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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O intervencionismo estatal e a perseguição final dos cristãos

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Sobre a chamada "segunda besta", Apocalipse 13:16-17 afirma: "A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fronte, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome".

Esse texto deixa claro uma coisa: o governo representado pela figura da segunda besta será extremamente intervencionista na economia. Não é uma questão de opinião. Perceba bem: o governo que está sendo descrito aqui tem poder para proibir que pessoas comprem ou vendam. É uma imposição governamental na vida econômica de todos os indivíduos, sob força de lei. Aqueles que não aceitarem agir segundo suas regras (os cristãos verdadeiros, no caso), serão proibidos de comprar e vender.

Se você não percebeu o tamanho dessa intervenção econômica, eu vou tornar as coisas mais claras. O governo terá poder para fechar as empresas dos cristãos verdadeiros, tomar suas casas, proibir a abertura de negócios por eles, expropriar suas fazendas, impor que empresas para as quais trabalham os demitam, congelar suas poupanças, proibir que recebam doações, fechar suas igrejas, fechar suas instituições de caridade e proibir a circulação de moedas nas suas mãos. É uma baita intervenção econômica!

O que Friedrich Hayek explicou magistralmente em "O Caminho da Servidão" (1944) já era previsto na Bíblia: o dirigismo estatal leva ao totalitarismo, à ditadura e à repressão.

Em tempo: isso não significa que a besta será um governo marxista. O marxismo é estatista e intervencionista, mas não é o único sistema a sê-lo. A verdade é que o intervencionismo estatal é uma característica comum à todos os regimes e ideologias expansionistas, que pretendem impor ao mundo inteiro a sua cosmovisão - sempre com a justificativa de que é para o bem comum.

Chegará um dia em que as mais distintas (e até opostas) ideologias concordarão que no interior do cristianismo há um grupo pequeno de cristãos que permanece fiel à Bíblia. Serão taxados de fundamentalistas até pelos próprios cristãos ao redor. Serão vistos como a pedra no sapato do mundo. Serão entendidos como aqueles que impedem a união mundial das religiões, crenças e ideologias em prol de um mundo melhor. Então, ninguém hesitará em clamar pelo mais forte e intenso intervencionismo estatal, a fim de que todos os governos invistam contra esses cristãos inconvenientes.

O Caminho da Servidão está sendo pavimentado. Em breve será também o Caminho da Perseguição.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dez argumentos católicos ruins contra o protestatismo

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Quero tecer minhas respostas a alguns argumentos católicos comumente usados para atacar o protestantismo. São argumentos que julgo bem frágeis e que eu pediria aos meus prezados amigos católicos que não os utilizem. A intenção do post não é provar que a Igreja Católica não é a verdadeira, mas apenas colaborar para que argumentos ridículos sejam postos de lado nos debates.

1) A Igreja Protestante não pode ser a Igreja verdadeira porque ela é toda dividida.

R.: Esse argumento não faz o menor sentido pelo simples fato de que não existe uma "Igreja Protestante". O protestantismo não é uma instituição formal, nem mesmo uma instituição. O protestantismo foi o nome cunhado para se referir à instituições cristãs distintas que surgiram de dissidências com a Igreja Católica a partir de 1517. Há, na verdade, não uma Igreja Protestante, mas um movimento protestante. Então, não se pode dizer que "a Igreja Protestante é uma Igreja dividida". Estamos falando de várias instituições e não apenas de uma. O movimento protestante não é um análogo à Igreja Católica.

2) O protestantismo relativiza a verdade.

R.: Esse argumento provém justamente da pressuposição errônea de que o protestantismo é uma instituição, tal como a ICAR. Daí deduz-se que dentro da mesma instituição cada um tem a sua verdade. Como já mostrei, a pressuposição está errada, o que invalida a dedução. Longe de haver relativismo da verdade no movimento protestante, o que ocorre é que cada instituição julga o seu próprio corpo de regras correto, o que implica que o corpo de regras dos demais está errado em um ou mais aspectos. É exatamente a mesma visão que a ICAR tem de sua instituição e das demais. Não há diferença aqui. Não há relativização da verdade.

3) A divisão do protestantismo em várias instituições implica a falsidade do movimento.

R.: Sustentar este ponto coloca o católico em problemas. Ora, se um movimento torna-se falso por ter se separado de um movimento original, então o próprio cristianismo é falso, pois se separou do judaísmo. E talvez até o judaísmo seja falso, pois se separou do monoteísmo primitivo, vivido por clãs isoladas. Não me parece lógico apostar nesse argumento.

4) A Igreja Católica, diferentemente da Igreja Protestante, nunca se dividiu. Permanece una.

R.: É claro que houve divisão! A Igreja Cristã se dividiu em Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, na chamada grande cisma do Oriente (1054). Fez-se duas instituições diferentes, cada qual alegando estar correta. Posteriormente, após 1517, surgiram diversas instituições protestantes do seio da ICAR. Mais divisões. Quando uma divisão é feita, obviamente, as duas partes não são mais uma coisa só. Não se pode dizer, portanto, que a ICAR não se dividiu. Ora, a divisão em si mesma não é algo ruim. Seria preferível que ela não existisse, mas quando a verdade está em jogo, a divisão é necessária.

O argumento católico aqui pretende, na realidade, afirmar meramente que a ICAR é a Igreja verdadeira. Não importa quantas divisões ocorram em seu seio, quantos movimentos sejam excomungados, quantos grupos sejam desligados, ela permanece sendo a Igreja verdadeira. Isso pode até ser verdade, mas a questão é que não há um argumento aqui e sim uma mera afirmação travestida de argumento. Quando alguém afirma que a ICAR nunca se dividiu, mesmo tendo havido diversas divisões no seio dela (e sendo ela própria proveniente de divisões), o que está querendo dizer é simplesmente que ela é a igreja verdadeira e, portanto, todas as que dela saíram são falsas, o que implica que a igreja verdadeira em si não foi dividida. E nunca será, já que qualquer cisão que ocorrer implicará falsidade não dela, mas da outra parte. Isso é o que o católico quer dizer.

O fato ululante é que para quem quer discutir justamente se a ICAR é ou não a Igreja verdadeira, em um debate, inicar a discussão já pressupondo que ela é verdadeira se constitui raciocínio circular. Neste caso o debate não existe e não há nada o que se discutir.

5) A Igreja Católica foi a responsável por escolher os livros que iriam compor a Bíblia. Mais que isso: ela foi responsável por inspirar os livros do Novo Testamento. Logo, todos devem a Bíblia à ICAR, por consequencia ela é a Igreja verdadeira e, portanto, só ela tem aptidão para interpretar as Escrituras Sagradas.

R.: Mais uma vez, o argumento só faz sentido quando se pressupõe a cosmovisão católica. Na cosmovisão católica, a ICAR foi instituída por Jesus Cristo, tendo o anúncio sido formalizado por ele mesmo à Pedro, em Mateus 16. Iniciar o debate já com essa pressuposição é raciocínio circular, já que é justamente esse um dos pontos que precisa ser provado.

A cosmovisão protestante é distinta. Ela entende que Jesus não instituiu a ICAR, mas sim a Igreja Cristã, a qual, em sua primeira fase, se guiou puramente pelas pelas doutrinas apostólicas. Na medida em que o tempo foi seguindo, a Igreja Cristã foi passando por outras fases, nas quais elementos estranhos começaram a compor à doutrina cristã.

O processo de romanização da Igreja cristã se inicia, segundo a cosmovisão protestante, décadas após a era apostólica e de maneira bastante gradual e sutil. Nos primórdios do cristianismo, não havia um poder central formal instituído na Igreja. Cada cidade ou região possuía sim um bispo, que era simplesmente um membro local com bons atributos cristãos e que havia recebido instrução e preparo de algum missionário. Na era apostólica, os primeiros missionários foram os próprios apóstolos. Coube a eles a tarefa inicial de plantar igrejas nas cidades, preparar um líder e partir para outras cidades, deixando a Igreja plantada se virar sozinha. Havia, evidentemente, o cuidado, por parte dos apóstolos, de orientar de longe através de cartas, e de visitar as igrejas plantadas tempos depois, a fim de observar o funcionamento delas. As igrejas, por seu turno, enxergavam os apóstolos com grande respeito, já que eles haviam estado com Jesus e, portanto, conheciam a sua doutrina. Não havia, entretanto, uma hierarquia bem definida, um líder supremo dentre os apóstolos e uma sucessão formal. E cada igreja era bastante autônoma, apenas recebendo orientações de longe vez ou outra.

Com a morte dos apóstolos, a Igreja passou a se formalizar um pouco mais e os bispos de cada cidade ou região ganharam maior importância. Mas, segundo a cosmovisão protestante, a Igreja ainda seguiu por um tempo descentralizada, não possuindo um bispo supremo dentre os bispos, conquanto houvesse unidade nas doutrinas.

