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domingo, 13 de agosto de 2017

O homo spiritualis e as religiões políticas

6 comentários:
Os cientistas chamam a espécie humana de Homo sapiens. Seria mais apropriado nomeá-la como Homo spiritualis ou Homo religionis. O homem é inerentemente religioso. E a história do mundo, na verdade, é a história espiritual do ser humano. Tal fato pode soar estranho para quem tenha recebido uma educação secularista e para os indivíduos que não seguem, nem creem em nenhuma religião. Mas não há erro aqui. A constatação de que a espécie humana é religiosa, isto é, possui inclinação natural à religião não requer aceitação de que alguma religião é verdadeira, tampouco implica que todos os indivíduos sejam religiosos. Estamos falando de uma característica geral, de espécie, o que abarca a maioria dos indivíduos, mas não todos. Ademais, também não é necessário crer na veracidade de alguma religião para concluir o fato óbvio de que toda a história do mundo foi influenciada por pensamentos religiosos.

Essa influência da religião, tanto no sentido psicológico/biológico, quanto no sentido cultural/moral se encontra também em grandes ideias, movimentos e eventos seculares, tais como o iluminismo, a revolução francesa, o positivismo, o darwinismo, os diversos tipos de socialismo, o marxismo, o fascismo, o nazismo, etc. Todos esses movimentos, ideias e eventos possuem um objetivo redentor, sendo, portanto, religiões políticas. Eles surgem em razão da religiosidade intrínseca do homem em união com todo o arcabouço de pensamento religioso proveniente da cultura. Isso quer dizer que tais movimentos são religiosos na mesma medida em que são contrários à religião revelada tradicional (em especial, o cristianismo). São distorções da religião. E como toda a distorção, muitos de seus elementos descendem das tradições religiosas às quais se opõem.

O objetivo desse texto é trazer a lume essa concepção, mostrando o caráter religioso desses movimentos seculares, a impossibilidade de entendê-los plenamente sem levar em conta a influência psicológica e cultural da religião tradicional sobre a sociedade e, por fim, as razões que geraram esses movimentos distorcidos.

Os três sensos do ser humano

Há na espécie humana como um todo pelo menos três sensos inerentes que resistem à passagem do tempo, sobrevivendo em cada geração. O primeiro é o senso objetivo de valor e moral. Ele se constitui na capacidade e na necessidade de dar valores positivos e negativos a determinadas ideias, comportamentos e seres de forma objetiva. Explico melhor. Um homem olha para as pessoas a sua volta e reconhece que a vida delas importa. Ele está dando um valor positivo à vida das pessoas. Dessa capacidade de valorar as pessoas, surge a capacidade de julgar certos comportamentos e ideias como justos ou injustos, bons ou maus, certos ou errados. Se esse homem vê uma das pessoas a sua volta sendo morta, sabe que algo de valor foi arrancado ali. Dependendo da circunstância ele pode concluir que o homicídio foi covarde, injustificado, que a vida de uma pessoa (o que é importante) foi ceifada sem qualquer razão que valesse mais que aquela vida. O homem conclui que o homicídio foi errado, mau, injusto.

De modo semelhante, esse homem pode ver uma vida sendo salva no meio da multidão e concluir que isso foi certo, bom e justo, pois uma vida humana importa, tem grande valor. Estou usando apenas alguns de centenas ou milhares de exemplos. Em suma, o senso de valor e moral nos permite saber que atitudes como matar por motivo torpe, roubar, torturar, estuprar e explorar são atitudes ruins, ao passo que salvar uma vida, dar água ao sedento, ajudar o fraco e julgar com equidade são coisas boas. Esse senso nos permite saber que o amor é bom e deve ser cultivado, que o ódio é ruim e deve ser evitado. Ensina que existem direitos e deveres. Capacita-nos a fazer juízos de valor e juízos morais o tempo todo. Talvez se possa classificar tal senso como dois distintos que se relacionam intimamente. Mas tratarei nesse texto como um senso só.

O segundo senso inerente ao ser humano é o de sentido da vida. Ele se constitui na necessidade que a espécie humana tem de se engajar em alguma atividade que vá além da mera sobrevivência. Diferentemente dos animais e outros seres irracionais, o homem não se contenta com uma existência limitada à satisfação mecânica de necessidades fisiológicas. Acordar, buscar alimento, se reproduzir e dormir são fatores que, sozinhos, não satisfazem o ser humano. A espécie humana compartilha de um forte desejo por um objetivo de vida, que confira a cada indivíduo sensações de importância, pertencimento a um grupo e/ou projeto interessante, ocupação, alegria, prazer e consciência limpa; que ofereça algum tipo de desafio, conjunto de metas, roteiro, enredo, fases.

A necessidade humana de sentido da vida engloba tanto o lado subjetivo e autocentrado desse senso, no qual cada indivíduo busca um “algo mais” que faça bem a si próprio, quanto o lado objetivo, altruísta e comunitário, no qual o indivíduo anseia por satisfazer os desejos do próximo. Em um ser humano moral e psicologicamente saudável, os dois lados desse senso, o subjetivo e o objetivo, caminham juntos. Assim, esse ser humano saudável procura um sentido para a sua vida que, de alguma forma, colabore com um sentido da vida mais geral, que abarca os interesses de todo. Aqui fala alto a visão de si mesmo como parte de um todo maior, que é a humanidade (e que é formada por grupos menores, como a família e as comunidades locais).

Finalmente, o terceiro senso é o de redenção da humanidade. Ele se caracteriza como uma forte convicção de que existe algo errado no mundo a nível moral e que isso deve ser consertado. Em outras palavras, o mundo precisa de uma redenção para que passe a funcionar do modo correto. Geralmente, essa certeza se associa a alguma explicação sobre os motivos que levaram o mundo a situação caótica em que se encontra. Então, surge aí a pressuposição de que em algum momento do passado a sociedade não possuía os problemas morais e organizacionais que passou a ter. O senso de redenção leva diretamente à ideia de que o mundo será redimido de alguma forma, seja por ação direta do ser humano, por algum agente externo ou em conjunto.

Os três sensos elencados aqui estão intimamente relacionados. Sem o senso moral, não há como ter o senso completo de sentido da vida, nem o de redenção. A redenção só tem lógica se o homem puder olhar para determinada situação e dizer que ela é realmente justa ou injusta. E somente a possibilidade de fazer juízos de valor e morais objetivos pode criar um sentido real para a vida humana como um todo, tornar objetivamente bom o ímpeto de satisfazer o próximo e criar a obrigação moral de ajudar.

Sem a necessidade de sentido da vida, por sua vez, tornamo-nos meros animais, o que anula qualquer ímpeto de luta ou espera por redenção. E isso sufoca a moral até mata-la, pois se não há um sentido objetivo para a vida, a vida humana não tem um objetivo, nem um valor, de onde se deduz que tudo é permitido e não há regras reais. Tudo é questão de convenção e ilusão.

Já sem o senso de redenção, o sentido da vida coletiva desaparece, porque não haverá esforço ou aspiração pela resolução dos problemas sociais. A moral, por conseguinte, tenderá a sumir também, seguindo o desprezo pela redenção e o real sentido coletivo da vida.

A religião tradicional

Tendo visto os três sensos inerentes da humanidade, nos voltamos para uma análise da religião tradicional. Por religião tradicional, nesse texto, entendemos todo o conjunto de tradições religiosas diversas que possuem a crença no conceito filosófico de Deus. Aqui é importante enfatizar que Deus, na concepção filosófica, se distingue das divindades menores de religiões politeístas e panteístas. As divindades estão inseridas no contexto espaço-temporal, sendo elas criaturas também, embora mais poderosas que o homem e imortais. Na maior parte das tradições religiosas tribais ao redor do mundo, no entanto, conservou-se a ideia de um Deus anterior e superior a todas as divindades, o qual seria o criador. A tendência, ao longo do tempo, foi o ofuscamento desse Deus criador original e a ênfase de divindades menores. Uma das razões é o fato de que o Deus Criador não pode ser representado, enquanto que deuses menores são passíveis de representação. Na falta de uma figura palpável para adorar, as tribos foram levadas a venerar os astros, os antepassados e divindades representadas como animais ou homens.

O conceito de Deus criador, no entanto, atravessa os séculos e é resgatado pela religião hebraica/judaica, onde o monoteísmo se impõe pela lógica. Diferentemente das outras divindades, o Deus dos hebreus é superior a tudo o que há no universo, o que significa que Ele transcende tempo, espaço e matéria. É exatamente o mesmo conceito presente em religiões politeístas, com a diferença de que no hebraísmo dá-se um passo a mais na lógica: o conceito filosófico de Deus impõe a existência de um só Deus. Assim, todas as divindades ou não existem ou são meras criaturas, não devendo ser adoradas.

As conclusões do hebraísmo/judaísmo, por serem uma questão de lógica, são alcançadas também por filósofos gregos como Sócrates, Platão e Aristóteles, a partir de observação e dedução. Deus é o primeiro motor do universo, a primeira causa, a fonte da vida e da ordem, a raiz do bem e do belo, e infinitamente superior a tudo. Os teólogos cristãos trabalharão sobre essas bases, entendendo Deus como a fonte primária de tudo. Assim, nossa moral, nossa razão e nossa vida se originam em Deus, que possui tais atributos como características intrínsecas. Deus é amor, é moral, é razão e é vida.

É a esse conceito filosófico de Deus que nos referimos como pilar do que entendemos, nesse texto, como religião tradicional. Não falamos, por ora, de uma religião específica, mas de todas as tradições que possuem esse elemento em comum.

Ora, a religião tradicional desempenha a função de ponte entre Deus e os homens. Ao admitir a noção lógica de que há um ente pessoal que transcendendo tempo, espaço e matéria, do qual advém a realidade moral, os valores objetivos, a razão e a vida, ela nos leva à conclusão de que os nossos três sensos inerentes só são satisfeitos nele. Não se trata aqui apenas de uma conclusão lógica, mas de uma necessidade psicológica inata ao ser humano. Se de fato Deus existe, só encontra satisfação plena em Deus, que é a fonte da moral, do sentido da vida e da redenção. Uma vez que a religião tradicional cumpre o papel de ponte para nos levar a Deus, isso significa que ela é, ao mesmo tempo, ponte para nos levar à satisfação plena de nossos três sensos. É por essa razão que a espécie humana é inerentemente religiosa.

Não surpreende que no desenrolar da história das religiões vê-se, em cada uma delas, justamente tais elementos: uma noção de valores e moralidade (ainda que, muitas vezes, distorcida), uma noção de sentido para a vida e uma noção de redenção. Também se vê outros elementos relacionados como uma narrativa para a queda do ser humano e um ser maligno que traz o pecado para o mundo. A história das religiões evidencia uma única tradição cultural original da qual descende todas as outras, bem como uma estrutura psicológica comum à espécie humana, que serve de base para a manutenção dos traços dessa cultura religiosa original. Alguns antropólogos e teólogos trabalham aqui com os conceitos de tradição adâmica e monoteísmo primitivo. Ambos versam sobre a origem comum das religiões em um tronco monoteísta com as noções de criação e queda do ser humano. As evidências arqueológicas, linguísticas, históricas e psicológicas de fato apontam para a veracidade desses conceitos.

O ser humano, portanto, é religioso pelo fator psicológico e pelo fator cultural, dois elementos que fortalecem e mantém um ao outro numa dialética constante. A cultura religiosa sustenta firme estrutura psicológica religiosa e esta, por sua vez, sustenta firme a cultura religiosa. Nós podemos afirmar, por conseguinte, que a religião tradicional é configurada de modo sócio psicológico.

A fuga de Deus e a distorção da religião tradicional

Fizemos uma avaliação da estrutura religiosa do ser humano. Cabe agora analisar o que ocorre quando o ser humano procura fugir de Deus e da religião tradicional.

O homem tem sede de Deus, pois só reconhecendo a sua existência como fonte de tudo e mantendo um relacionamento com Ele, pode saciar plenamente os seus três sensos. No entanto, há aqui um paradoxo. O mesmo homem que tem sede de Deus, tem propensão natural à imperfeição. Do ponto de vista evolutivo (para quem nisso crê) somos apenas animais, o que significa que temos instintos vis. O fato de possuirmos a faculdade da razão não muda isso, mas agrava. A razão nos faz perceber maior facilidade e certos lucros pessoais em agir mal, ao passo que também faz notar a dificuldade e os prejuízos pessoais de agir bem. A razão nos faz muito mais perigosos e potencialmente piores que os animais irracionais.

Do ponto de vista religioso, temos propensão à imperfeição porque o mundo perfeito criado por Deus foi corrompido por nossas escolhas. E a desarmonia resultante dessas escolhas maculou nossa natureza. Já nascemos inclinados ao egoísmo, à ganância, à raiva, à mentira, à promiscuidade, à desonestidade. Somos pecadores. É mais fácil errar do que acertar.

