bem, o documentário Zeitgeist está destrinchado.
           
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Bibliografia:
1. Curtois, Stéphane e outros autores. O Livro Negro do Comunismo. Bertrand Brasil, 1999.
2. Chang, Jung e Halliday, Jon. Mao: A história desconhecida. Companhia das Letras, 2006.
3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.
4. Gray, John. Cachorros de Palha. Editora Record, 2005.
5. Gray, John. A Missa Negra. Editora Record, 2009.
6. Johnson, Paul. Tempos Modernos (O Mundo dos anos 20 aos 80). Editora Bibliex.
7. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.
8. Overy, Richard. Os Ditadores - A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. José Olympio, 2009.
9.  Gellately, Robert. Lênin, Stálin e Hitler: A Era da Catástrofe Social. Editora Record, 2010.
10.  Carvalho, Olavo de. A Mentalidade Revolucionária. Diário do Comércio (Editorial), 2007.
11. Carvalho, Olavo de. Ainda a Mentalidade Revolucionária. Diário do Comércio (Editorial), 2007.
12.  Kekes, John. Por que Robespierre escolheu o Terror? Front Page Magazini (traduzido por Jorge Nobre do blog da Juventude Conservadora da UNB).
13.  Block, Walter. Religião e Libertarianismo. Lew Rock Well, 2008 (traduzido por Renan Felipe do site Direitas Já).
14. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Destrinchando Zeitgeist – Parte 4: Truques Psicológicos

Um comentário:
No final da última postagem da série, eu falei que iria fazer um texto abordando os truques psicológicos utilizados pelo documentário por Zeitgeist para engambelar o espectador. Um truque psicológico é uma forma de enganar um indivíduo através do efeito psicológico que determinada alegação causa, não importando se ela é verdadeira ou se ela é falsa. Em outras palavras, é fazer alguém crer meramente pela emoção.

O documentário Zeitgeist é craque em fazer isso. Cada frase, cada palavra, cada imagem foi calculadamente escolhida para gerar um efeito psicológico que pudesse ser mais eficaz que o argumento (lógico, afinal o documentário não tem qualidade alguma em seus argumentos).

Nesta postagem, vamos dar uma olhadinha em alguns desses truques e mostrar ao leitor que o sucesso do documentário se deve aos ótimos truques psicológicos que seus produtores utilizaram.

Nas paredes de Luxor

Quem assistiu o documentário, deve se lembrar que em determinado momento se faz menção a uma imagem egípcia antiga que se encontra nas paredes do templo de Luxor. Neste trecho, o narrador afirma que essas imagens retratam a imaculada concepção de Hórus e a sua adoração. Então, a tela foca nos detalhes de cada quadro da imagem e o narrador continua afirmando: “As imagens começam com o anuncio à virgem Isis de que ela iria gerar Hórus, que Nef, o Espírito Santo, irá engravidar a virgem e depois o parto e a adoração”. Clique em cada quadro para ver melhor.





São desenhos, não é mesmo? Agora, eu pergunto: o leitor está conseguindo ver a virgindade da deusa Isis no desenho? Está conseguindo ver o Espírito Santo? Dá para saber se o homem que conversa com ela está anunciando o nascimento de Hórus? Claro que não o leitor não pode ver. São desenhos. E nem adianta vir com o argumento de que existem escritos que afirmam isso. É mentira. Já analisamos isso na primeira postagem.

Mas mostrar o desenho gera um efeito psicológico conveniente no espectador, pois dá a impressão de que uma ampla pesquisa foi feita, os produtores chegaram a ir lá no Egito e tiveram acesso à fontes primárias. O desenho é como serve como se fosse a prova concreta. “Está aqui. Você pode ver as imagens da virgem”. E um bando de bocó acredita. “É mesmo. Olha a imagem da virgem ali”.

As Eras de Touro, Áries e Peixes

Em outro trecho, ao argumentar que a Bíblia é um livro astrológico, Zeitgeist afirma que Jesus teria fundado a Era de Peixes. A prova seria o símbolo do cristianismo, que desde o início sempre foi um peixe. O documentário só “esquece” de dizer que o peixe foi escolhido porque no grego, ICHTHUS (peixe), serve para formar o acrônimo Insous, Christos, Theos, Uios e Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).

O documentário afirma também que as eras do zodíaco duram 2150 anos e que Moisés teria sido o fundador da era de Áries que durou até Jesus nascer. A prova de que Moisés representava a era de Áries, segundo o documentário, é o fato de que ele ficou irritado quando o povo fez um bezerro de ouro para adorar (estavam retornando a era antiga).

Não obstante, a Bíblia deixa claro que Moisés se irritou porque tal atitude era um pecado terrível contra Deus. E, além disso, de Moisés até Jesus se passaram cerca de 1500 anos e não 2150 anos. É uma diferença um tanto grande, não? Mas quem se importa com isso? O efeito psicológico causado por essas alegações é suficiente para fazer o espectador crer. Porque ele vai pensar: “É mesmo, o símbolo do cristianismo é o peixe. É mesmo, Moisés se irritou com a adoração ao bezerro. Jesus e Moisés devem ser fundadores das eras de Áries e Peixes mesmo”.

As afirmações de Justino Mártir

O documentário mostra duas citações de Justino Mártir, um apologista cristão que viveu no segundo século. As citações foram retiradas de seu livro I Apologia. Elas são as seguintes:
Quando nós [cristãos] dizemos que o Logos, primeiro rebento de Deus, isto é, Jesus Cristo, nosso mestre, foi produzido sem união sexual, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus, não apresentamos nada de novo se levarmos em conta o que vocês chamam de filhos de Zeus [Júpiter] (I Apologia 21:1).
Nós anunciamos que ele nasceu de uma virgem, mas isso para vocês pode ser semelhante a Perseu” (I Apologia 22:5).
Essas afirmações, tal como foram postas no documentário, geram um tremendo efeito psicológico no espectador. Elas realmente parecem confirmar tudo o que fora dito por Zeitgeist desde o início. E quem é que vai se dar ao trabalho de ir até I Apologia, ver o contexto das frases e estudar sobre Perseu e os filhos de Zeus, a fim de entender melhor as afirmações de Justino?

Bem, eu me dei a esse trabalho e, a começar pelo contexto, já fica claro que as semelhanças existentes entre alguns deuses romanos e Jesus Cristo são muito gerais. Por exemplo, em 21:2 ele afirma:
De fato, vocês sabem bem a quantidade de filhos que seus estimados escritores atribuem a Zeus: Hermes, o Verbo intérprete e mestre de todos; Asclépio, que foi médico e que, depois de ter sido fulminado, subiu ao céu; Dionísio, depois que foi esquartejado; Herácles, depois de se atirar ao fogo para fugir dos trabalhos (...).
Perceba que Justino descreve como foram as sofridas mortes de alguns filhos de Zeus. Note que não há nenhuma crucificação e nenhum sacrifício em benefício do ser humano. Então, mais à diante, em 22:3-4, Justino afirma: 

Se nos lançam em rosto que ele [Cristo] foi crucificado, também isso é comum com os antes citados filhos de Zeus, que vocês admitem terem sofrido. Com efeito, conta-se que eles não sofreram um mesmo gênero de morte (...).
Como podemos ver, a semelhança, no que tange à morte, está apenas no fato de todos terem sofrido e não no tipo de morte e suas causas. Quando Justino diz: “Isso é comum com os antes citados filhos de Zeus”, não está falando da morte por crucificação ou da morte em prol do ser humano, mas apenas do sofrimento. Convenhamos que se trata de uma semelhança muito geral. Não dá para alguém provar um plágio utilizando o fato de que tanto Jesus como outros deuses sofreram ao morrer. O sofrimento na morte é algo comum demais para que seja usado como comparação.