O bispo de Roma passaria, gradativamente, a ganhar maior relevância dentre os bispos por pertencer à capital do Império e pelo cristianismo já não contar mais com uma Igreja forte em Jerusalém (a qual foi, na fase apostólica, Igreja central do cristianismo). Considera-se, dentro dessa cosmovisão, que apenas lá pela década de 530 o processo de romanização se consolidaria, transformando efetivamente o bispo de Roma no bispo dos bispos. Esse reconhecimento, portanto, foi sendo construído ao longo de um processo que durou séculos. Então, podemos dizer, dentro dessa cosmovisão, que a ICAR só surge, no mínimo, após o ano 500. Antes disso, o que se havia era uma Igreja cristã em processo de romanização, ou ainda, uma Igreja Proto Romanizada (e, por consequencia evidenete, não mais apostólica). Ou seja, nessa cosmovisão, quem fez selecionou os livros que iriam compor a Bíblia não foi a Igreja Católica, mas sim a Igreja cristã. O máximo que se pode dizer, nesta cosmovisão, é que a Igreja cristã que o fez estava em processo de romanização.

Exponho essa cosmovisão não para afirmar que ela seja a correta (pois não é este o intuito do post), mas apenas para alertar que não existe apenas a cosmovisão católica. Portanto, iniciar um debate pressupondo que há apenas uma cosmovisão possível causa um desequilíbrio no debate. Ora, a ideia não é provar qual das duas está correta? Então, o debate deve partir do zero, sem suposições iniciais não provadas no próprio debate.

6) É logicamente necessário que Deus tenha instituído uma Igreja infalível doutrinariamente. Senão o cristianismo não vigoraria.

R.: Não, não é necessário. Na Antiga Aliança, o povo judeu passou algum tempo crendo na doutrina errônea de que o Messias seria um líder militarista que destruiria o Império Romano. Era o povo de Deus, mas estavam em erro doutrinário. No mesmo judaísmo, surgiram divisões. As duas principais eram a dos fariseus e a dos saduceus. Ambos possuíam erros doutrinários. E o povo absorvia esses erros. Durante o ministério de Jesus, o povo judeu, no geral, continuou sustentando doutrinas erradas, incluindo a visão distorcida da missão do Messias. Felizmente, Jesus reuniu um grupinho de judeus que aceitou as doutrinas corretas. Esses judeus pregaram a outros judeus, que também aceitaram, e depois partiram para evangelizar o restante do mundo. Isso evidencia que, no interior do povo de Deus, pode haver erros doutrinários. O povo quase inteiro pode abraçar doutrinas erradas. É possível e já aconteceu. Mas, apesar disso, os planos de Deus não foram inviabilizados.

Podemos voltar um pouco mais no tempo e pensar no monoteísmo primitivo, seguido pelas primeiras clãs do mundo. Formavam o povo de Deus. Mas aos poucos elas foram agregando ideias erradas também. Foi, aliás, este motivo que levou Deus a usar Abraão, membro de uma dessas clãs monoteístas, para formar um povo específico para Ele; um povo que pudesse manter as suas verdades ao longo do tempo e dar ao mundo o Messias. Este novo povo, como vimos, não se tornou infalível à nível doutrinário. E à nível moral foi um povo bastante problemático. Entretanto, Deus cumpriu seus planos através dele, não foi? O judaísmo vigorou até a vinda do Messias, não é? Do judaísmo saíram os primeiros cristão, correto? A primeira Igreja era majoritariamente formada por judeus, não é mesmo? Pois é.

A ideia de que uma instituição falível à nível de doutrina não pode servir aos planos de Deus não parece corresponder à realidade histórica e bíblica. Na comovisão protestante, Deus permanece sendo o guia supremo da história. Não importa o quanto o homem seja falível moral e doutrinariamente, o quanto o seu povo se engane com mentiras, o quanto a humanidade crie problemas, Ele sempre irá levantar homens para resgatar suas verdades e até mesmo agir por meio de quem não tem as ideias totalmente certas. Isso não é, de forma alguma, um incentivo ao erro. É apenas uma constatação: Deus age até em instituições erradas usando homens errados. Homens como Arão, Sansão, Davi e Jonas, embora falhos e com ideias tortas, foram muitas vezes usados pelo Espírito Santo para que Deus cumprisse seus objetivos. Até mesmo o problemático Saul (que no fim da vida se perdeu), quando intentava matar a Davi, foi tomado pela influência do Espírito de Deus, desistindo do mau intento e passando a profetizar (I Samuel 19:18-24). Isso mostra que o Espírito de Deus age em quem Ele quiser e alcança seus planos do modo como quiser. Quem somos nós para limitar a Deus?

7) A Igreja Católica é verdadeira porque deu ao mundo um enorme legado de boas obras e avanços nas mais diversas áreas do conhecimento, sendo este legado muito superior ao deixado pelos protestantes.

R.: Acho esse argumento bastante bobo. Não porque eu discorde do tamanho do legado positivo que a ICAR deu ao mundo (embora eu também creia que ela cometeu muitas falhas, sobretudo no quesito doutrinário). Mas eu acho um argumento bobo porque este legado positivo não é, definitivamente, um argumento para provar que a ICAR é a Igreja verdadeira. A cosmovisão protestante, por exemplo, não crê que tudo o que sai da Igreja Romanizada seja ruim. Ao contrário, uma vez que ela faz parte da Igreja Cristã, ela sempre possuiu membros cristãos verdadeiros e fervorosos que foram utilizados por Deus para a sua obra. Então, dentro da cosmovisão protestante, a ICAR fez muitas coisas boas para a sociedade não porque é uma instituição romanizada, mas sim porque, apesar dos seus erros doutrinários, é uma instituição que faz parte da Igreja Cristã e que possui membros cristãos verdadeiros e fervorosos.

Nenhum protestante honesto e minimamente estudioso negará o peso positivo que a ICAR teve em muitos aspectos da nossa sociedade ao longo dos séculos. E é óbvio que o legado dela tende a ser maior que o protestante, já que sua instituição é mais antiga. Mas antiguidade não comprova originalidade, tampouco pureza doutrinária. Por isso o argumento é inválido.

Só para lembrar: para a cosmovisão protestante, Jesus não instituiu a Igreja Católica Romana, ou a Igreja Católica Ortodoxa, ou alguma das Igrejas Protestantes. Ele instituiu a instituiu a Igreja Cristã, lá no primeiro século (e que era, aliás, formada majoritariamente por judeus e cujo centro foi por muito tempo em Jerusalém). A Igreja Cristã deixou sua fase apostólica e começou a se romanizar. Esse processo se consolidou lá para os anos 530, quando toda a cristandade reconheceu o bispo de Roma como bispo dos bispos. Ou seja, a Igreja Cristã não surgiu romanizada, mas tornou-se romanizada - pelo menos, majoritariamente, já que sempre existiram grupos cristãos fora da ICAR (muitos dos quais eram heréticos, mas não todos).

8) Os protestantes acreditam na livre interpretação da Bíblia, o que é uma prova de relativismo da verdade. A Igreja Católica acredita em uma só interpretação da Bíblia, portanto, é a Igreja verdadeira.

R.: Errado. Os protestantes acreditam no livre exame da Bíblia. Isso significa que, para a cosmovisão protestante, todo cristão tem o direito de estudar a sua Bíblia e procurar base escriturística para as doutrinas da Igreja. O livre exame não deve ser confundido com a livre interpretação. O cristão não é livre intelectual e moralmente para interpretar a Bíblia como bem lhe aprouver. A correta interpretação bíblica requer domínio de regras interpretativas lógicas, bom conhecimento histórico, bom conhecimento da própria Bíblia, hábito de leitura, honestidade intelectual, humildade de espírito e um bom relacionamento com Deus. Sobre as regras lógicas de interpretação, podemos citar as mais conhecidas: avaliação do contexto histórico, do contexto da passagem, do estilo do livro estudado, da finalidade do livro, do autor, dos destinatários, da cultura e do idioma em questão e da relação do texto com outros textos da Bíblia.

É evidente que muitos cristãos, ao terem livre acesso à Bíblia, procurarão interpretá-la sem um ou mais desses requisitos básicos. É daí que surgem as heresias. Mas veja que isso é um pecado exclusivo da pessoa que resolve assim proceder e não da cosmovisão protestante. Nenhum protestante honesto e minimamente inteligente defende que as pessoas interpretem à Bíblia de qualquer maneira, sem os requisitos básicos. Na verdade, o bom protestante deseja que todos os cristãos aprendam os requisitos básicos para se interpretar corretamente e, uma vez dispondo dessas ferramentas fundamentais, sejam livres para avaliar a Bíblia. Longe de ser um erro, tal postura é honesta, pois dá a cada um a oportunidade de zelar pelo bom cumprimento da Palavra de Deus, averiguando se ela está sendo seguida por sua comunidade. Isso não exclui, evidentemente, que cada um peça ajuda à pessoas que tem maior capacidade intelectual e espiritual para fazer avaliações. Ter humildade de espírito também se trata disso.