Nesse sentido, é a visão judaico-cristã que irá incrementar na sociedade uma noção mais apurada e refinada de busca pela moralidade e negação dos desejos vis. É o judaísmo e, principalmente, o cristianismo que moldará em grande parte do mundo a ideia de vencer a si mesmo, de exercitar virtudes e superar vícios. O cristianismo ensinará que ao homem cabe o autocontrole e a formação de um novo eu, o que o cristão fará não sozinho, mas com o auxílio ininterrupto do Espírito Santo. Assim, o Homo spiritualis, imbuído de cultura judaico-cristã, se prenderá aos preceitos da religião tradicional, entendendo-se dependente de Deus para a reconstrução de si.

Uma vez, no entanto, que há livre arbítrio, muitos indivíduos irão preferir uma vida de vícios ou ainda, não desejarão saciar sua sede através de um relacionamento com Deus. Relacionamentos não são fáceis, requerem comprometimento, entrega, sacrifício, amor, aspectos que nem todos estão dispostos a doar. Com Deus não é diferente. Eis o x da questão. O homem tem sede de Deus como tem sede de água. Mas muitos preferem matar a sede com refrigerantes. O ser humano que nega a religião tradicional e a Deus, continuará com seus três sensos, necessitando saciá-los de alguma forma. A sede permanece. Na falta de Deus, onde o homem achará sentido? Na falta de um ser pessoal transcendente, do qual a razão, a moral, o sentido da vida é a redenção advém, a que religião o Homo religionis irá se agarrar? Se a religião tradicional faz parte de seu ser, o que fará sem ela? O que colocará em seu lugar?

É aqui que surgem as tentativas de criar um novo sistema completo de sentido, algo que substitua a religião tradicional e a necessidade por Deus. Esses novos sistemas completos são também religiões. Porém, não mais religiões de matriz tradicional. Deus ou é tirado de cena, ou resumido ao papel irrelevante. O homem agora é independente, soberano, senhor de seu próprio destino. O sistema completo terá sua própria moral, seu próprio sentido coletivo, seu próprio plano de redenção, no qual a humanidade, através de ação política, salva a si mesma. Esta é a religião política.

A religião política pode ser entendida como uma distorção da religião tradicional, ou ainda, como uma tentativa de plágio. Ela surge não apenas da necessidade psicológica do homem por Deus, mas da cultura religiosa que retroalimenta as relações do homem com o metafísico. Assim, por mais que a religião política procure se opor e até destruir a religião tradicional, ela o fará justamente com as bases da religião tradicional. Esta é a razão pela qual o antirreligioso geralmente não passa de um religioso político.

A trajetória da religião política

Historicamente, os primeiros passos dados na direção da religião política ocorreram no período do iluminismo. O entusiasmo com o rápido surgimento de novas tecnologias e estudos voltados cada vez mais para o enaltecimento das capacidades humanas fizeram surgir ideias contrárias aos conceitos da religião tradicional e favoráveis a uma radical reformulação de tudo. Muitos, à título de se livrarem de distorções no âmbito da religião tradicional, jogaram a água suja fora com o bebê junto. E na falta do bebê, tomaram para si um simulacro de bebê.

Há dois exemplos icônicos de ideias que irrigaram a religião política nessa época. Uma foi o deísmo. Sustentando a concepção de que Deus existe e gerou o universo, porém não intervém na história do mundo, o deísmo se tornou a crença de muitos pensadores do período iluminista, como Edward Hebert, John Locke, Voltaire e Thomas Paine. Em maior ou menor grau, a ideia influenciou também pensadores cristãos, pavimentando o caminho para um cristianismo liberal, cada vez mais relativista e desfigurado.

Para os deístas, por mais que as religiões tradicionais tenham o seu valor como fonte de ética, nenhuma delas é verdadeira. Deus é o criador, a primeira causa, mas não se revela, não se comunica com o homem, não intervém e, portanto, não tem qualquer relevância na história do mundo e em nossas vidas individuais. Isso significa que a resolução de todos os problemas do mundo cabe unicamente à humanidade. Uma vez que os deístas do iluminismo se consideravam a geração iluminada de uma humanidade em constante evolução racional, era certo, para eles, que esses problemas seriam mesmo resolvidos. A humanidade pode. “We can do it!”.

Já para os cristãos mais liberais dessa época, o cristianismo não era abandonado, mas esvaziado. Milagres narrados na Bíblia eram tidos como símbolos, a Escritura deixava de ser totalmente inspirada e Jesus se tornava apenas um grande mestre da moral. Nos dois grupos, o dos cristãos liberais e dos deístas, havia um elemento em comum: Deus perdia o protagonismo e o homem era divinizado. O iluminismo, por mais que tenha popularizado algumas ideias boas, pode ser comparado a um adolescente: com excesso de confiança em si mesmo, afobado, impulsivo, desprezando a voz da experiência, não considerando a existência de certos limites e pilares a serem conservados.

Ao propor que o homem é praticamente o seu próprio deus, agiu como aquele jovem universitário, recém saído do ensino médio, que pretende revolucionar o mundo, sem antes conhecer melhor a si mesmo e revolucionar o seu próprio caráter; aquele jovem que cheio de ideias para resolver os problemas da humanidade, mas incapaz de lavar a louça em casa, arrumar o quarto, ser fiel em seus relacionamentos e permanecer sóbrio aos fins de semana. O iluminismo, tal como esse jovem, conferiu ao ser humano uma capacidade que ele não possui. E isso, como veremos mais adiante, nunca dá certo.

Um segundo exemplo icônico de ideia que irrigou a religião política foi a suposição de que o homem é essencialmente bom em sua natureza. O maior expoente do conceito foi o filósofo Jean-Jacques Rousseau. Em um ensaio denominado “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, o autor defende que o estado natural do ser humano não é a corrupção. A degradação da humanidade seria causada por alguns elementos surgidos da associação entre os homens, como as distinções entre o mais belo, o mais forte, o mais inteligente, e o advento das propriedades privadas. As distinções feitas entre os homens geraram os sentimentos de inveja, vaidade, desprezo, vergonha e raiva. E a passagem de propriedade de geração em geração, gerou riquezas díspares, relações de escravidão, violência e guerra. Em suma, o homem não era, para Rousseau, inclinado naturalmente à imperfeição, mas tornava-se imperfeito porque a sociedade estava estruturada de modo imperfeito.

As implicações desse conceito são muito amplas. Se o ser humano é naturalmente bom, racional e perfectível, e o problema do mundo está numa má configuração da sociedade apenas, basta a própria humanidade reconfigurar a sociedade e o mundo se transformará em um paraíso. É partindo de pressupostos semelhantes que diversos autores otimistas do iluminismo, sobretudo o francês, escreverão ensaios, artigos e livros com suas ideias de sociedade perfeita e os modos de alcançá-la. O homem iluminista, finalmente, tomou o lugar de Deus e destituiu a religião tradicional de seu posto como condutor para a moral, o sentido da vida e a redenção do mundo. A humanidade chegara ao seu ápice e não precisava mais de Deus, mas apenas de um bom projeto político, homens engajados e força de vontade. Estavam aqui criados os pilares da religião política.

A irracionalidade e as consequências desastrosas da religião política

O iluminismo vendeu à humanidade a ideia de que podia redimir o mundo sem Deus, através de algum plano político. Mas que plano? Como alcançá-lo? Cada pensador tem seu próprio conceito. E que ganhe o que conseguir emplacar o projeto mais bruto. Aqui começam os problemas. O primeiro eco prático da religião política ocorre na Revolução Francesa. Uma revolução regada aos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade e um sonoro “não” à religião tradicional. Aos olhos dos iluministas, a primeira oportunidade de provar ao mundo suas ideias. “We can do it!”. O primeiro paraíso na terra está para sair do forno. Grande expectativa. O resultado? Err, bem... Um período do terror entre 1793 e 1794 instaurado pelos radicais jacobinos, que levou mais de 30 mil pessoas à morte por repressão; uma forte instabilidade política causada pelas lutas revolucionárias pelo poder; degradação moral, perseguição religiosa, perseguição política e, por fim, a assunção de um novo ditador, Napoleão Bonaparte, em 1799. Dez anos de violência e sangue que não levaram à nada.

Alguns pensadores da época, como Edmund Burke, perceberam os erros da Revolução Francesa desde seu início. O problema não estava em querer mudanças e lutar por elas, mas sim na forma como isso era feito e os fins que eram visados. A ruptura total e radical com tudo o que se via pela frente não levaria à construção de um mundo bom, mas à criação de instabilidade política e destruição de bases importantes da sociedade que levaram anos para serem erguidas e até mesmo pilares eternos. Os fins utópicos de uma sociedade perfeita só poderiam gerar frustração para os bem intencionados e oportunidades para os de mau caráter. A destruição indiscriminada de toda a estrutura da sociedade imbuiria o povo de desprezo pela prudência, pela sabedoria dos mais velhos, pelas lições da experiência e da história; formaria um povo de um espírito eternamente revolucionário, sem raízes em nada e, portanto, incapaz de reformar. Burke lembra que é mais fácil destruir do que construir e que, portanto, mudanças devem ser muito bem pensadas, no objetivo e no modo como serão feitas. A Revolução, como um adolescente inconsequente, não quis observar estas regras.

O espírito revolucionário permanece vivo após a Revolução Francesa e irá contaminar a muitos outros autores, dentre os quais se destacam Karl Marx e Friedrich Engels, que formularam a doutrina comunista ou marxista. Os dois autores dão alguns passos ainda mais ousados na consolidação da religião política. Deus agora é totalmente retirado de cena. Segundo eles, Deus não existe e a religião tradicional não passa de um ópio para o povo. Agora, o homem não reconhece mais a Deus nem mesmo como criador e fonte da moral e da razão. A divinização de nossa espécie está completa. Somos deuses. 

Abraçando os ditames da religião política, a síntese da doutrina marxista propõe que o grande problema do mundo é a luta de classes. Há, em toda a história, uma luta interminável entre uma classe dominante e uma classe oprimida. Essa luta chega ao seu ápice no capitalismo. De um lado a classe proletária, oprimida, explorada, miserável. De outro lado, a classe burguesa, rica, dona dos meios de produção, exploradora. É desse cenário que surge, para os autores, a ganância, a violência, o desespero, as guerras, a fome, a destruição. E o que fazer para mudar isso? Atacar a base dessa desigualdade, a fonte dessa luta: a propriedade privada. Esse é o grande plano político redentor de Marx e Engels. É o que irá trazer a salvação do mundo.

Note que todos os elementos da religião tradicional estão no marxismo, como também estavam na Revolução Francesa. Há uma noção de moral objetiva: Marx e Engels olham para a exploração do proletariado e julgam que isso é mau, errado, injusto. Não é, para eles, uma opinião, mas um fato. É um juízo de valor e moral. Há uma noção de sentido individual e coletivo da vida: Marx e Engels desejam (ou, ao menos, vendem a ideia de que desejam) fazer algo por essas pessoas. É o que irá dar sentido às suas vidas e às vidas de outras pessoas. Há uma noção de redenção: a situação caótica do mundo não é normal e precisa ser mudada. Como se não bastasse, é possível ver no marxismo uma história de queda original do homem, um inimigo da raça humana a ser destruído, um Apocalipse e um paraíso final para os justos. Todos os elementos da religião tradicional presentes na cultura (sobretudo na visão judaico-cristã, mas também em quase todas as religiões) em nossos três sensos psicológicos inatos.

Não obstante, ao retirar Deus da equação, o marxismo tornou-se completamente falto de sentido lógico. Para começar, a existência de uma moral objetiva só é possível se ela estiver baseada em algo que transcende tempo, espaço, cultura, hábitos, gostos, instintos biológicos, etc. Se ela está baseada em qualquer desses elementos, não passa de algo aleatório, circunstancial e subjetivo. Para que uma ação seja considerada moralmente errada ou certa, justa ou injusta, boa ou má, independente de tempo, lugar ou cultura, a moral precisa estar além desses fatores, além do universo, fincada em algo imutável e acima de tudo. Uma vez que a moral é um atributo pessoal, esse algo só pode ser um ser pessoal. Assim, qualquer que sustente a existência de uma moral objetiva, está obrigado logicamente a aceitar que há um ser pessoal transcendente que é fonte da moral, o qual tradicionalmente chamamos de Deus. Esse conceito é explicado com mais detalhes em dois artigos que produzi a respeito do argumento moral para a existência de Deus (aqui e aqui), os quais fazem parte de uma série.

Ora, se a moral objetiva só pode existir no caso de Deus existir, anular Deus da história é anular a própria existência de moral objetiva. Sem essa fonte pessoal transcendente, a moral não passa de uma ilusão. Não há obrigação, direitos ou deveres reais. Não há uma base para dizer que algo é bom ou mau, de fato. Há simplesmente algumas regras de convivência que inventamos como meio de autoproteção. Invenção. É isso que a moral se torna em um mundo sem Deus.

Aqui nos perguntamos: de onde Marx e Engels tiraram a ideia de que a exploração de uma classe sobre a outra é algo ruim? De qual base transcendente essa ideia adveio? Se ela não veio de uma base transcendente, ela não é uma verdade absoluta e imutável. Se proveio de algo dentro do universo, como a época, o lugar, a cultura ou qualquer outra coisa, então é relativo e mutável. Logo, não é moral objetiva, mas subjetiva. E se é subjetiva, não é moral, mas apenas opinião.