No capítulo 33, existe mais uma prova de que as semelhanças são gerais demais para provar plágio. Falando sobre a profecia de Isaías sobre a concepção imaculada de Jesus, Justino diz:
Escutem agora como foi literalmente profetizado por Isaías que Cristo seria concebido por uma virgem. Ele diz o seguinte: ‘Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe porão o nome Deus conosco [Emanuel]’ (Isaías 7:14).
O que os homens poderiam considerar incrível e impossível de ocorrer, Deus indicou antecipadamente por meio do Espírito profético, para que quando ocorresse, não negassem a fé, mas sim, justamente por ter sido predito, cressem.
Esclareçamos agora as palavras da profecia para que, por não entendê-la, façam a mesma crítica que nós fazemos quando seus poetas nos falam de Zeus: a crítica de que Zeus, para satisfazer sua paixão libidinosa, uniu-se com diversas mulheres. ‘Eis que uma virgem conceberá’, significa que a concepção seria sem relação carnal, pois, se esta houvesse, ela não mais seria virgem; mas foi a força de Deus que veio sobre a virgem e a cobriu com a sua sombra e fez com que ela concebesse permanecendo virgem (I Apologia 33:1-5).
O que eu acho mais interessante nesse texto é que Justino vê a necessidade de explicar que “concepção virginal” não era um relacionamento sexual entre um deus e uma mulher, tal como na mitologia ocorreu entre Zeus e diversas mulheres. Ou seja, Justino sabia que essa confusão existia. Era por isso que alguns romanos alegavam que Jesus era semelhante a alguns semideuses. Afinal, semideuses resultavam da união entre deuses e humanos, e a concepção de Jesus por Maria era visto por alguns, exatamente, como uma união entre Deus e Maria.


Aliás, é com base nesse raciocínio, que o documentário chama de virgens muitas mulheres que tiveram relações sexuais com deuses. Mas, desfeita essa confusão, vemos que não há semelhança alguma entre o nascimento de Jesus e o desses seres míticos.

Outro interessante trecho de I Apologia complementa nossa análise. Ele diz o seguinte:
(...) em nenhum lugar e em nenhum dos supostos filhos de Zeus, [os demônios] imitaram a crucifixão, por não tê-la entendido, pois, conforme dissemos antes, tudo o que se refere à cruz foi dito de forma simbólica (I Apologia 55:1).
A questão toda é simples de entender. Justino Mártir, com toda sua boa vontade, queria mostrar aos romanos que qualquer possível pequena semelhança entre os deuses romanos e Jesus, poderia ser explicada em função da ação de demônios. O argumento de Justino era que os demônios, ao longo dos tempos, quando ouviam profecias sobre a vinda de Cristo, tentavam criar mitos que contivessem as características das profecias, para enganar as pessoas. Como profecias são sempre complexas de se interpretar, isso explicaria o fato das semelhanças não serem tão grandes.

O raciocínio de Justino é chacoteado pelo documentário, mas se pensarmos bem, ele não é implausível. Se, de fato, existem demônios que odeiam tudo o que é de Deus e que tem poder de se transformar até em anjos de luz (conforme a Bíblia), por que eles não tentariam fazer exatamente o que Justino raciocinou? Se você, amigo leitor, fosse um demônio, não tentaria se aproveitar das profecias para criar mitos que depois iriam confundir a cabeça das pessoas?

No entanto, acredito que Justino acabou sendo muito ingênuo. As semelhanças alegadas são demasiadamente gerais para provar plágio. Era nessa tecla que ele deveria ter batido. O nascimento dos deuses e semideuses não foi virginal; sua morte não foi por crucificação (o texto que acabamos de ler deixa isso claro) e nem foi em benefício da humanidade. 

Com relação à ressurreição e ascensão aos céus, ainda outro texto de I Apologia nos é muito útil para essa discussão. Justino afirma:
Para quem reflete, o que pareceria mais incrível do que se, estando fora do nosso corpo, alguém dissesse que de uma pequena gota do sêmen humano seria possível nascer ossos, tendões e carnes com a forma em que os vemos, e víssemos isso em imagem? Façamos uma suposição. Se vocês não fossem como são agora, nem nascidos de tais pais [e causas] e alguém lhes mostrasse uma semente humana e a figura de um homem, e dissesse com confiança que, de uma substância como aquela, tal homem pudesse ser produzido, você acreditaria antes de ver o produto real? Ninguém ousará negar [que essa alegação está além da crença]. Do mesmo modo, então, agora vocês são incrédulos porque nunca viram um morto ressuscitar. 
Mas assim como num primeiro momento vocês não acreditariam que de uma pequena gota nasceriam tais seres e, no entanto, os vêem nascidos agora, assim também considerem que não é impossível que os corpos humanos, depois de dissolvidos e espalhados como sementes na terra, ressuscitem a seu tempo, por ordem de Deus e se revistam da incorruptibilidade (I Apologia 19:1-4).
Veja que Justino faz uma belíssima argumentação a respeito da ressurreição. Tal argumentação é feita por Justino porque ele sabia que os romanos não acreditavam na ressurreição corporal. Sendo assim, quando Justino diz que Jesus ter ressuscitado é algo em comum com os filhos de Zeus, ele está usando a palavra ressurreição com o sentido de “continuar vivendo depois da morte”. Nenhum filho de Zeus ressuscitou como Jesus, tornando ao seu antigo corpo e ao seu antigo mundo. Justino se utiliza desse sentido simplesmente porque citava as semelhanças gerais que os romanos alegavam.

Aqui temos um gancho para a questão da ascensão aos céus. É comum a quase todas as religiões que Deus ou os deuses vivam no céu e que os que morrem vão para o céu ou para o inferno. Os filhos de Zeus, por serem seus filhos, logicamente iriam para o céu após a morte. Ou melhor, suas almas iriam para lá. O corpo estava morto. Então, a ascensão também não passa de uma semelhança geral demais para ser considerada uma prova de plágio.

Um questionamento pode aparecer aqui: “E por que existem idéias básicas que são compartilhadas pela maioria das religiões?”. É simples. Isso é uma evidência de que todas elas descendem de uma só crença que existiu bem no início da humanidade. Seja lá qual é a religião correta atualmente, sabemos que todas as religiões são descendentes dessa crença original. As semelhanças básicas, portanto, seriam traços remanescentes de uma crença inicial que foi sendo adulterada e fragmentada, que foi criando vertentes e misturando essas vertentes. As diferenças cresceram, mas elementos básicos continuam e são a prova de que todas as religiões bebem em uma mesma fonte.

Bem, por fim, podemos dizer que a primeira afirmação de Justino mostrada por Zeitgeist está analisada. Vou repeti-la aqui, apenas para resumir a análise. 
Quando nós [cristãos] dizemos que o Logos, primeiro rebento de Deus, isto é, Jesus Cristo, nosso mestre, foi produzido sem união sexual, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus, não apresentamos nada de novo se levarmos em conta o que vocês chamam de filhos de Zeus [Júpiter] (I Apologia 21:1).
A parte em negrito foi o que analisamos. São quatro alegadas semelhanças entre Jesus e os filhos de Zeus. A primeira não existe, sendo apenas uma interpretação errada feita pelos romanos a respeito do que seria “concepção virginal”. As outras três são comparações sem importância, pois se baseiam em semelhanças demasiadamente gerais para que se alegue plágio.


Agora, vamos analisar a segunda afirmação de Justino. Essa é bem mais fácil, já que só precisamos dar uma olhadinha na história de Perseu. Segundo a mitologia, este personagem era filho de Zeus com a humana Danae. Sua concepção ocorreu da seguinte forma: o rei Acrísio, pai de Danae, fora informado por seu oráculo que um dia seu neto o mataria. Temendo a morte, Acrísio aprisionou sua filha para que não tivesse relações sexuais com nenhum homem.