Os católicos geralmente batem na tecla de que o problema dessa liberdade de exame é justamente o perigo de insensatos deturparem a Bíblia. Mas esse risco é o preço da liberdade. E sempre foi. A liberdade sempre implica riscos. Quando Deus fez o Jardim do Éden para Adão e Eva, deixou no centro do jardim uma árvore cujo fruto não deveria ser comido. Mas, uma vez que ela estava ali, havia a liberdade de Adão e Eva comerem. Deus poderia não ter dado a eles essa liberdade, impedindo que aquela árvore estivesse no jardim (ou cercando-a com grades intransponíveis). Mas não foi assim que Deus agiu. Ele preferiu deixar que a escolha ao alcance das mãos do homem. O risco era a queda da humanidade no pecado. Pois foi exatamente o que ocorreu (e Deus já sabia desde sempre).

Após o pecado a questão não muda. Ecoam na minha cabeça as palavras do próprio Deus a Caim: "Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo" (Gênesis 4:7). Ou ainda as palavras de Deus ao povo hebreu, no deserto: "Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência"
(Deuteronômio 30:19).

Lembro ainda que o autor inspirado Lucas afirma sobre os cristãos bereanos: "Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, porquanto, receberam a mensagem com vívido interesse, e dedicaram-se ao estudo diário das Escrituras, com o propósito de avaliar se tudo correspondia à verdade" (Atos 17:11). Parece-me que a Bíblia dá muita ênfase à avaliação para descobrir se algo é verdadeiro. Em Provérbios Salomão já dizia: "O simples dá crédito a cada palavra, mas o prudente atenta para os seus passos" (Provérbios 14:15). Eu poderia citar várias outras passagens do gênero.

A suma é: não parece haver qualquer condenação bíblica ou lógica ao livre exame das Escrituras. E o fato de existirem pessoas que irão distorcer a Palavra de Deus é apenas uma consequencia da liberdade. Devemos aprender a lidar com isso e, através do estudo sério e da oração fervorosa, nos manter longe dos erros e abertos à verdade. Como Pedro já orientava no primeiro século: "[...] tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (I Pedro 15:18).

9) Uma Igreja falível (como sustentam os protestantes) não poderia produzir uma Bíblia infalível.

R.: Não vejo razão para concordar com isso. Lanço mão de uma analogia para explicar. Eu fiz cerca de 230 provas nos meus três anos de ensino médio. Embora eu tenha sido um bom aluno, é óbvio que não tirei 10 em todas essas provas (tampouco na maioria). Mas eu gabaritei algumas sim. Acredito que umas 40 ou mais. Nessas provas, portanto, eu fui perfeito, acertei tudo. Produzi uma prova sem falhas. No entanto, isso não muda o fato de que eu sou falível, imperfeito e que na maioria das provas eu não acertei todas as questões. É possível concluir daí que o ser humano, mesmo sendo falível e falho, pode produzir alguns resultados isentos de erros em determinadas ocasiões.

Da mesma maneira, todo cristão é passível de erros morais, administrativos e doutrinários, tanto na condução da sua vida individual, como na condução da Igreja de Cristo. Ser passível de erros não significa viver errando, ou jamais conseguir um resultado perfeito em determinada ocasião. Significa apenas que é possível cair e que, com muita probabilidade, isso vai acontecer em um ou mais momentos. O que define a intensidade dos erros e o tempo para consertá-los é uma palavrinha chamada "humildade". Quando o cristão é humilde e reconhece ser passível de erros, tenderá a cometer erros menores e a consertá-los com mais rapidez. Uma instituição, no entanto, que não reconheça essa possibilidade de desvio, poderá cair em um e nunca sair. O erro se consolida como verdade, torna-se tradição sagrada e vira um dos pilares inamovíveis da Igreja. É um perigo real.

Mas voltando à questão principal: se cristãos falíveis podem produzir resultados perfeitos em algumas ocasiões da vida, seja no âmbito moral, administrativo ou doutrinário, então é perfeitamente aceitável que alguns bons cristãos tenham recebido inspiração de Deus para compor as Escrituras, de modo que, ao fazê-lo, foram perfeitos doutrinariamente. Isso não muda o fato de que tais cristãos eram falíveis. Mas em determinadas ocasiões escreveram coisas perfeitas que os demais cristãos, majoritariamente, perceberam ser inspiradas. Não há qualquer contradição lógica nesta cosmovisão. Em tempo: o povo israelita era falível e compôs o Antigo Testamento. É sempre bom lembrar disso.

10) Mas se a ICAR não é a Igreja instituída por Deus, qual é? Como encontrá-la num mar de igrejas rivais?

R.: Primeiramente, é preciso entender qual a concepção de Igreja para a cosmovisão protestante. Igreja não é uma instituição formal, com CNPJ, Razão Social, templos e hierarquia. Não que essas coisas sejam erradas ou não tenham relevância. Mas elas, na verdade, são acessórios. Igreja é, antes de qualquer coisa, o conjunto de todos aqueles que creem verdadeiramente em Jesus como Senhor e Salvador do mundo, bem como na Bíblia (Antigo e Novo Testamento). Em suma, Igreja é o nome que se dá ao coletivo de todos os cristãos espalhados na face da Terra, independentemente se todos mantém contato ou não. Se três cristãos, por exemplo, forem parar cada qual em uma ilha deserta diferente, eles continuam sendo parte da Igreja de Cristo.

Entendido isso, fica claro que a Igreja de Cristo transcende os inúmeros grupos e facções que existem no cristianismo. Os cristãos verdadeiros de cada facção (Católica Romana, Católica Ortodoxa, Luterana e etc.) fazem parte da mesma e única Igreja: a Igreja de Cristo. Isso não implica, evidentemente, que todas as faccções contém o corpo correto de doutrinas. Já falamos sobre isso. E aqui está o desafio: como encontrar a congregação cristã que possui as doutrinas bíblicas corretas? Só há um caminho: estudar a Bíblia com afinco e fervorosa oração. A congregação correta há de se pautar inteiramente na Bíblia ou, no mínimo, demonstrar tal disposição.

Eu, como Adventista do Sétimo Dia, acredito que esta é a congregação na qual (e com a qual) Deus tem terminado de resgatar suas santas doutrinas bíblicas. Na cosmovisão adventista, Deus não deixa de agir durante toda a história, procurando fazer a Igreja Cristã como um todo retornar à pureza doutrinária da Era Apostólica. Neste sentido, o movimento protestante foi muito importante, embora não tenha completado a reforma. Esta reforma continuaria nos séculos seguintes, através de outros movimentos e grupos, todos falhos e falíveis, mas em busca da verdade. Para nós, a Igreja Adventista, vem para dar a contribuição final à Igreja Cristã, espalhando verdades não reformadas como a guarda do sábado, a mortalidade da alma, a mentira do inferno como lugar de tormento eterno, a importância da mensagem de saúde e etc. Mas isso é assunto para outra postagem. Em suma, cada igreja acredita deter o correto corpo de doutrinas. Apenas o estudo sério, honesto e unido à oração fervorosa pode provar este tipo de afirmação. E isso é a obrigação moral e espiritual de todo o cristão.

No final de tudo, entretanto, todas essas facções e grupos desaparecerão; tornar-se-ão fúteis. Os cristãos verdadeiros, espalhados por todas as igrejas, sairão de suas instituições formais corrompidas, aceitando o verdadeiro evangelho e recusando-se a seguir outra coisa que não a Palavra de Deus. Então, todos estes estarão juntos e juntos sofrerão a perseguição daqueles que preferirão a falsa religião e seu prazeres. Neste período da história, ficará claro que a Igreja de Cristo transcende paredes e que o verdadeiro cristão é aquele que "guarda os mandamentos de Deus e a fé em Jesus" (Ap. 12:17 e 14:12).

Considerações Finais

Como já dito, o intuito desse post não foi provar que a ICAR não é a Igreja verdadeira, mas apenas fazer uma crítica de alguns argumentos frágeis que são comumente usados por católicos em debates contra protestantes. Nos debates que já travei, invariavelmente a argumentação católica se resumiu à seguinte linha de raciocínio:

(1) A ICAR é a única que sabe interpretar as Escrituras Sagradas;

(2) Logo, a interpretação da ICAR sobre a instituição dela mesma por Jesus em Mateus 16 está correta;

(3) Logo, a ICAR existia antes do Novo Testamento ser escrito;

(4) Logo, a tradição da ICAR gerou o Novo Testamento;

(5) Logo, a tradição da ICAR é tão importante quanto a Bíblia e não a contradiz;

(6) Logo, a tradição da ICAR pode ser usada, juntamente com a Bíblia para provar que a ICAR é verdadeira.

