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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A história tradicional de Satanás é bíblica?

4 comentários:
Já devem ter uns cinco anos que descobri que alguns cristãos não acreditam na tradicional história que o cristianismo conta sobre a origem de Satanás. Na época, confesso, não dei muita importância ao caso. Mas nos últimos dias ouvi o argumento mais de uma vez, o que me gerou a vontade de redigir um texto sobre o assunto.

A história tradicional nos conta que Satanás era um anjo de Deus, de elevada posição no céu, mas que se tornou orgulhoso e desejou ardentemente ocupar o lugar de Deus e ser adorado como tal. Nesse espírito, incentivou uma rebelião no céu, presumivelmente apontando para Deus como um déspota, um tirano. Ao seu lado ficou a terça parte dos anjos. Deus, em sua onisciência, já sabia aonde aquilo levaria Satanás. Mas se o destruísse naquele momento, daria razão aos anjos para pensarem que Ele é um tirano e Satanás estava certo. Além disso, muitos poderiam permanecer ao lado de Deus por medo a partir dali. Assim, Deus apenas expulsou a ele e seus seguidores, permitindo que o tempo deixasse claro para todo o universo a maldade a que poderiam chegar; só então poderia destruí-los.

Os cristãos que não acreditam nessa história argumentam que ela está toda baseada em dois textos mal interpretados: Isaías 14:12-23 e Ezequiel 28:1-19. Esses cristãos nos dizem que os dois textos nada falam sobre a origem de Satanás, mas apenas sobre dois reis: o da Babilônia e o de Tiro. As duas passagens seriam apenas e simplesmente profecias contra esses reis, que tinham constituído fortes governos, mas se perdido na soberba e na maldade.

Antes de analisar os dois textos, é necessário dizer que o alarde feito por esses cristãos, em sua maioria liberais ou adeptos de teorias da conspiração, é ridículo. Se, de fato, os dois textos não se referirem a Satanás isso pouco altera a história tradicional que conhecemos sobre a sua origem. Afinal, toda a sua história é bastante dedutível através de diversos outros textos. Eu quero convidar o leitor a averiguar isso comigo agora.

Satanás em outros textos bíblicos

- Antigo Testamento

A primeira aparição de Satanás na Bíblia é descrita no capítulo 3 de Gênesis. Ele é citado como uma serpente que engana o primeiro casal de seres humanos do mundo, fazendo-os pecar e introduzindo a imperfeição no mundo. Independentemente de você aceitar a história como literal ou não a uma coisa é lógica: não foi uma serpente que enganou o casal e isso era algo que qualquer israelita da época de Moisés (que escreveu o livro de Gênesis) sabia. Serpentes não falam. Algum ser inteligente estava por trás da serpente. E este ser não era humano, pois no cenário traçado pelo relato não há outros humanos além do casal (eles são os primeiros) e o tal enganador pode falar através de uma serpente.

Embora não seja o assunto, vale notar algo rápido aqui: se a narrativa é literal, não é um ab-surdo que o ser enganador tenha utilizado um animal para conversar com o casal. É fácil para nós hoje, ou mesmo para quem tenha nascido há 5 mil anos atrás, concluir que animais não falam. Contamos não só com a nossa experiência pessoal, mas com o que nos dizem os nossos pais, avós, tios, primos, irmãos mais velhos, amigos, livros, revistas, documentários, trabalhos científicos e etc. Repousamos sobre milênios de observações. Tornou-se para nós uma obviedade que animais não falam. Mas isso certamente não era uma obviedade para o primeiro casal do mundo. Pelo menos não em seus primeiros anos de existência. Quem é que poderia garantir que na vastidão de animais existentes naquele imenso mundo inexplorado, não existia algum que falasse? Muito precisava ser explorado para se chegar a essa conclusão taxativa. Por outro lado, o casal tinha convicção ou, pelo menos, uma forte suspeita, de que eles eram os únicos humanos.  Por quê? Porque eram os primeiros. E porque não faria sentido Deus criar outros em outra parte e não os apresentar.

Mas, como eu disse, esse não é o assunto do texto. A questão principal é: no caso do relato ser literal, é claro que não demorou muito para o casal perceber que animais não podem mesmo falar e que quem os ludibriou foi um ser sobrenatural que se utilizou da serpente. E é claro que desde que a história passou a ser relatada até ser escrita por Moisés todos sabiam desse fato óbvio: a serpente foi apenas um meio. No caso do relato ser simbólico (o que não acredito), a coisa não muda muito. A serpente representa alguém. Mas quem? Quem é esse ser? O livro de Jó nos auxilia a responder essa pergunta. No primeiro capítulo lemos:

“Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. Então, perguntou o Senhor a Satanás: ‘Donde vens?’. Satanás respondeu ao Senhor: ‘De rodear a terra e passear por ela’” (Jó 1:6-7). Na sequencia, Deus e o Diabo falam sobre Jó, um servo justo de Deus. O Senhor o exalta por ser justo, ao que Satanás afirma ser fácil manter-se justo quando se tem riquezas e saúde. Deus, então, permite que o Diabo retire de Jó estas coisas.

O livro de Jó (sobretudo os dois primeiros capítulos) é extremamente instrutivo. Fazia parte da cultura e da linguagem dos antigos monoteístas descrever Deus como tão poderoso e superior a sua criação a ponto de atribuir-lhe até mesmo coisas ruins. Isso não era feito de maneira acusatória. Entendia-se que sendo Deus soberano, até mesmo o mal que enviasse era justo ou, no mínimo, estava dentro do seu direito. Esta mentalidade provavelmente se iniciou através do pensamento de que nada acontece sem a permissão de Deus. Assim, mesmo que Deus não fosse o agente direito por algum ato, este poderia ser atribuído a Ele por ele ter permitido. Daí a ideia deve ter evoluído até o ponto de entender Deus como envolvido diretamente na maior parte (ou mesmo todas) as coisas que ocorriam.

Durante um tempo Deus deve ter permitido e até incentivado essa mentalidade, a fim de controlar melhor a questão da idolatria. No entanto, visando não permitir que tal mentalidade distorcesse o seu caráter na mente das pessoas, Deus começou a trabalhar a questão de quem faz o quê. O livro de Jó é um esforço no sentido de demonstrar aos homens que o mal não tem origem em Deus (embora Ele permita muitos males por conta do livre arbítrio), mas nesse ser chamado Satanás, que está constantemente monitorando os homens, acusando-os perante Deus e procurando meios para instigá-los à queda.

Ora, não é preciso ser muito inteligente para ligar uma coisa à outra. É óbvio que este ser não humano, poderoso, mal e desejoso de levar humanos a desobedecerem a Deus é o mesmo que se utilizou de uma serpente (ou foi por ela simbolizada) para enganar o primeiro casal. E durante todo o livro de Jó fica claro que o mal que aflige a Jó vem desse ser, tal como em Gênesis todo o mal é introduzido no mundo pela “serpente”.

Mas esse ser age sozinho por toda a terra fazendo tudo quanto é maldade? Se for assim, ele deve ser tão poderoso como Deus não é? Não, não. A Bíblia tem o cuidado de falar sobre isso também, para que tenhamos uma ideia mais clara de quem é Satanás. Nos textos de I Samuel 16:14, I Reis 22:23 e II Crônicas 18:22 lemos sobre a existência de espíritos maus que podiam influenciar as pessoas. E os deuses pagãos eram frequentemente descritos como “demônios”, o que parece indicar que existia certa noção de que, conquanto não existissem outros deuses, existiam espíritos malignos que recebiam a adoração por meio dos falsos deuses. Ademais, a crença em seres espirituais já existia há tempos. Nos cinco primeiros livros da Bíblia já é possível averiguar diversas menções a anjos. Se havia  criaturas espirituais como anjos, poderia haver criaturas espirituais como demônios.

Uma passagem de especial importância para nosso assunto está no capítulo 28 de II Samuel. A passagem relata como então rei Saul, de Israel, transgrediu o mandamento do Senhor, consultando uma médium, a fim de conversar com o já morto profeta Samuel. Isso é proibido pelas Escrituras e por um motivo simples: não dá para conversar com mortos. A tentativa de se fazer isso implica em dar mais importância aos mortos do que a Deus e pode acarretar enganos por parte de Satanás e seus espíritos. É o que o corre nos versos 13 e 14. A médium afirma ver uma figura semelhante a um deus e Saul entende que é o profeta. A passagem faz questão de enfatizar que a visão pela ótica do rei. O rei concluiu que era o profeta. A Bíblia não afirma que era. E não afirma porque não era mesmo. Tratava-se de um engano de Satanás ou algum de seus espíritos. Samuel estava morto. Não podia falar.

Então, o que sabemos até agora? Sabemos que um ser não humano, poderoso e maligno chamado Satanás enganou o primeiro casal do mundo, trazendo o pecado ao homem. Depois disso, este ser passou a rodear a terra com seus espíritos buscando causar desgraças, desviar os homens de Deus e acusá-los perante o Senhor. Isso está tão claro para nós como estava para quem viveu no Israel antigo.

O Antigo Testamento menciona Satanás algumas outras vezes. Uma delas é em uma visão do profeta Zacarias. Lemos o seguinte:
“Deus me mostrou o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do Anjo do Senhor, e Satanás estava à mão direita dele para lhe opor. Mas o Senhor disse a Satanás: ‘O Senhor te repreende, ó Satanás; sim, o Senhor que escolheu Jerusalém te repreende’” (Zacarias 3:1-2).

Aqui, mais uma vez, a Bíblia apresenta Satanás como um ser que está constantemente fazendo oposição aos homens de Deus. O fato de ele ser citado ao lado de outro ser espiritual enfatiza o seu caráter não humano.

- Novo Testamento

Por enquanto eu só analisei o que podemos saber sobre Satanás através dos registros do Antigo Testamento. Fiz isso porque às menções a Satanás são poucas nessa primeira parte da Bíblia, mas mesmo assim são suficientes para deduzirmos muito. Perceba: a Bíblia descreve Deus como um ser supremo que criou todo o universo e todos os seres vivos. Em suma, Ele é o princípio da existência de todas as coisas. Essa sempre foi a crença dos antigos monoteístas e dos israelitas. Daí conclui-se que Satanás e seus espíritos também foram criados por Deus. No entanto, a Bíblia também fala em um Deus plenamente bom e justo. Desta forma, Ele não os pode ter criado maus. Ora, se Ele não os criou maus, então eles se tornaram maus por escolha própria. Isso é possível? A Bíblia diz que sim de várias maneiras, mas dentre elas, com a própria história da queda da espécie humana.

Tendo escolhido o mal e influenciado o homem a escolher também, Satanás passa a rodear pela terra tentando desviar as pessoas de Deus. No entanto, ele tem acesso ao céu, no qual a outras criaturas espirituais semelhantes a ele, mas boas. Isso é um forte indicio de que num passado remoto, quando Satanás era bom, habitava com algumas dessas criaturas, talvez no céu mesmo.   Provavelmente era um anjo. Presume-se, assim, que teria saído de lá por ter se rebelado. Não é possível saber se foi expulso ou se escolheu apartar-se, levando consigo seus partidários, também anjos rebelados. O fato é: ele é que provavelmente habitava lá, não habita mais, porém aparece em reuniões para acusar o homem.

Conforme o leitor pode ver, essa é a história tradicional sobre a origem do Diabo. Ninguém precisa dos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 para chegar a essas conclusões. Mas não acaba por aí. O Novo Testamento clareia ainda mais a nossa mente sobre o inimigo de Deus. Nessa segunda parte da Bíblia, o Senhor resolve mostrar de vez como que toda a maldade provém de Satanás e seus demônios. Lemos sobre diversas possessões e vemos Jesus falar muito sobre os planos e as estratégias dele. Algumas passagens são muito importantes para o nosso estudo aqui. Por exemplo, a tentação que Jesus passa no deserto. Ela é narrada por três dos quatro evangelistas. Todos eles ressaltam que ao fim dos quarenta dias em jejum, o próprio Satanás apareceu a Jesus para tentá-lo. Uma das tentações é descrita assim:

“E, elevando-o, mostrou-lhe, num momento, todos os reinos do mundo. Disse-lhe o Diabo: ‘Dar-te-ei toda esta autoridade e a glória destes reinos, porque ela me foi entregue, e a dou a quem eu quiser. Portanto, se prostrado me adorares, toda será tua” (Lucas 4:5-7).
A passagem diz muito. Quem criou o mundo foi Deus, mas Satanás havia conseguido domínio introduzindo o pecado no mundo. A missão de Cristo era comprar de volta o mundo através do seu sangue. Mas Satanás ofereceu-lhe um caminho mais simples: eu devolvo o mundo todo para você sem problema. Apenas se prostre e me adore. A proposta é curiosa. Parece indicar uma obsessão de Satanás em querer receber adoração no lugar de Deus. Um texto que parece dar apoio a esta ideia está em II Coríntios 4:3-4, onde Paulo diz:

“Mas se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”.
O “deus” desse século é, logicamente, uma referência a Satanás, o único ser poderoso e mal o suficiente para cegar o entendimento de todos os incrédulos. É a ele que o mundo adora quando não está em Cristo. Isso é bastante sugestivo.

Em outra passagem, após Jesus enviar seus discípulos para uma missão sem ele, os discípulos retornam felizes afirmando que fizeram grandes coisas e que até os demônios se submetiam ao nome de Jesus e iam embora. Jesus Cristo, então, afirma: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lucas 10:18).

A afirmação é simbólica. Mas seu sentido é claro. Satanás era aquele que frequentemente estava acusando os homens diante de Deus, a fim de demonstrar sua soberania sobre a raça humana. Agora, contudo, os próprios homens expulsavam demônios pelo nome de Jesus. Isso representava uma grande queda para Satanás, tal como se ele estivesse no meio de várias acusações no tribunal celeste e repentinamente um abismo se abrisse e o tragasse, fazendo-o cair velozmente até chegar a terra. Em outras palavras: “Você perdeu o domínio”. Mais uma vez vemos o que vimos no Antigo Testamento sendo confirmado.

Em outro texto, Paulo faz uma afirmação impressionante. Ele diz:

“Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras” (II Coríntios 11:13-15).

A comparação feita por Paulo é simples. Homens maus podem fingir-se de homens bons, assim como Satanás, o chefe deles, pode fingir-se de anjo de luz. Aqui homem mal está para homem bom, assim como Satanás está para anjo de luz. Ou seja, Satanás também é anjo. E como anjo, pode fingir ser um anjo de luz. Isso só reforça a ideia de uma revolta no céu. Já sabemos que a diferença entre Satanás e os anjos é que ele escolheu ser mal.

A pequena epístola de Judas vai mais fundo e diz: “[...] e os anjos, os que não guardaram seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, Ele [Deus] tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do Grande Dia” (Judas 7).

O trecho é, em parte, simbólico. É claro que não há nenhum anjo preso em correntes literais em algum local escuro do universo. O sentido é que os tais anjos, por terem escolhido o mal e de maneira irreversível, também estão condenados de maneira irreversível à morte eterna no lago de fogo. Não há como escapar. Por isso estão “acorrentados” e “sob trevas”. A descrição pretende realçar o seu destino inevitável. Não obstante, o texto realmente está se referindo a anjos de Deus que caíram, que deixaram de ser bons. Confirmamos sem sombra de dúvida que houve uma rebelião no céu e que muitos anjos de Deus tornaram-se demônios.