Entretanto, Zeus sentia desejo sexual pela filha do rei. Por isso, ele se disfarçou de chuva de ouro, entrou na prisão e teve relações com Danae. A história não deixa claro se Zeus teve tais relações em forma de chuva de ouro ou se, uma vez dentro da prisão, se transformou novamente no que era para se deitar com a moça. Seja como for, houve uma união sexual e o resultado da união foi o nascimento de Perseu.

Acho que o leitor já entendeu tudo. O que temos aqui, mais uma vez, é aquela confusão que os romanos faziam entre concepção virginal e concepção através de sexo entre um deus e um humano. Perseu não era filho de uma virgem. Ele era filho de uma mulher que teve relações sexuais com um deus. É uma senhora diferença. Vamos expor o texto mais uma vez.
Nós anunciamos que ele nasceu de uma virgem, mas isso para vocês pode ser semelhante a Perseu (I Apologia 22:5).
Note a ênfase no “para vocês”. Justino não está dizendo que ele realmente acha que é semelhante. Ele apenas está citando uma alegação dos romanos. Em suma, Justino Mártir faz um bom trabalho em seu livro, mas peca em não bater mais forte e de forma clara na questão das semelhanças serem gerais demais (ou mesmo falsas) para servirem como prova do cristianismo ser um plágio.


Agora, veja o tempo que levei para mostrar tudo isso ao leitor. Veja como que tudo isso depende de bastante estudo e atenção. Quem é que vai se preocupar em fazer isso? A idéia é sempre a seguinte: “Se o documentário está citando as fontes, não pode ser mentira. Logo, eu não preciso pesquisar nada”.

Muitos outros truques psicológicos poderiam ser mostrados aqui. O sucesso que o documentário teve entre os internautas se deve inteiramente a esses truques. Eles são o elemento mágico que permite esconder a má qualidade dos argumentos e fazer com que o espectador acredite que os produtores do documentário são os paladinos da verdade, homens estudiosos e honestos, que não tem compromisso com nenhuma crença que não tenha fundamento racional, mas apenas com a verdade.

Não obstante, o que mostrei aqui já é o suficiente. Na próxima postagem, que é a última da série, iremos refutar justamente essa imagem de “dono da razão” que aqueles que produziram Zeitgeist tentaram formar para si. Ficará claro que há um conjunto de crenças extremamente irracionais, idiotas e, sobretudo, perigosas, que os produtores do documentário carregam e que fazem um esforço incrível para incutir na cabeça do pobre espectador. Sim, a próxima postagem não será uma defesa contra os pífios argumentos de Zeitgeist, mas um ataque contra suas crenças infantis.
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*Observação: Os textos utilizados nessa postagem tiveram sua linguagem atualizada, a fim de que o conteúdo se tornasse mais claro para o leitor. Entretanto, o conteúdo dos textos permanece exatamente o mesmo, conforme o leitor poderá conferir em qualquer Bíblia e em qualquer versão do livro I Apologia, de Justino Mártir. 
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Bibliografia:
1. Mártir, Justino. I Apologia. Presente neste link:
2. [Site com a história de Perseu]. Presente no link:

domingo, 6 de janeiro de 2013

Destrinchando Zeitgeist – Parte 3: O Jesus Histórico

6 comentários:
Existem pessoas que se acostumaram tanto a mentir sobre um determinado tema que já o fazem sem perceber. Esse é o maior estágio que um mentiroso pode alcançar, já que a partir daí, ele passa a acreditar nas próprias mentiras que conta, e seu cérebro perde a capacidade de entender as coisas da maneira como realmente são.

As duas primeiras postagens da nossa série deixam claro que os produtores do documentário Zeitgeist estão bem próximos desse estágio. Eles não têm vergonha de veicular um filme repleto de distorções, omissões propositais, comparações forçadas e mentiras. Tudo para convencer seu expectador a aceitar as suas crenças humanistas (das quais falarei na última postagem da série).

Na postagem de hoje, quero abordar as alegações de Zeitgeist referentes ao que os estudiosos chamam de “Jesus histórico”. Jesus foi um personagem histórico? Dá para se afirmar isso através dos documentos antigos que falam sobre ele? O cristianismo é uma religião de fatos ou foi criada por Roma para manipular as pessoas? É o que nós vamos ver agora.

“Jesus não é um personagem histórico”

Eu quase caí da cadeira quando vi que o documentário faria essa alegação. Por quê? Porque sou um religioso fanático que não pode ouvir uma crítica acadêmica séria a sua religião? Não, não. Eu quase caí da cadeira porque a alegação de que Jesus não é um personagem histórico é uma das alegações mais imbecis, do ponto de vista histórico, que alguém poderia fazer. Vou lhes contar a história dessa alegação.

Com a chegada do iluminismo e aquele boom de pensadores céticos à religião tradicional surgindo em toda Europa, tornou-se conveniente postular que Jesus não fez nada de sobrenatural. Então, uma leva de escritores começou a pensar na hipótese de que Jesus fora apenas um mito. O problema é que, com o passar do tempo, acadêmicos perceberam que os documentos que afirmam a existência de Jesus satisfazem todos os critérios utilizados por historiadores para averiguar se um fato é histórico ou não. E por isso a maioria dos historiadores e teólogos não cristãos, desde o início do século XX, não levam a sério essa hipótese.

Eu falei sobre esses critérios na postagem “Argumento da Ressurreição”. São 10 critérios: Contexto Histórico, Multiplicidade, Antiguidade, Constrangimento, Ausência de Benefícios (e/ou presença de malefícios), Dissimilaridade, Concordância, Citação Próxima, Comprovação Inimiga e Citação de Testemunhas. Ora, tanto os documentos cristãos como os não-cristãos satisfazem esses critérios (se o leitor duvida disso, leia a postagem que citei acima). Mas vamos falar dos documentos não-cristãos.

Zeitgeist cita quatro historiadores que mencionam Jesus em seus escritos. O judeu Flávio Josefo (37 d.C – 100 d.C) e os romanos Cornélio Tácito (55 d.C – 120 d.C), Caio Plínio II (61 d.C – 114 d.C) e Suetônio (69 d.C – 141 d.C). Sobre o primeiro, Fávio Josefo, o documentário afirma que suas menções a Jesus foram provadas como sendo falsificações. Sobre os três últimos, afirma-se que eles mencionaram “Cristo”, que não é um nome, mas um título (podendo ser qualquer um, então).

Agora, vamos às picaretagens. Em primeiro lugar, as menções de Flávio Josefo a Jesus não foram provadas como falsificações. Há uma distorção aqui. O que realmente ocorre é que há um consenso entre os acadêmicos de que algumas versões (cópias) dos escritos de Josefo que chegaram até nós, sofreram interpolações em uma das menções a Jesus. Ou seja, não é o texto todo que foi falsificado. São trechos de um texto que foram adulterados em algumas versões. Isso é muito diferente de afirmar que o texto inteiro que menciona Jesus é uma falsificação.

O texto de Josefo, ou melhor, os dois textos de Josefo que mencionam Jesus tem aceitação acadêmica. Nenhum acadêmico sério tem dúvidas de que realmente Josefo fez duas menções a Jesus em seus escritos. Os estudiosos mais céticos apenas apontam que existem versões com interpolações e procuram usar versões que consideram puras.

As versões que apresentam interpolações são aquelas em que Josefo cita Jesus de um jeito como se acreditasse mesmo que Jesus fosse o Messias. Só que Josefo não era cristão e sim um fervoroso judeu. Então, provavelmente essas versões são reflexo de uma interpolação de algum cristão fanático que queria fazer as pessoas acreditarem que o famoso historiador judeu achava que Jesus era o Messias.

Já as versões consideradas puras, apresentam uma descrição mais seca e cética por parte de Josefo (o que se esperaria de um não-cristão). Todas essas versões, contudo, conservam praticamente o mesmo texto. São apenas algumas palavras que mudam de versão para versão. Então, o texto que o documentário alega ser falso, na verdade, não é falso coisíssima nenhuma. Afora isso, como falei, Josefo faz duas citações a Jesus e não apenas uma. O documentário omite essa informação.