Percebe o raciocínio circular? Pois é, a argumentação dos católicos com os quais já debati sempre se baseou nesse tipo de raciocínio. Que fique claro que isso não é uma generalização. Não estou dizendo que todos os católicos argumentam assim. Refiro-me apenas aos que já debati (e alguns que já vi debatendo por aí). E enfatizo que não eram católicos ignorantes em teologia, apologética e história da própria instituição deles. Mas cometiam esses erros. Ora, assim como argumentos católicos ruins me incomodam bastante, argumentos protestantes ruins também me deixam irritado. Quando vejo um protestante acusando os católicos de crerem que o Papa não peca, fico para morrer. Não é isso que diz o dogma da infalibilidade papal. É preciso conhecer o que se critica. A minha intenção, portanto, é sempre tornar o debate mais rico.

Como um debate entre católicos e protestantes deveria ser? Quero terminar o post falando sobre isso. A questão principal a ser discutida é: a ICAR foi realmente instituída por Jesus? Para responder a essa questão é preciso:

(1) fazer uma análise do texto de Mateus 16 (a principal passagem bíblica usada por católicos para sustentar sua cosmovisão), avaliando e confrontando todas as suas interpretações possíveis;

(2) fazer uma análise histórica profunda para saber se há textos do primeiro século que comprovem a posição soberana do bispo de Roma e a sucessão papal a partir de Pedro;

(3) avaliar, perante uma análise interpretativa séria, lógica e acurada da Bíblia, se as doutrinas e a tradição católicas estão de acordo com as Escrituras Sagradas.

Esses são os três pontos básicos. O que se espera é que, tendo a ICAR sido fundada por Jesus Cristo, essas três análises podem ser feitas e suas respostas demonstrarão, inquestionavelmente, a veracidade da teologia e cosmovisão católicas. Do contrário, segue-se que a cosmovisão protestante está correta. Os debates que se pautarem nesses três pontos serão, sem dúvida, muito construtivos e enriquecedores. Deixo aqui o meu pedido, à protestantes e católicos, que invistam nesse nível alto de discussão.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Por que algumas pessoas boas e interessantes não conseguem um relacionamento?

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Há um tempo eu estava lendo um conteúdo sobre relacionamentos do ponto de vista biológico. Eu não me aprofundei muito na questão, mas o que li faz sentido para mim e quero compartilhar algumas conclusões em cima desse estudo e outros (e um pouco de experiência própria).

Instintos naturais

O autor do conteúdo dizia que o que atrai as mulheres biologicamente não é dinheiro, ou músculos, ou beleza. O que atrai (e isso é subconsciente) é a aparência de que determinado homem é "disputado". O autor faz uma analogia com os animais. Ele cita, por exemplo, algumas experiências feitas com girafas. Segundo ele, cientistas perceberam que entre dois machos de igual saúde, tamanho, aparência e força, as fêmeas tendiam a escolher o macho que já tinha fêmeas disputando-o. A explicação é simples. Instintivamente falando, o macho mais disputado é, provavelmente, o mais saudável e, portanto, o mais fértil e o que gerará a melhor prole. E, instintivamente falando, isso é o que importa na natureza dos seres vivos: gerar uma prole saudável, a fim de manter a espécie.

O autor trabalha segundo um ponto de vista darwinista. Eu não creio no darwinismo (ler, por exemplo, o bioquímico Dr. Michael Behe sobre o assunto), mas penso que a analogia é válida, já que realmente Deus criou os seres com semelhanças entre si e quanto mais semelhante é um animal com o ser humano, mas é possível traçar paralelos de comportamento. Mas, independentemente da sua crença científica, o fato é que experimentos semelhantes já foram feitos entre humanos. Eu me lembro de uma vez ter assistido no Fantástico (isso deve ter mais de dez anos - eu ainda assistia TV) um quadro em que mulheres eram postas numa situação de escolher um cara. A maioria se sentia mais atraída pelo cara compromissado, em detrimento do solteiro. Se não me engano, era o mesmo ator fazendo dois papéis, só que para grupos diferentes. Também me lembro de ter lido uma matéria certa vez afirmando que mulheres tendem a se sentir atraídas por "bad boys" porque, inconscientemente, o organismo delas diz que eles têm maior possibilidade de gerar filhos saudáveis.

Perceba que o âmago dessa análise é o seguinte: é tudo subconsciente. Estamos falando de instintos. A mulher não pensa isso de modo consciente, tipo: "Olha como as meninas gostam daquele bad boy! Se eu conseguir engravidar dele, vou ter filhos fortes e saudáveis!". Trata-se de um instinto apenas. Instintos são cegos. São mecanismos importantes, pois nos geram alguns impulsos essenciais para autoproteção, proteção da espécie e reprodução da espécie. Mas são cegos. E por isso nem sempre estarão ao lado da razão ou da moralidade. Por exemplo, o nojo é um mecanismo de autoproteção. Por causa do nojo, somos protegidos de muita coisa. Você vê algo que não parece confiável para se comer e sente nojo. E isso te impedirá de comer. Agora, às vezes algo tem um aspecto nojento, mas não é perigoso. Como um bolo de amendoim que saiu mole. Se você sabe do que se trata, comerá sem problema.

Nós, humanos, temos instintos tal como os animais. A diferença é que, além dos instintos, temos também razão e moralidade. E isso nos dá a capacidade de julgar quando seguir o instinto natural não é conveniente. Quando um homem controla seu desejo sexual em vez de agarrar a primeira moça bonita que vê na rua, ele está usando a moral e a razão (e talvez o hábito também) para julgar seu instinto errado. Ele está literalmente indo contra seus instintos naturais. O instinto é cego. Cabe a nós, potencialmente racionais e morais, julgar quando devem ser contrariados.

Eu vou voltar a falar das mulheres, mas antes, já que mencionei o desejo sexual masculino, vamos entender um pouco o subconsciente do homem. O homem é diferente da mulher. Ele é muito mais visual. Seu instinto procura as mulheres mais bonitas. Por quê? Porque, instintivamente, as mais bonitas são, provavelmente, as mais saudáveis, o que significa que elas terão maior possibilidade de gerar uma prole saudável e forte. De fato, se você olha para uma mulher de quarenta e poucos anos, não muito bonita, que viveu uma vida desgastante e a compara com a Gisele Bündchen, a aparência mais saudável é a da Gisele. Pois é isso que o subconsciente do homem vê na beleza feminina: saúde. Saúde para gerar uma boa prole.

Mais uma vez: isso não é algo consciente. Acontece tudo à nível instintivo. E cabe lembrar que o instinto não é um mecanismo determinista. Ou seja, é possível dobrar o instinto, contorná-lo e até anula-lo. É o que veremos logo mais.

Mas, voltando às mulheres, como funciona o subconsciente da mulher (segundo o que foi exposto aqui)? Ele procura fazê-la se apaixonar por caras que aparentemente são disputados. Não precisa ser disputado, de fato. Apenas aparentar. É neste ponto que fatores secundários como dinheiro fazem a diferença. Um cara com dinheiro aparenta ser mais disputado pelas mulheres. Por quê? Primeiro porque ele de fato é. Muitas o querem por interesse financeiro. Às vezes o interesse é de apenas estar perto mesmo, não necessariamente de seduzir e ficar com a grana. O dinheiro chama "amigos" e bajuladores, dá status e importância. E isso atrai homens e mulheres.

Segundo porque geralmente o cara com dinheiro tem uma postura mais decidida, firme, segura de si, altiva. Porque, de fato, um cara com dinheiro consegue quase tudo o que quer. Essa autoconfiança é expressa em seu modo de falar, andar, gesticular, agir, pensar, rir, se divertir e se relacionar. E quando um cara transpira essa segurança e autoconfiança, passa a mensagem subconsciente de que não precisa correr atrás de mulher nenhuma, que elas correm atrás dele. O que até é verdade. Ou seja, ele é disputado. E se você não o quiser, dane-se! Ele não se importa. Ele tem mil outras aos pés dele.

Pronto! É tudo o que uma mulher precisa para se apaixonar. No subconsciente dela uma luz vai piscar, um alarme vai tocar e seu instinto vai dizer: "Esse cara é ideal para gerar filhos. Veja como todas a querem! Ele é seguro, autoconfiante, decidido! Os filhos dele serão aptos para vencer o mundo! Serão machos-alfa!".