Finalmente, chegamos em Apocalipse. Aqui todo o cenário da rebelião celestial é descrito de modo inquestionável. O trecho diz:

“Viu-se também outro sinal no céu e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra [...]. Houve peleja no céu. Miguel e seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra e, com ele, os seus anjos” (Apocalipse 12:3-4 e 7-9).

Perfeito! Exatamente tudo o que aprendemos e deduzimos através de toda a Bíblia é ratificado neste trecho de maneira cristalina. E o texto continua com um hino de vitória:

“Então, ouvi grande voz do céu proclamando: ‘Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade de seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Eles, pois, o venceram por causa do sangue do cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida. Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o Diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Apocalipse 12:10-12).

Aqui fica claro que o estardalhaço feito por cristãos liberais e teóricos da conspiração sobre a história tradicional de Satanás é ridículo. A Bíblia é claríssima quanto a origem desse ser. Ainda que se prove que Isaías 14 e Ezequiel 28 não se referem a Satanás, isso não muda quase nada do que aprendemos sobre a origem do Diabo. A única coisa que fica obscuro é o motivo pelo qual Satanás teria iniciado a rebelião. Há apenas um indício, baseado em uma das tentações lançadas por Satanás a Jesus e na referência de Paulo a ele como “‘deus’ deste século”, de que sua rebelião teria sido causada por almejar a posição de Deus.

Os textos de Isaías 14 e Ezequiel 28

Tendo analisado os outros textos, podemos expor agora as duas passagens “problemáticas” de Isaías e Ezequiel para começar nossas análises. A começar por Isaías, lemos o seguinte:

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: ‘Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo’. Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo abismo. Os que te virem te contemplarão, hão de fitar-te e dizer-te: ‘É este o homem que fazia estremecer a terra e tremer os reinos? Que punha o mundo como um deserto e assolava as cidades? Que a seus cativos não deixava ir para a casa?’.

“Todos os reis das nações, sim, todos eles, jazem com honra, cada um, no seu túmulo. Mas tu és lançado fora da tua sepultura, como um renovo bastardo, coberto de mortos traspassados à espada, cujo cadáver desce à cova e é pisado de pedras. Com eles não te reunirás na sepultura, porque destruíste a tua terra e mataste o teu povo; a descendência dos malignos jamais será nomeada. Preparai a matança para os filhos, por causa da maldade de seus pais,para que não se levantem, possuam a terra e encham  a terra de cidades. ‘Levantar-me-ei contra eles’, diz o Senhor dos Exércitos; ‘exterminarei de Babilônia o nome e os sobreviventes, os descendentes e a posteridade’, diz o Senhor. ‘Reduzi-la-ei à possessão de ouriços e lagoas de águas; varrê-la-ei com a vassoura da destruição’, diz o Senhor dos Exércitos” (Is 14:12-23).

Já o texto de Ezequiel nos afirma:

“Veio a mim a palavra do Senhor dizendo: ‘Filho do homem, dize ao Príncipe de Tiro: ‘Assim diz o Senhor Deus: ‘Visto que se eleva o teu coração e dizes: ‘Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares’, e não passas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus [...] eis que trarei sobre ti os mais terríveis estrangeiros dentre as nações, os quais desembainharão a espada contra a formosura da tua sabedoria e mancharão o teu resplendor’. [...]

[...] ‘Filho do homem, levanta uma lamentação contra o rei de Tiro e dize-lhe: ‘Assim diz o Senhor Deus: ‘Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias: o sárdio, o topázio, o diamante, o berilo, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo e a esmeralda; de ouro se te fizeram os engastes e os ornamentos; no dia em que foste criado, foram eles preparados.

‘Tu eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci; permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos desde o dia em que foste criado até que se achou iniquidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus e te farei perecer, ó querubim da guarda, em meio ao brilho das pedras.

‘Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra, diante dos reis te pus, para que te contemplem. Pela multidão das tuas iniquidades, pela injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu, e te reduzi a cinzas sobre a terra, aos olhos de todos os que te contemplam. Todos os que te contemplam entre os povos estão espantados de ti; vens a ser objeto de espanto e jamais subsistirás’” (Ez 28:1-2, 7 e 11-19).

Textos expostos, vamos à análise.

De fato, qualquer pessoa que domine o princípio básico de interpretar textos dentro de seu contexto se sentirá inclinada a concordar: esses textos são mensagens endereçadas a dois reis e seus respectivos reinos: o da Babilônia e o de Tiro. Entretanto, interpretar textos dentro de seu contexto não é o único princípio de interpretação das Escrituras. E embora seja um dos mais usados (e talvez o principal), não pode ser utilizado para ignorar os outros. Uma boa interpretação requer que todos os princípios sejam utilizados em harmonia.

Um desses princípios é de averiguar o estilo do livro e do texto que está sendo lido. Ora, tanto um como o outro são textos de estilo profético, que se encontram no interior de livros de estilo profético. O estilo profético apresenta linguagem e estrutura próprias, distintas dos demais estilos. Uma das estruturas comuns a algumas profecias é a sua mensagem dupla.  O que isso significa? Bem, o profeta descreve uma profecia na qual sua mensagem se aplica a dois contextos diferentes, porém paralelos. Desta forma, um contexto se torna metáfora do outro contexto e uma única profecia acaba tendo dupla aplicação. Vou citar alguns exemplos para o leitor entender melhor. Em Malaquias 4:1-6 lemos a seguinte profecia:

“‘Pois eis que vem o dia e arde como a fornalha; todos os soberbos e todos os que cometem perversidade serão como o restolho; o dia que vem os abrasará’, diz o Senhor dos Exércitos, ‘de sorte que não lhes restará nem raiz, nem ramo. Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e saltareis como bezer-ros soltos na estrebaria. Pisareis os perverso, porque se farão cinzas debaixo das plantas dos vossos pés, naquele dia que preparei’,, diz o Senhor dos Exércitos. ‘Lembrai-vos da Lei de Moisés, meu servo, a qual lhe prescrevi em Horebe para todo o Israel, a saber, estatutos e juízos. Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição’”.

Vamos entender a profecia. Deus está pintando o quadro escatológico do último dia deste mundo corrompido. Neste dia, Deus irá destruir todos os maus através de fogo, extinguindo-os da face da terra. Por isso esse dia, no Antigo Testamento, geralmente é chamado por nomes como “O Dia da Vingança do Senhor”, ou “O Grande e Terrível Dia do Senhor”. É um dia de desespero. Não para os justos, claro, mas para os iníquos. É um dia de maldição, mas não para aqueles que escolheram estar com Deus.
O Grande Dia do Senhor está intimamente conectado com a vinda do Messias a terra. Assim acreditavam os judeus no Antigo Testamento e assim continuaram crendo os cristãos no Novo Testamento até ao dia de hoje. Na profecia em questão tudo indica que o Messias é o sol da justiça que traz salvação em suas asas. Uma descrição simbólica de Cristo, exaltando seu brilho, sua grandeza, sua retidão e seu poder sobrenatural.

Deus oferece a esperança do nascimento do sol da justiça para os justos e, então, faz um apelo para que as pessoas se lembrem da lei de Moisés. Isso é um claro apelo à observância dos mandamentos e a valorização da Torá. Em seguida diz que enviará o profeta Elias. Evidentemente, não se trata do profeta Elias literal. Trata-se apenas de algum profeta que anunciaria a vinda do sol da justiça. Alguns versos antes, Malaquias já havia profetizado sobre esse profeta:

“‘Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; de repente virá ao seu templo o Senhor, ao quem vós buscais, o Anjo da Aliança, a quem vós desejais’, diz o Senhor dos Exércitos. ‘Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? E quem poderá subsistir quando ele aparecer? Porque ele é como o fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros. Assentar-se-á como como derretedor e purificador de prata’”.

A escolha do nome Elias para simbolizar este mensageiro não foi em vão. Elias fora o maior profeta que já existira. Tanto que não morreu, mas foi trasladado por Deus. Tal como Moisés representava a lei, Elias representava os profetas. Assim, Deus o menciona para mostrar o quão importante era a obra do mensageiro que precederia o Messias e como ela estava em acordo com tudo o que os demais profetas haviam dito e escrito. Deveria, então, o povo dar valor à lei, aos profetas e, principalmente, ao precursor do Messias. Deus, então, fecha a profecia dizendo que este precursor do Messias prepararia o coração das pessoas, a fim de que a maldição do Grande Dia do Senhor não caísse sobre elas.

Agora, repare: o Elias mencionado realmente veio. Ele era João Batista. O próprio Jesus Cristo o identificou como o Elias da profecia. João Batista teve um ministério famoso e levou muitas pessoas a se arrependerem dos pecados e prepararem seus corações para a breve vinda do Messias. Ele honrou o nome de Moisés e Elias, levando às pessoas a valorizarem mais a lei e os profetas. Então, veio Jesus Cristo, o sol da justiça. E ele trouxe salvação quando morreu na cruz e ressuscitou. Ok. Mas a profecia não está totalmente cumprida. Onde está o Grande Dia do Senhor? Cadê a destruição total dos ímpios? E onde estão os salvos pulando felizes, livres da maldade dos perversos? Ainda não aconteceu. E já faz dois mil anos. A profecia falhou?

Definitivamente não. O que ocorre é que a mensagem dessa profecia é dupla. Ela se aplica a dois contextos distintos, mas paralelos. Esses dois contextos são: a primeira vinda do Messias e a segunda vinda do Messias. A profecia fala desses dois eventos, usando um como metáfora do outro. Por que ela faz isso? Porque há eventos na primeira vinda que terão equivalentes na segunda vinda. Vejamos.

A profecia de Malaquias afirma que um mensageiro prepararia o povo para a vinda do Messias. Na primeira vinda, João Batista desempenhou esta função, conforme o próprio Jesus confirma em passagens como  Mateus 11:14 e 17:9-13. Na segunda vinda, a função será desempenhada por um movimento de cristãos fiéis em meio à apostasia do tempo do fim, conforme fica claro em Apocalipse 14:6, 12:17, 14:12 e Mateus 24:14.

A profecia de Malaquias diz também que Deus orientaria o povo a se lembrar da sua lei e que muitos seriam convertidos, algo que é feito por meio de João Batista antes da primeira vinda e por esse movimento cristão do tempo do fim antes da segunda vinda. Em seguida, nos é dito que o Messias vem, trazendo salvação. Na primeira vinda isso é feito através da morte dele na cruz. Na segunda vinda, os cristãos já salvos são libertos desse mundo caído. Então, a profecia fala sobre Deus lançando a maldição pelo pecado sobre a terra. Na primeira vinda, Cristo se coloca no lugar da humanidade, recebendo a punição. Na segunda vinda, aqueles que não aceitaram o sacrifício substitutivo de Cristo recebem a maldição. Por fim, a profecia descreve a alegria dos justos por causa da vitória sobre os ímpios. Na primeira vinda, essa alegria ocorre pela certeza da volta de Cristo. Na segunda vinda, a destruição dos ímpios é concretizada. Uma tabela ajudará o leitor a visualizar melhor isso:


Semelhante a esta profecia, há outras que seguem a mesma estrutura. Não há espaço para analisar todas elas, mas irei citar algumas aqui. Uma delas se encontra em Mateus 24. Lá Jesus descreve uma perseguição que o povo cristão sofreria. A profecia, na verdade, fala de dois contextos: a perseguição que sobreviria a Jerusalém no ano 70 e a perseguição aos cristãos no final dos tempos.

Outra profecia dupla se encontra em Apocalipse, capítulos 2 e 3. Ali são descritas sete cartas, uma para cada igreja que existia na região da Ásia. A mensagem a cada uma delas é verdadeira e fazia menção aos seus defeitos e virtudes literais. Mas cada igreja literal também representava um período do cristianismo. Elas foram escolhidas para essa representação justamente por conterem os defeitos e as virtudes de cada período que precisava ser representado. Assim, temos uma mensagem àquelas igrejas literais e aos períodos que elas representavam.

Ainda outro exemplo de profecia dupla se encontra no capítulo 56 de Isaías. Lá podemos ler que Israel se tornaria Casa de Oração para todos os povos. Essa profecia se estende para dois contextos: antes e depois de Cristo. Antes de Cristo, entre os anos 400 a.C. e 1 a.C., o judaísmo foi bem espalhado por vários lugares, fazendo com que pessoas de muitos povos se unissem a Israel em suas crenças. Depois de Cristo, com a fundação da Igreja, essa tendência continuou, mas agora com mais força.

Uma vez compreendido que existem profecias duplas, devemos nos perguntar: será que os textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 não se tratam de profecias duplas? Há boas razões para se pensar que sim. Perceba que ambos os textos utilizam uma linguagem simbólica muito exagerada para se referir ao rei de Babilônia e o rei de Tiro. E não é só exagerada. Note: ela possui vários símbolos que formam juntos a descrição de outro personagem. Não se trata apenas de algumas metáforas alheias para descrever os dois reis, mas de metáforas que montam uma história, uma descrição.

Caso estejamos lidando realmente com profecias duplas, devemos entender o seguinte: em Isaías 14 o autor quer mostrar que o rei babilônico era muito orgulhoso, guerreava contra nações e desejava ser o homem mais importante e lisonjeado do mundo. Para expressar isso, o autor escolhe a história de outro personagem como metáfora para o rei. Este personagem é chamado de estrela da manhã, filho da alva.

O leitor poderia argumentar que o autor estava falando meramente de uma estrela (tal como usamos flor como metáfora para uma menina bela e meiga). Mas ele diz que essa estrela desejava estar acima de Deus e se assentar no trono de Deus. Isso extrapola a metáfora simples. Não estamos mais falando de um rei que se compara a uma estrela. Estamos falando de um rei que se compara a uma estrela que quer estar acima de Deus. Trata-se de uma história metafórica no qual a estrela é um personagem e não um mero elemento comparativo. Essa história pode ser fictícia ou não.

Em Ezequiel 28, o autor quer mostrar que o rei de Tiro era muito orgulhoso, tendo se corom-pido por causa disso. Resolve, como fez Isaías, escolher um personagem para servir de metáfora para o rei. O personagem é chamado de querubim da guarda ungido. Mais uma vez o leitor poderia dizer que Ezequiel não está se referindo a ninguém especial, mas apenas comparando o rei a uma figura criada. Mas o autor diz que esse era perfeito, que permanecia na morada de Deus e que se corrompeu. Mais uma vez, não temos uma metáfora simples, mas uma história metafórica. Pode ser fictícia ou não.

Como a maioria dos cristãos chega à conclusão de que essas histórias metafóricas são verda-deiras? Observando que elas se complementam entre si e são idênticas à história de Satanás já informada e deduzida em outros textos bíblicos. Note: em Ezequiel 28, nosso personagem é um querubim. Querubim é um tipo de anjo. Satanás era um anjo. O querubim habitava jardim de Deus e o monte santo, termos que são termos pra o que chamamos “céu”, a morada de Deus. Satanás também morava no “céu”. Este céu não é literal, mas nós chamamos assim a morada de Deus porque fica fora da terra. Tudo o que fica fora da terra para nós está no céu. É natural, portanto, que em Isaías 14, nosso personagem seja identificado como uma estrela. Se as estrelas literais estão no céu literal, as estrelas simbólicas estão em um céu simbólico. E se Satanás é essa estrela simbólica, o céu simbólico é a morada de Deus.