Em um mundo sem Deus não há mais como valorar as ações ou pensamentos. Não há atos bons, ruins, justos, injustos, certos, errados. Há apenas atos. Atos sem valor. O mundo sem Deus não é imoral, mas amoral. Percebe qual é o primeiro problema do marxismo? Ele aponta uma injustiça em um mundo onde o conceito de injustiça já não faz o menor sentido, pois Deus não existe e nada tem valor objetivo.

Isso nos leva ao segundo problema do marxismo: se não há como valorar nada, também a vida humana e o que dela decorre não tem valor. Sem uma escala real de valores, não há como falar em sentido coletivo da vida. Afinal, não há mais como se dizer que a vida humana é importante e que devemos lutar por liberdade, igualdade, preservação do meio ambiente, manutenção da espécie, combate às injustiças, amor ao próximo. Sem uma escala de valores real restam apenas as perguntas: por que deveríamos? Para quê? Quem disse que devemos? Qual a base disso? A própria palavra “dever”  não descreve mais nada real. Ninguém deve nada.

O mundo sem escala real de valores é um mundo sem Deus, a real fonte de valores. E sem Deus, a existência humana é apenas um acidente cósmico sem propósito. Ninguém nos projetou. Apenas surgimos. Não há um sentido para estarmos aqui, não há o que confira à nossa vida ou ao que quer que façamos uma importância objetiva. Não existe um norte que nos diga para onde devemos ir, simplesmente porque não faz diferença, porque não fomos projetados por ninguém superior, porque não há regras nem valores reais sobre todos nós, porque um dia todos nós deixaremos de existir.

Sem Deus e, consequentemente, sem uma escala de valores, o que resta são tentativas pessoais de dar algum sentido à própria vida. Mas tentativas pessoais são apenas isso: tentativas pessoais, gostos, opiniões. Se Marx e Engels se baseavam apenas em gosto quando diziam que a exploração era errada, então não se tratava de verdade absoluta, mas apenas do desejo pessoal deles, o qual era uma ilusão.

Aqui se chega, por fim, ao terceiro problema do marxismo: sem moral, escala de valores e sentido coletivo da vida, também não há sentido lógico na redenção. O conceito de redenção só pode existir se realmente existir bem e mal, e um propósito superior para a vida humana. Sem esses fatores não há do que redimir o mundo. O desejo de mudar o mundo e o sentimento de que isso é uma obrigação só são reais se Deus também for uma realidade. Do contrário, o que temos são apenas invenções humanas; um ópio para esquecer que a vida nada é. Eis uma grande ironia: Marx e Engels chamavam a religião tradicional de ópio do povo. Mas se Deus existe, a religião tradicional é a verdade. Se, no entanto, Deus não existe, a dupla estava absolutamente dopada de ópio. Ou seja, o próprio marxismo, em sua estrutura, é um ópio, uma ilusão.

Ainda que o marxismo revisse seus conceitos, sustentando que Deus existe, para poder contar com a moral, a escala de valores e o sentido da vida, não teria sentido lógico. Isso porque a redenção só pode ser levada a cabo por Deus, que é perfeito. O homem, por sua imperfeição, não tem aptidão para mudar o mundo. Este foi o erro em que caíram os revolucionários franceses. E foi o erro em que caíram também todos os revolucionários comunistas. Mais uma vez: expectativas. O mundo será mudado. “We can do it!”. E o resultado? Os diversos regimes comunistas/socialistas que se instauraram pelo mundo no século XX geraram ditaduras, perseguições políticas, perseguições religiosas, guerras civis e fomes extremas.

O marxismo falhou em se tornar a salvação da humanidade. E falhou em todas as áreas que poderia. A começar por sua visão antropológica otimista. Mesmo que o ser humano fosse bom por natureza, como sustentava Rousseau, ele está corrompido pela corrupção da sociedade. Corrompido culturalmente. De que maneira homens corrompidos poderão descorromper a sociedade? De que maneira homens imperfeitos em uma sociedade corruptora não se tornarão demônios ao receberem nas mãos todo o poder? Pois é isso o que o marxismo propõe: todo o poder nas mãos do Estado, o qual é dirigido por homens socialmente corrompidos. Isso se a inclinação ao mal não está na natureza humana, o que torna tudo ainda mais difícil. De que maneira o homem pode obrigar o mundo todo de seguir suas ideias de salvação do mundo senão por meio da força? É o que propõe o marxismo. É o que propôs a Revolução Francesa. A redenção não veio. A redenção não pode vir pela força de homens maus em uma ditadura sanguinária.

O marxismo falhou também em ser a redenção do mundo na área econômica. Ludwig von Mises, economista austríaco, já previa, em um artigo publicado em 1920, que os sistemas socialistas são impossíveis de funcionar economicamente. Sua análise contava com “profecias” sobre escassez de alimentos e desordem na produção. Década após década, elas foram se cumprindo em cada economia planificada. O sucesso da teoria de Marx e Engels se mede apenas pela riqueza e o poder dos burocratas e ditadores. Para a população o saldo foi amargo. Miséria, repressão e cerca de 100 milhões de mortos só no século XX. Os regimes socialistas continuam matando no século XXI, na Coreia do Norte, em Cuba e na Venezuela.

Os religiosos políticos poderiam ter desistido de suas premissas ilógicas e reconhecido que estavam errados. Mas cada qual escolheu permanecer com seu projeto salvador. Na Itália, Benito Mussolini, que passou toda a juventude no marxismo, percebeu que ideias como religião, pátria e raça poderiam ser úteis para unir o povo em prol de um ideal de nova sociedade. Criou o fascismo, que via no poder absoluto e perpétuo do Estado a fonte moral, o sentido coletivo e a redenção da sociedade italiana. Uma ideia absurda, um tirano, a habitual sede de poder do ser humano e mais resultados negativos: mortes, repressão, perseguição.

Adolf Hitler também fez sua tentativa. Em seu livro “Mein Kampf”, emplaca a ideia de que o grande problema da sociedade eram os judeus, que espalhados por toda a Europa, pretendiam dominar o mundo. Aqui estava eleito o inimigo. Uma raça degenerada, que enriquecia às custas dos alemães e de outros povos europeus, e que saíam lucrando tanto do lado burguês, quanto do lado comunista. Para Hitler, o marxismo não passava de um engodo criado por judeus para enganar proletários. Não se tratava de um socialismo de fato, mas de uma doutrina judaica que pretendia destruir fronteiras e dar poder ao que Hitler chamava de “Capitalismo Internacional Judaico”. Apenas o nacional socialismo poderia salvar a Alemanha e o mundo desta desgraça. E era justamente a raça ariana de sangue alemão que estava mais apta para essa missão.

Forte intervenção do governo, economia planificada, totalitarismo, perseguição de um grande inimigo da revolução, repressões. O nazismo de Hitler seguiu o mesmo script da Revolução Francesa, dos socialismos marxistas e do fascismo de Mussolini. Milhões de pessoas foram mortas. Uma guerra mundial foi gerada. E nada do mundo perfeito ser construído.

O alto clero da religião política e ópio dos intelectuais

Esses movimentos desastrosos poderiam servir de exemplo para o homem abandonar de vez a religião política. Não deu certo para o povo. Só dá certo para os ditadores, para os que têm sede de riqueza e poder. O sangue derramado de milhões de vítimas deixa isso mais do que claro. Entretanto, pessoas em locais estratégicos da sociedade continuam alimentando as bases da religião política. Diversos jornalistas, sociólogos, antropólogos, biólogos, psicólogos e professores universitários passam suas vidas panfletando ideias como a de que o homem é um ser naturalmente bom e o problema do mundo não está na natureza humana; que a humanidade é perfectível e, portanto, capaz de construir um paraíso na terra através de um projeto político; que Deus não existe, ou é mero capacho da espécie humana, dependente de nossos projetos “infalíveis” de mundo paradisíaco, quando não um figurante irrelevante no grande palco da história.

Ideias originalmente bem intencionadas, surgidas de sentimentos humanitários sinceros, se tornam ferramentas de alienação de jovens universitários sonhadores, adolescentes irresponsáveis e, posteriormente, todo o restante do povo. As mesmas ideias são usadas por políticos e ideólogos para alcançar poder, fama status e riqueza. Ambientalismo, feminismo, movimentos negros, organizações pró-direitos humanos, grupos em favor de minorias oprimidas, tudo, absolutamente tudo, pode ser usado pelos burocratas do poder e seus ideólogos para legitimar o aumento do poder do Estado sobre a sociedade, o que garante muita influência, autoridade e riqueza para os que controlam o Estado ou seus parceiros de negócios e amigos próximos. E tudo, absolutamente tudo, pode ser vendido como um novo projeto redentor, infalível, repleto de sentido e moral, mas que no fim, sabemos, não dará em nada. A religião política tem um alto clero corrupto e uma horda de fieis enganados que sustentam seus dogmas ilógicos.

Nessa terrível contrafação da religião tradicional, um dos elementos mais importantes para a sua manutenção é a mentira. A religião política mente incessantemente. Ela se coloca como a mãe das virtudes, em oposição à religião tradicional, principalmente o cristianismo. Há uma clara predileção pela religião política em atacar o cristianismo, já que é sobre as bases da religião cristã que todo o ocidente foi erguido e todo o mundo foi influenciado. A cultura judaico-cristã causa fúria nos religiosos políticos e, por isso, há uma cruzada contra tudo o que é cristão. Uma cruzada de mentiras. 

Pela boca de cientistas mal intencionados (ou mal informados), a religião política dirá que o cristianismo é contrário à ciência. Mentira! Os primeiros grandes cientistas do ocidente eram, em sua maioria, cristãos devotos, que entendiam o conhecimento como benção de Deus e evidência de sua sabedoria. A ciência só floresce no mundo por causa do pressuposto cristão de que um Deus racional projetou um universo também racional, regido por leis fixas. Este pressuposto está na Bíblia. Como também está na Bíblia uma série de passagens incentivando cada fiel a manter uma postura de busca pela sabedoria e questionamento para conhecer a verdade. Não fossem os pressupostos cristãos, ainda estaríamos adorando o sol, a lua, comendo tribos inimigas e matando casuais Sócrates que surgissem com uma filosofia mais racional. É o que o mundo pagão fazia.

Por feministas modernas, a religião política dirá que o cristianismo é machista e oprime as mulheres. Ela não mencionará que a Bíblia está repleta de textos que ordenam o respeito e o amor às mulheres, ou que grande parte das primeiras feministas eram cristãs devotas, ou que muitos homens cristãos lutaram ao lado das mulheres pelos direitos e dignidade. O feminismo moderno simplesmente apaga a participação cristã da história e deixa de representar mulheres religiosas e conservadoras, preferindo seguir uma agenda política.

Por pretensos defensores dos pobres e oprimidos, a religião política dirá que a religião cristã nada faz pelos desfavorecidos. Não dirá, é claro, que hospitais e escolas públicas existem por causa do cristianismo. Não mencionará que a Bíblia conta com dezenas de textos repetindo como ordem a assistência aos órfãos, viúvas e estrangeiros (as classes mais necessitadas das épocas bíblicas). Não lembrará o quanto as milhares de igrejas e os milhões de cristãos espalhados pelo mundo ajudaram, ao longo dos séculos, e ajudam ainda hoje pessoas em dificuldade com cestas básicas, remédios, tratamentos médicos, apoio psicológico, construção de abrigos, etc. As grandes instituições cristãs de apoio e o grandes nomes cristãos da ajuda humanitária serão propositalmente esquecidos.

A religião política não lembrará que foi pela luta de milhares de cristãos verdadeiros que a escravidão, tão comum na história do mundo, fosse gradualmente amenizada até ser extinta no mundo ocidental. Nem reconhecerá que, quando a prática ressurgiu, por uma influencia de tribos africanas que ainda a praticavam e negociavam seus escravos para europeus, mais uma vez milhares de cristãos verdadeiros lutaram contra ela, baseados na noção bíblica de que todos os homens são iguais em dignidade, pois foram criados à imagem e semelhança de Deus, o mesmo que se sacrificou pelo mundo mediante Jesus, o Cristo.

Por mais que a religião tradicional tenha sofrido com distorções internas ao longo dos séculos, incluindo aí o cristianismo, o fato é que o problema nunca esteve na crença em Deus ou na sustentação da Bíblia Sagrada. O surgimento de religiões violentas, imorais, discriminadoras e ilógicas são distorções da religião original, da tradição adâmica da qual todas as outras descendem. Essas distorções se distanciam da vontade de Deus. Da mesma forma, as distorções no interior do cristianismo (que se vê como herdeira direta da religião original), levam muitos cristãos a agirem contrariamente ao próprio ensino bíblico, destoando da vontade santa de Deus.

