quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Índice I: Teologia

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- Argumentos para a existência de Deus (Série)
Parte 1: Argumento Cosmológico
Parte 2: Argumento Teleológico
Parte 3: Argumento Moral
Parte 4: Argumento da Razão Humana
Parte 5: Argumento Ontológico
Parte 6: Argumento da Ressurreição
Parte 7: O Testemunho Interno do Espírito Santo


- Afinal, quem foi Jesus? (Série)
Parte 1: Um Mito?
Parte 2: Um Homem Comum?
Parte 3: Mais que um simples homem


- Destrinchando Zeitghest (Série)
Parte 1: Jesus e a mitologia pagã
Parte 2: Ignorância Estratégica
Parte 3: O Jesus Histórico
Parte 4: Truques Psicológicos
Parte 5: Religiosos Políticos


- Postagens sobre o livro "Supostamente Cruel"
Lançamento do livro "Supostamente Cruel"
Sobre o livro "Supostamente Cruel"
Vídeo de divulgação do livro "Supostamente Cruel"
Palestra de lançamento do livro "Supostamente Cruel"
Aquisição do livro "Supostamente Cruel"

- Perspectivas Cristãs I: Razão
A necessidade da morte de Jesus Cristo
Cristianismo: uma religião de fatos
Os cristãos e a ressurreição de Jesus Cristo
Sobre os Milagres
O Problema do Sofrimento

Contos de Fada
Um jornalista perdido e a origem da solidariedade
Por que é importante ter uma fé racional?

Tudo o que um líder cristão não deveria fazer
O deus do evangelho libertário (ou: analisando a "Caiofabiologia")
Sejamos cristãos racionais

A marca da besta é um microchip?

- Perspectivas Cristãs II: Conduta, hábitos e moralidade 
Os porquês da virgindade antes do casamento
O casamento dentro da perspectiva bíblica cristã
Como tratar um homossexual (princípios básicos)
A homossexualidade é imoral?
Maridos, amai vossa esposa (ou: como o marido cristão deve agir, segundo a Bíblia)
Sobre o cavalheirismo
Um recado ao amigo cristão
O perdão de Cristo para os mais terríveis pecados 
Por que a oração é importante?
A importância da prática da leitura
Considerações sobre a trilogia "Jogos Vorazes", de Suzanne Collins  
Em defesa da insatisfação 

Análises Bíblicas Variadas
Análise sobre o texto de Mateus 16:18-19
Jesus e o judaísmo
A graça e a boa conduta moral
O inferno é um lugar de tormento eterno?
Avaliando os principais argumentos do catolicismo 
A história tradicional de Satanás é bíblica?
Sobre as leis bíblicas de Saúde   

Breves considerações sobre a lei - Parte 1: sobre a "anomia"
Breves considerações sobre a lei - Parte 2: sobre "innomos"

- Sabatismo
Um pouquinho sobre os adventistas do sétimo dia
Razões Bíblicas pelas quais sou sabatista
Os tipos de lei da Torá e sua relação com o sacrifício de Jesus - Parte 1 
Os tipos de lei da Torá e sua relação com o sacrifício de Jesus - Parte 2
Refutando Alguns Argumentos anti-sabatistas - Parte 1  
Refutando Alguns Argumentos anti-sabatistas - Parte 2
Quando eu também tinha medo
Diálogo entre Deus e o homem que queria mudar a Sua Palavra

Uma palavrinha sobre o sábado
Analisando o vídeo “Já estamos no sétimo dia” - Parte 1 
Analisando o vídeo “Já estamos no sétimo dia”- Parte 2
É possível realmente guardar o sábado? E os trabalhos imprescindíveis? 

- Postagem fixa sobre livros teológicos/apologéticos recomendados
Livros Recomendados

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Destrinchando Zeitgeist – Parte 5: Religiosos Políticos

2 comentários:
Refutar o documentário Zeitgeist não é uma missão difícil. Como nós pudemos ver ao longo dessa série, o filme é ridículo, do ponto de vista acadêmico. Comete erros cavernosos de metodologia histórica, se baseia em especulações, comparações forçadas e distorções e não tem a menor vergonha de mentir descaradamente. Seus produtores beiram o mais alto estágio da mitomania.

Entretanto, mesmo mostrando da maneira mais clara as mentiras presentes nessa produção, não é fácil convencer uma pessoa de que o documentário é mentiroso. Existe um motivo bem simples para isso: todos tendem a acreditar que pessoas não-religiosas são mais amigas da razão. É como se elas não tivessem nenhuma crença para defender e, por isso, nenhum dogma. Elas não se guiam pela fé, mas pela razão.