Isaías 14 continua dizendo que nosso personagem debilitava as nações? Mas havia nações no céu? Certamente não as que conhecemos na terra. Mas é bom notar que nação significa um conjunto de pessoas com semelhanças étnicas. No campo simbólico, nações poderiam ser muito bem conjuntos de seres pelo universo, tanto anjos quanto outras criaturas inteligentes das quais não temos conhecimento. Isaías 14 continua dizendo que nosso personagem deseja sentar no tono de Deus e ser como o Altíssimo. Como vimos antes, há bons indícios de que Satanás sempre almejou isso. Em Ezequiel 28, nosso personagem deseja a mesma coisa: ser o próprio Deus. A partir daí, nosso personagem deixa de ser perfeito, assim como Satanás deixou de ser perfeito um dia.

Voltamos a Isaías 14 e percebemos que Deus profere uma maldição sobre a Babilônia. A Bíblia fala em uma Babilônia literal e em uma Babilônia simbólica. A literal é governada pelo monarca, evidentemente. Mas a simbólica é governada por Satanás. Assim, Deus promete a destruição tanto de uma quanto de outra. Em Apocalipse 18 lemos sobre essa segunda destruição. Então, vamos mais uma vez para Ezequiel 28, onde o autor diz que um fogo destruiria Tiro e seu monarca. Da mesma maneira, um fogo destruirá Satanás no fim dos tempos.

Conforme o leitor pode ver, utilizando bem os princípios de interpretação é possível chegar à conclusão de que os dois textos realmente fazem uso da história de Satanás para se referir aos dois reis. Por que isso foi feito? Provavelmente para nos ensinar que os dois reis padeceram do mesmo mal do Diabo: o orgulho. Também para deixar claro que aqueles que se deixam usar por Satanás tornam-se espelhos dele, de modo que sua história é reencenada e rememorada nos ímpios.

Outra pergunta interessante é: será que a metáfora foi entendida na época? Eu não tenho como afirmar que sim. É possível. Até porque muito provavelmente a história de Satanás deve ter sido difundida desde o princípio, fazendo parte de muitas culturas. Certamente a história foi distorcida na maior parte dessas culturas, mas há boa possibilidade de que a ideia de um anjo caído que almejou ser Deus fosse conhecida, sobretudo entre os israelitas. Contudo, mesmo que ninguém tenha entendido a metáfora na época, ninguém disse que ela era para ser entendida pelos primeiros leitores/ouvintes. Talvez Deus tenha inspirado a metáfora para que a Igreja entendesse e não as pessoas anteriores a ela.

Fica provado, então, que é uma enorme tolice dizer que a história tradicional de Satanás é uma mentira. Ela está bem amparada por diversos textos bíblico, independentemente da interpretação de Isaías 14 e Ezequiel 28. Não obstante, há boas razões para se enxergar os dois textos como profecias duplas, cuja mensagem se refere aos reis da Babilônia e Tiro, mas também ao Diabo. A importância de se provar isso não está tanto no fato de conhecer melhor a história do inimigo de Deus, mas de preservar o entendimento de que Deus é bom e o mal veio e vem de uma criatura livre que se corrompeu. Creio que a ideia de lançar dúvida sobre a história de Satanás é um plano do próprio Diabo para levar cristãos a colocarem dúvida em outros pontos claros da Bíblia. O objetivo final é que o cristão acabe duvidando de tudo e descartando a Bíblia. E isso, infelizmente, já aconteceu com muitos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Avaliando os principais argumentos do catolicismo

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“A Bíblia deve ser a nossa única regra de fé e prática”. É mais ou menos o que os cristãos protestantes têm afirmado há cerca de cinco séculos. O princípio pode parecer óbvio à primeira vista. Se na Bíblia encontramos as verdades de Deus reveladas para o ser humano é por ela que nós devemos nos guiar; ela deve ser a base para nossas crenças, doutrinas e práticas. E se é assim, a Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) cai em um erro um tanto idiota ao não concordar com os protestantes.

Não obstante, as coisas não são tão fáceis como podem parecer à primeira vista. Para o catolicismo, a Bíblia é tão importante quanto para o protestantismo. E se você perguntar a qualquer católico devoto, ele irá confirmar: “A Bíblia é a Palavra de Deus e deve ser seguida”. A diferença básica entre católicos e protestantes não está em enxergar este fato tão óbvio. A diferença está na concepção que cada um tem sobre: (1) quem tem capacidade de interpretar a Bíblia e (2) qual a interpretação está correta. É aqui que a coisa complica.

Dizer, como diz o protestante comum, que tudo se resume em seguir a Bíblia, é encarar a situação de maneira simplista. Ok, vamos seguir a Bíblia. Mas qual interpretação? E quem é a autoridade para interpretar? Se você não responde a essas duas questões, não chega a lugar nenhum. E para desespero do protestante comum, o católico tem resposta para essas duas questões. O católico acredita que quem tem a capacidade plena e inerrante de interpretar a Bíblia é o seu magistério, isto é, os seus bispos e o Papa.
Você pode achar que essa crença não faz sentido, mas faz. O católico entende que Jesus instituiu uma Igreja aqui na terra. Essa Igreja é a Católica. Se isso é verdade, é plausível supor que a ela tenha sido dado por Deus a capacidade de interpretar corretamente as Escrituras.

Aqui é a hora de deixar a arrogância de lado e reconhecer: o pensamento católico não é um absurdo. Ele pode até estar errado, mas é uma hipótese possível. Adotar esse tipo de postura quando vamos analisar algo é essencial. Nós, humanos, erramos muito por nos apegarmos a estereótipos e reducionismos, o que acaba por gerar um sentimento de que as ideias em que não acreditamos são idiotas. Ora, elas até podem ser idiotas, mas para se concluir isso é preciso fazer uma análise honesta. E no que se refere ao catolicismo, essa breve análise honesta mostra que o mesmo é uma boa hipótese. Mas será que é uma hipótese verdadeira? Bem, é o que pretendo averiguar aqui.

A visão protestante

Vamos começar com algo que ainda não foi feito nesse texto: delinear qual é a visão protestante da coisa. Para o protestante, Jesus Cristo realmente fundou uma Igreja aqui na terra. Mas essa Igreja não era nenhuma instituição que conhecemos hoje. Ela era tão somente um conjunto de judeus naturais e de conversos ao judaísmo que acreditavam que o Messias esperado já tinha vindo e era Jesus. Essa foi a Igreja que Jesus fundou. Portanto, todo aquele que aceitava Jesus como o Messias prometido, o seu sacrifício e mais a base religiosa provida pelas Escrituras Judaicas era parte da Igreja. E isso é válido para os dias de hoje. A Igreja fundada por Cristo não é uma instituição formal, mas abarca as mais diversas pessoas que creem ser Jesus o Messias, que aceitam o seu sacrifício e que se guiam pelas verdades básicas das Escrituras Judaicas.

Agora, isso não quer dizer que todas as facções dentro do cristianismo estão corretas, que não há uma verdade absoluta e que podemos crer no que quisermos. Para o protestante, há sim uma verdade e obviamente ele sempre vai achar que a sua facção está correta e as outras estão erradas, da mesma forma que o católico acredita que a ICAR está correta e todas as outras estão erradas. É uma questão de lógica. E não há nenhum problema nisso (desde que a discussão não descambe para o desrespeito e a violência).

Com o crescimento da mentalidade politicamente correta no mundo, essa disputa pelo monopólio da verdade diminuiu muito nas últimas décadas. Há uma tendência dentre as facções protestantes atuais de focarem mais nas semelhanças entre elas do que nas diferenças e enfatizar que o importante é estar de acordo nas verdades básicas (as questões menores podem esperar). Mas nos primeiros séculos após a Reforma, muitas disputas e tensões surgiram em função da visão de que a verdade não é relativa e, assim, não podem estar todos certos.

Mas, voltando ao início, o protestante acredita que ao fim do primeiro século, quando todos os apóstolos já haviam morrido, a Igreja começou um lento processo de romanização, no qual, ao longo de séculos foi agregando as características que viriam a definir a Igreja Católica Apostólica Romana. Dois pontos altos nessa romanização seriam os anos de 313, quando o Imperador Constantino acabou com as perseguições aos cristãos e iniciou um “namoro” com o cristianismo, e 538, quando o Imperador Justiniano derrotaria os últimos exércitos bárbaros que impediam o Papa de exercer maior autoridade. Assim, segundo a visão protestante, Jesus não teria fundado a Igreja Católica, mas sim uma Igreja que se romanizou ao longo do tempo.

O problema dessa romanização é que ela traria consigo muitos erros doutrinários. E por esse motivo Deus precisaria levantar pessoas que denunciassem esses erros, a fim de desenvolver muito gradualmente um movimento livre dos mesmos.

Contrapondo as ideias

Então, temos o seguinte panorama: o católico crê que Cristo fundou a Igreja Católica, ela é inerrante doutrinariamente e tem plena capacidade de interpretar as Escrituras. O protestante crê que Cristo fundou a Igreja Cristã, que abarca todos os que creem nele, mas essa Igreja se romanizou, agregando erros doutrinários e transformando-se na Igreja Católica.
 
O lado católico geralmente argumenta o seguinte: Jesus fez uma promessa a Pedro. Ele prometeu que iria edificar sua Igreja sobre a rocha e que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra ela. Ora, uma Igreja que pudesse agregar erros doutrinários e assim se manter por séculos seria, na visão do católico, uma Igreja totalmente vencida pelo inferno. A Igreja fundada por Cristo, portanto, precisava ser inerrante. Além disso, uma Igreja capaz de errar não poderia produzir uma Bíblia Sagrada infalível, tampouco interpretações infalíveis. Para o católico, se hoje podemos crer que a Bíblia é a Palavra de Deus é porque uma Igreja infalível a produziu: a ICAR. E se a ICAR produziu a Bíblia, ela é a única que pode interpretá-la corretamente.

Vamos avaliar o argumento por partes.

“As portas do inferno não prevalecerão”
 
O primeiro ponto diz que uma Igreja que fosse capaz de agregar erros doutrinários seria uma derrotada pelo inferno. A palavra para inferno na língua original grega é “hades”. Hades geralmente era usado pelos judeus no lugar do hebraico “sheol”, que significa “sepultura”, “sepulcro” ou “abismo”. É o lugar para onde as pessoas vão quando morrem. Um corpo no sheol/hades é um corpo morto; uma alma no sheol/hades é uma alma morta. O sheol/hades, segundo a Bíblia, nunca se cansa de tragar vidas. Assim, dizer que as portas do sheol/hades não prevaleceriam contra a Igreja era dizer que a Igreja não iria morrer.
 
Se nós pensarmos que os primeiros trezentos anos de cristianismo foram de perseguição aos cristãos e milhares de mortes, faz sentido Jesus ter dado essa promessa. Ainda mais no início, quando os cristãos eram alguns poucos milhares, era bem fácil se desesperar e pensar: “A Igreja será totalmente extinta”. A promessa de Jesus visava, portanto, dar a certeza de que, apesar das perseguições, a Igreja continuaria viva.
 
A Igreja não permaneceu viva apenas diante das perseguições, mas diante dos ataques teológicos de pagãos, arianos, deístas, agnósticos e ateus. Sobreviveu ao pensamento antirreligioso iluminista, ao cristianismo liberal que pretendeu retirar toda a sacralidade da Bíblia, às revoluções comunistas e fascistas e ao islamismo crescente. E continua viva. Os cristãos ainda foram a maior religião do mundo. A Igreja não desapareceu.

A promessa de Jesus foi cumprida e não é necessário crer na ICAR para reconhecer essa verdade, pois o que Jesus disse se limitou a isso: a minha Igreja não vai morrer. E não morreu. Mas não morrer não implica em ser inerrante. Tentar retirar esse entendimento do texto de Mateus 16 é tentar forçar o texto a dizer mais do que ele diz.

“Igreja falível, Bíblia imperfeita”
 
O segundo ponto afirma que uma Igreja falível não poderia produzir uma Bíblia infalível. Mas será? Pense no seguinte. Existem alunos que são muito inteligentes em matemática. Mas o fato de eles serem muito bons com cálculos não faz deles alunos infalíveis. Eles podem errar. Tanto podem que jamais vemos um aluno gabaritar todas as provas, trabalhos e exercícios de matemática que faz em sua vida. Eu, pelo menos, nunca vi isso. É perfeitamente possível um aluno muito bom em matemática gabaritar várias provas ao longo da sua vida acadêmica. É o que geralmente acontece. Mas nunca todas elas.
Então, perceba que não é necessário um bom aluno de matemática ser infalível para que ele faça algumas provas perfeitas durante sua vida. Embora, provavelmente, ele vá falhar em muitas ocasiões, ele também será infalível em tantas outras.
 
Da mesma forma, o fato de que alguns homens santos registraram fielmente os ensinos de Jesus e outros, também santos, reuniram esses registros (diferenciando o que era de Deus e o que não era) não significa que eles eram infalíveis em matéria de doutrina ou que precisavam ser inerrantes para que uma Bíblia perfeita surgisse. Como seres humanos, eles eram falíveis. Estavam sujeitos a cometer erros doutrinários, aceitar alguma crença falsa, a interpretar mal as palavras e ações de Jesus Cristo, a enxergar algo de acordo com pressuposições próprias. Isso se aplica principalmente aos que não foram seus discípulos diretos.
 
Tal como o aluno bom que estuda e se torna apto para gabaritar uma prova, mesmo ainda estando sujeito a errar, Deus tornou homens santos aptos para registrar fielmente os seus ensinos e, depois, para reuni-los em um cânon; mesmo estes homens santos ainda estando sujeitos a errar.
 
O católico pode perguntar: “Mas se os discípulos diretos de Cristo e os Pais da Igreja poderiam errar doutrinariamente, como podemos crer na Bíblia? Ela pode muito bem estar repleta de erros”. Sim, à priori, ela poderia mesmo estar cheia de erros. Qualquer coisa feita por humanos pode estar errada. Mas “poder estar” não significa “estar”. E a única maneira de descobrir se algo está errado ou certo é fazendo uma análise. Não é o que fazemos quando queremos descobrir a verdade? Não há nada de novo aqui.
 
O fato é que uma análise ampla da Bíblia, baseada na arqueologia, na história, na lógica, em princípios básicos de interpretação e nas suas próprias evidências internas de que está dizendo a verdade são suficientes para provar a sua infalibilidade. Qualquer pessoa honesta, que tenha um conhecimento razoável e uma vida espiritual saudável é capaz de se aplicar em uma análise dessas. Ademais, bons livros sobre o assunto não faltam.
 
Mas ainda que o católico diga que tais evidências internas e externas não provam cabalmente a infalibilidade da Bíblia (e que, por isso, seria necessário pressupor a infalibilidade da Igreja), deve lembrar que pouca coisa nessa vida é provada de modo cabal. Seja na área teológica, seja na área cientifica, ou nas pequenas coisas da vida, não podemos ter essa prova cabal. Geralmente, o máximo que conseguimos, em todas as áreas da vida, é acreditar em coisas bastante prováveis. Talvez a ideia de fé se enquadre justamente aí nesse intervalo. Fé não é a certeza do que é cabalmente provado, mas a certeza do que é provável dentro de determinadas circunstâncias.
 