A segunda picaretagem é o “argumento” de que os outros autores não citam o nome Jesus, mas sim o termo “Cristo”, que não é nome de pessoa, mas um título. A ideia é induzir o espectador a acreditar que os autores podem estar falando de qualquer pessoa. Veja que argumento horroroso! Quer dizer que se eu afirmo que um jogador de futebol chamado “Alemão”, jogou pela seleção brasileira de futebol em 1986, mas não cito o seu nome verdadeiro (Ricardo Rogério de Brito), então quer dizer que posso estar falando de qualquer pessoa?

Ora, é claro que isso é um argumento falacioso. Você pode não citar o nome de uma pessoa, mas se você dá características da pessoa ou do que ela fez ou mesmo liga essa pessoa a algum evento conhecido em que consta seu nome, é fácil saber de quem se trata. No caso do jogador “Alemão”, eu sei de qual Alemão se trata, mesmo existindo outros com esse mesmo apelido. Afinal, eu sei que em 1986 existiu alguém chamado Alemão que jogou na seleção brasileira.

Com Jesus Cristo é a mesma coisa. Os cristãos reconheciam Jesus como sendo o Cristo (Messias – Ungido) esperado pelos judeus. Por isso, Cristo passou a ser um dos nomes pelos quais Jesus era chamado. Pode reparar que na Bíblia o nome Cristo quase sempre aparece junto ao nome Jesus. Então, quando Tácito, Suetônio e Plínio falam de Cristo e dizem que ele que iniciou o movimento cristão e dão características do mesmo Jesus descrito no Novo Testamento, é óbvio que eles estão falando da mesma pessoa.

É bem chato ser repetitivo. Já expus as citações desses historiadores na primeira postagem da série “Afinal, quem foi Jesus?”. Então, se quiser lê-las, clique no link e leia lá. O leitor verá que com as menções desses quatro historiadores e mais outras como a de Mara-Bar Serapion, Luciano de Samósata e dos Talmudes Judaicos (todos, escritos não-cristãos) é possível montar a história básica de Jesus que nós já conhecemos nos evangelhos e nos demais escritos cristãos do primeiro século.

“Jesus foi inventado por Roma para manipulação política”

Os produtores de Zeitgeist, que devem ser analfabetos funcionais, simplesmente jogam quatro séculos de história no lixo quando afirmam uma coisa dessas. A primeira coisa que devemos lembrar aqui é que o cristianismo não surgiu quando Constantino se converteu, no início do século IV, mas já existia desde o início do século I, quando Jesus foi condenado à cruz. Dessa época até a conversão de Constantino, o cristianismo foi implacavelmente hostilizado por quase todos os romanos. Será que os produtores do documentário não sabem disso?

Os romanos (e isso inclui os governantes) achavam o cristianismo uma religião odiosa. É simples entender o motivo: tudo o que os romanos acreditavam, os cristãos condenavam. Tudo o que os cristãos acreditavam, os romanos condenavam. Vamos ver algumas coisas.

Os romanos acreditavam em vários deuses. Os cristãos pregavam a existência de um só. Os romanos acreditavam em reencarnação. Os cristãos pregavam que o homem só vive uma vida. Os romanos achavam ridícula a ideia de que pudesse haver uma ressurreição corporal. Os cristãos pregavam que Jesus havia ressuscitado corporalmente e que no juízo final haveria uma ressurreição geral. Os romanos acreditavam em deuses que permitiam uma vida devassa e sem muitas regras morais. Os cristãos pregavam que as pessoas deveriam viver uma vida santa. Os romanos (e todos os povos) achavam que a cruz era uma condenação vergonhosa. Os cristãos falavam sobre um líder que morreu numa cruz. Os romanos não conseguiam conceber a ideia de um Deus que se humilhou e que morreu. Os cristãos faziam disso a tônica da pregação cristã. Os romanos (e outros povos) costumavam misturar crenças diversas. Os cristãos afirmavam que só a crença em Jesus era a correta.

Como podemos ver, havia motivos de sobra para que os romanos não tivessem simpatia pelos cristãos. Some esses motivos ao fato de que os romanos não eram muito simpáticos aos judeus e o cristianismo era um movimento surgido dos judeus. E vamos lembrar que os romanos eram orgulhosos. Eles jamais encarariam com bons olhos uma seita judaica maluca que pretendia ser a única religião correta. Enfim, os romanos não gostavam dos cristãos.

É por esse motivo que nos primeiros quatro séculos de cristianismo, houve tanta perseguição aos cristãos. Cristianismo e política foram coisas que não se misturaram até quando Constantino se converteu. O cristianismo surgiu e passou quase trezentos anos sendo perseguido. Ser cristão nos primeiros quatro séculos era ter a garantia de que não haveria nenhum benefício político em sua vida e que, se você incomodasse o governo com o seu Jesus, poderia ser preso, torturado e/ou morto.

Então, afirmar que o cristianismo foi criado para manipulação política é assinar um atestado de idiotice. Mas a alegação de criação romana tem uma variante. Há quem sustente que antes de Constantino “se converter”, o cristianismo acreditava em outras coisas e que depois que Constantino se converteu e acoplou a religião à política, Roma criou todo o mito de Jesus, o judeu Filho de Deus que foi crucificado e ressuscitou É o que os pseudointelectuais leitores de O Código da Vinci costumam a afirmar. Desse modo, o que conhecemos hoje como cristianismo não seria o mesmo cristianismo que existiu antes de Constantino.

Tal argumento também não se sustenta. Em primeiro lugar, porque há material abundante sobre as principais doutrinas cristãs antes de Constantino. Não há dúvidas de que doutrinas como a morte, ressurreição e ascensão de Jesus faziam parte do conjunto de crenças dos primeiros cristãos.

Em segundo lugar, como já vimos, o cristianismo era muito contrário ao que pregava o paganismo romano. Então, se Roma tivesse modificado as principais crenças cristãs para uma melhor aceitação por parte das pessoas, a história de Jesus não seria essa que conhecemos hoje. Com certeza Jesus não teria sido um homem pobre, judeu, que foi humilhado a vida inteira, que morreu em uma cruz, que ressuscitou e que ensina as pessoas a renegarem todos os deuses romanos, adorarem o Deus dos judeus e agirem de maneira santa.

Em vez disso, ele seria alguém como Aquiles, Hércules ou Cratos, um guerreiro forte, que nunca era humilhado, filho de deuses e que não impunha nenhuma restrição ao espírito de guerra e à imoralidade sexual. Ou seria um ser espiritual sábio que apenas parecia humano (mas que não tinha carne de verdade) e que não sofreu nem morreu de verdade também (como alguns escritos apócrifos do segundo século afirmam).

Ou seja, a história que temos, por ser totalmente contrária ao que os romanos criam e por apresentar amplas evidências de que era a mesma pregada pelos primeiros cristãos, não pode ser considerada uma invenção de Roma para manipular politicamente as pessoas. Você pode até não acreditar que Jesus realmente ressuscitou dos mortos e que é o Filho de Deus, mas é inegável que existiu um judeu chamado Jesus que foi morto numa cruz e que os primeiros cristãos criam que ele havia ressuscitado e que era o Filho de Deus. Essa crença básica não foi inventada por Roma ou Constantino.

Por que não há mais menções não cristãs sobre Jesus?

O documentário não levanta essa questão, mas como nós acabamos de ver que os quatro historiadores citados por Zeitgeist são fontes confiáveis, alguém pode rebater dizendo que existem poucas menções a Jesus. “Se Jesus realmente existiu e foi alguém tão influente, por que não há mais menções sobre ele entre autores não cristãos?”.