Se fôssemos animais, isso daria certo. Mas, na prática, o que geralmente se verá é a mulher sendo iludida por esse "macho-alfa" e jogada fora como um objeto após servir de diversão para o mesmo. Porque não somos animais. Por mais que tenhamos instintos, nós fomos projetados para amar e sermos amados. Se isso não ocorre, nos sentimos vazios e feridos.

O mesmo ocorre com o homem. Se ele consegue uma bela mulher para si, mas que só tem beleza, geralmente ele será usado, corneado, e também se sentirá ferido. E é por isso que há tanto sofrimento nessa área entre os humanos.

Tal como o dinheiro, músculos definidos, beleza e, principalmente, fama e poder podem dar a um homem a aparência de ser disputado, além de criar nele autoconfiança e segurança aparentes. Por isso, nem sempre um homem rico e poderoso consegue uma mulher bonita por mero interesse financeiro. Muitas vezes a mulher realmente se sentiu atraída pelo homem, já que seu poder gera uma aparência atrativa à nível instintivo. Sim, pode ser que Marcela realmente tenha se apaixonado por Michel Temer e não pelo seu dinheiro. Entender isso nos ajuda a compreender o motivo pelo qual homens feios podem conseguir mulheres muito bonitas. A beleza não é o fator preponderante para uma mulher se apaixonar. E é por isso que há mulheres que se apaixonam por homens não só feios, mas rudes, imorais, promíscuos e babacas. Ou seja, o cara não tem uma boa qualidade, porém chama a atenção da mulher no seu subconsciente. Que merda, não é?

O que as mulheres mais assanhadas chamam de “homem com pegada” nada mais é que isso: um homem que aparenta ser autoconfiante e desejado por outras mulheres. Ele pode ser um babaca, mas se tem essas duas características aparentes (só precisa ser aparente, não se esqueçam), ele tem “pegada”.

Para o homem, por sua vez, o que vai importar para o subconsciente é a aparência de saúde, o que geralmente vai se refletir na beleza e na juventude. Já ouviram aquele ditado de que o homem troca uma de quarenta por duas de vinte? Pois é. É mais ou menos por aí. Isso quer dizer que a mulher pode ser uma pilantra, uma canalha ou uma imbecil, mas se ela é “gostosa”, o homem vai desejar ter. E o que é pior: quanto mais difícil essa mulher bonita e pilantra for, maior é a tendência do homem cair de quatro por ela. Por que? Aqui vai outra característica do homem: ele se sente atraído pela conquista.

O homem é, por essência, um ser que gosta de vencer desafios. Isso é algo comum ao gênero masculino em geral na natureza. Olhe para leões, tigres, leopardos, pavões e mais o que quiser, e verá o quanto ganhar uma competição é importante para este gênero. É ali que ele firma a sua força, sua masculinidade e, no caso dos homens, sua honra. A honra tem a ver não apenas com o modo como as pessoas nos veem, mas como achamos que as pessoas nos vemos e como nós mesmos nos vemos. O contrário de honra é vergonha e um sinônimo adequado para honra pode ser amor/orgulho próprio. Fira o orgulho próprio de um homem e você o derrubará. Um homem sem honra não se sente mais um homem em sua plenitude. E isso é a pior coisa que você pode fazer a um homem. Por isso a traição é tão dura para nós.

Pois bem. A conquista tem um sabor especial para o homem. E há estudos científicos que demonstram algo bastante interessante no cérebro masculino: ele despreza as mulheres fáceis. A mulher “piranha” é vista pelo cérebro do homem como mero objeto. Uma vez li sobre um estudo no qual se constatou que a mesma região do cérebro masculino que pensa em caixa de ferramentas, pensa em mulheres promíscuas e fáceis. Por outro lado, uma mulher bonita e safada que saiba se fazer de difícil pode se tornar o desejo supremo de um homem? Por quê? Porque ela é difícil. Se ela é difícil, torna-se um desafio e quanto maior o desafio, maior será a conquista. E se a mulher é bonita, segue-se que ela é saudável e gerará filhos saudáveis. Pronto! Tudo o que o homem quer. Isso, claro, à nível instintivo. Nada disso é pensado conscientemente.

Mas não só de beleza e juventude se perfaz a aparência de saúde para o homem. Outros atributos como jeito de andar, falar, gesticular, rir, se vestir e se portar podem ativar essa aparência. No entanto, isso depende mais do padrão pessoal de beleza feminina que cada homem tem. Há, de fato, características que atraem mais a uns do que outros. E isso é bastante pessoal. O que se deve lembrar, contudo, é que o homem é um ser mais visual que as mulheres. Então, geralmente o que vai atraí-lo mais é a beleza. Quanto mais bela for a moça, mais ele se sentirá inclinado a apaixonar-se.

Entenderam a dinâmica até aqui? Faz sentido, não é mesmo? Agora, vem algumas partes interessantes sobre a razão pela qual tanta gente legal e boa não consegue namorar, noivar e casar. Vou começar pelos homens.

As razões da "sofrência"

O homem tem um instinto natural de proteger a mulher e a prole. Ele foi criado por Deus para isso. Essa é a posição natural do gênero masculino. A mulher deseja um homem que assuma esta função? Conscientemente, em geral, sim. E instintivamente também. Porém (e esse “porém” é muito importante), esse instinto protetor paternal do homem é algo que afasta as mulheres quando manifesto no momento errado. Explico. Para os homens mais românticos, como eu, é comum expressar esse instinto de cuidado para as garotas que estamos interessados. Mas isso é lido pelo inconsciente da garota flertada da seguinte maneira:

“Se ele quer tanto cuidar de mim, eu sou a única que ele deseja. E se ele está correndo atrás de mim, é porque provavelmente não tem nenhuma outra que o deseje. Ele não é um homem cobiçado, desejado, disputado. É só um tolo e fraco correndo atrás de mim. Logo, ele é um merda. E se é um merda, gerará filhos merdas. Não serve para mim”.

Não importa se o homem em questão é maravilhoso, educado, atencioso, fiel, trabalhador, estudioso, dedicado a Deus, másculo e etc. Se ele expõe seu instinto protetor, o instinto da mulher gritará essa mensagem. E ela provavelmente não sentirá atração por ele. Se a moça em questão for moral e bondosa, ela encarará isso como um: “Não rolou química, não sei. Ele é legal, mas só o vejo como amigo”.

Aliás, o mesmo ocorre com o romantismo. A maioria das mulheres deseja um homem romântico. E, de fato, para uma mulher que já está apaixonada, o romantismo é importante para mantê-la amando o homem. Porque a mulher é bastante sensível e precisa se sentir amada. Entretanto, o subconsciente delas milita contra o romantismo na fase inicial de conhecimento. Porque se o homem for romântico com ela, a aparência de ser disputado e autoconfiante vai por água abaixo.

Recentemente, publiquei um post no Facebook dizendo mais ou menos o seguinte: se realmente é verdade que quanto mais bonzinho, legal, atencioso e romântico o homem for, menos as mulheres se interessarão por ele, então eu (Davi) estou fadado à solidão, no que tange a vida amorosa. Este post que fiz é (e eu sei disso) um suicídio em termos de instinto. Ao fazer um post onde me mostro visivelmente triste com minha condição atual e onde me apresento como romântico (o que é fato), a única coisa que atraio das mulheres é pena. Nada mais. Por mais que muitas mulheres que leram o post sejam ótimas pessoas do ponto de vista moral e espiritual, no subconsciente delas o que elas leram foi:

“Coitado. O cara é legal, mas nenhuma mulher está interessada nele. Ele é legal, mas não tem autoconfiança e segurança, pois está aí se lamuriando. Ou seja, ele não serve para mim. Se me caso com ele, os filhos gerados serão todos fracos, trouxas, imbecis”.

Meu post não tem o poder de despertar paixão nas mulheres. Pelo contrário, ele tem o poder de afastá-las ainda mais. Por que então postei? Desabafo. Postagens do gênero são comuns tanto para mulheres quanto para homens que estão se sentido solitários e apesar de serem boas pessoas não conseguem companhia. Infelizmente, é o tipo de post que é um tiro no pé. E eu sei. Ser romântico, para o homem, é um grande fardo por conta disso. Porque precisamente tudo o que ele faz afasta o interesse das mulheres, por mais que elas queiram arrumar parceiros que sejam românticos. Sim, amigos, mulheres são difíceis. E isso é biológico.

No caso das mulheres, aquelas que aparentarem não ter uma boa saúde (ou por não serem tão bonitas, ou por serem desajeitadas), ainda que sejam inteligentes e com moral elevada, serão preteridas, à priori, pelas que parecem mais saudáveis. Mas no caso do homem, por ser este um ser mais visual, ele reconhecerá: “Fulana é legal, mas a aparência dela não me atrai”. Triste, não é? Mas é fato.