Outro questionamento pode advir do católico aqui: por que Deus guiaria homens na produção de uma Bíblia infalível, mas não guiaria homens na manutenção de uma Igreja infalível? É uma boa pergunta. Mas podemos elencar várias respostas. Em primeiro lugar, vamos usar o senso de proporção. A Bíblia foi escrita por cerca de quarenta autores. E provavelmente foi reunida por algumas poucas dezenas de líderes. A Igreja, no entanto, foi liderada por milhares de clérigos ao longo dos séculos (somando padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas). A Bíblia teve um desfecho em sua mensagem. É um livro fechado, imutável. A Igreja, no entanto, precisa tomar decisões diariamente e interpretar as Escrituras. A Bíblia foi escrita por homens que testemunharam aquilo sobre o qual escreveram. A Igreja, conforme o tempo passa, mais distante fica dos fatos descritos. A produção da Bíblia não requereu de seus escritores e selecionadores uma perfeição extensa, mas apenas perfeição nos momentos em que a produziam. A Igreja, para ser infalível, requer que seus diversos líderes sejam perfeitos em doutrina durante longos anos, enquanto durar suas lideranças (ou, no mínimo, que seus principais líderes sejam infalíveis sempre, a fim de que o erro não se propague). Em resumo, é muito mais fácil administrar a produção de uma Bíblia infalível do que de uma Igreja infalível.
 
Minha afirmação pode parecer uma afronta a Deus. Haveria algo difícil para Deus fazer? Quem sou eu para dizer que Deus teria dificuldade de criar uma Igreja infalível? Mas, acalme-se. Não estou limitando Deus. Se Ele quisesse, poderia fazer uma Igreja infalível, sem dúvida. Ocorre que Ele também poderia não fazer. E uma evidência disso é que Ele, de fato, não trabalhou desse modo no Antigo Testamento. No princípio, antes de haver Israel, o ser humano conhecia um monoteísmo primitivo, que era a tradição deixada por Adão e seus descendentes. Contudo, Deus permitiu que os homens fossem desvirtuando esse monoteísmo, aceitando crenças e interpretações errôneas. Isso daria origem a diversas religiões politeístas e a deturpações dentro do próprio monoteísmo.
 
Posteriormente, Deus desenvolveu a nação israelita, a fim de proteger suas verdades da influência pagã. Mas não impediu que séculos depois os líderes judeus começassem a crer e propagar interpretações equivocadas das Escrituras.
 
Ora, se esse desvio doutrinário foi possível durante todo o Antigo Testamento, por que não seria no Novo? Não há uma razão. A não ser que Deus diga que não é mais possível isso acontecer na era da Igreja, não há porque achar que não é possível.
 
Certa vez, debatendo com um católico, fiz a ele esse questionamento. A sua resposta foi que no Antigo Testamento Deus ainda não tinha completado a sua revelação. No Novo Testamento, com Cristo, a revelação estava completa e tudo agora era novo.
 
Ok. Eu concordo que Cristo nos salvou da morte, nos libertou da escravidão do pecado, transformou nossa vida, nos deu o seu Espírito Santo. Por isso tudo se fez novo em nossas vidas. Inquestionável. Mas enquanto ele não voltar para levar a Igreja, como prometeu, nós continuaremos a ser falíveis, tal como eram os homens do passado. Nem tudo mudou. Há coisas que só mudarão no fim. Então, por que seria absurdo supor que a Igreja, feita de pessoas falhas, com pressupostos e influencias, com teimosia e ganância, não poderia agregar doutrinas e interpretações equivocadas ao longo do tempo? Não há razão para se pensar assim. Aliás, a ICAR acredita que todos os homens falham (até o Papa). Como um homem capaz de falhar, estaria isento de falhar doutrinariamente? Não dá para isolar uma coisa da outra. Pelo menos não temos base alguma para isso. Falhas chamam falhas. De todo o tipo.
 
Talvez o católico fique triste comigo aqui e pense: “Poxa, mas quanto empecilho esse irmão coloca para aceitar o catolicismo!”. Mas não pense assim de mim. Eu aceitaria o catolicismo de bom grado se ele me parecesse verdadeiro. O problema é que quando eu analiso suas crenças, doutrinas e interpretações, não vejo base sólida. Pior que isso: vejo nela os mesmos erros cometidos pelos líderes judaicos da época de Jesus. Estes líderes acreditavam firmemente que eram infalíveis em matéria de doutrina e interpretação das Escrituras. Cogitar a hipótese de que a tradição dos anciãos, antiquíssima e conceituada, estava errada era um absurdo. Crer que Jesus, um carpinteiro, morador da pobre Nazaré, sem instrução formal, com apenas 30 anos de idade, estava certo e eles, seguidores de uma tradição de séculos, com grande estudo formal, altos cargos e idade avançada, estavam errados, era inadmissível.
 
Parece que Deus permite os desvios doutrinários para que o homem sempre saiba que quando ele se julga infalível, torna-se cem vezes mais suscetível ao erro. Ademais, faz parte do livre arbítrio. Perguntar por que Deus permitiu desvios doutrinários no meio de seu povo é como perguntar por que Deus permitiu que o pecado entrasse no mundo. O pecado entrou porque o homem se agarrou a algo no lugar de Deus. Os desvios ocorrem pelo mesmo motivo. E isso pode acontecer até com o mais sincero adorador. Lembre-se que Davi era “homem segundo o coração de Deus”, mas tinha três esposas.
 
“Igreja falível, interpretações imperfeitas”
 
O terceiro ponto principal argumentado pelo católico é que uma Igreja falível não poderia fazer interpretações infalíveis. Bom, já vimos que para gabaritar provas não é preciso ser perfeito. O que quero dizer é que uma Igreja falível é uma Igreja que pode cometer falhas, mas não necessariamente que vai cometê-las. Particularmente, acho que dificilmente a Igreja não iria cometer falhas. Mas quando você se entende como falível, sua tendência é tomar mais cuidado para não falhar e consertar mais rapidamente os seus erros. Todos já ouviram aquela frase que dizemos ao alcoólatra: o primeiro passo para se tratar é reconhecer que você tem um problema. Uma Igreja que não reconhece que tem um problema ou que pode vir a ter tende a acumular mais erros.
 
Uma Igreja falível poderia sim interpretar as Escrituras corretamente. E ela poderia não cometer nenhuma falha doutrinária em sua história, ou algumas poucas falhas, pequenas e corrigidas rapidamente. Aliás, é sempre bom ressaltar que muitos dos primeiros cristãos acreditavam que para ser cristão era necessário ser circuncidado. É provável que os próprios apóstolos tenham sustentado essa crença por alguns anos. Foi preciso um grande debate, acirrado e acalorado, para que os mesmos chegassem à conclusão de que não era mais necessário o ritual. O que esperaríamos de uma Igreja falível que se entende como falível, seria isso mesmo: crenças errôneas consertadas em um espaço de tempo relativamente curto.
 
O católico mais uma vez pode argumentar com a questão da certeza. O catolicismo dá certeza de inerrância na interpretação. O protestantismo não. Já expliquei que poucas coisas nessa vida nos oferecem certeza absoluta e que geralmente cremos através de probabilidades. As interpretações talvez se enquadrem nisso. 

O que não se pode ignorar aqui é que interpretações devem obedecer a regras básicas de coerência lógica, textual, histórica, cultural, linguística e bíblica. Quando essas regras são obedecidas, é possível gerar interpretações bem prováveis e reduzir drasticamente o risco de erros. No mais, os debates acirrados e honestos e a condução do Espírito Santo são capazes de levar a Igreja a consertar seus erros e buscar a verdade, mesmo que isso possa levar tempo. Mas, para isso, é necessário reconhecer a falibilidade. Quando a Igreja não faz isso, os erros são sacramentados e se tornam tradição; tradição “infalível”.
 
A Igreja que se julga falível não teme ser encontrada em erro, pois está aberta a ser consertada e moldada permanentemente por Deus. A Igreja que se julga infalível não teme ser encontrada em erro porque não crê nessa possibilidade, o que a leva a não achar necessário ser consertada por Deus.

Confusões, heresias, múltiplas interpretações e facções
 
Respondida a argumentação católica, devemos agora responder alguns questionamentos lançados diretamente ao pensamento protestante. Para o protestantismo, cada crente é um sacerdote e deve ter livre acesso à palavra de Deus. Mas isso, segundo o católico, cria uma cultura de livre interpretação da Bíblia, o que dá aval ao crente para interpretar a Bíblia de qualquer maneira, sem os critérios básicos, e gera multiplicidade facções, relativismo da verdade e surgimento de heresias. Como responder a isso?
 
A livre consulta da Bíblia
 
Em primeiro lugar, não é trabalho de um líder cristão limitar a leitura da Bíblia para não deixar a Igreja correr risco de interpretar errado. O trabalho do líder cristão é dar aos seus liderados as ferramentas e as orientações devidas para que ele próprio seja capaz de interpretar corretamente. Os grandes líderes e teólogos protestantes nunca advogaram uma cultura de livre interpretação das Escrituras, sem os critérios básicos e sem ajuda de pessoas mais bem preparadas intelectual e espiritualmente. Advogou-se sim a livre consulta.
 
O fato de que a livre consulta carrega consigo o risco de incentivar as pessoas a fazerem más interpretações, criarem heresias e multiplicarem facções não pode ser usado como argumento para impedir a livre consulta. Afinal, Deus não impediu o livre arbítrio por conta de ele trazer consigo o risco de escolhermos o mal. A Bíblia é a Palavra de Deus e deve estar disponível para todos. A função do líder é tão somente estar bem preparado para interpretar as Escrituras e passar isso aos seus discípulos.
 
Os princípios básicos de interpretação, aliás, são bastante simples. Em sua maioria são os mesmos utilizados para interpretar qualquer outro texto, religioso ou secular. Isso não quer dizer, claro, que os líderes são dispensáveis. Geralmente, eles estão nessa posição porque apresentam um conhecimento acima da média, uma boa capacidade de ensino e uma vida espiritual saudável. Como não é a maioria das pessoas que tem essas características, a figura do líder é muito importante. Muito importante, mas não infalível, tampouco inatingível. A verdade e a mentira são bastante democráticas. Um grande líder pode estar redondamente errado, enquanto que um roceiro pode ter consigo todos os princípios corretos de interpretação.
 
O problema das facções
 
Em segundo lugar, a multiplicidade de facções não é um problema tão grave. O católico parece prezar muito por uma suposta unanimidade. Para ele, Deus não poderia permitir a divergência de opinião sobre doutrinas cristãs e interpretações das Escrituras, pois nos deixaria sem saber qual é a verdade. E a ICAR, segundo ele, proporcionava isso antes do protestantismo. O que o católico esquece é que essa suposta unanimidade nunca existiu. Sempre houve quem discordasse da Igreja Católica. A diferença é que antes as vozes discordantes existiam em menor número, pertenciam a poucos grupos e eram ofuscadas pela grandiosidade do sistema católico. Hoje o catolicismo precisa disputar com miríades de vozes, de miríades de grupos, e seu poder já não é mais o mesmo. Foi apenas isso o que mudou.
 
Nunca haverá unanimidade. E a existência de uma Igreja infalível não livraria ninguém de ter que estudar e escolher entre uma religião e outra, uma facção e outra. O que deve ficar claro é que, se a verdade existe (e nós cremos que sim), é possível encontrá-la. Se cada um julga tê-la encontrado, mesmo crendo em coisas diferentes, isso não muda o fato de que existe uma verdade e é possível encontrá-la. Alguém está certo e alguém está errado. O que está errado não procurou direito. Simples assim.
 
Esse quadro é o mesmo tanto se houver uma Igreja infalível quanto se não houver. É triste, mas vivemos em um mundo difícil, no qual precisamos buscar doutrinas, crenças e interpretações corretas dentre muitos erros e mentiras. É um problema inerente a este mundo caído. Mas, por outro lado, mantendo uma vida espiritual saudável, uma postura honesta, a mente aberta e os critérios básicos de interpretação, não é tão difícil encontrar a verdade. Ademais, Deus não irá cobrar nenhum cristão sincero por aquilo que ele não entendeu/conheceu, nem teve oportunidade de entender/conhecer plenamente.
 
O suposto relativismo e a ação de Deus na história

Em terceiro lugar, a ideia de relativismo protestante é um mito. A multiplicidade de igrejas no protestantismo na verdade prova justamente o contrário: cada igreja acha que está com a verdade. Se não fosse assim, por que surgiriam tantas igrejas? Se não há verdade absoluta, se todas as pessoas podem estar certas, então que diferença faz abrir outra igreja? As igrejas surgem justamente porque uma não concorda com a outra. Isso não é relativismo.
 
Talvez sejamos impulsionados novamente à questão de como saber quem está certo. O católico parece se preocupar muito com isso. Ele teme que se não há uma Igreja infalível, todas as facções podem estar erradas e, se há uma certa, não dá para saber qual é. Não vou repetir o que já falei anteriormente, mas quero focar em outro ponto: este pensamento subestima a capacidade de Deus agir na história do mundo. Quando o monoteísmo primitivo estava repleto de distorções, o que Deus fez? Formou uma nação através de Abraão para preservar suas verdades. E quando o judaísmo estava repleto de distorções rabínicas, o que fez Deus? Enviou Jesus para morrer por nós e reformar o que havia ensinado.
 
Será que da mesma forma Deus não agiu durante a história, tentando mudar os rumos do cristianismo? E será que em algum momento Ele não logrou êxito em levantar um movimento totalmente baseado em suas Escrituras? Será que não existe um movimento assim hoje? Será que nas profecias de Daniel e Apocalipse não há previsões sobre um movimento como este? Não estaria desde o passado registrado na Bíblia que a verdade seria deturpada, mas que Deus lutaria para trazê-la de volta através de um movimento que não se colocasse como infalível doutrinariamente, mas buscasse consertar seus erros e prosseguir rumo à verdade? E não seria possível, através de uma postura honesta e um estudo profundo, racional, espiritual e bíblico, chegar até esse movimento e passar a seguir a Bíblia corretamente? São possibilidades que não podemos jogar fora.
 
De fato, o que tenho visto através do estudo acurado das profecias bíblicas é que um movimento político-religioso iria deturpar verdades bíblicas e teria supremacia por bastante tempo. Esse poder emergiria no interior do governo que dominaria a Grécia, isto é, Roma. Dominaria sobre os reinos que surgiriam após a queda do Império, isto é, os bárbaros. No entanto, seria contraposto por um movimento no fim dos tempos, o qual restauraria as verdades de Deus e conclamaria os cristãos a abandonarem seus erros doutrinários. Esse movimento não é o protestantismo, pois este deixou por reformar muitas verdades e até criou novos problemas. Entretanto, é um movimento que dá continuidade ao que foi iniciado de positivo na Reforma Protestante.
 
O movimento em questão se colocaria contra todas as doutrinas católicas que são contrárias à Bíblia como a da imortalidade da alma, o castigo eterno dos ímpios, a anulação do sábado bíblico, a sua substituição pela santidade do domingo, a veneração de imagens, as orações pelos mortos, o purgatório, o batismo de crianças, o batismo por aspersão, a intercessão dos mortos pelos vivos, a infalibilidade papal, a infalibilidade da Igreja, a exclusividade de interpretação pelos líderes e etc.
 
Não é intuito desse texto identificar este movimento ou demonstrar em detalhes como ele é previsto pelas profecias bíblicas ou como a Bíblia também prediz a deturpação do cristianismo por meio de um poder político-religioso. No momento é suficiente o leitor saber que o único movimento que se enquadra perfeitamente na descrição que fizemos é chamado de “Igreja Adventista do Sétimo Dia”. Ela tem se esforçado, desde o início, em reformar suas próprias doutrinas, através de muito estudo, agregando assim verdades antes esquecidas e lançando fora crenças incoerentes. Assim, tornou-se uma sabatista, preocupada com as questões de saúde, que rechaça as crenças oriundas do paganismo (as quais encontraram “apoio” em interpretações e traduções errôneas da Bíblia) como a imortalidade da alma e inferno eterno e etc. E a mesma tem crescido vertiginosamente ao longo de pouco mais de 150 anos, já contando com quase 20 milhões de membros e colégios, universidades, hospitais, instituições de assistência social, emissoras de TV, estações de rádio, fábricas de alimentos saudáveis, gravadoras e editoras em centenas de países.  Esse conjunto de características é interessante e merece um estudo acurado em outras ocasiões. A ideia aqui é apenas mostrar ao leitor a existência de outra hipótese. E como aprendemos, só podemos considerar alguma hipótese idiota depois de analisarmos a mesma, abstendo-nos de reducionismos e estereótipos.