A questão não é difícil de responder. Em primeiro lugar, porque o ministério de Jesus foi curto e restrito a um espaço pequeno. Foram apenas três e meio de pregações e ele sequer saiu de Israel. Ou seja, o ministério de Jesus não foi algo que se estendeu por diversos lugares do mundo e/ou por um longo tempo. Como também não havia internet, nem televisão, nem rádio, nem agências de notícias, então, sua influência ficou muito restrita, tornando improvável a existência de um número grande de relatos escritos.

Em segundo lugar, porque a maior parte das pessoas para as quais Jesus pregou era pobre. Levando em consideração que Jesus viveu num contexto onde a tradição oral era muito valorizada, onde a escrita não era uma prática comum entre as massas e onde muitas pessoas eram analfabetas, também não era de se esperar o surgimento de muitos relatos escritos sobre Jesus.

Em terceiro lugar, as pessoas que não eram cristãs não teriam muito interesse em escrever relatos sobre Cristo. Por exemplo, os escribas judeus tinham grande antipatia por Jesus, pois ele costumeiramente os criticava por hipocrisia. Os rabinos também não gostavam de Jesus por suas críticas e porque ele não agia conforme os rabinos da época acreditavam que o Messias deveria agir.

Para os romanos, falar sobre o tal Jesus seria ainda mais desinteressante. Jesus, na visão dos poucos romanos que devem ter ouvido falar dele enquanto estava aqui na terra, era apenas um rabino que algumas pessoas diziam que operava milagres. O que há de interessante nisso? Rabino existia um monte espalhado por aí. Se fazia milagres, isso não era algo tão incrível. Afinal, o ceticismo ao sobrenatural não era lá muito comum naquela época. As pessoas não tinham dificuldade de acreditar no sobrenatural. Enfim, Jesus não era notícia. Se existisse jornais romanos na época, talvez ele nem saísse em uma notinha.

Em quarto lugar, é possível que muita coisa que foi escrita não foi copiada aos montes e se perdeu no tempo. Vamos supor, por exemplo, que aquele oficial romano que teve seu filho curado por Jesus, tenha escrito uma carta a um amigo, falando que um judeu chamado Jesus curou seu filho. O amigo recebe a carta, lê, responde e guarda a carta em suas coisas. Então, esquece da carta e ela acaba parando no lixo. Ou passa o tempo, ele morre, a carta fica perdida e se deteriora ou as traças comem. Acabou. Nunca alguém saberá daquela carta.

Podemos também supor que um escriba judeu ficou impressionado com algum milagre de Jesus e resolveu escrever alguns de seus feitos. Mas, depois, vendo que Jesus morreu em uma cruz, perde a fé no mestre e destrói seus escritos. Ou mesmo, mantém a fé em Jesus, compartilhando da crença da ressurreição, mas por medo da retalhação dos outros escribas e rabinos, resolve não tornar o documento público e o destrói (ou ele se perde no tempo também).

Essas suposições são plausíveis. Muito do que pode ter sido escrito sobre Jesus, pode não ter sido copiado e espalhado por aí, tendo sido destruído (ou se perdido) para sempre. O fato é que a quem mais interessava o espalhamento dos relatos escritos sobre Jesus era aos cristãos. Não porque era possível ganhar algum tipo de benefício político ou financeiro com isso (como já vimos, isso não existiu nos primeiros quatro séculos de cristianismo), mas porque os cristãos acreditavam mesmo que Jesus havia ressuscitado e que era o Cristo. Era isso que os movia. Era isso que os fazia aceitarem uma vida de pobreza, hostilidades, preconceitos, perseguições, prisões, torturas e até a morte.

Em quinto lugar, vamos lembrar uma fato que vimos em outra postagem: muitos personagens que são considerados históricos apresentam muito menos menções antigas do que Jesus; muitas vezes menções feitas por autores que viveram séculos depois. Por exemplo, Alexandre, o Grande. Tudo o que sabemos sobre ele está em praticamente duas biografias apenas, escritas por Adriano e Plutarco, 400 anos depois de Alexandre, o grande. O que provavelmente ocorreu é que os dois autores fizeram uma pesquisa a documentos que existiam na época e que não existem mais hoje.

Ainda assim, os historiadores consideram as biografias de Alexandre, o Grande confiáveis. Ninguém debate a historicidade desse personagem. Então, por que debater a de Jesus, que tem menções feitas por Josefo, Tácito, Suetônio, Plínio, Celso, Serapion, os Talmudes, Talo, Flegão, Luciano de Samósata (que não foram cristãos) e dezenas de autores cristãos do primeiro século (que não ganharam nada por tais escritos)? Jesus tem mais menções que diversos personagens considerados históricos. Isso é fato.

Em sexto lugar, grandes catástrofes podem ter destruído muitos documentos que falavam sobre Jesus. Por exemplo, no ano 70 d.C. a cidade de Jerusalém sofreu terrível destruição por parte dos romanos. Antes disso, em 64 d.C. Roma tinha sido incendiada no governo de Nero. A Biblioteca de Alexandria, no Egito, e a de Pérgamo, na Turquia, que foram as maiores bibliotecas do mundo durante muito tempo, foram destruídas no segundo século. O quanto não pode ter sido perdido, hein?

Conclusão: não existem motivos para acreditar que deveriam haver mais relatos não cristãos antigos sobre Jesus do que os que temos hoje às mãos. O que temos hoje é mais que suficiente para provar a historicidade de Jesus.

Bem, essa postagem termina aqui. Ficou claro que, ao contrário do que Zeitgeist afirma, Jesus é um personagem de historicidade muito confiável. Também ficou claro que já não dá para confiar em nada do que o documentário veicula como fato. A careta de pau dos produtores desse lixo pseudo-acadêmico chegou a um nível que necessita de uma explicação para tal. É o que farei na última postagem da série. Mas antes disso, eu vou ainda fazer uma postagem analisando alguns truques psicológicos utilizados pelo documentário para engambelar o espectador.
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Bibliografia:
1. Bruce, F. F. Merece confiança o Novo Testamento? Vida Nova, 2010.
2. Bock, Darrel. Os Evangelhos Perdidos.Thomas Nelson Brasil, 2007.
3. Bock, Darrel. Quebrando o código da Vinci. Novo Século, 2004.
4. Geisler, Norman e Turek Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Destrinchando Zeitgeist - Parte 2: Ignorância Estratégica

Um comentário:
Na primeira parte de Destrinchando Zeitgeist, vimos que as principais alegações do documentário são falsas. Com base em obras clássicas e antigas das mitologias pagãs, tais como O Livro dos mortos, Textos da Pirâmide, Odisséia, O Trabalho e os Dias, Teogonia, Textos do Sarcófago, Mahabharata, Bhagavata Purana e outras, ficou claro que os supostos paralelos existentes entre Jesus Cristo e os mitos pagãos se resumem a comparações forçadas, interpretações subjetivas (e parciais), erros de cronologia, erros de metodologia histórica e falsificações grosseiras.

Só para lembrar, nós analisamos os supostos paralelos existentes entre Jesus e Osíris, Hórus, Dionísio, Átis, Krishna e Mitra, que são os principais do documentário, e ainda alguns que puxei aleatoriamente de uma extensa lista que o documentário passou em alta velocidade na tela (por que será, né?), a saber, Sidarta Gautama (Buda), Odin, Thor, Tamuz e Baal. Se o leitor está se perguntando como os produtores de Zeitgeist conseguiram ser tão mentirosos, picaretas e desonestos, fique tranqüilo; vou explicar em outra postagem.

Nessa postagem, vamos analisar algumas alegações de Zeitgeist que se baseiam no que eu chamo de “ignorância estratégica”. Ignorância estratégica é o ato de ignorar propositalmente partes de um assunto que não são convenientes para o argumento que se está procurando sustentar. Vamos lá?