Dominando os instintos

Daí você deve estar pensando: “Mas então tudo se resume à instintos? Estamos fadados a fazer apenas aquilo que nossos instintos mandam?”. Essa é a boa notícia do post: “Não, não somos escravos dos instintos”. Como afirmei há pouco, o ser humano tem instintos, mas também tem moral e razão. São duas faculdades que nos auxiliam a perceber quando seguir o instinto natural não é conveniente. O que nos diferencia dos animais são essas duas faculdades. E é no uso habitual delas que conquistamos a capacidade de desejar o que vai além dos instintos e, até mesmo, de anular desejos instintivos, passando a vê-los com desprezo. Em linguagem religiosa, é possível vencer suas inclinações pecaminosas naturais, reformar sua mente e passar a ter desejos puros.

Isso, obviamente, precisa ser entendido dentro dos seus limites. Uma vez que somos seres pecadores e que a propensão ao mal só será totalmente anulada em nós quando Cristo voltar e nos dar um novo organismo, então sempre seremos propensos, aqui na terra, aos maus desejos. Mas é possível controlá-los bem. Para os cristãos, esse controle é possível porque o Espírito Santo de Deus se encontra na terra e ajuda a consciência natural de todas as pessoas. E, no caso específico dos cristãos, se encontra no interior dos mesmos, com grande poder, fazendo-os mais aptos para vencer o pecado. Isso quando, claro, esses cristãos possuem um relacionamento verdadeiro com Deus e se esforçam para fazerem a sua vontade.

Mas, na prática, o que isso significa? Vou dizer de maneira bem simples: nós, humanos, somos muito semelhantes aos animais. Apenas o uso habitual da razão e da moral nos torna humanos. Quando preferimos dar vazão aos instintos em lugar da razão e da moral, iniciamos um processo de animalização. Para quem crê em Deus, há um terceiro elemento que nos diferencia dos animais, que é o espiritual. E é no espiritual a razão e a moral se encontram. A razão e a moral é o que nos faz a imagem e a semelhança de Deus. Assim, quando mantemos nosso espiritual saudável, mantemos também nossa razão e nossa moral saudáveis. E dessa forma, nos tornamos mais parecidos com Deus e menos com os animais. A esse processo podemos chamar de humanização.

O ser humano entregue aos próprios instintos nada mais é do que um animal. Um animal mais perigoso que os convencionais, pois o ser humano pode maquinar o mal, enxergar benefícios na imoralidade e agir cruelmente contra sua própria espécie. Isso tudo sabendo estar errado.

Mas não é esse o ponto. A grande questão do texto é que, todos nós temos instintos um tanto traiçoeiros. Alguns deles nós sequer temos ideia que existem. Estou certo de que as mulheres que lerem este post, em sua maioria, pensarão: “Nossa, eu não sabia que meu subconsciente era assim”. Não obstante, a partir do momento em que se descobre esta útil informação, é possível lutar contra isso. Como? Aqui vão dicas.

Em primeiro lugar, esteja sempre elevando conscientemente os atributos que realmente importam em um homem ou em uma mulher. Espiritualidade, moralidade, inteligência, fidelidade, honestidade, afetividade. Essas qualidades precisam ser exaltadas. E se você não está habituado a se apaixonar por uma pessoa por conta dessas qualidades, procure dar uma chance de conhecer melhor quem as possui, mesmo que não esteja apaixonado ou apaixonada. Às vezes, ao conhecer melhor a pessoa, passamos a ter afeto por ela, e desse afeto pode surgir amor. Ademais, ao exercitar essa visão mais interior e paciente, seus maus instintos começarão a ser driblados e anulados, de modo que o que irá te atrair, em breve, será realmente o interior da pessoa e não o que ela aparenta ser.

Em segundo lugar, concentre-se nas coisas espirituais. Somos o que consumimos. Se você consome imoralidade, futilidade e carnalidade, será imoral, fútil e carnal. Ou, no mínimo, pensará de maneira imoral, fútil e carnal. Ainda que de maneira subconsciente. Agora, se alimentamos o nosso espírito, se buscamos a Deus e às coisas elevadas moralmente, nós teremos uma mente e um subconsciente mais limpos e puros.

Em terceiro lugar, vigie e questione a si mesmo. É sempre bom se questionar: “Por que estou gostando de tal pessoa? Como isso começou? Por que se sustém? Essa pessoa tem boas qualidades interiores?”. Da mesma forma, pode-se questionar: “Por que não gosto de tal pessoa? Por que não rola química?”. É evidente que isso não deve se tornar uma paranoia na sua vida. Até porque (e quero que prestem atenção nisso), o instinto não é mal em si mesmo. O fato de você se apaixonar por uma pessoa porque algo nela chamou a atenção do seu instinto natural não é, por si só, um pecado. Se eu gosto de ruivas e me apaixono por uma ruiva, não a nada de mal nisso à priori. O que se deve ter em mente é que (1) a mera paixão não constrói um relacionamento duradouro e (2) a aparência não é a coisa mais importante em uma pessoa. Vou elucidar melhor esses dois pontos.

Paixão x Amor, Aparência x Realidade

Sobre a paixão, não há nada de errado em apaixonar-se. Mas a paixão advém de algum atributo da pessoa que nunca representa a sua totalidade. Você pode apaixonar-se por uma garota pelo modo como ela mexe no cabelo. Por alguma razão aquilo faz seu cérebro acha-la graciosa, bela e, portanto, saudável. Mas a mexida no cabelo não representa a totalidade da mulher, tampouco representa o que é primordial para um relacionamento dar certo. Ela pode ter uma ótima mexida no cabelo, mas ser irritante, desinteressante e não ter nada a ver com você. O resultado será o seguinte: após começar o relacionamento, conforme forem convivendo, os outros atributos dela (que são ruins) falarão mais alto, e o que te chamava a atenção nela antes, não chamará mais (ou não será suficiente). Aí a paixão acaba e junto acaba a vontade de estar junto.

Por outro lado, você pode se apaixonar por uma mulher pela mexida no cabelo e, ao iniciar um relacionamento com ela, perceber que vocês possuem muitas coisas em comum, que ela tem ótimas qualidades e que você adora estar perto dela. Pois é aqui neste ponto que a paixão inicial dá lugar ao amor. O amor não nasce à primeira vista. O amor se constrói com o tempo, na medida em que um conhece o outro. Antes do amor pode haver simpatia, paixão, atração, admiração e até mesmo amor no sentido mais geral (o sentido em que amamos amigos ou pessoas comuns). Mas o amor de casal, esse só o tempo gera. E esse só é alimentado pelo convívio.

Sobre a aparência, como já bem disse acima, ela não representa a totalidade da pessoa e, por vezes, não representa sequer a pessoal parcialmente. No caso do homem, só para citar um exemplo, o fato de ele aparentar ser disputado e autoconfiante não significa que ele realmente o seja. Pode ser só aparência. Um homem pode aparentar ser assim por um dia, em um determinado momento da vida e ter a sorte de alguma mulher achar que ele é assim de fato. Um momento é suficiente para apaixonar-se. Por esta razão, não se deve colocar a aparência e a paixão como prioridades. Não há pecado nelas em si mesmas, mas elas sozinhas não levam a lugar nenhum. A paixão requer o amor para fazer uma relação dar certo. E a aparência requer a realidade.

Distúrbios e compulsões

Perceba algo importante: estou falando neste post todo sobre o início das relações e não sobre a continuidade. A continuidade das relações obedece a outras leis. E é nesse ponto que as análises aqui feitas se tornam mais plausíveis. O que atraiu uma pessoa para o início de um relacionamento tende a perder força se o convívio do casal não for bom por alguma razão. Na prática, se uma mulher se interessou por um homem porque o homem aparenta ser disputado e autoconfiante, ela pode perder o interesse nele porque dentro da relação ele não é romântico. E mulher sente falta disso. O que pode acontecer aqui, aliás, é a mulher se interessar por outro homem aparentemente disputado e que aparenta ser romântico. Aqui há um combo. O homem em questão não está aos pés dela, mas parece ser romântico. Neste caso, soma-se o que uma mulher quer durante o relacionamento, de modo consciente, com o que ela quer no início, de modo inconsciente.

Já o homem pode se interessar por uma mulher pela beleza, mas perder o interesse nela durante o relacionamento porque ela não o valoriza como homem. O homem não sente nela admiração e respeito e, portanto, se sente menos másculo. Isso fere a honra e tira o apoio do homem, de modo que ele pode começar a almejar outra mulher. Se aparece alguma mulher bonita que lhe dê a atenção devida, ele será tentado a cair.