Conclusão

O objetivo primordial desse texto foi analisar do modo mais honesto possível se o catolicismo é verdadeiro ou não. Vimos que não é, conquanto, sem dúvida, a ICAR seja uma instituição repleta de cristãos sinceros (líderes e leigos) que ajudou a propagar o evangelho e a civilizar povos. Seus atributos são inúmeros porque não deixa de ser uma instituição cristã. Mas seus muitos erros doutrinários, acumulados pela sua crença de ser infalível, tornaram seu sistema pernicioso, tal como são todos os que não consertam os seus erros.
 
A conclusão é que o pensamento protestante está mais próximo da verdade do que o pensamento católico. Contudo, o protestantismo ainda carrega, em suas diversas facções, crenças e interpretações herdadas do catolicismo que não estão de acordo com aquilo que diz a Bíblia. A insistência em negligenciar o sábado bíblico ou em descrever Deus como um ser que capaz de manter um lugar de sofrimento eterno para os ímpios são exemplos dessa herança católica. Isso nos leva a abrir a mente para a possibilidade de existir algum movimento levantado por Deus para terminar aquilo que o protestantismo começou. E essa hipótese, caso confirmada, comprova que Deus age na história, a fim de consertar sua Igreja, a Igreja Cristã.

domingo, 10 de agosto de 2014

O deus do Evangelho Libertário (ou: Analisando a "Caiofabiologia")

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Um amigo meu me mostrou há algum tempo um vídeo do Sr. Caio Fábio, líder do segmento religioso "Caminho da Graça". No vídeo em questão, o ex-pastor da igreja Presbiteriana é questionado por um internauta sobre se Jesus Cristo é Deus. O leitor se dizia estudante de filosofia e afirmava que algumas passagens da Bíblia lhe davam a impressão de que Jesus é menor que o Pai, que Jesus não é Deus, embora seja uma criatura muito evoluída. Para quem quiser ver o vídeo, coloco-o abaixo:


Bom, como é hábito meu, resolvi fazer algumas considerações por escrito sobre o vídeo do Caio Fábio, após assisti-lo. Antes de tudo, porém, gostaria de falar um dos motivos pelo qual não gosto do Sr. Caio: ele tem uma habilidade incrível de misturar verdades com mentiras. É, de fato, uma habilidade fantástica, pois quem consegue fazer isso bem, torna suas mentiras atrativas. É o que pretendo mostrar a você nessa análise. Vamos ao que interessa.

Repare que Caio Fábio, nesse vídeo, quer vender a ideia de que Deus é absurdo, impossível, que não cabe dentro da “caixinha”, que está totalmente além da nossa razão humana, que é incompreensível para o homem e que só pode ser sentido; sentido através da fé. Há muitas verdades aqui. Para nós, humanos, por exemplo, é absurdo pensar em algo que não tenha início. É algo que não conseguimos compreender direito. Isso não cabe em nossa mente finita. Mas Deus não tem início. Ele é eterno. A eternidade é absurda para a compreensão humana. 

Para nós, humanos, a Trindade também é absurda. É impossível entende-la em sua plenitude. Afinal, nós não somos seres triúnos. E é difícil você entender algo que você não é, nem nunca passou pela experiência. Mais que isso: É difícil compreender algo que não tem igual para se comparar. Não há exemplo na realidade que se compare a Trindade. E o ser humano só consegue compreender algo plenamente quando ele pode comparar. A Trindade é única e, portanto, incomparável.

Para nós, humanos, o amor de Deus também é absurdo. Simplesmente não é o que nós esperaríamos se Deus funcionasse da maneira como estamos acostumados a ver as coisas no mundo. Um amor tão forte a ponto de causar a morte de um Ser sem pecado para salvar seres imundos... Isso é o absurdo dos absurdos. Enfim, nesse sentido, Caio Fábio está certo. Deus está além da compreensão plena do ser humano. Ele está além do entendimento habitual do homem (o que é normal: Ele é Deus; nós somos meras criaturas finitas).

Agora, esse absurdo que Deus é para nós, humanos, não é um sinônimo de ser ilógico, irracional e sem sentido. Quando falo de lógica, razão e sentido, me refiro a um padrão de realidade que é imutável. Por exemplo: não existem coisas como um quadrado triângulo, um casado solteiro, um corrupto honesto, um preto branco. Estas coisas não existem porque a simples ideia delas é contraditória. São coisas ilógicas, irracionais, sem sentido. Se eu disser (para citar outro exemplo) que Deus é plenamente bom e plenamente mal, você saberá que estou falando algo impossível. Uma coisa anula a outra. Em outras palavras, existe um padrão lógico-racional na realidade. É um padrão de sentido que nunca é quebrado. Ele é inerente à realidade e à existência. O que quer que exista, se enquadra nesse padrão.

Você pode dizer: “Mas esse padrão pode ser quebrado por Deus, pois Ele o criou e está acima dele”. Está errado. Esse padrão não foi criado por Deus. Ele faz parte do próprio Ser de Deus, assim como o amor também não foi criado por Deus. Deus é amor. O amor é inerente à essência de Deus. É tão eterno quanto Deus porque é parte do próprio Deus. 

Se você entende isso, percebe que Deus é absurdo não no sentido de ser uma contradição lógica. Ele é absurdo, não no sentido de fugir a esse padrão de sentido da realidade. Ele é absurdo, mas não no mesmo sentido de ser capaz de ser plenamente bom e plenamente mal ao mesmo tempo, ou de ser corrupto e honesto ao mesmo tempo e etc.

Deus é absurdo em dois sentidos: (1) o de que a sua natureza é inigualável e está além do mundo físico, escapando, por isso, à nossa plena compreensão; e (2) o de que Ele quase sempre faz as coisas de modo diferente ao que esperaríamos ou estamos acostumados. Em ambos os sentidos não há quebra de razão e lógica, mas apenas a quebra de nossas expectativas humanas. Esperamos que Deus aja conforme nós agiríamos, ou que faça sentido à luz de nossos hábitos e nossa compreensão finita. E isso realmente não acontece. 

A salvação do ser humano por meio de um Deus que se faz homem mortal e simplesmente morre na cruz é o melhor exemplo disso. Não é o que esperávamos como seres de mente finita. Todos esperavam um herói, que arrancaria as cabeças dos romanos e seria o mais novo Alexandre o Grande. Esperávamos um Hércules, um Kratos, um Deus da Guerra. Então, ele veio como um cordeiro e morreu. Parece uma derrota. Parece não ter sentido. Parece, porque quebra com nossas expectativas. Mas só parece. Não quer dizer que realmente não tenha sentido, que não seja lógico e racional, que não possamos entender, ainda que seja estranho à primeira vista.

C. S. Lewis, ao falar sobre milagres, nos dá um exemplo muito interessante para mostrar que milagres não quebram as leis da natureza. Ele pede que imaginemos a seguinte situação: todo dia ele coloca três moedas dentro de sua gaveta. No final de quatro dias, quantas moedas ele terá? Doze moedas, não é? Mas se ele abrir a gaveta no quarto dia e lá só tiverem seis moedas? Ele deve concluir que as leis da matemática e da lógica foram quebradas? Claro que não! Essas leis nunca são quebradas. Três vezes o quatro sempre será igual a doze. O que ocorreu foi que alguém tirou seis moedas de lá. Então, o que foi quebrado não foram as leis da lógica e da matemática, mas apenas a nossa expectativa humana. E a nossa expectativa humana foi quebrada porque não contava com esse fator de que um ladrão tiraria seis moedas da gaveta.

A conclusão de C. S. Lewis é que é tolice dizer que milagres quebram leis da natureza. O que os milagres quebram são nossas expectativas, pois esperamos sempre que os eventos naturais ocorram sem a intervenção de Deus. Quando há uma intervenção, obviamente o evento não ocorrerá como esperávamos. O resultado será diferente. Mas as leis continuam intactas.

Sempre uso o exemplo da maçã. Se jogo uma maçã do quinto andar em direção ao chão, eu espero que ela vá atingir o chão. Mas se antes de ela atingir o chão, alguém estica a mão pela janela, lá no segundo andar, e pega a maçã, minha expectativa será frustrada. Isso não quer dizer que a lei da gravidade deixou de existir naquele momento, mas sim que um fator com o qual eu não contava entrou na equação: a mão de uma pessoa interceptando a queda da maçã.

É claro que, no caso das leis da natureza, elas podem ser revogadas se Deus desejar. Afinal, elas sim foram criadas por ele. Se Deus quiser tirar a gravidade da Terra, Ele a tirará. Mas no caso do padrão lógico-racional da realidade, isso não pode ser quebrado, pois é inerente à realidade e inerente a própria essência de Deus. O que se quebra são sempre as expectativas humanas.

Caio Fábio, no vídeo, pretende obscurecer este entendimento com o objetivo de desestimular o estudo racional da Bíblia. Para isso, ele vende a ideia de que esse padrão lógico-racional de realidade não existe. Ele faz o expectador acreditar que a razão e a lógica são invenções humanas ou, no máximo, criações de Deus. Com isso, somos levados a crer que Deus está além de toda a razão e lógica. Ao fazer-nos aceitar isso, ele pode se dar ao luxo de transformar a teologia e todo o conhecimento e estudo da Bíblia em lixos, em inutilidades. Você não precisa estudar. Você precisa crer. Só isso. Essa é a mensagem de Caio Fábio.

Repare que ele se recusa a responder a pergunta do espectador. Eu teria dezenas de respostas satisfatórias para oferecer baseadas no estudo lógico da Bíblia. Mas ele apenas se limita a dizer que o espectador que faz a pergunta é um “filosofozinho de merda” (traduzindo), que essa questão não tem resposta e que o espectador precisa crer para poder ficar satisfeito. Caio Fábio passa deliberadamente por cima de dezenas de passagens bíblicas que nos dizem para estudar e ser racional.

Mas o mais importante vem agora: Caio Fábio não faz isso sem perceber. Ele sabe muito bem o que está fazendo. Sabe como eu sei disso? Por duas coisas: 

(1) No vídeo ele faz questão de enfatizar a todo o momento que Ele já estudou tudo o que o espectador está estudando, que ele já sabe tudo o que o espectador vai perguntar, que ele já fez todos esses questionamentos, que ele detém amplo conhecimento bíblico, que ele já estudou teologia e filosofia a vida inteira, enfim, ele é o cara. Então, quando ele diz que o espectador não precisa estudar, o resultado final de seu discurso se traduz assim: “Aceite o que eu tô falando porque eu sei mais que você. Não precisa estudar, porque eu já estudei e sei tudo o que você precisa saber. Apenas acredite em mim”. 

(2) Na entrevista que ele oferece a Gentile, a primeira coisa que ele diz é que os evangélicos são ignorantes, que não querem ter conhecimento, que ele ofereceu durante trinta anos conhecimento para as mais diversas denominações e que agora ele mantém um programa chamado “Papo da Graça” onde ele ensina as pessoas a pensar.

Pense um pouco comigo, amigo leitor: Se por um lado ele diz que Deus é absurdo, que está além da razão, que não adianta tentar estudar teologia e Bíblia, que é desnecessário responder as nossas dúvidas (é o que ele diz ao cara que fez a pergunta), mas, por outro lado, afirma que os evangélicos precisam muito de conhecimento, que as denominações não oferecem conhecimento e que ele tem se esforçado para dar esse conhecimento aos evangélicos, o que você acha que ele está dizendo? É lógico. Ele está dizendo: “Tudo que não vem de mim está errado. Estude só o que eu digo, creia em mim e seja feliz!”.

Agora, somos capazes de entender toda a estratégia de Caio Fábio. Ele primeiro fala algumas coisas ambíguas como, por exemplo, que Deus é absurdo. Dizendo isso, ele ganha todos os cristãos, porque, em certo sentido, Deus é absurdo mesmo. Depois ele começa a transformar essa absurdidade em sinônimo de estar além da razão e da lógica. Aqui ele ganha quem está despercebido. O despercebido não repara que nesse sentido as afirmações de Caio estão erradas. Ele é enganado pelas palavras. Em seguida Caio despreza todo o estudo da Bíblia, da teologia e da filosofia, pois Deus está além disso. Como o despercebido já foi enganado no nível anterior, ele aceita essa afirmação também, como conseqüência. É neste momento que Caio Fábio começa a fincar sua autoridade, dizendo que ele é o único líder que detém o verdadeiro conhecimento e que os cristãos precisam disso. Pronto! Substituímos a teologia e a filosofia bíblica pela “Caiofabiologia”, uma matéria onde conhecemos Deus através do que Caio Fábio fala sobre a Bíblia. Sim, não deixa de ser fé.

Não estou dizendo, amigo leitor, que o Caio Fábio seja um farsante, um maldoso, que quer desviar os cristãos e destruir a vida das pessoas. Ou que ele é um desonesto que quer angariar evangélicos para o adorarem. Não! Acho que ele realmente está fazendo o que acha que é certo. A história do Caio é a história de muita gente. Ela se resume no seguinte: Ele se decepcionou com todas as denominações, começou a achar que nada de bom pode sair das igrejas tradicionais e concluiu que ele era um dos poucos que detinha a verdade. Como ele era pastor, decidiu continuar sendo um líder espiritual. Assim, criou um movimento que se baseia nessa verdade que ele acredita ser um dos poucos a possuir. Então, é natural que ele queira que as pessoas abandonem qualquer estudo teológico tradicional e focalizem suas mentes no que ele diz. Porque ele acha mesmo que detém a verdade. E ele desenvolve essa visão de possuidor da verdade através de um profundo ódio a quem está em denominações. Quanto mais ele odeia quem está nas denominações, mais ele acredita que é o único líder que detém a verdade. 

Não tenho como apreciar as ideias de um homem como esse. Ele pode ter a melhor das intenções, mas, para mim, ele não é nada diferente de homens como Edir Macedo e Valdemiro Santiago. Trata-se de um herege que está afastando as pessoas de estudarem a Bíblia Sagrada, que está desabituando as pessoas a estudarem e debaterem educadamente, que está centralizando as atenções nele. Seus seguidores são exatamente iguais aos seguidores de Macedo e Valdemiro: não sabem debater ideias. A diferença é que um grupo diz que você está endemoninhado, enquanto o grupo do Caio Fábio diz que você é religioso, hipócrita, fariseu e manda você tomar no c*. Debate inteligente e educado você não vai encontrar. Nenhum deles está interessado em Bíblia, mas em líderes humanos. 

Vou lhe dizer no que acredito, amigo leitor: acredito que o cristão deve ser inteligente o suficiente para ouvir o que os outros cristãos tem a dizer e a responder com honestidade e racionalidade, sempre baseado na Bíblia. Deve estar sempre aberto ao fato de que pode estar errado e sempre disposto a mudar de ideia quando, após acurada reflexão e estudo, descobre que defendia uma inverdade. Deve, acima de tudo, amar, respeitar e buscar entender todos os cristãos, tanto os liberais, que acham que graça é ter liberdade para fazer tudo, quanto os legalistas, que se prendem tanto ao pode-não-pode, que se tornam hipócritas e acusadores. 