Um cristão que espanque sua esposa ou que, podendo ajudar, não estende a mão ao necessitado, não está agindo em conformidade com o cristianismo puro, com o padrão bíblico, com o desejo de Deus. E quanto mais um cristão se afasta do cristianismo, obviamente menos pode ser chamado de cristão. O problema, portanto, não está no cristianismo, mas em suas distorções. Ao homem que quer ser um bom cidadão, filho, esposo, pai, vizinho, amigo, enfim, humano, basta ser um bom cristão. O mesmo serve para mulheres. O cristianismo, quando seguido puramente, não gera homens dispostos a matar, roubar e fazer sofrer, mas a se doar a Deus e ao próximo por amor. E é por meio desse amor (para os cristãos, gerado por Deus em nós através de nossa aceitação dEle), que podemos nos descorromper gradualmente e impactar positivamente o mundo.

O cristianismo verdadeiro mantém os pés no chão. Reconhece a miséria interior do ser humano. Somos inclinados ao mal, imperfeitos moral e administrativamente. É mais fácil errar do que acertar. É mais fácil distorcer do que seguir a verdade. O cristianismo verdadeiro põe o homem em seu lugar. A mensagem básica da tradição judaico-cristã ao homem é: não confie plenamente em si mesmo, nem em outros homens, mas em Deus e seu amor. Não será por meio de planos políticos que acharemos a real fonte de valores, o sentido da vida e a redenção do mundo. Não é uma revolução mundial que mudará a história da humanidade e nos preencherá.

O sentido da vida está em algo muito menor que transformar o mundo em um paraíso, mas, ao mesmo tempo, muito mais trabalhoso: mudar a si mesmo e amar indivíduos. É fácil querer mudar o mundo. É difícil se dispor a mudar seus próprios maus hábitos e se tornar alguém cada vez mais amoroso, prestativo, sóbrio e perdoador. É fácil amar a humanidade. A humanidade é algo abstrato. Um agregado de pessoas desconhecidas. É difícil amar o indivíduo, aquele que está ao seu lado, que você vê, que é real.

No fim das contas, a proposta do cristianismo é dura e realista. O mundo continuará sendo um lugar cruel, injusto e difícil até que Jesus Cristo volte para resgatar aqueles que o aceitaram, condenar os que preferiram o mal e restaurar a Terra. A regra é clara na visão judaico-cristã: não há redenção, nem sentido, nem moral fora de Deus. Sem Deus, tudo o que nos resta é um mundo amoral, sem objetivo e sem esperança. A vida não é nada e a morte nos espera. E é para fugir a esse desespero de uma existência sem sentido que a religião política surgiu e sobrevive. A religião política é o ópio dos intelectuais antirreligiosos e anticristãos.

O fato inconveniente e inescapável é que todas as filosofias secularistas produzidas pela religião política não passam de plágios do cristianismo, contrafações da cultura religiosa que se tornou o pilar do mundo, o responsável cultural por elevar na mente e no coração de crentes e descrentes os nossos três sensos naturais. Buscando anular Deus e destruir o cristianismo, tais filosofias secularistas não conseguem se desvincular das sólidas bases de valor, sentido e redenção fincadas pela religião cristã na sociedade. São cristianismos distorcidos e sem Cristo, buscando um sentido fora de Deus. No entanto, se realmente há um Deus que tudo transcende, o mundo encontra o seu sentido apenas nesse Deus. E o cristianismo, a grande pedra no sapato desses intelectuais soberbos, provavelmente é tudo o que Homo spiritualis precisa para ser moral, completo e redimido.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A Igreja Católica Apostólica Judaica

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Se fosse necessário dar um nome para a Igreja instituída por Jesus no primeiro século, esse nome deveria ser "Igreja Católica Apostólica Judaica" e não romana. Os primeiros cristãos eram judeus e continuaram se sentindo judeus após a ascensão de Cristo aos céus. Jesus não representava, para eles, o fundador de uma nova religião, mas o Messias Judaico. Assim, era natural continuar indo à sinagoga aos sábados, lendo as Escrituras Judaicas e cumprindo seus mandamentos. Também os gentios não enxergavam esses primeiros cristãos como membros de uma nova religião, mas como judeus comuns, frequentadores de sinagogas e guardadores do sábado. 

O evangelista Lucas, autor do livro bíblico Atos dos Apóstolos, menciona a ida de cristãos à sinagogas judaicas de pelo menos nove cidades pagãs: Damasco (At 9:2), Salamina (At 13:5), Antioquia (At 13:14), Icônio (At 14:1), Tessalonica (At 17:1-4), Bereia (At 17:10), Atenas (At 17:16-17), Corinto (At 18:1-4) e Éfeso (At 18:19). O historiador também cita o costume de Paulo e seus companheiros de dedicarem o sábado a Deus nas sinagogas (At 13:16, 13:42-22, 17:1-3 e 18:1-4). O apóstolo Paulo, aliás, quando trabalhou confeccionando tendas em Corinto, disponibilizava justamente o sábado para pregar o evangelho o dia inteiro. E mesmo após se irritar com judeus incrédulos e dizer que a partir dali focaria nos gentios (At 18:6), ele torna a pregar em sinagogas, na cidade de Éfeso, permanecendo ali por dois anos e convertendo tanto judeus naturais quanto gregos que iam à sinagoga (At 18:18-19 e 19:8-10). 

Ainda sobre Paulo, suas defesas contra acusações de judeus incrédulos também denotam uma forte sintonia com os hábitos judaicos. Ele reafirma seu judaísmo étnico e suas raízes religiosas judaicas (At 22:3); considera-se fariseu (At 23:6); afirma estar sendo julgado apenas por crer na mesma coisa que criam seus acusadores: a ressurreição dos mortos (At 23:6);  ressalta que acredita em tudo o que está na lei e nos profetas, incluindo a ressurreição - tal como os fariseus que o acusavam (At 24:14-15); deixa claro que foi pego por seus oponentes sem estar transgredindo a lei, desempenhando ainda uma prática judaica (At 24:17-19) e torna a dizer que está sendo julgado apenas por crer na ressurreição (At 24:20-21). 

Em Atos 25:7, vários judeus incrédulos rodeiam o apóstolo e o acusam, perante o governante romano Festo, de várias transgressões que não podiam provar. Paulo responde, no verso 8: "Nenhum pecado cometi contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra Cesar". Continua nos versos 10 e 11: "Estou perante o tribunal de César, onde convém seja eu julgado; nenhum agravo pratiquei contra os judeus, como tu bens sabes. Caso, pois, tenha eu praticado algum mal ou crime digno de morte, estou pronto para morrer; se, pelo contrário, não são verdadeiras as coisas de que me acusam, ninguém, para lhes ser agradável, pode entregar-me a eles". 

Fica claro que Paulo tinha a convicção sincera de não estar transgredindo ponto algum do judaísmo. Sua visão, como a dos demais cristãos, não era a de um rompimento com a religião judaica e a aceitação de uma nova religião. Era, sim, da manutenção de uma mesma religião, mas agora com a revelação plena do Messias. Podemos ver esse mesmo senso de pertencimento à religião judaica no apóstolo Pedro. Em Atos 10, quando Pedro tem a visão dos animais imundos e Deus lhe ordena que se alimente deles, responde: "De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum ou imunda" (At 10:14). A visão era uma parábola, conforme a continuação do capítulo 10 e o capítulo 11 demonstram. Os animais imundos simbolizavam os gentios e a instrução da parábola era que os judeus deveriam pregar o evangelho a estes, sem distinção. Para os propósitos deste post, contudo, o que importa é enfatizar que Pedro continuava guardando a dieta alimentar judaica. 

O apóstolo João também dá indícios de que ainda se sentia um judeu (ou que Jesus queria que ele se sentisse assim). Em Apocalipse 2:9 e 3:9, descrevendo as palavras que recebeu de Jesus, utiliza os termos "Sinagoga de Satanás" e "judeus que a si mesmo se declaram judeus e não são" para criticar uma classe de desobedientes. O Apocalipse, aliás, está repleto de termos e conceitos judaicos advindos dos livros proféticos do Antigo Testamento. Parece haver não só uma visão do judaísmo como a religião dos primeiros cristãos como um cuidado, sobretudo nesses dois textos, de mostrar aos cristãos que eles não deveriam perder suas raízes judaicas. Não nos referimos, claro, aos erros, preconceitos e tradições humanas que se infiltraram no judaísmo, mas sim daquilo que compunha, de fato, o conjunto de princípios dados por Deus ao povo judeu. Embora Deus já não tivesse um povo no sentido étnico, com uma pátria, uma língua e um governo teocrático, o judaísmo como religião permanecia. 

O apóstolo Tiago, irmão de Jesus, também demonstrava manter fortes laços com o judaísmo. Quando Paulo foi até Jerusalém, após alguns anos de missão, ouviu dele e dos presbíteros da Igreja de lá: "Bem vês, irmão, quantas dezenas de milhares de judeus que creram, e todos são zelosos da lei" (At 21:20). É evidente, como a própria continuação desse texto indica, que entre os judeus crentes em Cristo havia muitos judaizantes. Estes não entendiam que, conquanto a religião permanecesse a mesma, alguns preceitos ritualísticos haviam deixado de vigorar, por previsão da própria lei judaica, em função do sacrifício de Cristo. Isto não era uma quebra da lei ou uma abolição do judaísmo, mas apenas o cumprimento de uma previsão que estava de acordo com a Lei e os Profetas. Era por isso que Paulo se sentia confortável em dizer que não transgredia qualquer lei judaica e permanecia judeu. Era verdade, não mera estratégia mentirosa para se livrar de condenações. 

O problema é que os judaizantes não entendiam assim. Para eles, Paulo ensinava a transgressão da lei (At 21:21) e o boato acabava sendo comprado por grande parte da Igreja de Jerusalém, além dos judeus incrédulos.

O próprio Tiago, no entanto, não era um judaizante. No primeiro grande concílio da Igreja Cristã, em Jerusalém, apóstolos, presbíteros e alguns nomes importantes entre os primeiros cristãos se reuniram para discutir se a circuncisão deveria ser requerida dos gentios para a salvação. Aparentemente, Jesus não havia deixado qualquer observação quanto a isso e grande controvérsia estava ocorrendo entre os partidários da circuncisão para salvação e os adeptos da incircuncisão (At 15). Houve um grande debate nesse concílio, mas ao fim dos testemunhos de Pedro, Paulo e Barnabé à favor da não necessidade de circuncisão, Tiago, como líder da Igreja em Jerusalém, tomou a palavra final e também votou pela desobrigação do rito aos gentios conversos (At 15:13-21). Mas, apesar de não judaizante, Tiago permaneceu judeu. São dele as contundentes palavras:

"Se vós, contudo, observai a lei régia segundo a Escritura: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo', fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo arguidos pela lei como transgressores. Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: 'Não adulterarás' também ordenou: 'Não matarás'. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade" (Tg 2:8-12).

Essa relação positiva com o decálogo era comum a todos os primeiros cristãos. Paulo, por exemplo, cria claramente na vigência do decálogo (Rm 13:9, Ef 6:2, I Co 7:18-19 e Rm 2:17-29) e asseverava que quem se mantinha na transgressão dos mandamentos morais de Deus, que são derivados do decálogo, não entraria no Reino de Deus (I Co 6:9-10 e Gl 5:19-21). Embora seu ensino fosse de que os mandamentos não salvam, nem purificam, apenas demonstram nossos erros, ele não deixa de afirmar que a lei não é pecado (Rm 7:7), que ela é santa e que seus mandamentos (tal como o de “não cobiçar”) são santos, justos e bons (Rm 7:12). Ele também faz questão de dizer que a lei é espiritual e que o ser humano é que é carnal (Rm 7:14). Ele diz ainda que a lei é boa (Rm 7:16) e que, embora ele não consiga seguir a lei com sua própria força (pois é pecador), ele tem prazer nela (Rm 7:22). O único problema da lei, segundo o apóstolo Paulo, é que ela não tem como fazer o pecador segui-la. Mas Paulo ensina que esse problema é resolvido por Jesus Cristo.

João, por sua vez, enfatizou muito a observância dos mandamentos em seus escritos (I Jo 2:3-6, 3:22-24 e 5:2-3; II Jo 1:5-6; Ap 12:17 e 14:12). É verdade que João costuma a usar a fórmula resumida do decálogo, que foi ensinada por Jesus (Mt 22:36-40 e Mc 12:28-34). Mas essa fórmula de Jesus, longe de anular o decálogo, apenas demonstra que o mesmo possui dois mandamentos principais da Torá que lhe servem de base. Assim, um judeu que observe os dois, automaticamente observará todo o decálogo e mais todas os mandamentos morais que se desdobram a partir do decálogo, desde não assassinar até não odiar.

Interessante é que a descrição feita pelo evangelista Marcos nos traz uma prévia do que os autores do Novo Testamento discutiriam sobre a lei décadas mais tarde. Após Jesus responder quais eram os dois mandamentos-base de todo o conjunto de leis da Torá, o escriba que o interpelou disse: “Muito bem, Mestre. Com verdade disseste que ele é um, e fora dele não há outro; e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios” (Mc 12:32-33). Marcos continua sua descrição da cena: “E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: ‘Não estás longe do reino de Deus’. E ninguém ousava mais interrogá-lo” (Mc 12:34). O leitor percebe? Jesus já deixava uma pista de que a discussão posterior seria mandamentos morais x sistema sacrificial – o qual se relacionava intimamente com as festas e feriados judaicos.