Há nuances também. Algumas mulheres se manterão presas ao instinto, de modo que mesmo seus namorados sendo completos babacas, elas mendigarão sua atenção. A gente costuma a chamar esse tipo de mulher de “mulher de bandido”. Outras se manterão presas ao instinto de forma diferente: após laçarem a atenção de um homem, perderão o interesse nele porque seu subconsciente diz que ele não é mais disputado. Isso a fará querer outros homens, sempre de perfil “pegador”.

Por sua vez, os homens que se mantiverem presos ao instinto, geralmente se tornarão promíscuos e não conseguirão se manter fieis a uma mulher. Se casarem, irão sempre criar relacionamentos extraconjugais. Se não casarem, preferirão a vida de “pegador” mesmo. E, infelizmente, como há mulheres para esse tipo de homem, esse tipo de homem continuará a existir. Pegadores se alimentam de mulheres promiscuas. Ambos possuem o mesmo erro: deixam-se levar pelos instintos naturais.

A única forma, portanto, de não cair nesses maus hábitos é suplantando seus instintos em favor da espiritualidade, da razão e da moral. Sim, ressalto aqui a razão, pois não somos animais. Para os animais, a vida se resume, em geral, a comer e se reproduzir. A espécie humana, no entanto, foi feita para se relacionar. Quando o ser humano não cria laços afetivos fortes e baseados na fidelidade, não vive completo, não se sente preenchido, não mantém seu psicológico plenamente saudável. E isso gera compulsões. Compulsão por sexo, por diversão, por compras, por comida, por festas, por status, por dinheiro, por fama, por curtidas, por atenção, enfim, compulsões diversas. O ser humano não foi projetado para viver como um animal. A animalização do ser humano é coisa muito triste. É um caminho natural do pecado, mas não é o projeto de Deus.

Influência, não determinismo

Finalmente, quero deixar claro um último ponto antes das considerações finais. Não ache que o interesse de todas as pessoas (ou da maioria delas) em outras se resume ao que o subconsciente ditou. O subconsciente (ou o instinto dele) é um fator influente, mas não um fator determinante. Cada pessoa é de um jeito. Em algumas pessoas o instinto é mais fraco, em outras é mais forte. E cada pessoa é criada de um jeito. Alguém que foi criado em um ótimo ambiente moral e espiritual pode muito bem não ter inclinação natural aos tipos aqui citados. Assim, uma mulher pode se interessar de primeira por um homem apenas por ele ser educado, por exemplo. Ainda que este homem seja feio, use óculos e pareça bastante inseguro. E um homem pode se interessar de primeira por uma mulher apenas por ela ser meiga. Ainda que essa mulher não seja muito bonita e sequer tenha os atributos físicos que ele prefere.

Uma experiência interessante minha: há pouco tempo uma amiga da igreja resolveu me indicar uma moça dela para eu conhecer. Ou seja, essa amiga resolveu ser nosso cupido, falou de mim para a moça e falou da moça para mim. Essa moça é bonita. E é uma boa cristã. Eu pensei: “Não vou recusar. Não se pode recusar oportunidades”. Então, iniciei conversas com a tal moça, a fim de nos conhecermos, ambos com a finalidade de, se desse certo, iniciarmos um namoro. Ao fim de um tempo nos encontramos como amigos. Ora, tanto nas conversas, como no encontro, não sentimos “química”. E eu me esforcei. Eu estava aberto. Mas o que falou mais alto, no meu caso, não foi a beleza da moça. Foi o fato de que não tínhamos nada em comum e nossas conversas não fluíam.

Neste caso, portanto, eu não fui movido pelo instinto natural, mas pela visão do próprio relacionamento. Vi que não daria certo e isso foi suficiente para que a beleza dela não me atraísse a ponto de eu me apaixonar. Isso não quer dizer que não tenho essa tendência masculina de desejar as mais bonitas acima de tudo. Talvez, se essa moça tivesse o tipo de beleza que a mim, pessoalmente, atrai muito, eu me apaixonasse. Talvez. Porque, no fim das contas, não havia futuro ali. Tanto que ela mesma percebeu. Pelo menos, foi o que ela disse. Eu, por mim, deixei bem claro, para não dar falsas esperanças.

Considerações finais

Em minhas considerações finais, quero dizer que realmente estas análises, baseadas não apenas em um, mas em vários estudos que já vi (e experiências pessoais) me parecem corretas e bastante plausíveis. Acredito que se muitos homens e mulheres interessantes tem sofrido por não conseguirem uma companhia é porque o ser humano está, em geral, viciado em se guiar pelos instintos. E nem sempre isso é perceptível à própria pessoa. Eu estou certo que muitos cristãos genuínos têm se guiado por instintos sem perceber e, por isso, não encontram a pessoa certa e impedem que boas pessoas as encontrem.

Estou há muito querendo escrever esse artigo, até como uma forma de alertar às pessoas contra isso. Mas o que me levou a escrevê-lo hoje foi uma terrível desilusão amorosa que tive e que, talvez, possa ser explicada por essa dinâmica. Em todo o meu romantismo, atenção e cuidado (sem com isso ser meloso, ciumento ou controlador) acabei por afastar uma namorada que parecia gostar de mim (segundo ela, não por ter deixado de gostar, mas por insegurança). Após isso, por insistência minha (em função de crer haver ainda algum sentimento por parte dela), fui relegado à posição de mero amigo e, depois de uma reaproximação amigável, trocado por alguém, aparentemente muita boa gente, mas que, tenho certeza, não dedicou a terça parte do carinho e da preocupação que dediquei.

Não está em questão aqui a conduta da moça. Ela teve seus erros, creio, mas eu também tive os meus. Errei por insistência. Este, no entanto, não é o ponto. O ponto é que por mais doloroso que seja tudo isso, há algo útil nessa experiência. Eu passei por diversas possibilidades ruins que uma relação pode gerar: rompimento, “friendzone”, o ser trocado (ou, talvez, a melhor palavra seja “preterido”) por alguém que não foi tão companheiro quanto fui. Dói mesmo. Lembra do que falei sobre a honra masculina? Pois é, a minha honra está manchada. O coração sangra. E por mais que eu sonhe com uma companheira para namorar, noivar e casar (sonho antigo e persistente), esta não aparece. Contudo, ao menos eu tenho uma ideia da razão principal pela qual estas coisas acontecem. E uma vez que conheço muitos nesta situação, deixo aqui minha contribuição sobre o tema.

Paulo, na epístola aos Romanos, capítulo 7, fala sobre a terrível luta que se dá no interior de todo o ser humano. Ele afirma:
“Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim.
Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor” (Romanos 7:14-25).
O apóstolo continua no próximo capítulo, falando sobre como Jesus resolve este terrível problema. É, na minha opinião, uma das passagens mais lindas da Bíblia:
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte. Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito” (Romanos 8:1-5).
Que todos os que leram este post agarram-se ao Senhor Jesus Cristo e procurem, nEle, tratar todas as nossas inclinações pecaminosas (ou, se preferir outro termo, “instintos naturais inconvenientes”). E que não percamos jamais a oportunidade de conhecer melhor aquelas pessoas interessantes que só vemos como amigos. É possível que o amor da sua vida esteja mais perto do que você pensa. E falo isso para mim também. Porque também eu sou homem como vós, sujeito às mesmas paixões (Atos 14:15).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Deus, o Imbatível

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Eu procuro não discutir com Deus. É inútil. Ele está sempre certo. Eu estou sempre errado. E não digo isso de modo irônico, como quem tenta afirmar implicitamente que Deus ganha arbitrariamente as discussões. Estou sendo literal e explícito. Deus não erra. E por isso é perda de tempo discutir com Ele. Não importa o que você fale, não importa o quanto você pense e argumente, no final Ele sempre te derrubará com um soco de realidade na boca do estômago. Não há como ganhá-lo. Não há como fazer melhor que Ele. Deus é imbatível.

Isso pode ser bastante irritante, às vezes. Nós nos sentimos melhor quando culpamos alguém pelos nossos problemas. Não ter a quem culpar é frustrante, angustiante. Falo como ser humano (parafraseando o apóstolo Paulo). Para o ateu as coisas são mais fáceis nesse sentido. Ele pode culpar o Deus em que não acredita por todos os seus problemas. Culpar quem não existe pode parecer esquizofrenia, mas é uma boa válvula de escape. É uma forma de odiar alguém sem se sentir culpado, já que esse alguém é apenas imaginação dos outros. Não que seja o certo. Mas é fato. Ademais, a porta dos vícios está sempre aberta. Há diversas ilusões nas quais se esconder, diversas rotas de fuga da realidade.