“A Bíblia é um livro astrológico e Jesus é o deus-sol do cristianismo” 

Segundo sustenta o documentário, a adoração ao sol teria influenciado diversas religiões ao longo dos milênios, dentre as quais se incluem o judaísmo e o cristianismo, este último tendo Jesus como o seu deus-sol.

Entretanto, a alegação esbarra em dois sérios problemas. O primeiro: a Bíblia é clara ao afirmar que a adoração a sol, lua, estrelas e qualquer coisa criada, é abominável a Deus, pois Deus é maior que todas essas coisas, sendo antes o criador. O segundo: a Bíblia enfatiza diversas vezes que o Deus judaico-cristão é o Deus criador. Ele não é um deus-sol, nem um deus-lua, nem um deus-terra, nem um deus-tempestade. Confundi-lo com aquilo que Ele mesmo criou é algo que não pertence e nunca pertenceu à doutrina dos judeus ou dos cristãos. Vamos ver alguns exemplos.

Em Deuteronômio 4:19, podemos ler:
Guardem-se para que não levantem seus olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejam seduzidos a inclina-rem-se perante eles, prestando culto a essas coisas que o Senhor, nosso Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus.
Isso está presente no livro de Deuteronômio, Antigo Testamento, que foi escrito em cerca de 1.500 anos antes de Cristo, quando o judaísmo começava a se formar como uma religião oficial. No mesmo livro, mais adiante, lemos:
Quando em seu meio, em alguma das cidades que o Senhor, seu Deus, lhe dá, for achado algum homem ou mulher que proceda maliciosamente aos olhos do Senhor, seu Deus, quebrando a sua aliança, e que vá, sirva a outros deuses e os adore, ou adore ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei; e isso lhe seja denunciado e você ouça; então, você procurará saber se é verdade e sendo verdade e certo que se fez tal abominação em Israel, levará o homem ou a mulher que fez este malefício às tuas portas e os apedrejará, até que morram (Deuteronômio 17:2-5).
Veja que a religião judaica era bem enfática no que dizia respeito à proibição de adorar astros. É ridículo sustentar, como sustenta Zeitgeist, que a religião judaica era baseada no zodíaco. Mas, continuemos. Em Jó 31:26-28, o personagem Jó, afirma:
(...) se olhei para o sol, quando resplandecia, ou para a lua, que caminhava esplendente, e o meu coração se deixou enganar em oculto, e beijos lhes atirei com a mão, também isto seria delito à punição de juízes; pois assim negaria eu ao Deus lá de cima.
Em II Reis 23:5, também existe algo interessante. O então rei judeu Josias, inicia uma reforma religiosa, a fim de fazer cumprir as ordenanças das Escrituras Sagradas que, na época, em grande parte, estavam sendo ignoradas pelo povo. Um de seus atos foi o seguinte:
E destituiu os sacerdotes pagãos nomeados pelos reis de Judá para queimarem incenso nos altares idólatras das cidades de Judá e dos arredores de Jerusalém, aqueles que queimavam incenso a Baal, ao sol e à lua, às constelações e a todos os exércitos celestes.
Então, o que vemos aqui é que muitas pessoas poderiam até se corromper (como, de fato, ocorreu diversas vezes), contudo, a religião judaica jamais ensinou a adoração à astros. Quem o fazia, estava indo contra o judaísmo. Um último texto deixa ainda mais claro essa verdade. Está em Ezequiel 8. Lemos:
E de novo o Senhor Deus me disse: ‘Você os verá cometerem práticas ainda mais repugnantes’. Então ele me levou para a entrada da porta norte do templo. Lá eu vi mulheres sentadas, chorando por Tamuz. Ele me disse: ‘Você vê isso, filho do homem? Você verá práticas ainda mais repugnantes do que esta’. Ele então me levou para dentro do pátio interno do templo, e ali, à entrada, entre o pórtico e o altar, havia uns vinte e cinco homens. Com as costas para o templo do Senhor e os rostos voltados para o oriente, estavam se prostrando e adorando o sol (Ezequiel 8:13-16).
Este é um relato de uma visão do profeta Ezequiel. Na visão, Deus lhe dizia que muitos do povo estavam praticando coisas repugnantes. Entre elas, vemos a adoração a Tamuz, aquele deus da colheita que analisamos, lembra? E há aqui também, a citação da adoração ao sol. Como fica patente, a religião judaica condenava veementemente esse tipo de atitude. Simplesmente não fazia parte da doutrina judaica à adoração a astros.


Ora, o mesmo pode-se dizer da religião cristã, já que o cristianismo veio a surgir do judaísmo. O apóstolo Paulo deixa clara a posição cristã quando escreve sua epístola aos Romanos, dizendo que muitos homens “trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre” (Romanos 1:25).

Paulo tinha bem clara em sua mente a noção de que o Deus que ele adorava era o Deus criador de todas as coisas. Então, coisas como sol, lua, estrelas, terra, água, fogo, homens, mulheres, animais e plantas eram meras criaturas, não devendo ser adoradas em hipótese nenhuma. Apenas o Deus criador poderia ser adorado. Por isso, o mesmo Paulo diz o seguinte para aos pagãos que pensavam que ele e seu amigo Barnabé eram deuses, em Atos 14:15:
Senhores, por que fazem isso? Nós também somos homens como vocês, sujei-tos aos mesmos sentimentos, e estamos anunciando o evangelho para que destas coisas vãs vocês se convertam ao Deus vivo, que fez o céu, a terra e o mar e tudo o que há neles (...).
Em circunstâncias semelhantes, quando na Grécia, pregando para adoradores de diversos deuses diferentes, Paulo diz, em Atos 17:23-24:
Pois esse Deus que vocês adoram sem conhecer é precisamente aquele que eu estou anunciando. O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas.
O discípulo João mostra que a adoração não era uma contradição a essa noção de adorar a um só Deus, o Deus criador. Ele diz nas primeiras palavras de seu evangelho:


No princípio existia o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele e, sem ele, nada do que foi feito se faria. (...) E o Logos se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai (João 1:1-3 e 14).

O Logos ao qual se refere João é Jesus. Costuma a ser traduzido como “O Verbo” ou “A Palavra”. O importante desse texto é que Jesus era entendido como sendo parte do próprio Deus. Para o cristianismo não há, nem nunca houve mais de um Deus. O Pai, o Filho (Jesus) e o Espírito Santo são todos partes de um só Deus, tal como três pedaços de uma única laranja não deixam de ser uma mesma laranja, embora tripartida. E esse Deus triúno do cristianismo é o Deus criador, como acabamos de ver. 

O Deus judaico-cristão sempre foi reconhecido e diferenciado dos demais deuses de outras religiões como o Deus criador. Citamos passagens do Novo Testamento que comprovam isso. Podemos citar também muitas do Antigo Testamento, como a que está em II Crônicas 2:11-12, onde lemos:
Hirão, rei de Tiro, respondeu por uma carta que enviou a Salomão, dizendo: ‘Porque o Senhor ama ao seu povo, te constituiu rei sobre ele’. Disse mais Hirão: ‘Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que fez os céus e a terra’ (...).
Tiro não era uma cidade de Israel. O rei de Tiro não era judeu. No entanto, ele reconhecia que o Deus de Israel não era um deus-sol, ou um deus-lua, mas o Deus que fez os céus e a terra.


O profeta Jonas, ao ser questionado por alguns homens pagãos sobre qual era o deus a que ele servia, respondeu assim:
Sou hebreu e sirvo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra. Então, os homens ficaram possuídos de grande temor e lhe disseram: ‘O que é isso que você fez?’, pois sabiam os homens que ele fugia da presença do Senhor, porque lhes havia declarado (Jonas 1:9-10).
Eu poderia citar pelo menos mais uma dúzia de passagens que comprovam que o judaísmo e o cristianismo não apresentam nenhum vínculo com a astrologia, o zodíaco e a adoração a divindades que nada mais são do que criaturas, como o sol e a lua.