Mas o que o leitor diria se descobrisse que o documentário que se esforça tanto para condenar a religião tradicional (alegando que ela se baseia em crenças irracionais e pode ser usada para o mal) defendesse crenças de outra religião, muito mais irracional e muito mais perigosa? Seria digno de confiança um documentário desses?

Pois bem, o que nós vamos analisar nessa última postagem da série é como que o documentário Zeitgeist defende com uma fé fervorosa a chamada religião política. Ou seja, veremos como seus produtores não passam de religiosos políticos.

A crença no homem em Zeitgeist

A crença no homem é o principal dogma humanista. É a crença antropocêntrica de que o ser humano é bom por natureza e altamente capaz de transformar o mundo em um paraíso com suas próprias mãos. Para o humanista, os males do mundo não resultam de uma inclinação natural do ser humano à imperfeição, mas sim de algo externo ao ser humano que, se for extirpado, mudará a história do mundo.

E qual são as evidências de que realmente o homem é bom por natureza e pode fazer o céu na terra? Nenhuma. Conforme observo na postagem “A crença no homem: uma análise crítica”, as evidências são justamente contrárias a essa idéia. Do ponto de vista darwinista, o homem é apenas um animal como outro qualquer. Ele tem instintos e características naturais também presente nos animais como: a luta pela sobrevivência, o territorialismo, o gregarismo, a luta pela liderança de seu bando, o predadorismo, a luta pelas mesmas fêmeas e etc. A diferença entre o homem e os animais é que o primeiro possui razão. Não obstante, é exatamente isso que o torna um animal mais perigoso que todos os outros. Ele é capaz de maquinar o mal, de cometer excessos e de transformar as piores maldades em hábito.

É por esse motivo que muitas vezes vemos crianças de dois anos de idade com ciúmes excessivos de um brinquedo ou invejando o brinquedo do outro. Não foram os pais ou a sociedade que ensinaram isso a ela. É uma característica natural. Os homens são inclinados ao erro desde o nascimento até a morte, e o drama da humanidade é essa constante luta de cada pessoa contra as suas próprias inclinações. (Lembrando que ainda que o mal no homem fosse tão-somente social, também não há evidências de que os homens podem se descorromper por completo e não se corromperem socialmente de novo. Em vez disso, a história do mundo evidencia justamente o oposto).

No entanto, como se não bastassem todos os problemas que advém ao mundo em função dessa natureza corrupta do homem, o humanismo existe. O humanismo é o pior dos tumores do mundo porque nega a natureza do homem e tenta incutir na mente das pessoas a idéia de que dá para mudar a história. Como resultado, cria-se uma legião de bitolados que procuram colocar a culpa do mal em algum agente externo que não seja a natureza do homem. É neste ponto que a ingênua crença humanista se torna uma arma perigosíssima.

Cada crente humanista começa a ver a si mesmo e ao seu grupo de crentes como o poder revolucionário que ajudará a trazer a redenção para o mundo. Define-se, então, o inimigo mundial, a raiz de todos os males, e uma retórica de ódio a esse inimigo se inicia. Podemos enumerar os passos do humanista da seguinte forma:

(1) defini-se que o mal da sociedade não está na natureza humana;

(2) busca-se um bode expiatório para pôr a culpa desse mal (a burguesia, ou os conservadores, ou os judeus, ou os cristãos ou qualquer outro);

(3) instiga-se o ódio aos “culpados”, pois eles não deixam o paraíso ser formado;

(4) legitima-se toda e qualquer ação contra os “culpados”, em prol de um bem maior e supremo, que será alcançado quando eles forem eliminados.
Muito bem, é justamente essa mentalidade revolucionária que define o que chamamos de religião política. A religião política é a religião de todo humanista e de todo esquerdista. É a fé que coloca o ser humano como o próprio Deus e que elege um grupo de pessoas inimigas, que levarão a culpa de todos os males do mundo, sendo, por isso, demonizadas.

Essa era a religião dos ditadores Lênin, Stálin, Mao Tsé Tung e Pol Pot, que são considerados heróis pela esquerda, embora tenham levado à morte mais de 100 milhões de pessoas em menos de um século. Essa era a religião de Hitler, que levou cerca de 50 milhões de pessoas à sepultura. Essa foi a religião do ditador King Jong, da Coréia do Norte, que é o país mais fechado do mundo. Essa é a religião de Fidel Castro, também um ditador. Essa foi a religião do famoso Che Guevara, que era um assassino frio. Essa foi a religião de Robespierre, talvez o primeiro homem a fazer discursos bem explícitos que legitimavam o assassinato de qualquer que parecesse ser contrário à revolução – foi sob seu comando que cerca de 50 mil pessoas foram mortas no chamado Período do Terror (1793-1794), a maioria inocente. E eu não comentei sobre as atrocidades que eram feitas com os vivos como estupros, esquartejamentos e torturas.