Que Jesus Cristo demonstrou grande reverência pelo decálogo fica claro nas passagens que descrevem o diálogo com o jovem rico (Mt 19:16-19, Mc 10:17-19 e Lc 18:18-20), no sermão do monte (Mt 5:17-20) e na última ceia com seus discípulos (Jo 14:15-21 e Jo 15:9-10).

A exposição deste pano de fundo nos ajuda a visualizar melhor como o afastamento entre judaísmo e cristianismo foi muito gradual nas primeiras décadas após a ascensão de Cristo e que não havia uma identidade cristã própria e plenamente desconectada do judaísmo na Igreja. A Igreja das primeiras décadas era formada basicamente por judeus, por gentios frequentadores de sinagogas e por judaizantes. As sinagogas continuaram sendo o local de adoração de muitos cristãos e foi também, por bastante tempo, o principal local de pregação do evangelho, onde eram alcançados judeus e gentios. O ponto de encontro entre o evangelho e os gentios era justamente às sinagogas plantadas nas cidades pagãs. 

Os cristãos aproveitavam as sinagogas judaicas para pregar justamente porque ainda se sentiam judeus e entendiam que pregar Jesus nas sinagogas não era pregar outra religião, mas apenas anunciar as boas novas do Messias Judaico. Era tão natural quanto alguém hoje ir a uma igreja de outro país, ler a Bíblia e dizer que Jesus é Deus. Seria estranho, no entanto, fazer isso numa Mesquita islâmica, num centro de Umbanda/Candomblé  ou mesmo num Salão do Reino das Testemunhas de Jeová (que embora creiam na Bíblia, não creem na divindade de Jesus, nem na Trindade).

O cenário da igreja do primeiro século é um cenário majoritariamente judaico e a sede da Igreja era a Congregação em Jerusalém, na qual os apóstolos ficaram durante muito tempo. E é por isso que a guarda do sábado durante esta época foi (com alta probabilidade histórica) algo bastante natural e intuitivo. Na Igreja de Jerusalém, conforme o próprio texto de Atos afirma, havia dezenas de milhares de judeus crentes zelosos da lei. Ou seja, guardavam o sábado e frequentavam sinagogas. Os gentios crentes de lá, portanto, certamente faziam o mesmo. O hábito ainda era seguido por todos os judeus e gentios crentes das cidades pagãs que mantinham sinagogas, conforme também os textos apontam. 

Nas duas décadas finais do primeiro século, no entanto, os cristãos já não tinham mais nenhum contato com sinagogas e a cultura judaica. Esse afastamento provavelmente se iniciou por volta do ano 70 d.C. com o aumento da antipatia dos judeus incrédulos para com os cristãos. Por volta do ano 90 d.C. já estava consolidada efetivamente a divisão e o cristianismo já não era mais visto, nem mais se via, como fazendo parte da religião judaica. Estavam abertas as portas para mutações em sua teologia em busca de uma identidade própria, desconectada o tanto quanto possível de suas raízes judaicas. É isso que vai alimentar, nas décadas seguintes, um sentimento antijudaico no que concerne a teologia cristã, a qual ajudará a colocar para dentro do cristianismo uma teologia que se orientava pelo antijudaismo em grande parte.

O vácuo deixado pela perda de importância da Igreja de Jerusalém (tão relevante para a Igreja nas primeiras décadas de cristianismo) e pela morte de todos os apóstolos (que eram judeus) será suprido por uma influência cada vez maior da Igreja em Roma. Por duas razões básicas: ser a Igreja da capital do império e contar com um grande número de cristãos não provenientes do judaísmo. Assim, de maneira gradual, a Igreja que se via inicialmente como judaica e detinha sua matriz de influência na cidade de Jerusalém, passará a forjar uma nova identidade religiosa/cultural, passando a se enxergar como não judaica e adotando como matriz a cidade de Roma. 

Como se vê, este processo é bem anterior ao imperador Constantino. Na verdade, foi esta separação vagarosa entre cristianismo e judaísmo, seguido do desenvolvimento de uma teologia cristã não judaica (e até antijudaica em alguns pontos), que pavimentou o caminho para que um dia o referido imperador pudesse iniciar a união entre a Igreja Cristã e o Estado Romano, no quarto século. E é outro imperador, chamado Justiniano, que finalizará o processo no sexto século. A Igreja se torna, então, totalmente romana, como se o cristianismo tivesse surgido em Roma. Suas raízes judaicas jazem totalmente esquecidas ou, quando muito, taxadas como judaizantes. 

Obs.: Esse texto é um resumo das ideias expostas no meu texto: “Quinze razões para guardar o sábado – Parte 2”. A razão 10, que fala sobre as raízes judaicas da Igreja Primitiva, eu usei quase na íntegra aqui. Já a razão 11, que fala sobre a relação dos primeiros cristãos com o decálogo e a lei, eu só usei alguns trechos. Recomendo a leitura do texto citado, e com a Bíblia do lado, para checar todas as referências.

sábado, 26 de novembro de 2016

Uma reflexão adventista sobre a morte de Fidel Castro

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Morreu hoje, aos 90 anos, o ex-ditador cubano Fidel Castro. Sua morte nos relembra uma valiosa lição: neste mundo todas as coisas passam. Castro procurou criar uma nova sociedade. Queria fazer um mundo a sua imagem e semelhança, ser ele mesmo a redenção dos homens. Talvez tivesse uma boa intenção no início. Quem sabe, realmente se incomodava com o sofrimento do gênero humano? Possivelmente, em algum ponto de sua distante juventude, tenha sentido, de fato, a dor de alguém e desejado sinceramente fazer um mundo melhor. No entanto, como todos aqueles que pretendem ser a redenção do mundo, Castro rumou pelo caminho da prepotência e do autoritarismo. Querendo agir como Deus, tornou-se assassino e repressor. Pretendendo, talvez, fazer um Céu na terra, criou um inferno. E nesse inferno buscou, egoisticamente, uma situação melhor para si mesmo.

Castro, como todos os ditadores, é mais um símbolo da completa falibilidade humana e da tolice da salvação pelas obras. Descrente de Deus, mas crente em sua própria capacidade, Castro não conseguiu redimir o seu povo; não conseguiu ser o salvador que talvez um dia tenha pretendido ser; não conseguiu criar um mundo realmente bom. Castro não salvou a seus conterrâneos, tampouco a sua própria vida. Deixa para trás toda a sua riqueza, todo o seu poder e toda a sua vivacidade que outrora tivera. Nada leva desta terra, exceto, simbolicamente, as mãos sujas com o sangue de milhares de pessoas inocentes.

Terá ele aceito a Cristo nos últimos dias de sua vida? Terá ele se arrependido de todas as maldades que conscientemente perpetrou ao seu povo? Pouco provável. Fidel Castro sai hoje da existência, tendo levado uma vida vazia, em busca do impossível, querendo fazer as coisas do seu próprio jeito, fugindo de Deus. Viveu iludindo-se e iludindo a outros. Foi transformado em santo por muitos, mas não fez qualquer pessoa se achegar a Jesus Cristo, o único e verdadeiro salvador. De que valeu a sua revolução? O sangue dos cristãos que matou clama na terra até hoje. E o seu povo está na miséria.

Castro matou e morreu; assim se resume a sua vida. E se morreu da maneira como viveu, uma terrível punição o espera e, por fim, a inexistência absoluta. Nenhum bom legado deixa. Espalhou apenas sofrimento e hoje muitos comemoram a sua morte. Que triste fim! Que triste existência! Para ele, que via Jesus apenas como um mero revolucionário, as palavras de Paulo vem bem a calhar: "Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens" (I Coríntios 15:19).

É isso. Fidel Castro agora está morto. Já nada mais pode fazer ou sonhar. E o mundo permanece tão ruim quanto há 50 anos, quando ele resolveu revolucioná-lo. Quem saiu ganhando nessa história? Apenas Satanás. Iludiu um homem e através dele milhares de outros. Deu-lhes uma falsa esperança. Uma esperança humana. Hoje nada mais resta de bom aos que morreram nessa crença falsa e vazia. Nós, porém, segundo a promessa de Cristo, "esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça" (II Pedro 3:13).

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Por que a legalização do aborto é um absurdo moral e jurídico?

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É bastante comum ouvir a seguinte alegação abortista: "É claro que sou contra o aborto. Eu não abortaria. Mas sou à favor é da legalização. É diferente". O argumento implícito aqui é o aborto pode até ser imoral, mas a legalização é apenas uma questão civil e não há imoralidade em ser favorável a ela. Esse argumento é válido? Não, não é e vamos expor isso.

A questão toda, como já mostrei em outra postagem, gira em torno de uma pergunta básica: o que está no interior do útero de uma mulher grávida é uma vida humana ou não? Se é uma vida humana, então aborto é assassinato. Se não é uma vida humana, então não se trata de um assassinato. Quanto a essa questão, não há razão lógica, nem científica para se crer que o embrião, o feto ou o bebê dentro do útero não é uma vida humana. Nem cito aqui a questão teológica, já que vamos falar de legalização e o Estado é laico.

Ora, se há uma vida humana dentro do útero e tirá-la é cometer assassinato (a morte de um inocente), então não podemos legalizar isso. Afinal, estaríamos legalizando um crime. Apelar para o fato de que a criança ainda não nasceu, não se desenvolveu e etc. não muda o fato de que estamos falando de uma vida humana. Na verdade, a questão aqui se agrava, pois se apelarmos para o desenvolvimento incompleto, estamos justificando o assassinato de um ser mais frágil, só porque ele é mais frágil. Então, não, não é correto legalizar.

Geralmente, o que se vai argumentar aqui depois é que a legalização do aborto seria uma questão de saúde pública, já que legalizando ou não, mulheres farão aborto. E é melhor elas fazerem numa clínica legalizada, sem correr risco de morrer. Mas esse argumento é ruim. Ele tenta justificar um assassinato apelando para o bem-estar das assassinas. Do ponto de vista puramente racional e legislativo, isso seria um absurdo. Ademais, com esse pensamento seria possível dizer: "Legalizando ou não o assassinato, o assalto, o roubo, o estupro, esses crimes vão continuar ocorrendo. Então, é melhor legalizar porque aí os criminosos não serão agredidos, nem as vítimas, já que os atos serão legais e elas não poderão reagir". Através dessa analogia, vemos que o argumento não faz sentido e é ridículo.

É claro que há casos mais específicos. Por exemplo, uma mulher pode ter sido violentada, ou a gravidez pode lhe causar risco de morte, ou a criança pode ser comprovadamente anencéfala. Nos dois últimos casos, é justo que a mulher opte pelo aborto. Num caso ela está escolhendo proteger sua vida. Legalmente falando é um direito legítimo. No outro caso, um bebê anencéfalo é um bebê natimorto. Se a pessoa for cristã e crer em milagres, ela pode levar a gravidez adiante, orando a Deus para que o quadro seja revertido. O mesmo no caso do risco de morte. Mas aí é algo que a lei não pode impor. É escolha pessoal.

Quanto ao primeiro caso, o do estupro, não é justo o bebê ser morto porque é fruto de estupro. Por outro lado, também não é justo que a mulher tenha um filho que definitivamente não escolheu ter e que é resultado de abuso. Neste caso delicado, eu, Davi, não tenho opinião formada sobre o que a lei deveria fazer. Do ponto de vista moral e espiritual, o aborto não é uma boa alternativa aqui. A mulher violentada, evidentemente, deve contar com todo o apoio, amor e conforto de sua família, amigos e Igreja, tanto para lidar com o abuso sofrido, quanto para procurar amar a criança, que nada tem a ver com a violência do estuprador. Se optar pelo aborto, penso ser algo compreensível, embora não a decisão mais acertada no âmbito moral e espiritual. Mas legalmente falando eu realmente não sei.

De qualquer forma, a lei brasileira prevê a possibilidade de aborto para esses três casos (estupro, alto risco de morte para a mãe e bebê anencéfalo). Ou seja, as pessoas que lutam por aborto hoje no Brasil (especialmente as feministas), não lutam por aborto para esses casos difíceis. Lutam por aborto para qualquer caso. Isso inclui a desistência de ter um filho, a gravidez indesejada contraída por uma vida promíscua, motivos econômicos, escolha de sexo do bebê, descoberta de algum defeito físico na criança e etc. Isso é terrivelmente imoral. Estamos falando de uma vida. Abortar por essas razões é não só dar aval para que a sociedade mate inocentes, mas para que mate inocentes por razões egoístas e até por eugenia. Colocar isso em lei, portanto, é ferir gravemente a legislação.