Caio Fábio tem se esforçado arduamente para não fazer nada disso. É por isso que não tenho como apreciar suas ideias e sua pessoa. Eu sou prudente demais para cair no conto do vigário; tanto de um lado, quanto do outro. Eu fico com o equilíbrio em Cristo e a fé inabalável em sua Palavra. E meu conselho/lema para todos os cristãos continua sempre sendo o mesmo: “Não acredite no que estou falando só porque eu estou falando. Estude mesmo, meta as caras”.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Babilônia Política

6 comentários:
Há cerca de um mês publiquei um texto intitulado “Confusões clássicas sobre direita e esquerda” aqui no blog. O mesmo texto foi avaliado pelo site “Direitas Já” a pedido meu (o “Direitas” costuma a avaliar e postar textos de leitores) e postado por lá no dia 28 de fevereiro. Ironicamente, um dos administradores do próprio site, Rodrigo Viana, postou, no dia 6 de março, um texto intitulado “Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo”, onde expõe sua discordância com aquilo que eu disse em meu texto.

Digo “ironicamente” não pela discordância ter partido de um administrador do site, já que um site feito por várias pessoas pressupõe a pluralidade de idéias. Porém, a ironia está no fato de Rodrigo Viana se propor, em seu texto, a dizer que Esquerda e Direita são conceitos que não servem para definir muita coisa. Não é o que eu esperaria de uma pessoa que administra um site que leva em seu nome justamente um desses dois rótulos.

Mas, enfim, o texto de Rodrigo, embora bem escrito, me deu a impressão de que ele não entendeu muito bem os meus argumentos. Assim, me sinto na obrigação de tirar aqui algumas dúvidas e de responder a algumas objeções levantadas por ele. Eu o farei de maneira construtiva e educada, mas serei incisivo, ok?

As Cinco Mentalidades Contextuais

Logo no começo de sua postagem, Rodrigo Viana cita um texto de outro administrador do site, Renan Felipe, intitulado “As cinco mentalidades políticas”. Neste texto, Renan adota um modelo de classificação das ideologias políticas, no qual existem cinco mentalidades: Reacionária, Restauradora, Moderadora (conservadora), Reformadora e Revolucionária. Com base nesse modelo do administrador Renan Felipe, Rodrigo Viana afirma que em sua visão:

o que se diz normalmente como Direita são correntes que estão em posições como “reacionária”, contrário a qualquer tipo mudança, e “moderada”, onde certas mudanças podem ser bem vindas, desde que não sejam abruptas. E Esquerda como “reformadora”, visando mudança significativa, porém de cunho pragmática, e “revolucionária”, mudança desde a raiz.
Observando esse trecho é possível averiguarmos que o entendimento de Rodrigo sobre o que é Direita e Esquerda tem algumas falhas pequenas, porém expressivas. Para começar, ele afirma que a mentalidade reformadora, que visa mudanças significativas e pragmáticas, é normalmente dita como Esquerda. Isso é questionável, porque depende muito do contexto político vivido pelo Estado.

O Brasil, por exemplo, vive há muito tempo num contexto de domínio ideológico esquerdista. Então, propostas direitistas como o fim de programas assistencialistas, a redução de impostos, a diminuição do Estado na economia e o investimento no setor privado em vez do público são, sem dúvida, propostas de mudanças muito significativas e de cunho bem mais pragmático (no bom sentido que essa palavra pode oferecer) do que o utopismo apregoado pelo nosso governo de esquerda.

Ou seja, nesse contexto, a mentalidade reformadora é a mentalidade de direita; e a esquerda, curiosamente, passa a ter a mentalidade reacionária, por querer manter tudo como está (ou até mesmo uma mentalidade conservadora, por não almejar mudanças muito bruscas no modo de governo atual, a fim de preservar o status quo).

Rodrigo também afirma que a mentalidade moderada (conservadora) é aquela que pode até aceitar algumas mudanças, desde que não sejam abruptas. Ora, mas essa definição só funciona quando pressupomos que aquilo que o moderado quer conservar ainda existe. Mas em um contexto onde toda a tradição e experiência que valiam à pena ser guardadas foram destruídas por um Estado autoritário, o conservador se transforma no agente que mais apregoa e luta pela mudança. Ele quer de volta os pilares da sociedade que foram derrubados pelo autoritarismo, o mais rápido possível; e talvez seja capaz até de utilizar a força bruta para tal (a depender do contexto). Um perfil bem semelhante ao de um revolucionário, não é mesmo?

Portanto, na realidade, é esse modelo das cinco mentalidades políticas que não diz muita coisa. Tais mentalidades me parecem um tanto contextuais e, por esse motivo, não servem para conceituar Direita e Esquerda, como faz o nosso amigo Rodrigo.

Rodrigo continua o texto, desenvolvendo o seu argumento de que Direita e Esquerda não são bons rótulos, já que muitas de suas ideologias se baseiam em mentalidades que, segundo sua visão, são tanto de Esquerda quanto de Direita. Tal ambigüidade, para Rodrigo, torna impossível saber à qual das duas tais ideologias pertencem, já que elas bebem em fontes opostas uma a outra. Ele diz:

O Liberalismo tanto bebe de fontes “moderadas” como “reformadoras”. Se considerarmos sua versão anárquica, o Anarco-capitalismo, estaria, também, apoiada numa posição “revolucionária” além das duas já herdadas do Liberalismo. São correntes que nem a Esquerda e nem a Direita possuem suporte para tal.
Esse exemplo sobre o liberalismo não diz absolutamente nada porque, como já mostrei, não faz sentido dizer que a mentalidade moderada é sempre de Direita e que a mentalidade reformadora é sempre de Esquerda. Moderação e Reforma, do modo como Rodrigo define, podem pertencer tanto à Direita como à Esquerda, dependendo de como se encontra a política do Estado. Essas mentalidades não definem o espectro político da ideologia. Em um Estado comunista, por exemplo, os “moderados” podem ser aqueles que querem a conservação do regime comunista, aceitando apenas pequenas mudanças de vez em quando. Nesse mesmo Estado, contudo, o “reformador” é aquele agente que deseja a substituição do sistema comunista por outro sistema. É uma questão puramente de contexto político.

Então, o fato do liberalismo clássico beber tanto em fontes moderadas como em fontes reformadoras, não significa que ele não possa ser definido como uma ideologia de Direita ou de Esquerda.

Quanto à corrente anarquista, seus adeptos podem ser tanto de Direita como de Esquerda, sem termos problema algum quanto à classificação [1]. Porque o anarquismo em si não pertence a nenhum dos lados. Ele é apenas a idealização de uma sociedade sem um governo e sem uma hierarquia estatal. E em uma sociedade assim, não há nem Esquerda, nem Direita, evidentemente.

Então, o que define se um anarquista é de Direita ou Esquerda não é o anarquismo em si, mas (1) como o anarquista acredita que essa sociedade funcionaria; (2) o que o anarquista considera empecilhos para a concretização dessa sociedade; (3) como o anarquista acha que esses empecilhos poderiam ser ultrapassados.

Embora haja algumas diferenças entre os anarquistas de Esquerda, em geral eles concordam que a sociedade anarquista funcionaria naturalmente sem problemas, porque o mal da sociedade não está no ser humano, mas nas instituições do Estado e, sobretudo, no próprio Estado. Isso já seria o suficiente para classificar um anarquista como sendo de Esquerda, já que o principal pilar da Esquerda é o otimismo antropológico.

Como o sonho de uma sociedade anarquista é um sonho muito distante é comum que os atuais anarquistas acabem se alinhando com marxistas. É sabido que marxistas e anarquistas tinham muita rivalidade na época de Marx, mas isso não anula o fato de que ambos tinham um objetivo final em comum: uma sociedade sem Estado. Por isso, o alinhamento é normal. Assim, anarquistas de Esquerda freqüentemente se tornam ferrenhos críticos do capitalismo, da burguesia, da religião e, claro, da Direita. Esses acabam sendo os seus principais inimigos.

E como destruir esses inimigos? Aqui, outra vez o alinhamento com marxistas e demais esquerdistas se torna proveitoso. Afinal, todos juntos vão “descer o cacete” em seus inimigos em comum. Tenho um colega anarquista, por exemplo, que adora ler a Carta Capital e o Observatório da Imprensa. Ele também segue páginas virtuais como “Che Brasuca”, “Direitistas Caricatos” e mais uma dúzia de páginas esquerdistas que criticam a direita, a burguesia, o capitalismo, a religião e as igrejas, tratando-os como a raiz de todos os males do mundo.

Já os anarquistas de Direita (Anarco-Capitalistas) são totalmente diferentes. Eles não acreditam que o ser humano é bom e que o mal da sociedade está em um fator ex-terno à espécie. Tendo como base o pessimismo antropológico, que é o principal pilar da Direita, esses anarquistas acham que o Estado é ruim porque, como o ser humano é inclinado ao mal, o Estado sempre será, de alguma maneira, opressor.

Liberais clássicos e conservadores burkeanos não discordam totalmente disso. O mundo não é bom mesmo e a luta do ser humano deve ser para torná-lo melhor e não perfeito. A diferença reside no fato de que o anarquista de Direita acredita que o Estado pode ser abolido sem que a sociedade se torne uma desordem. Isso porque, para o anarquista de Direita, instituições como tribunais, polícia, exércitos e bombeiros (com suas hierarquias internas) continuariam existindo, mas como empresas privadas e cada um podendo criar a sua, se quiser. A busca dos consumidores pelos melhores serviços iria garantir a melhoria na qualidade dos serviços que, por sua vez, garantiria a ordem da sociedade sem Estado. Utópico, por certo, mas baseado no pessimismo antropológico da Direita política.

Percebe-se, portanto, que dentre os inimigos do Anarco-Capitalismo não estão a burguesia, o capitalismo, o livre mercado, as políticas de Direita e a religião, como é o caso da maioria dos anarquistas de Esquerda. Os inimigos dos Anarco-Capitalistas são justamente o marxismo, a social-democracia e todas as ideologias que pretendem fortalecer o Estado ou lutar contra o livre mercado e o capitalismo.

Como destruir esses inimigos? Alinhando-se com liberais clássicos e conserva-dores burkeanos. É extremamente comum ver esse alinhamento. Porque por mais que existam grandes diferenças entre eles, há muito mais semelhanças. Portanto, não há (ou, pelo menos, eu não consigo ver) nenhuma dificuldade em se classificar um anarquista como sendo de Direita ou de Esquerda. Embora ambos não acreditem na manutenção do Estado, as diferenças entre eles são gritantes.

Compreendendo o processo histórico

Continuando o seu texto, Rodrigo mostra que não compreende bem o processo histórico da passagem entre a antiga política absolutista e nova política iluminista (da qual fazem parte, principalmente, o iluminismo britânico, que influenciou também os EUA e o iluminismo francês). Para Rodrigo, conservadores da antiga política caminham lado a lado com conservadores da nova política. Diz ele:

Outro erro comum é querer atribuir feições individualistas para a Direita e coletivistas para a Esquerda. Ora, isso não é coerente do ponto de vista teórico quanto histórico. A Direita clássica, em que tem o conservadorismo europeu como um de seus representantes, nunca almejou uma legítima posição individualista. Pelo contrário, foi um grande opositor, no passado, da igualdade jurídica entre indivíduos e até hoje se contorce ao ouvir discursos de abolição de privilégios consentidos a certos setores da sociedade.
O que Rodrigo Viana entende como “conservadorismo europeu” é, na verdade, o conservadorismo absolutista, uma mentalidade muito comum nos séculos XVIII e XIX, em pessoas que não se conformavam com a derrubada dos modelos absolutistas de governo. Essa mentalidade, evidentemente, sofreu algumas variações ao longo do tempo e não é mais tão comum. Porém, ainda há alguns desses conservadores que se baseiam em aspectos de um sistema que já foi derrubado há séculos.

Este tipo de conservador, conforme deixo claro em meu texto, não consegue se enquadrar no modelo de classificação Direita x Esquerda porque essa classificação não faz parte da antiga política. Falar em Direita e Esquerda em uma sociedade absolutista não só seria um anacronismo como não faria nenhum sentido lógico. Ou seja, um conservador absolutista não só não faz parte da Direita como também pensa de maneira diametralmente oposta a um conservador burkeano. Não se pode colocá-los lado a lado como se o conservadorismo de ambos fosse o mesmo.

E é de se ressaltar que a maioria dos que eram opositores da igualdade jurídica entre indivíduos e da abolição de privilégios de determinadas classes eram justamente os absolutistas. É certo que os primeiros direitistas também não eram tão respeitadores dos indivíduos como são hoje. Havia muita discriminação entranhada na sociedade. Mas isso era uma questão mais cultural e pessoal do que ideológica. Conforme o contexto foi mudando, os direitistas foram percebendo a verdadeira essência do individualismo.

Então, essa idéia de colocar liberais clássicos e conservadores burkeanos juntos com conservadores absolutistas, todos dentro da Direita, não é muito coerente. Quando se faz isso, aí realmente fica impossível de afirmar, por exemplo, que a Direita defende o individualismo e que a Esquerda defende o coletivismo. Afinal, absolutistas não são respeitadores do indivíduo, como os burkeanos e os liberais. Rodrigo continua:

Se havia intelectuais como Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Donoso Cortés como defensores de um estado moralizador e, muitas vezes, autoritário, havia também Benjamin Disraeli como um representante legítimo do coletivismo e protecionismo. E bem sabemos que o resultado entre coletivismo e estado autoritário pode ser qualquer coisa, menos o da defesa pela autonomia individual.
Aqui Rodrigo Viana cita alguns exemplos para provar que nem todas as Direitas são individualistas. Não é nenhuma surpresa constatar que os três primeiros nomes cita-dos são de pensadores que foram extremamente simpáticos ao regime absolutista (o terceiro começou como um liberal clássico, mas desistiu por achar que o Estado deveria ser forte). Mais uma vez, não dá para chamar essas figuras de representantes do pensa-mento de Direita. Eles eram representantes da velha política.

Benjamin Disraeli era de Direita? Questionável isso. Ele podia até ter algumas características de um conservador de Direita, mas isso não significa muito. Não se pode classificar uma pessoa por algumas características apenas. É necessário ver o panorama geral. Por exemplo, um aluno que tirou cinco notas baixas em química é bom ou ruim nessa matéria? Depende. Se ele fez apenas cinco provas, é um aluno ruim, pois foi mal em todas as provas que fez; se fez dez ou doze, ele é mediano; se fez vinte ou trinta, então ele é bom e suas notas baixas foram apenas exceções. É uma questão numérica.

Do mesmo modo, alguém pode ter algumas (ou até muitas) características de um conservador de Direita, mas também ter um número semelhante de características que são próprias da Esquerda. Este indivíduo acaba, portanto, ficando no centro do espectro, o que o torna um centrista. Rodrigo continua:

A Direita é muito mais do que a visão política americana e Edmund Burke não é o único representante do Conservadorismo. Por isso mesmo que a Direita pode tanto estar mais próximo do individualismo (como a Antiga Direita americana) como do coletivismo (a tradicional Direita europeia).
O próprio Partido Conservador britânico, no período pré e pós-Segunda Guerra, é um exemplo desse socialismo de Direita.
Rodrigo continua fazendo confusão entre diferentes tipos de conservadorismo. É justo explicar aqui: quase todas (senão todas) as pessoas são conservadoras. Tanto as de Direita como as de Esquerda. Afinal, todos desejam conservar algo que acham positivo para sociedade. E naquilo que se deseja conservar, reformas são sempre leves, graduais e vistas até com ceticismo. No caso da Esquerda, por exemplo, temos aqueles que querem conservar o regime socialista cubano (que já tem mais de cinqüenta anos). Eles são conservadores socialistas de Esquerda, portanto.