Com efeito, a religião política matou e oprimiu muito mais gente em um século do que a Igreja Católica em 1200 anos de supremacia. As tão difamadas “Cruzadas” e “Santa Inquisição” (que, eu concordo que não foram coisas boas), não mataram juntas nem 10% do que matou a religião política. As estimativas mais exageradas giram em torno de 800 mil a 2 milhões de mortes.

Neste ponto, o leitor já deve ter compreendido aonde eu quero chegar. Zeitgeist é um documentário altamente religioso. Só que político. A sua intenção é instigar o ódio à religião tradicional. Para seus produtores, a religião tradicional é uma pedra no sapato do mundo e eles, por sua vez, são os heróis da humanidade.

O religioso político acredita ter a missão de iluminar o mundo, de dizer a todos que a religião tradicional é uma farsa e que ela é a causa de todo o mal. O religioso político vê a si mesmo como um santo, que faz parte de um grande movimento que fará um paraíso na terra. Por esse motivo, qualquer coisa que fizer para alcançar esta meta, estará legitimada. Em um primeiro estágio, isso inclui mentir descaradamente. É o que o documentário Zeitgeist faz. Não importa que isso seja imoral. Os produtores acreditam veementemente que a religião tradicional é o mal do mundo. Então, qualquer mentira contra a religião é uma mentira santa.

É por causa de pessoas assim que ditaduras, opressão e genocídio se instauram no mundo moderno. Não que elas realmente queiram isso, mas em prol de um “bem maior”, as pessoas são levadas a apoiar qualquer atrocidade contra os inimigos. Quanto mais pessoas houver que estão convencidas de que o mal provém de um grupo e não da natureza humana, mais atrocidades poderão surgir daquele meio. E é assim que surgem oportunistas e pessoas que se corromperam ao ter o poder nas mãos. Ambas se utilizam da retórica da religião política para manter-se no poder e continuar com a opressão.

Zeitgeist constitui o primeiro estágio da mentalidade revolucionária no que diz respeito à luta contra a religião tradicional. Ele leva ateus, agnósticos, deístas, panteístas, umbandistas, candomblecistas e até alguns teístas a terem ódio da religião tradicional, vendo-a como opressora. O ódio é importante, porque ele é a antecâmara da agressão verbal e física. É o elemento justificador da atrocidade. E é só com sua evolução gradual que um governante consegue explorá-lo, a fim de perseguir determinado grupo.

O Projeto Vênus

Zeitgeist não faz um serviço incompleto para a religião política. Apenas apontar a religião tradicional como uma pedra no sapato do mundo seria muito pouco. Afinal, sabemos que nem todos os problemas do mundo são de ordem religiosa. Por isso, o documentário relaciona a religião tradicional aos grandes capitalistas. É a velha ladainha marxista de reduzir a religião a um produto fabricado pela classe opressora para oprimir e controlar os mais pobres.

No fundo, Zeitgeist é um filhote do marxismo. E como bons marxistas, os seus produtores também apresentam idéias para solucionar o problema do mundo. A solução seria algo como o Projeto Vênus, uma idéia apresentada no segundo filme, Zeitgeist: Addendum. Em suma, o Projeto Vênus é uma organização existente desde 1995, fundada por um designer e futurologista chamado Jacque Fresco. Seu objetivo é oferecer idéias de recriação da sociedade através de tecnologia, projetos sustentáveis e uma economia baseada em recursos.

Explicando melhor, para o Projeto Vênus, o que alimenta a ganância do homem e todos os problemas do mundo é a economia monetária (o dinheiro). E o dinheiro só existe porque os recursos (aquilo que as pessoas necessitam) têm sido limitados. Então, o plano seria explorar a tecnologia ao ponto de produzir recursos de sobra para todas as pessoas. Isso faria o dinheiro se tornar obsoleto, as pessoas teriam acesso a tudo o que necessitassem, não haveria mais motivo para roubar, matar, cometer crimes, enfim, todo o mal do mundo seria resolvido. Então, o estado seria abolido e viveríamos em um céu anarquista, bem ao estilo Jonh Lennon.

Mas como fazer isso? Como bons marxistas, os proponentes do Projeto Vênus se baseiam em profecias marxistas. Segundo eles, o capitalismo está cavando a sua própria sepultura. A crescente luta das indústrias por velocidade na produção está substituindo o homem pela máquina. Assim, o índice de desemprego crescerá vertiginosamente até que as pessoas não possam mais comprar os produtos fabricados por essas indústrias. Então, a economia monetária se tornará insustentável e mesmo os grandes empresários irão se sentir pressionados a aderir ao projeto.