Do ponto de vista emocional, é claro que não podemos ser insensíveis. Há casos de mulheres que engravidaram porque o preservativo falhou, ou porque foram ludibriadas por algum homem que agora não quer assumir a criança. Tudo isso é triste e difícil. Mas não muda o fato de que aborto é assassinato. E não muda o fato de que priorizar o aborto, nestes casos, é ser egoísta e punir uma vida inocente. Não é bom para a sociedade ter um ato desse consolidado em lei, pois é imoral, egoísta e criminoso do próprio ponto de vista da legislação vigente. É homicídio. E homicídio é crime.

Assim sendo, ser contra o aborto, mas à favor da legalização (ampla e irrestrita) dá no mesmo. É errado do mesmo jeito. É ser favorável à legalização de um crime, do assassinato de pessoas inocentes e indefesas.

Aborto é assassinato

3 comentários:
Não, a discussão sobre o aborto não é uma questão de saúde pública, ou econômica, ou de escolha individual. A discussão sobre o aborto é uma questão de moral. E a pergunta que deve iniciar e orientar a questão, a única pergunta realmente importante, é a seguinte: o ser que há no útero da mulher grávida é uma vida humana ou não?

Ora, quer olhemos pelo viés científico, quer pelo viés lógico ou pelo viés teológico, não há qualquer razão plausível para considerar que o ser intrauterino não seja uma vida humana. Não, ele não é uma célula da mãe ou uma célula do pai. No momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo, temos ali a união de duas células, formando algo novo: um zigoto, que se desenvolverá naturalmente. É um novo ser em formação e não mera parte do pai ou mera parte da mãe.

Não, não se trata de uma potencial vida, mas de uma vida já em formação. Sim, trata-se de um organismo, por mais que ainda dependa de sua hospedeira, a mãe. É um ser humano, claro! Não poderia ser um elefante. Pode não ter autoconsciência, mas quem disse que a humanidade se define pela autoconsciência? Alguém que entra em coma, ou que perde totalmente a memória, continua sendo humano. Um bebê recém-nascido, por mais que não tenha autoconsciência formada é um ser humano.

Alguns procuram, arbitrariamente, definir fases da gravidez para dizer: "A partir daqui é uma vida humana. Antes, não". Que base possui esse tipo de pensamento? O simples fato de que um embrião ou um feto não é um bebê desenvolvido? Isso não faz sentido! Um bebê não é uma criança desenvolvida. Uma criança não é um adulto desenvolvido. Eu deveria dizer que uma criança não é humana porque ainda não é um adulto desenvolvido? Faria sentido dizer que uma menina de oito anos não é humana porque não possui os seios de uma mulher adulta?

É ridículo tal argumento. Estabelecer fases para a gravidez para definir o que é vida é absolutamente arbitrário. Não possui base científica. A vida intrauterina é vida e é vida humana, não importa a fase da gravidez. As etapas do desenvolvimento dessa vida não a fazem mais ou menos humana. São apenas fases.

É interessante refletir sobre essas fases. Desde o início da concepção, o pequeno e rústico organismo novo passa a trabalhar diariamente em seu próprio desenvolvimento. É um trabalho incessante e progressivo. Há mover e crescimento ali. Com 18 dias de vida, o coração do embrião já começa a se formar. Com 21 dias já está batendo. Ou seja, antes de completar o primeiro mês de gestação, já há um coração batendo no útero! Como dizer que não há vida ali?

Além disso, com 30 dias o bebê já possui um cérebro. E com 40 dias já é possível medir ondas cerebrais nele. Com oito semanas, pés e mãos estão quase prontos. E com nove semanas o bebê consegue até chupar o dedo. Todos os órgãos já estão presentes e os sistemas muscular e circular estão completos. Isso tudo em dois meses de gestação! Com dez semanas, isto é, dois meses e meio, o bebê já tem impressões digitais. Como não há vida? Que base há para essa inferência? Nenhuma.

Do ponto de vista teológico (e aqui termina minha reflexão) a vida começa na concepção. Sim, no momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo e forma o zigoto. Diz a Bíblia Judaica, que é também o Antigo Testamento cristão:

"Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, pois fui formado de modo tão admirável e maravilhoso! Tuas obras são maravilhosas, tenho plena certeza disso! Meus ossos não te estavam ocultos, quando em segredo fui formado e tecido com esmero nas profundezas da terra. Teus olhos viram a minha substância ainda sem forma, e no teu livro os dias foram escritos, sim, todos os dias que me foram ordenados, quando nem um deles ainda havia" (Salmo 139:13-16).

O próprio Deus diz ao profeta Jeremias, conforme o mesmo registra em seu livro: "Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te consagrei e te designei como profeta às nações" (Jeremias 1:4-5).

Além dessas, há na Bíblia cerca de quarenta menções à vida intrauterina. Vida! Vida humana! É isso o que existe no interior do útero de uma mulher grávida. Quer olhemos para o aspecto lógico, quer para o científico, quer para o teológico, a resposta é uma só: o nascituro é uma vida humana. Portanto, aborto é assassinato.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Projeções sobre o fim

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Como Adventistas do Sétimo Dia, nós cremos que em dado momento da história os governos do mundo adotarão uma agenda em comum. Ela trará como tema principal a necessidade de união dos povos em prol da paz mundial, da proteção ao meio ambiente e da tolerância religiosa. As linhas de ação propostas pela agenda procurarão, evidentemente, dar mais poder de ação aos governos para alcançar os objetivos já elencados. Dentre as ações que serão incentivadas nós cremos que a mais importante, e a que será aceita prontamente por todas as nações, será a imposição do domingo como dia mundial de descanso. A quem isso interessaria? À quase todos, da esquerda e da direita, secularistas e religiosos, ortodoxos e sincretistas, laicos e teocráticos.  

Aos da esquerda trabalhista seria mais um direito assegurado ao trabalhador, que poderia gozar do domingo com sua família. Aos da esquerda marxista seria um golpe no capitalismo e nos grandes empresários, que precisariam cessar suas atividades nesse dia. Aos da esquerda ambientalista, seria um dia semanal de descanso para o planeta, um dia livre de poluição e produção de elementos tóxicos para o meio ambiente. Aos da direita religiosa, católicos e protestantes, seria a chance de conclamar suas igrejas à guardarem novamente o "dia do Senhor", prática que se perdeu no último século. Para sincretistas, seria um dia de guarda em comum à todos os credos e, portanto, um ótimo símbolo de união das religiões. Para ortodoxos, seria um passo importante para restaurar a espiritualidade do ser humano. Para os laicos, seria mais uma folga (o que é sempre bom). Para os teocráticos, seria um grande movimento na direção de uma teocracia. E para quase todas as pessoas seria um dia para se valorizar a família e os laços afetivos. Até para grandes empresários não seria tõ ruim, pois grandes empresários geralmente se associam à governos interventores corruptos, o que lhes garante maiores lucros.

A quem seria ruim essa imposição? A dois grupos: (1) o dos céticos em relação ao Estado (o que inclui liberais em economia, que não concordam que o Estado tenha todo esse poder e grau de intervenção na economia); e (2) os sabatistas, em especial, os Adventistas do Sétimo Dia. Para nós, adventistas, tal imposição estal seria terrível, pois não guardamos o domingo, mas o sábado. Este é o dia que Deus santificou (Gn 2:1-3). Este é o dia que consta nos dez mandamentos (Êxodo 20:8-11), não o domingo. Evidentemente, a simples imposição do domingo como dia de folga não nos afeta em nada. O problema é o que decorre juntamente com essa imposição e/ou após ela. Cenários como o fim de empregos que folgam no sábado por determinação do próprio governo (por alguma questão econômica, por exemplo) são bastante possíveis. E, de fato, para além do governo, tem sido cada vez mais difícil encontrar empregos que não exijam o trabalho aos sábados. Com a folga obrigatória no domingo desaparece até mesmo a possibilidade de adventistas negociarem esse dia.

Mas o problema não acaba aí. A Bíblia indica que não será o ateísmo que dominará os governos do mundo e perseguirá os cristãos, mas sim uma filosofia religiosa, de caráter sincrético, que mistura erros à verdades. Nada que não se possa deduzir do que vemos. O ateísmo, conquanto tenha dominado centros acadêmicos, laboratórios de ciência e governos, não chegou nem perto de destruir a religião no mundo. A maioria esmagadora do mundo possui alguma religião e mais da metade do mundo é monoteísta. A explicação é simples: o homem é um ser essencialmente religioso. Tanto os governos humanos, quanto o próprio Satanás, já perceberam que tentar extirpar a religião do mundo é inútil. E o diabo, soberbo que é, não deseja retirar do mundo a fé nas coisas sobrenaturais, pois seu intento ainda é ser adorado.

O ateísmo, na verdade, teve maior serventia para disseminar outra filosofia, bem mais destrutiva: o secularismo. Através do secularismo Satanás conseguiu enfraquecer valores dentro das próprias religiões, em especial, o cristianismo. Com o secularismo e o sincretismo, o Diabo tem a possibilidade de fazer as pessoas não se prenderem à Palavra de Deus, mas aceitarem as crenças mais heréticas e contraditórias, bem como viverem em uma série de pecados, julgando-se ainda assim cristãs e corretas. E é esse o tipo ideal de pessoa para aceitar qualquer ideia de união povos, ideologias e credos em prol da paz, do salvação do planeta e de uma suposta tolerância.

Daí emerge um cristianismo falso, repleto de cristãos que não se diferenciam em nada dos não-cristãos, mas que permanecem se julgando seguidores de Cristo e clamam por união. Daí emerge até uma teologia e (por quê não?) uma escatologia. Não mais se espera pelo retorno de Jesus para redimir a Terra, mas pela união dos povos para que o mundo seja preparado para a vinda de Cristo. Passamos a ter parte na construção desse novo mundo. Essa é a obra prima de Satanás. Tudo o que essas pessoas absortas nessa teologia humanista precisam é de um líder religioso importante que utilize a mesma retórica de união, a fim de inflamar os corações e trazer de volta a espiritualidade (um tanto deturpada, é verdade) e líderes políticos influentes que coloquem a ideia para frente. Percebe o enredo? Ao promover o encontro entre secularismo e sincretismo (duas ideias aparenemente antagônicas), Satanás consegue secularizar os religiosos e espiritualizar as ideias seculares, criando uma teologia que agrada à todos, cristãos e não cristãos, esquerdistas e direitistas. Para os líderes humanos mais estratégicos e influentes, aproveitar-se dessa nova teologia é imprescindível. Quem chegar primeiro consegue reunir o mundo e controlar toda a massa.

Eis o pulo do gato: se temos uma nova teologia, uma massa pronta para aceitá-la, uma agenda em comum à todos os governos e uma proposta mundial de dia de descanso capaz de agradar à quase todos os grupos, isso quer dizer que quem não concordar com a agenda e, sobretudo, com o dia de guarda, será considerado o novo herege mundial. Ora, esse certamente será o rótulo dos adventistas. Não é difícil deduzir o que vem depois. Secularistas nos considerarão o remanecente do fundamentalismo, uma pedra no sapato do progressismo. E todos os religiosos, sobretudo os cristãos, nos verão como o grupo que atrapalha a construção do novo mundo pelo homem, no Reino de Deus na terra, o qual será entendido por muitos como aquilo que falta para Cristo voltar à terra.

Democracia é "50% + 1". Basta que a maioria mínima da população abrace essa nova teologia (e a maioria mínima de seus representantes políticos também) e logo haverá pressão para que esses "heréticos e fundamentalistas" da Igreja Adventista do Sétimo Dia encontrem cada vez mais limitações por parte do Estado. E a pressão será aceita fácil porque será interesse dos mais variados grupos. Até quem não concordar com essas limitações, acabará cedendo à pressão. Ou seja, a imposição do domingo como dia de guarda não virá sozinha. 

Na medida em que os problemas do mundo continuarem e até aumentarem (por conta dos juízos de Deus - ver Apocalipse 15 e 16), a antipatia pelos adventistas também aumentará. Ao mesmo tempo, cremos, mais e mais pessoas sairão de suas igrejas e religiões originais observando que elas estão a seguir uma teologia satânica. Estas pessoas se unirão aos adventistas na intenção de seguirem fielmente os desígnios de Deus. O ápice da antipatia aos adventistas será quando Satanás elaborar o seu "grande engano". Uma profecia de Ellen White prevê que Satanás aparecerá transfigurado de Cristo à diversas pessoas, simulando seu retorno. Suas ordens serão claras: há um grupo que está impossibilitando a paz no mundo. É o grupo que não guarda o "dia do Senhor" (WHITE, Elen G. "O Grande Conflito", p. 624). Aqui a nova teologia será consolidada. O mundo inteiro aceitará que a paz mundial e o estabelecimento do Reino de Deus depende do exetermínio desse grupo herético. Não haverá mais dúvidas. A perseguição tomará forma aqui.