Então, quando vamos falar de conservadorismo, é muito importante fazer distinção entre os diversos tipos de conservadorismo existentes. É isso que Rodrigo não faz em seu texto. Para ele só existe um tipo de conservadorismo, que engloba absolutistas, teocratas, burkeanos e nacionalistas. E para ele, todos esses formam a Direita. Não me admira que alguém com essa visão, ache inconsistente o rótulo de Direita.

Quanto a Burke, Rodrigo está certo ao dizer que ele não é o único representante do conservadorismo. Existem outros representantes, assim como também existem outros conservadorismos. O conservadorismo de Burke é também chamado de conservadorismo moderno e é invenção da nova política iluminista, da onde surgem também a Direita e a Esquerda. E a Direita se baseia justamente nesse conservadorismo, em oposição ao conservadorismo absolutista. Ficou claro?

Então, no fim das contas, a Direita que existe nos EUA é a mesma Direita que existe na Europa, pois a Direita nasceu baseada no liberalismo e no conservadorismo defendido por homens como Burke, Alexis de Tocqueville e Bastiat. E essa tal “Direita” clássica européia, coletivista e regressista, que Rodrigo menciona, na verdade, é a antiga política absolutista (não a Direita).

Quanto ao “socialismo de Direita”, isso não existe. Quando um partido político dito de Direita se rende ao socialismo, a conclusão a que devemos chegar não é a de que Direita e Esquerda são rótulos ineficientes, mas sim a de que aquele partido abriu mão de princípios direitistas e se moveu em direção à Esquerda. As definições de Direita e Esquerda continuam as mesmas, o que muda é a postura de partidos e de seus políticos.

E o mesmo exemplo serve para a Esquerda. Não são todas as correntes ditas esquerdistas que se opõem ao indivíduo. Mutualistas como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker defendiam medidas “socialistas” ao enfatizar o modo cooperativo e de ajuda mútua da sociedade, porém sem a perda da autonomia individual. Seria então estes anarquistas direitistas? Certamente que não. Ou melhor, existe algum tipo de corrente anarquista que seja adepto da Direita? Bom, só de haver uma ligação entre “anarquia” e “Direita” já demonstra o quão limitado é enxergar a política de modo binário.
Ora, como eu falei antes, se o anarquismo não pertence nem a Esquerda, nem a Direita, podendo ser tanto de um quanto de outro, então é perfeitamente plausível afirmar que um anarquista também pode ficar no meio do espectro. Por que não? Eu não trabalho com uma divisão binária. Para mim, uma pessoa pode ser de Esquerda, ou de Direita, ou de Centro, ou de Centro-Esquerda, ou de Centro-Direita. São cinco posições diferentes. Dá para enquadrar todo mundo em algum lugar (a exceção dos absolutistas, que não fazem parte desse esquema político moderno).

Compreendendo o meu paradigma

Chegando ao fim de seu texto, Rodrigo começa a mostrar que não entendeu nada do que escrevi na postagem “Confusões Clássicas sobre Direita e Esquerda”. Ele diz:

Bem sabemos que a Direita era composta por pessoas anti-revolucionárias e a Esquerda por pessoas favoráveis a mudança.
Não, cara, não! Foi exatamente essa confusão que eu tentei desfazer durante todo o meu texto. Direita e Esquerda são duas vertentes ideológicas que começaram a se desenvolver muito antes do advento da Revolução Francesa (embora não com esses nomes ainda). Duas vertentes que, embora desde o início tenham sido antagônicas, têm algo em comum: ambas surgiram como parte integrante da nova política iluminista, contrária à velha política absolutista.

O que surge na Revolução Francesa não são essas vertentes ideológicas, mas sim a idéia de se chamar políticos mais radicais de Esquerda e políticos mais conservadores de Direita. Entretanto, como tais definições são muito vagas e não conseguem definir uma linha de pensamento específica para cada termo, não demorou muito para que as duas palavrinhas começassem a ser utilizadas para nomear as duas vertentes das quais acabamos de falar. A vertente humanista passou a ser chamada de Esquerda e a vertente não-humanista passou a ser chamada de Direita. Só a partir daí, os termos Esquerda e Direita passaram a ter um significado fixo e concreto.

Pode-se perguntar aqui: “Mas não existem outras acepções das palavras Direita e Esquerda? Por que apenas uma delas pode estar correta?”. É uma ótima pergunta. Eu a respondi no outro texto, mas vou detalhá-la melhor agora. Existem quatro acepções que são possíveis:

(1) Direita = Absolutistas e Esquerda = Revolucionários;

(2) Direita = Conservadores e Esquerda = Radicais;

(3) Direita = Defensores do status quo e Esquerda = Defensores da mudança;

(4) Direita = Amiga da elite e Esquerda = Amiga dos oprimidos.

A primeira acepção é falha porque se você considera os absolutistas como sendo de Direita e os revolucionários anti-absolutistas como sendo de Esquerda, terá que dizer que a Direita e Esquerda sempre existiram, já que reis com poderes absolutos e pessoas contrárias a esses reis são bem anteriores a 1789. E se consideramos esta acepção, então nunca fez sentido chamar, por exemplo, Marx, Gramsci, Lênin, Stalin, Lula e Dilma de Esquerda, assim como também nunca fez sentido chamar Churchill, Reagan e Thatcher de Direita. São termos nulos para um contexto pós-absolutista.

Então, se alguém quer usar essa acepção, deve respeitar essas regras: parar de usar esses termos para nomear ideologias e movimentos dos últimos cento e cinqüenta anos de história e passar a usá-los para nomear ideologias e movimentos de todos os anos anteriores em que houve reis com poderes absolutos e revolucionários contrários ao absolutismo do rei. Bem, não conheço ninguém que tenha utilizado os termos dessa maneira. Nem mesmo os primeiros que os utilizaram.

A segunda acepção também é falha porque é contextual. Como já expliquei, ser conservador ou ser radical depende muito do contexto político. Burke talvez fosse um radical para os integrantes do partido Tory, mas era um conservador para os radicais da Revolução Francesa (tanto que é chamado o Pai do conservadorismo). Ora, se o mesmo cara é conservador (“Direita”) e radical (“Esquerda”), então essa acepção também não serve para definir coisa alguma. E terminologias que não definem nada, são inúteis.

A terceira acepção também é contextual e inútil. Se ser de Direita é ser defensor do status quo e ser de Esquerda é ser defensor da mudança, então Fidel Castro, Lula e o PT são de Direita atualmente, e Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e o partido Republicano dos EUA são de extrema-esquerda até o momento atual (e no futuro pode mudar tudo de novo, pois é uma questão de contexto). Não preciso dizer mais nada, né?

Por fim, a quarta acepção, também não presta. Colocar a Direita como amiga da elite e a Esquerda como amiga dos oprimidos é criar uma visão maniqueísta da política e fazer com que creiamos que um lado sempre está certo e o outro sempre está errado, não importando o que façam. É evidente que essa visão é preconceituosa e, do ponto de vista histórico, totalmente falsa.

É interessante ressaltar que todas essas acepções, quando utilizadas por alguma pessoa, costumam ser misturadas com a acepção mais concreta e definidora das palavras Direita e Esquerda. Trocando em miúdos, o mesmo cara que afirma que Lula, Chávez, Fidel, Moralez e Kirchner são de Esquerda (acepção mais concreta), afirma que ser de Esquerda é ser anti-absolutista, radical, defensor da mudança e amigo dos oprimidos, em oposição a ser de Direita, que significa ser absolutista (ou, pelo menos, ter a mesma ideologia de um absolutista), ser conservador (o mesmo conservadorismo da época do absolutismo), defensor do status quo (mesmo que o status quo do contexto esteja sendo defendido pela esquerda) e ser amigo da elite (ainda que a elite seja de esquerda e você seja contra ela).

O leitor consegue ver a confusão? É uma mistura de várias acepções diferentes, falhas, inúteis e auto-excludentes, que são agregadas umas as outras com o intuito de fazer todo mundo acreditar que Direita é coisa de gente ruim e que Esquerda é coisa de caras legais. E tem um monte de ingênuo dos dois lados que acreditam.

Portanto, entendam: há uma confusão na definição do espectro político. Usa-se acepções diferentes todas juntas. Não pode. Usa-se definições contextuais e definições fixas juntas. Também não pode. Ou você entende Direita e Esquerda como palavras que definem vertentes específicas, anti-absolutistas (as duas), que ainda são válidas nos dias de hoje, ou você escolhe uma daquelas quatro acepções possíveis, que ou não definem nada ou já não servem para nada há mais de cento e cinqüenta anos.

Se você escolhe a primeira opção (vertentes específicas), não pode, por exemplo, dizer que os absolutistas eram de Direita, assim como liberais e burkeanos. Eles podiam ser de Direita espacialmente falando (sentavam-se nas cadeiras que ficavam à Direita do monarca), mas enxergando Direita e Esquerda no sentido de duas vertentes específicas válidas até hoje, você não pode fazer essa mistura. São dois sentidos diferentes.

Normalmente o que se fala é que havia absolutistas na Direita e socialistas e radicais na Esquerda, certo? Sim, porém há mais história a se contar. Não havia apenas socialistas e radicais na Esquerda do parlamento francês, mas liberais também. Frédéric Bastiat, um importante liberal clássico francês, sentou a esquerda dos absolutistas, se juntando a socialistas e anarquistas. Quer dizer então que o Liberalismo é uma corrente legitimamente esquerdista (ou seja, de viés reformador e revolucionário)? Não, quer dizer que ele era oposição à Antiga Ordem e que até mesmo nesta época a conotação Direita e Esquerda já nascera limitada.
Não, Rodrigo! Como eu falei, quando definimos Direita e Esquerda como duas vertentes que se opuseram ao absolutismo e que duram até hoje, os absolutistas, embora se assentassem na Direita, devem ser classificados apenas como absolutistas; e radicais, embora se assentassem na Esquerda, devem ser classificados como opositores do absolutismo, alguns desses de Esquerda e outros de Direita. Entende? Usando esta definição, a questão espacial se torna irrelevante (mesmo tendo servido de base para a adoção dos termos pelas duas novas vertentes posteriormente).

Então, sim, Bastiat, um liberal, estava do lado de anarquistas e socialistas. Isso não o faz um esquerdista, mas um iluminista de orientação direitista, opondo-se a velha política, ao lado de iluministas de orientação esquerdista que, apesar das diferenças para com os liberais, estavam juntos contra o absolutismo. Expliquei isso no outro texto. Não estou fazendo revisionismo histórico aqui. Apenas usando a acepção mais concreta das palavras Direita e Esquerda e não as misturando com outras acepções.

E que por isso enfatizo a feliz argumentação contida no texto Confusões Clássicas… em dizer que a Direita da época estava a defender não os “valores direitistas”, mas o absolutismo. E o mesmo raciocínio pode ser usado para a Esquerda da época, cada um defendendo as suas posições. Isso é um bom exemplo de que Direita e Esquerda também pode ser feita através das circunstâncias e do momento.
Não, eu não disse isso. O que eu disse foi que absolutistas não formam a Direita, se definimos a Direita como uma das vertentes da política iluminista, que existe até os dias de hoje. E, nesse sentido, é claro que absolutistas não estavam defendendo valores direitistas; eles não eram direitistas. Entretanto, se definimos Direita e Esquerda como termos da época, usados para definir quaisquer outras coisas e que não servem hoje ou cujos significados dependem do contexto político, então, esquece tudo o que falei. Só peço, mais uma vez, que não misture as duas coisas.
Indo em tempos mais atrás, porém atravessando o mar, podemos pegar o exemplo da Revolução Gloriosa inglesa. Antes mesmo de qualquer menção a Esquerda ou Direita, a Antiga Ordem era defendida pelo partido Tory e a oposição pelo partido Whig. De modo que os tories vinham de posições mais conservadoras e pró-absolutistas e os whigs de posições liberais e contrários ao absolutismo. E lembramos que um dos opositores, do qual possuía certo prestígio no partido Whig, era ninguém mais que Burke. Seria então o “pai do conservadorismo moderno” um esquerdista de sua época?
Isso tudo só prova o que eu falei. O que se tinha na Inglaterra da época não era um partido de Direita (Tory) e um partido de Esquerda (Whig). O que se tinha era um partido absolutista e um partido iluminista. Dentro do partido iluminista, é que havia os que eram de Direita e os que eram de Esquerda (os termos não existiam ainda, porém as vertentes sim). Burke era de Direita. E os absolutistas? Eram absolutistas. Só.
Outra questão importante a se analisar é a questão das correntes autoritárias. Se a Esquerda possui o Marxismo como forma maior de seu autoritarismo, não seria absurdo dizer que a Direita também tem a sua. É fato que o Fascismo e o Nacionalismo contém certos elementos ligados a Direita, principalmente do conservadorismo europeu. Posições como economia mista, anti-individualismo e nacionalismo são compartilhadas por autoritários de todo tipo. Longe de querer fazer uma análise sobre o Fascismo ou Nacionalismo, apenas relembro que a Direita “deu” contribuições, mesmo que de modo indireto e/ ou inconsciente, para as ideologias autoritárias.
Aqui Rodrigo apenas continua argumentando dentro de seu de raciocínio. Como ele mistura acepções diferentes das palavras Direita e Esquerda, e não faz distinção entre os diferentes tipos de conservadorismo, acredita que a Direita “deu” contribuições para nazistas e fascistas. Mas ainda que o nazismo e o fascismo tenham realmente uma idéia ou outra provenientes da Direita, isso não faz deles movimentos de Direita. Como já disse, não se pode classificar algo se baseando apenas em algumas características. É preciso ver o panorama geral.
Algo a mencionar seria a posição tomada pela Antiga Direita brasileira ao apoiar um golpe autoritário e anti-democrático no país, favorecendo os militares no poder. Dado que também não pretendo entrar no mérito utilitário quanto a isso. Deixo apenas como referência histórica.
Na real, o Brasil nunca teve um governo realmente de Direita. Pode ter tido um governante ou outro de Direita, mas uma andorinha só não faz verão. O que tivemos no Brasil foram governos de Esquerda, de Centro-Esquerda, de Centro e talvez, quem sabe, de Centro-Direita. A ditadura foi centrista (vou explicar mais abaixo). Ela se valeu de elementos tanto de Direita como de Esquerda.

A razão pela qual a ditadura militar do Brasil é vista como de Direita é que (1) ela adotou uma aparência de conservadorismo moral e religioso; (2) ela se posicionou contra o comunismo (e todo mundo que se posiciona contra o comunismo é taxado de direitista); (3) muitas pessoas que eram realmente de Direita apoiaram o golpe porque acreditaram mesmo que este era apenas uma defesa contra o comunismo e que, dentro em breve, a política do país iria voltar ao normal (ingenuidade mesmo); (4) os militares se consideravam (pelo menos se diziam) representantes da Direita. Mas, evidentemente, nada disso prova que essa ditadura foi de Direita.