O que Zeitgeist faz é forçar comparações, baseado em elementos que não tem a menor importância. Por exemplo, em determinado trecho, o documentário afirma que a prova de que o cristianismo tem a ver com o zodíaco são diversas passagens que usam o termo “era” (no sentido de período). Ora, mas o fato de alguém se utilizar do termo “era” não significa que essa pessoa siga o zodíaco. Somente um babaca que não tem o que fazer, poderia usar um argumento pífio desses.

Aliás, no que diz respeito a esse assunto do zodíaco, o documentário mostra ter sido feito por um bando picaretas sem vergonha de mentir. Por exemplo, há um trecho em que o documentário cita o texto de Lucas 22:7-12, dizendo que nesse texto os discípulos perguntaram a Jesus quando seria a próxima passagem de “era” depois que ele fosse embora (o que seria uma alusão às passagens de “era” do zodíaco).

Mas quando vamos averiguar o que está escrito nesse trecho de Lucas, o que lemos é o seguinte:
Chegou o dia da Festa dos Pães Asmos, em que importava comemorar a Páscoa. Jesus, pois, enviou Pedro e João, dizendo: ‘Vão preparar a Páscoa para que nós a comamos’. Eles lhe perguntaram: ‘Onde quer que a preparemos?’ Então, lhes explicou Jesus: ‘Ao entrarem na cidade, encontrarão um homem com um jarro de água. Sigam-lhe até a casa em que ele entrar e digam ao dono da casa: ‘Onde é o aposento no qual eu irei comer a páscoa com os meus discípulos?’ Ele lhes mostrará um espaçoso cenáculo mobilhado. Ali, façam os preparativos.
Ah! Faça-me o favor! Onde é que nós encontramos nesse texto uma menção à passagem de era no zodíaco? Não está claro que os discípulos estavam perguntando a Jesus onde fariam a festa judaica da Páscoa? 

Como podemos observar, não há limites para as mentiras que os produtores do documentário veiculam como fatos. Aqui já se pode ter certeza de que tudo o que for possível ser distorcido ou até mesmo inventado para criticar a religião tradicional, será feito pelos produtores. Afinal, todos eles estão profundamente vinculados ao ódio contra a religião tradicional.

“A Bíblia toda é um plágio”

Aqui temos a afirmação de que a Bíblia toda é um plágio. As provas seriam as diversas histórias parecidas com histórias bíblicas, que podemos encontrar em outras religiões antigas. O documentário cita a história da arca de Noé e o dilúvio, a história de Moisés sendo salvo do infanticídio em um cesto, a história de Moisés como legislador de um povo e até os dez mandamentos. Vamos analisar.

A começar pela história da arca de Noé e do dilúvio, não é nenhuma surpresa para nós, cristãos, que existam diversas culturas, religiões e tradições no mundo que são muito parecidas com a história bíblica. Há tempos e tempos nós temos usado este fato como um argumento a favor do evento em si. O que se espera de um evento global que tenha ocorrido de verdade? Não são diversos relatos do mesmo?

Ora, encontramos em mais de trezentas culturas espalhadas por diversas regiões do mundo as histórias da criação do mundo e do homem, da queda da raça humana, do dilúvio e da arca. Todas têm aspectos diferentes, mas o básico é o mesmo. Isso é uma boa evidência de que o fato ocorreu e que os relatos foram sendo passados de geração em geração, tendo seus elementos básicos conservados em várias culturas. Trata-se de um argumento sólido porque, de fato, é difícil explicar como todos esses relatos podem ter aparecido em algumas culturas que jamais tiveram comunicação umas com as outras e que, no entanto, têm relatos semelhantes sobre a criação e um suposto dilúvio.

Se os produtores do documentário Zeitgeist tivessem lido livros como O Fator Melquisedeque, de Don Richardson, Escavando a Verdade, do Dr. Rodrigo Silva, The American Indian Mythes, de A. G. Roth, Em busca da Arca de Noé, de Dave Balsinger e Charles Sellier Jr., God’s promise to the Chinese, de Ethel Nelson e Faith of Our Fathers, de Archie Lee, saberiam que esses paralelos são exatamente o que se espera caso os fatos da criação, da queda do homem, da arca e do dilúvio tenham ocorrido de verdade. Ou seja, a Bíblia não é, necessariamente, um plágio dessas histórias, mas essas histórias todas descendem de um fato real.

Com relação à história de Moisés sendo salvo de um infanticídio, Zeitgeist nos presta o desserviço de distorcer a história de Sargão I, rei da Acádia, para torná-la mais parecida com a de Moisés. Este homem foi um rei que teve a história de sua infância registrada em um tablete que data de cerca de 2250 a.C. O relato da história é esse:
Sargão, o rei poderoso da Acádia, sou eu. Minha mãe era humilde. Meu pai, não tive a oportunidade de conhecer. O irmão do meu pai vivia nas montanhas. Minha cidade é Azupanu, que está situada na ribeira do Eufrates. Minha mãe me concebeu em secreto. Em secreto ela me deu à luz. [Ela] me colocou em um cesto de juncos e fechou a tampa com betume. [Ela] me colocou no rio [Eufrates], que não me submergiu. O rio me levou boiando até Akki, o regador das águas. Akki, o regador de água, me aceitou como seu filho e me criou.
Ora, veja. A história realmente tem aspectos semelhantes com a de Moisés. Mas é preciso, antes de tudo, ressaltar que a narrativa de Sargão não diz que ele foi salvo de um infanticídio, como o documentário sustenta. Agora, vamos às explicações. Seria a história de Moisés um plágio da história de Sargão? Não necessariamente.


Em primeiro lugar, devemos lembrar que no mundo antigo, os rios eram tidos como sagrados. Assim, colocar um bebê dentro de um cesto não seria considerado tão incomum como seria hoje. A história de Rômulo e Remo, de Roma, ainda que seja uma lenda, confirma o que eu estou falando. Poder-se-ia colocar um bebê em um rio como uma maneira de oferta aos deuses. Da mesma forma, uma mãe que não tivesse condição de cuidar de seu filho, poderia “dá-lo aos deuses” ou deixá-lo no rio com o intuito de que alguém que estivesse nas margens, visse o cesto e adotasse a criança.

O que estou falando não é absurdo. Por exemplo, todos nós sabemos que igrejas e orfanatos sempre receberam bebês em cestos de mães que os deixavam na porta e iam embora. Isso era muito comum no final do século XIX e início do século XX, quando era considerado um escândalo moças solteiras engravidarem. Em certa época, chegou a se criar nas igrejas católicas a chamada “Roda dos Rejeitados” ou mesmo “Roda dos Excluídos”, um local específico para que mães solteiras colocassem seus bebês.

Se colocarmos as coisas nesses termos, as histórias de Moisés e Sargão deixam de ser uma coincidência tão incrível e passam apenas a expressar uma idéia recorrente e/ou fácil de ser pensada pelas pessoas do mundo antigo. Veja, não é tão improvável que no mundo antigo duas mães tenham posto seus filhos em um cesto num rio com intuito de que alguém na margem os visse e os adotasse. Sobretudo, tendo em mente que um bebê vindo do rio provavelmente seria considerado um presente dos deuses, dado o caráter sagrado dos rios.

Alguém pode alegar: “Ah, mas é muita coincidência tanto Moisés como Sargão terem se tornado homens famosos”. Bem, é muita coincidência se considerarmos que só eles foram postos em rios por suas mães. Mas e se centenas de crianças tiverem passado pela mesma situação ao longo dos séculos do mundo antigo? Entre centenas, dois deles se tornarem famosos não é algo tão improvável. Talvez a idéia de colocá-los em rios tenha partido justamente da observação de que outras mães já tinham feito isso. 

A hipótese é plausível. Não há motivo para jogá-la fora, quando sabemos que os diversos relatos de bebês deixadas em igrejas e orfanatos expressam eventos diferentes (que eram recorrentes) e não cópias de um único evento. Dizer que a hipótese de Moisés ser um plágio é a única plausível não passa de desonestidade.