Em uma próxima postagem farei uma análise bíblica ampla sobre a identidade da primeira e da segunda besta apresentadas em Apocalipse, e demonstrarei de maneira mais detalhada como nós, adventistas, chegamos às projeções expostas nessa postagem. Mas antes indico a leitura de outros três textos para entender melhor o panorama aqui descrito. Eles irão clarear algumas questões referentes à marca da besta e a imposição do domingo como dia de guarda. Aos poucos vamos montando o quebra-cabeça. Os textos se seguem abaixo:

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dez argumentos católicos ruins contra o protestatismo

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Quero tecer minhas respostas a alguns argumentos católicos comumente usados para atacar o protestantismo. São argumentos que julgo bem frágeis e que eu pediria aos meus prezados amigos católicos que não os utilizem. A intenção do post não é provar que a Igreja Católica não é a verdadeira, mas apenas colaborar para que argumentos ridículos sejam postos de lado nos debates.

1) A Igreja Protestante não pode ser a Igreja verdadeira porque ela é toda dividida.

R.: Esse argumento não faz o menor sentido pelo simples fato de que não existe uma "Igreja Protestante". O protestantismo não é uma instituição formal, nem mesmo uma instituição. O protestantismo foi o nome cunhado para se referir à instituições cristãs distintas que surgiram de dissidências com a Igreja Católica a partir de 1517. Há, na verdade, não uma Igreja Protestante, mas um movimento protestante. Então, não se pode dizer que "a Igreja Protestante é uma Igreja dividida". Estamos falando de várias instituições e não apenas de uma. O movimento protestante não é um análogo à Igreja Católica.

2) O protestantismo relativiza a verdade.

R.: Esse argumento provém justamente da pressuposição errônea de que o protestantismo é uma instituição, tal como a ICAR. Daí deduz-se que dentro da mesma instituição cada um tem a sua verdade. Como já mostrei, a pressuposição está errada, o que invalida a dedução. Longe de haver relativismo da verdade no movimento protestante, o que ocorre é que cada instituição julga o seu próprio corpo de regras correto, o que implica que o corpo de regras dos demais está errado em um ou mais aspectos. É exatamente a mesma visão que a ICAR tem de sua instituição e das demais. Não há diferença aqui. Não há relativização da verdade.

3) A divisão do protestantismo em várias instituições implica a falsidade do movimento.

R.: Sustentar este ponto coloca o católico em problemas. Ora, se um movimento torna-se falso por ter se separado de um movimento original, então o próprio cristianismo é falso, pois se separou do judaísmo. E talvez até o judaísmo seja falso, pois se separou do monoteísmo primitivo, vivido por clãs isoladas. Não me parece lógico apostar nesse argumento.

4) A Igreja Católica, diferentemente da Igreja Protestante, nunca se dividiu. Permanece una.

R.: É claro que houve divisão! A Igreja Cristã se dividiu em Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, na chamada grande cisma do Oriente (1054). Fez-se duas instituições diferentes, cada qual alegando estar correta. Posteriormente, após 1517, surgiram diversas instituições protestantes do seio da ICAR. Mais divisões. Quando uma divisão é feita, obviamente, as duas partes não são mais uma coisa só. Não se pode dizer, portanto, que a ICAR não se dividiu. Ora, a divisão em si mesma não é algo ruim. Seria preferível que ela não existisse, mas quando a verdade está em jogo, a divisão é necessária.

O argumento católico aqui pretende, na realidade, afirmar meramente que a ICAR é a Igreja verdadeira. Não importa quantas divisões ocorram em seu seio, quantos movimentos sejam excomungados, quantos grupos sejam desligados, ela permanece sendo a Igreja verdadeira. Isso pode até ser verdade, mas a questão é que não há um argumento aqui e sim uma mera afirmação travestida de argumento. Quando alguém afirma que a ICAR nunca se dividiu, mesmo tendo havido diversas divisões no seio dela (e sendo ela própria proveniente de divisões), o que está querendo dizer é simplesmente que ela é a igreja verdadeira e, portanto, todas as que dela saíram são falsas, o que implica que a igreja verdadeira em si não foi dividida. E nunca será, já que qualquer cisão que ocorrer implicará falsidade não dela, mas da outra parte. Isso é o que o católico quer dizer.

O fato ululante é que para quem quer discutir justamente se a ICAR é ou não a Igreja verdadeira, em um debate, inicar a discussão já pressupondo que ela é verdadeira se constitui raciocínio circular. Neste caso o debate não existe e não há nada o que se discutir.

5) A Igreja Católica foi a responsável por escolher os livros que iriam compor a Bíblia. Mais que isso: ela foi responsável por inspirar os livros do Novo Testamento. Logo, todos devem a Bíblia à ICAR, por consequencia ela é a Igreja verdadeira e, portanto, só ela tem aptidão para interpretar as Escrituras Sagradas.

R.: Mais uma vez, o argumento só faz sentido quando se pressupõe a cosmovisão católica. Na cosmovisão católica, a ICAR foi instituída por Jesus Cristo, tendo o anúncio sido formalizado por ele mesmo à Pedro, em Mateus 16. Iniciar o debate já com essa pressuposição é raciocínio circular, já que é justamente esse um dos pontos que precisa ser provado.

A cosmovisão protestante é distinta. Ela entende que Jesus não instituiu a ICAR, mas sim a Igreja Cristã, a qual, em sua primeira fase, se guiou puramente pelas pelas doutrinas apostólicas. Na medida em que o tempo foi seguindo, a Igreja Cristã foi passando por outras fases, nas quais elementos estranhos começaram a compor à doutrina cristã.

O processo de romanização da Igreja cristã se inicia, segundo a cosmovisão protestante, décadas após a era apostólica e de maneira bastante gradual e sutil. Nos primórdios do cristianismo, não havia um poder central formal instituído na Igreja. Cada cidade ou região possuía sim um bispo, que era simplesmente um membro local com bons atributos cristãos e que havia recebido instrução e preparo de algum missionário. Na era apostólica, os primeiros missionários foram os próprios apóstolos. Coube a eles a tarefa inicial de plantar igrejas nas cidades, preparar um líder e partir para outras cidades, deixando a Igreja plantada se virar sozinha. Havia, evidentemente, o cuidado, por parte dos apóstolos, de orientar de longe através de cartas, e de visitar as igrejas plantadas tempos depois, a fim de observar o funcionamento delas. As igrejas, por seu turno, enxergavam os apóstolos com grande respeito, já que eles haviam estado com Jesus e, portanto, conheciam a sua doutrina. Não havia, entretanto, uma hierarquia bem definida, um líder supremo dentre os apóstolos e uma sucessão formal. E cada igreja era bastante autônoma, apenas recebendo orientações de longe vez ou outra.

Com a morte dos apóstolos, a Igreja passou a se formalizar um pouco mais e os bispos de cada cidade ou região ganharam maior importância. Mas, segundo a cosmovisão protestante, a Igreja ainda seguiu por um tempo descentralizada, não possuindo um bispo supremo dentre os bispos, conquanto houvesse unidade nas doutrinas.

O bispo de Roma passaria, gradativamente, a ganhar maior relevância dentre os bispos por pertencer à capital do Império e pelo cristianismo já não contar mais com uma Igreja forte em Jerusalém (a qual foi, na fase apostólica, Igreja central do cristianismo). Considera-se, dentro dessa cosmovisão, que apenas lá pela década de 530 o processo de romanização se consolidaria, transformando efetivamente o bispo de Roma no bispo dos bispos. Esse reconhecimento, portanto, foi sendo construído ao longo de um processo que durou séculos. Então, podemos dizer, dentro dessa cosmovisão, que a ICAR só surge, no mínimo, após o ano 500. Antes disso, o que se havia era uma Igreja cristã em processo de romanização, ou ainda, uma Igreja Proto Romanizada (e, por consequencia evidenete, não mais apostólica). Ou seja, nessa cosmovisão, quem fez selecionou os livros que iriam compor a Bíblia não foi a Igreja Católica, mas sim a Igreja cristã. O máximo que se pode dizer, nesta cosmovisão, é que a Igreja cristã que o fez estava em processo de romanização.

Exponho essa cosmovisão não para afirmar que ela seja a correta (pois não é este o intuito do post), mas apenas para alertar que não existe apenas a cosmovisão católica. Portanto, iniciar um debate pressupondo que há apenas uma cosmovisão possível causa um desequilíbrio no debate. Ora, a ideia não é provar qual das duas está correta? Então, o debate deve partir do zero, sem suposições iniciais não provadas no próprio debate.

6) É logicamente necessário que Deus tenha instituído uma Igreja infalível doutrinariamente. Senão o cristianismo não vigoraria.

R.: Não, não é necessário. Na Antiga Aliança, o povo judeu passou algum tempo crendo na doutrina errônea de que o Messias seria um líder militarista que destruiria o Império Romano. Era o povo de Deus, mas estavam em erro doutrinário. No mesmo judaísmo, surgiram divisões. As duas principais eram a dos fariseus e a dos saduceus. Ambos possuíam erros doutrinários. E o povo absorvia esses erros. Durante o ministério de Jesus, o povo judeu, no geral, continuou sustentando doutrinas erradas, incluindo a visão distorcida da missão do Messias. Felizmente, Jesus reuniu um grupinho de judeus que aceitou as doutrinas corretas. Esses judeus pregaram a outros judeus, que também aceitaram, e depois partiram para evangelizar o restante do mundo. Isso evidencia que, no interior do povo de Deus, pode haver erros doutrinários. O povo quase inteiro pode abraçar doutrinas erradas. É possível e já aconteceu. Mas, apesar disso, os planos de Deus não foram inviabilizados.

Podemos voltar um pouco mais no tempo e pensar no monoteísmo primitivo, seguido pelas primeiras clãs do mundo. Formavam o povo de Deus. Mas aos poucos elas foram agregando ideias erradas também. Foi, aliás, este motivo que levou Deus a usar Abraão, membro de uma dessas clãs monoteístas, para formar um povo específico para Ele; um povo que pudesse manter as suas verdades ao longo do tempo e dar ao mundo o Messias. Este novo povo, como vimos, não se tornou infalível à nível doutrinário. E à nível moral foi um povo bastante problemático. Entretanto, Deus cumpriu seus planos através dele, não foi? O judaísmo vigorou até a vinda do Messias, não é? Do judaísmo saíram os primeiros cristão, correto? A primeira Igreja era majoritariamente formada por judeus, não é mesmo? Pois é.

A ideia de que uma instituição falível à nível de doutrina não pode servir aos planos de Deus não parece corresponder à realidade histórica e bíblica. Na comovisão protestante, Deus permanece sendo o guia supremo da história. Não importa o quanto o homem seja falível moral e doutrinariamente, o quanto o seu povo se engane com mentiras, o quanto a humanidade crie problemas, Ele sempre irá levantar homens para resgatar suas verdades e até mesmo agir por meio de quem não tem as ideias totalmente certas. Isso não é, de forma alguma, um incentivo ao erro. É apenas uma constatação: Deus age até em instituições erradas usando homens errados. Homens como Arão, Sansão, Davi e Jonas, embora falhos e com ideias tortas, foram muitas vezes usados pelo Espírito Santo para que Deus cumprisse seus objetivos. Até mesmo o problemático Saul (que no fim da vida se perdeu), quando intentava matar a Davi, foi tomado pela influência do Espírito de Deus, desistindo do mau intento e passando a profetizar (I Samuel 19:18-24). Isso mostra que o Espírito de Deus age em quem Ele quiser e alcança seus planos do modo como quiser. Quem somos nós para limitar a Deus?

7) A Igreja Católica é verdadeira porque deu ao mundo um enorme legado de boas obras e avanços nas mais diversas áreas do conhecimento, sendo este legado muito superior ao deixado pelos protestantes.

R.: Acho esse argumento bastante bobo. Não porque eu discorde do tamanho do legado positivo que a ICAR deu ao mundo (embora eu também creia que ela cometeu muitas falhas, sobretudo no quesito doutrinário). Mas eu acho um argumento bobo porque este legado positivo não é, definitivamente, um argumento para provar que a ICAR é a Igreja verdadeira. A cosmovisão protestante, por exemplo, não crê que tudo o que sai da Igreja Romanizada seja ruim. Ao contrário, uma vez que ela faz parte da Igreja Cristã, ela sempre possuiu membros cristãos verdadeiros e fervorosos que foram utilizados por Deus para a sua obra. Então, dentro da cosmovisão protestante, a ICAR fez muitas coisas boas para a sociedade não porque é uma instituição romanizada, mas sim porque, apesar dos seus erros doutrinários, é uma instituição que faz parte da Igreja Cristã e que possui membros cristãos verdadeiros e fervorosos.

Nenhum protestante honesto e minimamente estudioso negará o peso positivo que a ICAR teve em muitos aspectos da nossa sociedade ao longo dos séculos. E é óbvio que o legado dela tende a ser maior que o protestante, já que sua instituição é mais antiga. Mas antiguidade não comprova originalidade, tampouco pureza doutrinária. Por isso o argumento é inválido.

Só para lembrar: para a cosmovisão protestante, Jesus não instituiu a Igreja Católica Romana, ou a Igreja Católica Ortodoxa, ou alguma das Igrejas Protestantes. Ele instituiu a instituiu a Igreja Cristã, lá no primeiro século (e que era, aliás, formada majoritariamente por judeus e cujo centro foi por muito tempo em Jerusalém). A Igreja Cristã deixou sua fase apostólica e começou a se romanizar. Esse processo se consolidou lá para os anos 530, quando toda a cristandade reconheceu o bispo de Roma como bispo dos bispos. Ou seja, a Igreja Cristã não surgiu romanizada, mas tornou-se romanizada - pelo menos, majoritariamente, já que sempre existiram grupos cristãos fora da ICAR (muitos dos quais eram heréticos, mas não todos).