Toda essa análise nos faz pensar em até que ponto é válido o uso desses termos já universalizados. Novamente, são termos imprecisos que podem gerar interpretações duvidosas, mas que pode ajudar algumas vezes. Não sou contra o seu uso, desde que seja empregado de forma correta e dentro do contexto. Contudo, o mais importante é saber que ele não deve ser usado como único recurso para uma análise política. Estamos nos século 21, vivendo em um novo milênio, e não no século 18. Acho que já deu pra perceber que a velha interpretação está mais do que ultrapassada.
Esse já é o final do texto de Rodrigo. Perceba que a conclusão dele é de que os termos Direita e Esquerda são imprecisos. Na verdade, não são. Imprecisos são termos como Reacionário, Moderado, Conservador, Reformador e Revolucionário. Imprecisas também são algumas acepções possíveis das palavras Esquerda e Direita, que, de modo errôneo, ainda são misturadas à acepção mais fixa e concreta que é comumente utilizada por todos. Também podemos dizer que são imprecisos os políticos e os partidos, porque se desviam de seus princípios muitas vezes. Porém, nenhuma dessas imprecisões altera o significado fixo e concreto dos termos Direita e Esquerda.

Enfim, sinceramente, a argumentação de Rodrigo não conseguiu me convencer quanto a pouca utilidade dos termos Direita e Esquerda. Creio que, se eles forem usados corretamente, sem misturas de diferentes acepções das duas palavras e primando por significados fixos e específicos, não vejo dificuldades na classificação.

A Questão do Centrismo e a classificação geral

Resta uma questão pendente. O que é centrismo? Não cheguei a definir com exatidão esse termo em nenhum texto meu. Eu já pretendia fazer isso há um bom tempo, mas até então não tinha percebido que era tão necessário.

Enfim, como eu falei, eu não vejo o espectro político como uma divisão binária, na qual só se pode ser de Esquerda ou de Direita. Pelo contrário, reconheço que entre os dois pólos existem muitos posicionamentos diferentes, alguns mais inclinados para a Esquerda, outros mais inclinados para a Direita e outros que, de fato, ficam exatamente no meio do espectro. Todos esses posicionamentos intermediários são o que chamo de Centrismo.

Isso não é novidade. Não fui eu que inventei a idéia. A diferença da minha visão de centrismo para a visão comum das pessoas é que não entendo que ser de Centro signifique “ser moderado”. Todo mundo acha que um governo, partido ou pessoa centrista é aquele que é meio capitalista, meio socialista; meio individualista, meio coletivista; meio livre mercado, meio interventor; e, claro, que não faz uso de violência e repressão, porque violência e repressão são coisas de extremistas, e o centrista não está no extremo de nada.

Mas essa definição não é lógica. É só raciocinar: se o centrista é centrista porque está no centro do espectro, entre um lado e outro, isso significa que ele adotou tanto idéias de Direita como idéias de Esquerda, em número semelhante. Por isso é que não dá para defini-lo em um dos lados. Moderação de idéias e moderação de violência nada tem a ver com ser de Centro.

Primeiro, porque a maioria das idéias de Direita e de Esquerda não pode ser adotada pela metade. Não se pode ser meio individualista e meio coletivista. Não se pode ser meio livre mercado e meio interventor. Não se pode ser meio pró-aborto e meio pró-vida. Não se pode ser meio a favor da legalização da venda de armas e meio contra a mesma. Você pode até ser moderado em cada uma dessas idéias, mas não pode adotar as duas, já que são excludentes.

Segundo, porque o espectro político não é um gráfico de violência e repressão nos diferentes regimes, no qual os extremos representam os regimes mais agressivos e violadores dos direitos humanos. Não! O espectro político é um gráfico de ideologias, no qual os extremos representam os regimes que adotaram um grande número de idéias do pólo em que estão e que seguem essas idéias com mais afinco. Assim, extremista não quer dizer violento e repressivo (a não ser sua idéia extremada implique em violência e repressão), tal como centrista não quer dizer moderado e democrático.

Ser centrista é seguir idéias de Direita e de Esquerda em número parecido, não importando quais sejam essas idéias. Todo mundo tem alguma idéia do pólo oposto que adota para si. Sou de Direita, mas concordo com uma coisa ou outra de Esquerda. Isso não muda em nada minha posição no espectro, pois a maioria esmagadora das idéias que sigo são de Direita. O mesmo serve para alguém de Esquerda que concorda com uma coisa ou outra de Direita. Isso é normal. Contudo, o centrista é aquele que concorda com muitas posturas da Direita e muitas posturas da Esquerda, o que o tira de ambos os pólos, deixando-o no centro.

Deve-se ressaltar ainda, que um centrista não tem um perfil definido. Justamente por ter idéias de ambos os pólos, há uma maior flexibilidade. Um centrista pode ser bem diferente de outro, em função disso. Um pode ser anticomunista, mas crer na intervenção estatal. Outro pode ser contra a legalização da venda de armas, mas a favor de um governo que intervenha pouco. Outro já pode ser a favor de um governo muito intervencionista, mas também a favor da legalização das armas. É claro que só essas características não definem se uma pessoa é de Centro. Entretanto, o que quero mostrar é que, diferentemente de esquerdistas e direitistas, os centristas formam um grupo muito mais amplo e heterogêneo.

Aí entra a questão das ditaduras centristas. O termo pode causar estranheza, mas por que não seria possível uma ditadura centrista? Se já vimos que centrismo nada tem a ver com moderação de violência, não faz sentido achar que há contradição entre esses dois termos. De fato, procurando por alguém que pensasse parecido comigo, encontrei um belo artigo do senhor Plínio Corrêa de Oliveira, intitulado “Ditatorialismo Publicitário Centrista” [2]. Embora, o artigo não tenha como objetivo principal definir o que é o centrismo político, ele lança uma tremenda luz sobre o tema. Diz a introdução do artigo:

A dignidade da abertura consiste na neutralidade. Com efeito, ela é o contrário da ditadura. E esta última não consiste em fechamento para todos, mas sim para um dos lados do tabuleiro político. Isto é, abertura para o lado em que se encontra o Poder, e fechamento para os que discordam do Poder. Não vem ao caso se a abertura é para a esquerda e o fechamento para a direita, ou vice-versa o contrário. Não é o colorido político do ditador que caracteriza a ditadura. E, por isto mesmo, a palavra ditadura se aplica tanto aos governos que fazem fechamento para a direita quanto aos que o fazem para a esquerda: "ditadura de direita", "ditadura de esquerda" são expressões que se encontram a qualquer momento em todos os lábios, se lêem em todos os jornais e se ouvem em todos os rádios e televisões.
Reduzindo a essa clareza elementar e óbvia conceitos já tão conhecidos, tenho a intenção de levar ao último grau da evidência a relação entre neutralidade e abertura. Uma abertura não neutra – disfarce-se como se queira – não é senão uma ditadura. As correntes de pensamento e os órgãos de comunicação social favoráveis à abertura lucrariam muito tendo continuamente em vista esta verdade tão elementar.
Digo-o especialmente com referência a personalidades, emissoras e folhas que se ufanam de intitular-se centristas. Pois mais de uma vez violam a neutralidade "aberturista", julgando que ficam a salvo da pecha de ditatoriais pelo simples fato de usarem a etiqueta de centrista. Como se uma ditadura centrista constituísse uma contradição nos termos.
A mais ligeira análise revela ser isto inexato. Se um governo, para executar seu programa centrista, praticasse um fechamento tanto para a direita quanto para a esquerda, ele apresentaria evidentemente a grande característica ditatorial, a qual consiste em trancar a voz dos discordantes.
E não se julgue que a hipótese de uma ditadura centrista constitua uma quimera, um simples ente de razão. Para prová-lo, cito um exemplo histórico característico. Em função da política interna da França de seu tempo, Napoleão foi essencialmente um centrista. A França estava então esquartejada em duas facções irredutíveis: os republicanos e os monarquistas partidários dos Bourbons. Instalado no poder, o Corso perseguiu e reduziu ao silêncio os líderes de uma e outra França. E, pela força bruta, impôs seu regime centrista, mescla violentamente contraditória de vulgaridade revolucionária e de aparato régio, justapostos pelas garras da águia imperial nimbada de glória militar. No tempo, era esta a forma praticável de centrismo. De centrismo ditatorial.
Embora, Plínio utilize as palavras Direita e Esquerda, neste artigo, como termos mais contextuais (como se Direita e Esquerda sempre fossem duas facções opostas entre si, em determinado contexto, não importando a ideologia que sigam), o artigo é maravilhoso. Ele mostra de maneira muito clara que (1) ser centrista é ter características tanto de Direita como de Esquerda e que (2) ser um ditador centrista é se fechar tanto para um lado como para o outro, afinal, quem não é de nenhum dos lados, não cumpre a agenda de ninguém.

Pois bem, é exatamente isso que o período ditatorial do Brasil fez. Ele procurou calar a voz da Esquerda, mas agiu como esquerdista ao fortalecer estatais e colocar o governo como gestor da vida individual e do progresso. Ele agiu como direitista ao criar uma cultura de conservadorismo moral-religioso e tentar abrir o mercado brasileiro para indústrias estrangeiras, mas rechaçou uma política mais direitista, que minimizasse a ação do governo na economia e na vida das pessoas, deixando o mercado mais livre e respeitando o individualismo.

Se tal regime foi de Centro-Direita ou de Centro-Esquerda, só uma análise mais profunda de suas diversas características pode nos dizer. Tenho para mim que em sua maior parte, a ditadura do Brasil foi de Centro-Esquerda, diferentemente da ditadura de Pinochet, no Chile, que pode ter sido de Centro-Direita (ou de Direita, talvez).

Quanto a outros representantes do Centro, podemos mencionar o ex-presidente FHC e seu partido, o PSDB. A Social-Democracia é originalmente de Esquerda (uma Esquerda moderada), mas, a depender do contexto, pode se deslocar para o Centro, tornando-se um governo de Centro-Esquerda (como no caso do PSDB mesmo). Entretanto, a Social-Democracia quase sempre é mais bem enquadrada na Esquerda.

O DEM é um partido de Centro que às vezes se desloca para Centro-Direita, por ter alguns integrantes com propostas liberais. Entretanto, o vício esquerdista do nosso país coopta este partido para Centro-Esquerda na maioria das vezes. Recentemente, seu deputado Rodrigo Maia se candidatou à prefeitura do Rio. Suas propostas não tinham nada que o diferisse de propostas do PSDB e PMDB (este último, também de Centro e Centro-Esquerda).

O PT é de Esquerda. Sempre foi. Sempre será. Mas, estando no poder, é muito difícil um partido, de Esquerda ou de Direita, não se deslocar ao menos um pouco em direção ao Centro. Primeiro, em função da pressão da oposição. Segundo, em função da necessidade de ser pragmático às vezes. E, por fim, por causa da mídia. A mídia é e sempre foi centrista. Porque tanto a visão extrema da Esquerda como a visão extrema da Direita são prejudiciais aos interesses das grandes empresas midiáticas. Nenhum grande empresário da mídia quer um governo comunista, porque sua empresa vai rodar. Mas também nenhum grande empresário da mídia quer um governo laissez-faire, pois a concorrência vai aumentar (e ela pode engolir sua empresa).

Com relação à política dos EUA, muitos costumam a dizer que lá não existe uma Direita e uma Esquerda; que o partido Republicano e o partido Democrata são ambos de Centro. Mas a verdade é que a luta entre Direita e Esquerda nos EUA é uma das mais visíveis do mundo. Os dois partidos são sim de Esquerda e Direita. Agora, é claro que no interior de cada partido existem políticos que são mais extremos e políticos que são mais centristas. Um político pode mudar para o pólo contrário, entrando em contradição com a ideologia do próprio partido. Mas isso, penso, é mais raro. Creio ser mais fácil passar do extremo de seu pólo para o Centro. E como a mídia é muito centrista, então é comum que, ao chegar ao poder, muitos políticos ajam de um modo parecido, embora de pólos opostos.

Por fim, o nacional socialismo alemão (nazismo), o fascismo italiano, fascismo espanhol (franquismo) e o populismo getulista no Brasil, não são de Direita. O nazismo é indubitavelmente de Esquerda, tanto por sua plataforma teórica, como pelo que fez na prática. O fascismo italiano teve diferentes fases. Como Mussolini era um político bem pragmático, podemos dizer que em alguns momentos sua política foi de Centro-Direita e em outros, de Esquerda. Contudo, o conjunto da obra não nos permite apontar o fascismo de Mussolini como um regime de Direita.

O franquismo, por zelar por uma aparência conservadora, no âmbito moral religioso, talvez tenha chegado a ser de Centro-Direita em alguns momentos. Mas dificilmente poderia ser chamado de regime de Direita, já que o fascismo não é um regime de Direita em sua essência. O populismo getulista, por fim, não só foi de Esquerda como é um dos melhores exemplos de como um ditador de Esquerda pode ser um exímio estrategista, conseguindo conter as tensões entre diversos grupos de interesse e manter uma imagem positiva com o povo. A política de Getúlio é uma coluna para ditadores como o falecido Hugo Chávez, Evo Moralez e Cristina Kirchner.

Conclusão

Esta postagem ficou maior do que eu gostaria que ficasse. E o pior é que alguns assuntos foram apenas pincelados, já que merecem postagens individuais. Mas creio que consegui mostrar um panorama geral de uma definição concreta, fixa, lógica e historicamente coerente de Direita e Esquerda. A idéia foi mostrar que existem acepções dos termos que são falhas, e que há mistura entre acepções diferentes, o que gera incoerências nas definições.

Não intentei provar que sei mais. Apenas desejei dar minha contribuição sobre um assunto que julgo interessante. Talvez eu tenha errado em algum ponto, mas busquei não me afastar da lógica. Por fim, não intentei ofender Rodrigo Viana e Felipe Renan, cujos textos acompanho e admiro. A discussão aqui visa somente uma livre, construtiva e saudável troca de idéias. Só isso.

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Notas:

[1] Uma crítica possível e que não tratei no texto é a de que o anarquismo não pode ser de Direita porque seria muito incoerente colocar Anarco-Capitalistas e Conservadores direitistas lado a lado. De fato, um Anarco-Capitalista não pode ser um Conservador (e vice-versa), já que o conservador preza pelas instituições antigas e uma das instituições mais antigas do mundo é justamente o Estado, o qual o Anarco-Capitalista deseja tirar de cena. Entretanto, acredito que mesmo o Anarco-Capitalista não sendo Conservador, ele apresenta idéias conservadoras que estão entranhadas no liberalismo. Idéias como o pessimismo antropológico (que é base das religiões tradicionais, inclusive); o respeito à religião; a visão de que os seres humanos são diferentes e que, por isso, é normal haver diferença de resultados na vida; a responsabilização do indivíduo pelos seus atos; uma moral não-relativista; a valorização da coletividade espontânea; o direito de escolha; e até mesmo a valorização das instituições, já que, embora o Anarco-Capitalista queira acabar com o Estado, ele não se opõe às demais instituições, apenas quer que tudo passe a ser propriedade privada. Em vista disso, é plausível dizer que o Anarco-Capitalista não está tão distante do Conservador. Pelo menos, ele está mais perto do Conservador do que dos esquerdistas.

[2] Oliveira, Plínio Corrêa de. Ditatorialismo Publicitário Centrista. São Paulo: Folha de São Paulo (09/08/83). Presente no link abaixo:

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/MAN_19830809_Ditatorialismopublicitariocentrista.htm

Leituras Recomendadas:

1. Ayan, Luciano. Reacionários e Conservadores de Esquerda?! Claro que sim! São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/09/27/reacionarios-e-conservadores-de-esquerda-claro-que-sim/

2. Ayan, Luciano. Será o Nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior... São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/07/15/sera-o-nazismo-de-extrema-direita-not-so-fast-junior/

3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.

4. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).

5. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intel-lectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.