Ainda uma informação interessante pode ser dita aqui. Quando os estudiosos alegam que a história de Moisés seria um plágio da história de Sargão, afirmam que os israelitas teriam aprendido a história quando foram cativos da Babilônia em 587 a.C. e acoplado à história de Moisés. Se isso é fato, era de se esperar que a história de Moisés estivesse cheia de termos que remetessem à língua babilônica da época do Egito. 

Mas, conforme o egiptólogo James K. Hoffmeier mostra em seu livro Israel in Egypt, as palavras utilizadas na narrativa hebraica não são nem da língua babilônica e nem da língua hebraica da época do exílio. Em vez disso, o relato da história de Moisés está permeado de termos técnicos que eram comuns no Egito, em um período muito distante do cativeiro israelita na Babilônia. Isso evidencia que o autor do relato só pode tê-lo escrito no período em que viveu no Egito, muito antes da época do cativeiro. Isto é, a história não deriva da mitologia babilônica.

Continuando, temos ainda as alegações de que a história de Moisés como sendo um legislador, seria um plágio das histórias de Manou, Minos e Mises. Mas eu não sou idiota para comprar a idéia de que o simples fato de existirem legisladores nos mitos do paganismo prova que Moisés é cópia deles. Se for assim, posso dizer que os deputados que temos hoje em dia na câmara são cópias desses mitos também, pois são legisladores, não é mesmo?

O documentário afirma que Minos, de Creta, teria recebido leis de Zeus em um monte e as deu ao povo. Não encontrei isso, mas se há algo do gênero na mitologia grega, não é de se surpreender. Os deuses, em todas as religiões, sempre moraram nos céus. Havia na mitologia grega o alto monte Olimpo, que era a morada dos deuses. É compreensível, assim, haver histórias de Zeus ordenando algo de algum monte. Até aí, não há nada muito substancial para provar plágio. Algo que vamos abordar mais à frente é o fato de que algumas semelhanças básicas entre as religiões são esperadas; essas não provam plágio, pois são básicas e inevitáveis.

Por fim, temos a alegação de que os dez mandamentos são um plágio do “Feitiço 125 do Livro dos Mortos”. Finalmente, o documentário cita uma fonte antiga! Mas é triste que a alegação seja baseada em uma comparação tão forçada. Tenho um download da obra em meu computador. O tal feitiço trata-se de uma orientação que é dada, a quem morre (pelo que pude entender da fragmentada narrativa). A orientação é chamada de “Confissão Negativa”. Ali, a pessoa deveria saudar cada deus e dizer que não fez um determinado mal. Então, temos frases como: “Eu não roubei”, “Eu não matei”, “Eu não fui violento”, “Eu não menti” e etc.

Dizer que os dez mandamentos são um plágio disso é ridículo. O decálogo é tão somente um conjunto de regras morais que sempre existiram e que todas as nações do mundo conheciam, embora muitas pessoas não praticassem. Sempre foi imoral o ato de matar. Sempre foi imoral o ato de roubar. Sempre foi imoral o ato de mentir. Desde que o mundo é mundo, essas regras existem. Os dez mandamentos são simplesmente a lei por escrito. Então, não há plágio nenhum aqui. As tábuas da lei apenas catalogaram o que já existia há milênios. Veja o quão baixo os produtores de Zeitgeist chegaram...

“A Bíblia plagia suas próprias histórias”

Aqui o documentário alega que a Bíblia plagia até suas próprias histórias. Como exemplo, é citado José, filho de Jacó, um personagem de Gênesis, que teria paralelos com Jesus. Os paralelos citados são os seguintes: ambos nasceram de um milagre; José era um de 12 filhos e Jesus tinha 12 discípulos; Jesus foi vendido e José também foi; Judá sugeriu a venda de José e Judas sugeriu a venda de Jesus; José começou seus trabalhos aos 30 anos e Jesus também.

As informações estão corretas. Encontram-se na Bíblia. Mas dois pontos devem ser levantados aqui. O primeiro: as semelhanças não são tão grandes. O documentário as cita de maneira genérica para gerar uma impressão de que as histórias são praticamente idênticas. Mas não são. Veja: Jesus nasceu de uma virgem. José nasceu de uma estéril. Jesus não era fruto de algum tipo de união. José era fruto da união entre Jacó e Raquel (seus pais biológicos). Jesus mais seus 12 discípulos somam 13 pessoas. José mais seus 11 irmãos, somam 12 pessoas. Jesus não foi vendido, mas sim entregue às autoridades por 30 moedas de prata. José foi vendido para ser escravo e por 20 moedas. Judas era um discípulo de Jesus. Judá era um irmão de José. A sugestão de Judas de entregar Jesus foi feita às autoridades. A sugestão de Judá de vender José como escravo foi feita aos seus próprios irmãos. Enfim, existem muitas diferenças também.

O segundo: embora as semelhanças entre José e Jesus não sejam tão grandes quanto Zeitgeist quer fazer o expectador achar, elas existem. Mas também isso sempre foi de conhecimento dos cristãos e nunca representou um problema. É o próprio Jesus que afirma em João 5:39 que as Escrituras Judaicas (que eram anteriores a ele) falavam principalmente sobre ele. Isso quer dizer que em toda a Escritura existem profecias, simbologias e até histórias reais de personagens que prefiguravam Jesus e sua obra.

O cordeiro sacrificado prefigurava Jesus. O sumo-sacerdote prefigurava Jesus. O templo prefigurava Jesus. O maná no deserto prefigurava Jesus. A água que Moisés fez sair de uma rocha prefigurava Jesus. Os profetas prefiguravam Jesus. A posição de rei de Israel prefigurava Jesus. Davi, Oséias, Jacó, José e Isaque prefiguravam Jesus. 

Deus, como um agente livre em nosso “sistema aberto de mundo” tem toda a capacidade de, sem quebrar o livre arbítrio humano, “mexer os pauzinhos” para que determinados fatos prefigurem um evento vindouro. Então, supondo-se que Deus existe mesmo, encontrar algumas semelhanças entre Jesus e determinadas pessoas da Bíblia é uma confirmação de que toda a Escritura testifica de Cristo.

Antes que alguém diga que estou apenas tentando fugir da lógica, devo lembrar que a Bíblia apresenta mais de 50 profecias e elementos simbólicos escritos centenas de anos antes de Cristo, que dão detalhes sobre a vida e a obra de Jesus. Farei um estudo mais detalhado sobre o assunto em outra ocasião, mas para quem tiver curiosidade, uma leitura de Isaías 53 e de Miquéias 5:2 comprova o que estou dizendo. São profecias bem específicas sobre Jesus escritas centenas de anos antes dele nascer.

Bem, podemos parar por aqui. Vimos como os produtores do documentário são extremamente desonestos e ignoram propositalmente partes importantes da discussão a fim de sustentar seus argumentos anti-religiosos. Mas ainda não acabou. Na próxima postagem da série, nós vamos ver um pouco sobre a terrível distorção feita em cima do que os estudiosos chamam de “Jesus Histórico”. Destrinchar é isso: não deixar nenhum detalhe de fora.
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Bibliografia:
1. Richardson, Don. O Fator Melquisedeque. Vida Nova, 2008.
2. Silva, Rodrigo. Escavando a Verdade. Casa publicadora Brasileira, 2007.
3. Roth, A. G. The American Indian Mythes. 
4. Balsinger, Dave e  Sellier, Charles. Em busca da Arca de Noé. Record, 1976.
5. Nelson, Ethel. God’s promise to the Chinese. Read Books Publisher, 1997.
6. Chan Kei Thong  e Charlene L. Fu. Faith of Our Fathers: God in Ancient China. China Publishing Group, 2006.
8. Wikipédia