8) Os protestantes acreditam na livre interpretação da Bíblia, o que é uma prova de relativismo da verdade. A Igreja Católica acredita em uma só interpretação da Bíblia, portanto, é a Igreja verdadeira.

R.: Errado. Os protestantes acreditam no livre exame da Bíblia. Isso significa que, para a cosmovisão protestante, todo cristão tem o direito de estudar a sua Bíblia e procurar base escriturística para as doutrinas da Igreja. O livre exame não deve ser confundido com a livre interpretação. O cristão não é livre intelectual e moralmente para interpretar a Bíblia como bem lhe aprouver. A correta interpretação bíblica requer domínio de regras interpretativas lógicas, bom conhecimento histórico, bom conhecimento da própria Bíblia, hábito de leitura, honestidade intelectual, humildade de espírito e um bom relacionamento com Deus. Sobre as regras lógicas de interpretação, podemos citar as mais conhecidas: avaliação do contexto histórico, do contexto da passagem, do estilo do livro estudado, da finalidade do livro, do autor, dos destinatários, da cultura e do idioma em questão e da relação do texto com outros textos da Bíblia.

É evidente que muitos cristãos, ao terem livre acesso à Bíblia, procurarão interpretá-la sem um ou mais desses requisitos básicos. É daí que surgem as heresias. Mas veja que isso é um pecado exclusivo da pessoa que resolve assim proceder e não da cosmovisão protestante. Nenhum protestante honesto e minimamente inteligente defende que as pessoas interpretem à Bíblia de qualquer maneira, sem os requisitos básicos. Na verdade, o bom protestante deseja que todos os cristãos aprendam os requisitos básicos para se interpretar corretamente e, uma vez dispondo dessas ferramentas fundamentais, sejam livres para avaliar a Bíblia. Longe de ser um erro, tal postura é honesta, pois dá a cada um a oportunidade de zelar pelo bom cumprimento da Palavra de Deus, averiguando se ela está sendo seguida por sua comunidade. Isso não exclui, evidentemente, que cada um peça ajuda à pessoas que tem maior capacidade intelectual e espiritual para fazer avaliações. Ter humildade de espírito também se trata disso.

Os católicos geralmente batem na tecla de que o problema dessa liberdade de exame é justamente o perigo de insensatos deturparem a Bíblia. Mas esse risco é o preço da liberdade. E sempre foi. A liberdade sempre implica riscos. Quando Deus fez o Jardim do Éden para Adão e Eva, deixou no centro do jardim uma árvore cujo fruto não deveria ser comido. Mas, uma vez que ela estava ali, havia a liberdade de Adão e Eva comerem. Deus poderia não ter dado a eles essa liberdade, impedindo que aquela árvore estivesse no jardim (ou cercando-a com grades intransponíveis). Mas não foi assim que Deus agiu. Ele preferiu deixar que a escolha ao alcance das mãos do homem. O risco era a queda da humanidade no pecado. Pois foi exatamente o que ocorreu (e Deus já sabia desde sempre).

Após o pecado a questão não muda. Ecoam na minha cabeça as palavras do próprio Deus a Caim: "Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo" (Gênesis 4:7). Ou ainda as palavras de Deus ao povo hebreu, no deserto: "Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência"
(Deuteronômio 30:19).

Lembro ainda que o autor inspirado Lucas afirma sobre os cristãos bereanos: "Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, porquanto, receberam a mensagem com vívido interesse, e dedicaram-se ao estudo diário das Escrituras, com o propósito de avaliar se tudo correspondia à verdade" (Atos 17:11). Parece-me que a Bíblia dá muita ênfase à avaliação para descobrir se algo é verdadeiro. Em Provérbios Salomão já dizia: "O simples dá crédito a cada palavra, mas o prudente atenta para os seus passos" (Provérbios 14:15). Eu poderia citar várias outras passagens do gênero.

A suma é: não parece haver qualquer condenação bíblica ou lógica ao livre exame das Escrituras. E o fato de existirem pessoas que irão distorcer a Palavra de Deus é apenas uma consequencia da liberdade. Devemos aprender a lidar com isso e, através do estudo sério e da oração fervorosa, nos manter longe dos erros e abertos à verdade. Como Pedro já orientava no primeiro século: "[...] tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (I Pedro 15:18).

9) Uma Igreja falível (como sustentam os protestantes) não poderia produzir uma Bíblia infalível.

R.: Não vejo razão para concordar com isso. Lanço mão de uma analogia para explicar. Eu fiz cerca de 230 provas nos meus três anos de ensino médio. Embora eu tenha sido um bom aluno, é óbvio que não tirei 10 em todas essas provas (tampouco na maioria). Mas eu gabaritei algumas sim. Acredito que umas 40 ou mais. Nessas provas, portanto, eu fui perfeito, acertei tudo. Produzi uma prova sem falhas. No entanto, isso não muda o fato de que eu sou falível, imperfeito e que na maioria das provas eu não acertei todas as questões. É possível concluir daí que o ser humano, mesmo sendo falível e falho, pode produzir alguns resultados isentos de erros em determinadas ocasiões.

Da mesma maneira, todo cristão é passível de erros morais, administrativos e doutrinários, tanto na condução da sua vida individual, como na condução da Igreja de Cristo. Ser passível de erros não significa viver errando, ou jamais conseguir um resultado perfeito em determinada ocasião. Significa apenas que é possível cair e que, com muita probabilidade, isso vai acontecer em um ou mais momentos. O que define a intensidade dos erros e o tempo para consertá-los é uma palavrinha chamada "humildade". Quando o cristão é humilde e reconhece ser passível de erros, tenderá a cometer erros menores e a consertá-los com mais rapidez. Uma instituição, no entanto, que não reconheça essa possibilidade de desvio, poderá cair em um e nunca sair. O erro se consolida como verdade, torna-se tradição sagrada e vira um dos pilares inamovíveis da Igreja. É um perigo real.

Mas voltando à questão principal: se cristãos falíveis podem produzir resultados perfeitos em algumas ocasiões da vida, seja no âmbito moral, administrativo ou doutrinário, então é perfeitamente aceitável que alguns bons cristãos tenham recebido inspiração de Deus para compor as Escrituras, de modo que, ao fazê-lo, foram perfeitos doutrinariamente. Isso não muda o fato de que tais cristãos eram falíveis. Mas em determinadas ocasiões escreveram coisas perfeitas que os demais cristãos, majoritariamente, perceberam ser inspiradas. Não há qualquer contradição lógica nesta cosmovisão. Em tempo: o povo israelita era falível e compôs o Antigo Testamento. É sempre bom lembrar disso.

10) Mas se a ICAR não é a Igreja instituída por Deus, qual é? Como encontrá-la num mar de igrejas rivais?

R.: Primeiramente, é preciso entender qual a concepção de Igreja para a cosmovisão protestante. Igreja não é uma instituição formal, com CNPJ, Razão Social, templos e hierarquia. Não que essas coisas sejam erradas ou não tenham relevância. Mas elas, na verdade, são acessórios. Igreja é, antes de qualquer coisa, o conjunto de todos aqueles que creem verdadeiramente em Jesus como Senhor e Salvador do mundo, bem como na Bíblia (Antigo e Novo Testamento). Em suma, Igreja é o nome que se dá ao coletivo de todos os cristãos espalhados na face da Terra, independentemente se todos mantém contato ou não. Se três cristãos, por exemplo, forem parar cada qual em uma ilha deserta diferente, eles continuam sendo parte da Igreja de Cristo.

Entendido isso, fica claro que a Igreja de Cristo transcende os inúmeros grupos e facções que existem no cristianismo. Os cristãos verdadeiros de cada facção (Católica Romana, Católica Ortodoxa, Luterana e etc.) fazem parte da mesma e única Igreja: a Igreja de Cristo. Isso não implica, evidentemente, que todas as faccções contém o corpo correto de doutrinas. Já falamos sobre isso. E aqui está o desafio: como encontrar a congregação cristã que possui as doutrinas bíblicas corretas? Só há um caminho: estudar a Bíblia com afinco e fervorosa oração. A congregação correta há de se pautar inteiramente na Bíblia ou, no mínimo, demonstrar tal disposição.

Eu, como Adventista do Sétimo Dia, acredito que esta é a congregação na qual (e com a qual) Deus tem terminado de resgatar suas santas doutrinas bíblicas. Na cosmovisão adventista, Deus não deixa de agir durante toda a história, procurando fazer a Igreja Cristã como um todo retornar à pureza doutrinária da Era Apostólica. Neste sentido, o movimento protestante foi muito importante, embora não tenha completado a reforma. Esta reforma continuaria nos séculos seguintes, através de outros movimentos e grupos, todos falhos e falíveis, mas em busca da verdade. Para nós, a Igreja Adventista, vem para dar a contribuição final à Igreja Cristã, espalhando verdades não reformadas como a guarda do sábado, a mortalidade da alma, a mentira do inferno como lugar de tormento eterno, a importância da mensagem de saúde e etc. Mas isso é assunto para outra postagem. Em suma, cada igreja acredita deter o correto corpo de doutrinas. Apenas o estudo sério, honesto e unido à oração fervorosa pode provar este tipo de afirmação. E isso é a obrigação moral e espiritual de todo o cristão.

No final de tudo, entretanto, todas essas facções e grupos desaparecerão; tornar-se-ão fúteis. Os cristãos verdadeiros, espalhados por todas as igrejas, sairão de suas instituições formais corrompidas, aceitando o verdadeiro evangelho e recusando-se a seguir outra coisa que não a Palavra de Deus. Então, todos estes estarão juntos e juntos sofrerão a perseguição daqueles que preferirão a falsa religião e seu prazeres. Neste período da história, ficará claro que a Igreja de Cristo transcende paredes e que o verdadeiro cristão é aquele que "guarda os mandamentos de Deus e a fé em Jesus" (Ap. 12:17 e 14:12).

Considerações Finais

Como já dito, o intuito desse post não foi provar que a ICAR não é a Igreja verdadeira, mas apenas fazer uma crítica de alguns argumentos frágeis que são comumente usados por católicos em debates contra protestantes. Nos debates que já travei, invariavelmente a argumentação católica se resumiu à seguinte linha de raciocínio:

(1) A ICAR é a única que sabe interpretar as Escrituras Sagradas;

(2) Logo, a interpretação da ICAR sobre a instituição dela mesma por Jesus em Mateus 16 está correta;

(3) Logo, a ICAR existia antes do Novo Testamento ser escrito;

(4) Logo, a tradição da ICAR gerou o Novo Testamento;

(5) Logo, a tradição da ICAR é tão importante quanto a Bíblia e não a contradiz;

(6) Logo, a tradição da ICAR pode ser usada, juntamente com a Bíblia para provar que a ICAR é verdadeira.

Percebe o raciocínio circular? Pois é, a argumentação dos católicos com os quais já debati sempre se baseou nesse tipo de raciocínio. Que fique claro que isso não é uma generalização. Não estou dizendo que todos os católicos argumentam assim. Refiro-me apenas aos que já debati (e alguns que já vi debatendo por aí). E enfatizo que não eram católicos ignorantes em teologia, apologética e história da própria instituição deles. Mas cometiam esses erros. Ora, assim como argumentos católicos ruins me incomodam bastante, argumentos protestantes ruins também me deixam irritado. Quando vejo um protestante acusando os católicos de crerem que o Papa não peca, fico para morrer. Não é isso que diz o dogma da infalibilidade papal. É preciso conhecer o que se critica. A minha intenção, portanto, é sempre tornar o debate mais rico.

Como um debate entre católicos e protestantes deveria ser? Quero terminar o post falando sobre isso. A questão principal a ser discutida é: a ICAR foi realmente instituída por Jesus? Para responder a essa questão é preciso:

(1) fazer uma análise do texto de Mateus 16 (a principal passagem bíblica usada por católicos para sustentar sua cosmovisão), avaliando e confrontando todas as suas interpretações possíveis;

(2) fazer uma análise histórica profunda para saber se há textos do primeiro século que comprovem a posição soberana do bispo de Roma e a sucessão papal a partir de Pedro;

(3) avaliar, perante uma análise interpretativa séria, lógica e acurada da Bíblia, se as doutrinas e a tradição católicas estão de acordo com as Escrituras Sagradas.

Esses são os três pontos básicos. O que se espera é que, tendo a ICAR sido fundada por Jesus Cristo, essas três análises podem ser feitas e suas respostas demonstrarão, inquestionavelmente, a veracidade da teologia e cosmovisão católicas. Do contrário, segue-se que a cosmovisão protestante está correta. Os debates que se pautarem nesses três pontos serão, sem dúvida, muito construtivos e enriquecedores. Deixo aqui o meu pedido, à protestantes e católicos, que invistam nesse nível alto de discussão.