Para o cristão, as coisas são mais complicadas. Uma vez que Deus existe e está certo, não há escapatória. Seus problemas são seus problemas e Deus não tem culpa de nada. Entendem a feiura da situação? Se Deus errasse, poderíamos acusá-lo de injusto, ralhar com Ele e dizer em alto em bom som que nós faríamos melhor. E se Ele mudasse de ideia, como já bem falou C. S. Lewis, talvez pudesse nos poupar de algumas agruras da vida. Mas Ele é perfeito e imutável. Então, não há a quem recorrer. Não há argumentos. Não há chance de vitória. O perigo de estarmos sendo injustiçados por Ele ou de Ele estar gerindo mal a realidade simplesmente não existe. Não há do que reclamar, meus caros. O que poderia ser mais angustiante?

O cristão, pelo menos o cristão verdadeiro, é aquele que terá de enfrentar seus problemas sem válvula de escape. Impossibilitado de culpar a Deus, tudo o que resta ao cristão é aceitar que Deus está certo e todos nós teremos de passar por nossos problemas, por mais difíceis, irritantes e duradouros que sejam. Não há aqui quem proteja o cristão da perfeição de Deus. A limitação humana do cristão está absolutamente exposta à superioridade de Deus. E todas, absolutamente todas as ilusões estão mortas.

Para o cristão, sim, o cristão verdadeiro, não há mais chão. Ele está nu e sozinho diante da santidade do Justo do Universo. "Para onde me ausentarei do Teu Espírito? Para onde fugirei da Tua face?", diz um salmista. A falsa e consoladora sensação de segurança em pessoas, coisas e vícios já não existe. Não há mais mentiras reconfortantes, não há mais autoenganos passageiros, há apenas a dura e fria realidade da vida. Nada mais pode entorpecê-lo. Ser cristão exige, em suma, a coragem de se expor à infinitude e perfeição de Deus sem nenhuma proteção. É pular sobre o abismo da verdade, sobre o imenso e tenebroso buraco negro da justiça e da retidão. Não é qualquer um que aceita esse desafio.

Talvez por isso a Bíblia afirme que o Reino de Deus não é para os covardes.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Por que a oração é importante?

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Talvez vocês se perguntem: "Por que a oração é tão importante? Deus já não sabe tudo o que nós vamos falar? E por que devemos orar pelas pessoas? Se não orarmos, Deus não os ajudará?". Essas perguntas merecem uma resposta longa, mas vou fazer um resuminho só para vocês captarem a ideia básica.

Sobre as primeiras duas perguntas, devemos nos lembrar que a nossas orações não são necessárias para que Deus viva, mas para que nós vivamos (espiritualmente falando). É a maneira que temos, hoje, de estar em contato com Deus, de manter um relacionamento com Ele. Através da oração falamos o que sentimos, desabafamos, clamamos, pedimos, nos desculpamos, partilhamos alegrias e tristezas, e, ao fim de tudo, somos invadidos pela prazerosa convicção de que fomos ouvidos. Mas isso, claro, só acontece se fazemos da oração um hábito, e se, juntamente com ela, também nos alimentamos da Palavra de Deus (a Bíblia) e coisas boas.

É sempre bom frisar que Deus é um Ser. Um Ser vivo e pessoal. Ele deseja (embora não necessite) manter um relacionamento conosco. E nós necessitamos (embora algumas vezes não haja desejo em nós) nos relacionarmos com Ele. É por isso que Ele tem prazer em nos ouvir, mesmo já sabendo tudo o que vamos falar. E é por isso que nós devemos orar.

As duas últimas perguntas são mais difíceis. Porém, há respostas para elas. Devemos lembrar que quando o ser humano se desconectou de Deus, escolhendo o pecado (lá no Éden), Satanás e seus demônios passaram a ter muitos direitos sobre a Terra e o ser humano. O ser humano assinou uma espécie de contrato com o Diabo e isso, de certa forma, limita um pouco a ação de Deus e seus anjos. Limita não no sentido de que Deus se tornou menos poderoso, mas no sentido de que Deus é justo e respeita as regras. Se assinamos um contrato com Satanás, Deus age conforme o que o contrato permite. O Diabo, como sendo o Acusador, está sempre de olho nisso para acusar Deus de juiz parcial caso o contrato não seja cumprido.

Pois bem. Aparentemente, a oração é uma chave legalmente válida que cria dificuldades à ação de Satanás na vida do ser humano, e dá a Deus e seus anjos mais liberdade de ação. Ela é um trunfo na mão do ser humano, uma espécie de carteirinha especial que qualquer um pode usar quando o diabo estiver enchendo o saco, tal como um agente de polícia: "Sou policial", diz, mostrando o distintivo, "Ordeno que saia daqui, pois o perímetro será vistoriado pela polícia".

Sem oração, Deus pode agir, mas com limitações. A oração pode abrir portas que não seriam abertas sem ela. E quanto mais pessoas oram, mas o poder de ação de Satanás é limitado, podendo, em alguns casos, se tornar totalmente nulo. Por isso devemos orar pelas pessoas e pelas situações. É uma questão contratual. Deus conta com a gente.

Isso não quer dizer, óbvio, que toda vez que orarmos, as coisas irão acontecer exatamente como desejamos ou achamos que é o correto. Às vezes (muitas vezes) os planos de Deus serão cumpridos de outra forma que não conseguimos enxergar. Isso pode frustrar, mas Deus tem um campo de visão infinitamente maior que o nosso. Não devemos, portanto, entender a oração como uma forma mágica de conseguir tudo o que queremos, mas como uma forma lógica de permitirmos que Deus consiga aquilo que Ele quer do modo como Ele acha melhor.

Essas explicações estão todas baseadas na Bíblia e na lógica. Qualquer dia elaboro um texto maior, bem detalhado, para elucidar a questão. Mas o básico é esse. Meu pedido é: não deixemos (vou me incluir nisso) de orar. Que oremos cada vez mais. Principalmente pelos outros. Isso faz uma diferença enorme. Para não dizer que não citei nenhuma passagem bíblica, a epístola de Tiago, diz:

"A oração de um justo pode muito em seus efeitos" (Tiago 5:16).

Não somos justos por nós mesmos, mas justificados e auxiliados por Cristo Jesus, por Nosso Pai que está nos céus e pelo Espírito Santo, que habita em nós e no nosso meio.

Oremos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Um jornalista perdido e a origem da solidariedade

Um comentário:
Estava eu ontem fazendo a contabilidade de todos os meus gastos nos últimos dois anos, quando a televisão, ligada na outra parte da sala, me chama a atenção. Passava o Fantástico. A matéria era sobre solidariedade e mostrava alguns exemplos de pessoas que resolveram fazer o bem para terceiros por altruísmo. Até aí, tudo bem. A parte que me chamou a atenção foi quando o jornalista que estava narrando a matéria disse mais ou menos o seguinte: "Para saber a origem dessa história, precisamos voltar 200 milhões de anos atrás". A partir daí, o jornalista começa a dizer que nossa espécie era apenas uma de muitas, mas que descobriu uma coisa muito importante: a solidariedade aumenta nossas chances de sobrevivência. E por causa disso nós evoluímos.

Blábláblá.

Eu gostaria de fazer algumas perguntas ao jornalista que montou o texto dessa matéria:

1) Se somos solidários porque isso aumenta nossas chances de sobrevivência, isso é realmente solidariedade ou é egoísmo?

2) Nossa solidariedade é um dever objetivo ou apenas uma ilusão subjetiva de dever?

3) A solidariedade aumenta as chances de sobrevivência do indivíduo que a pratica ou da espécie?

4) Se é da espécie, por qual razão devemos nos preocupar com a sobrevivência da espécie?

5) Se é do indivíduo, então é certo não ser solidário nas situações em que isso não representar ganhos para o indivíduo em termos de sobrevivência?

6) Se a evolução é apenas um nome pomposo para um processo cego de acumulação de milhões de mutações aleatórias benéficas ao longo de milhões de anos em uma espécie, podemos falar em valores, direitos e deveres objetivos?

7) Se nossa moralidade não está baseada em nada que transcenda tempo, espaço, culturas e instintos naturais, em que baseamos nossos sensos objetivos de valor e de dever?

São perguntas que a pessoa que montou um texto desse deveria saber responder. Mas a própria estrutura do texto demonstra que ele não sabe. Quem estuda apologética (e não, isso não é bicho de sete cabeças) e lógica, sabe que o que esse jornalista falou é uma porção de baboseiras. Ele não tem a mínima noção do que está dizendo e de suas consequências. Apenas está repetindo fórmulas prontas que foram criadas para doutrinar espectadores passivos. Talvez, ele mesmo tenha sido um doutrinado no passado. Ou, quem sabe, é um desonesto, que está fazendo de propósito.