Não precisa ser muito inteligente para ver que isso tudo é uma tremenda utopia tecnicista. Uma mistura de positivismo, de Comte (a religião da humanidade, como ele mesmo chamava a sua doutrina) e de marxismo ortodoxo. Na teoria é tudo muito bonito e desejável, mas na prática não dá para fazer. A verdade é que as coisas são assim:

1) O ser humano é ganancioso por natureza. É por isso que nenhum projeto de uma nova sociedade, remodelada, deu certo até hoje. É possível melhorar as coisas, por certo, e devemos perseguir isso. Mas não dá para fazer o céu na terra.

2) Não, o desemprego não vai subir a ponto de grandes empresários e governos aderirem a uma economia baseada em recursos. Primeiro porque existe um número bem grande de profissões que não podem ser substituídas por máquinas. Bombeiro, policial, médico, enfermeiro, anestesista, taxista, motorista de ônibus, atendente, padeiro, gerente de banco, gerente de loja, funcionário de loja, estilista, pedreiro, engenheiro, arquiteto, advogado, juiz, lixeiro, professor, diretor de colégio, segurança, esportista, feirante, empregada doméstica, o pessoal da manutenção das máquinas das grandes empresas e uma infinidade de outras profissões.

Segundo porque, ainda que o número de pessoas em cada uma dessas profissões se torne menor e o desemprego aumente muito, a ganância do homem não permitirá que se faça um projeto de salvação do mundo. Em vez disso, é mais provável que a crise cause a morte de muitas pessoas pobres e guerras. Isso não é conformismo meu, mas é uma observação baseada no que tem ocorrido no mundo desde sempre. Os homens não resolvem as coisas de maneira a beneficiar a todos. “Sad, but true”.

Fugir dessa realidade não é a melhor solução. Nada contra quem gosta de olhar o mundo como Polyana, a menina feliz. Mas o problema dessas utopias globais é que elas sempre terminam deixando a situação muito pior. É sempre assim: você leva milhões de indivíduos a crerem em uma utopia. Eles apoiam e até fazem todo o tipo de atrocidade e opressão em prol dela. No final, a utopia não se realiza (é óbvio) e o que resta, além da desilusão, é uma classe de novos opressores no poder que se utilizaram da ingenuidade alheia para criarem uma ditadura.

Foi assim com o Terror Jacobino (na França), com o comunismo (em todos os países que vigorou), com o progressismo dos democratas americanos (a quem se deve o Estado inchado e belicista, que detonou Hiroshima e Nagasaki), com o fascismo italiano e com o nazismo alemão.

Ok, sejamos honestos, o Projeto Vênus não incita a violência e nem pretende que um governo mude a história do mundo. Mas dificilmente uma utopia de reconstrução do mundo é deixada de lado quando se percebe que ela não dá certo. Em vez disso, o que se faz é reformular a utopia, procurar pontos que possam estar errados, criar vertentes ou reinterpretá-la à luz dos novos acontecimentos.

O ponto é: se aceitamos que dá para mudar o mundo e que o que nos impede é o capitalismo e a religião (como Zeitgeist quer nos fazer crer), cedo ou tarde, uma legião de esquerdistas anti-religiosos cheios de ódio irá tomar medidas mais drásticas. Afinal, o mundo não pode esperar a boa vontade dos burgueses e dos religiosos, não é? É essa mentalidade que gera as perseguições. Como o leitor acha que os nazistas conseguiram apoio dos alemães para perseguir os judeus? Começa-se explorando um preconceito e justificando-o como “a justiça contra os opressores”. No momento correto, alguém dá o ponta pé inicial na perseguição física.

O leitor acha que isso não é possível? Então, dê uma olhadinha nos comentários anti-religiosos que existem pela internet. Você irá se surpreender com a agressividade com que os religiosos políticos tratam os religiosos tradicionais. Com toda a certeza, se alguém colocasse um fuzil na mão de cada um deles, eles não hesitariam em exterminar “o mal que assola o mundo”. É por isso que documentários e livros como Zeitgeist, que mentem descaradamente contra religião tradicional e que tentam nos empurrar crenças humanistas irracionais devem ser considerados instigadores de genocídios.

O sistema que o próprio esquerdismo criou

O aspecto mais irônico que encontramos no esquerdismo (ou religião política, se preferir) é que grande parte das coisas contra as quais ele luta foi e continua sendo fruto do próprio esquerdismo. Por exemplo, quando um religioso político apóia um governo que dificulta a vida das empresas com altos impostos e muitas regulamentações, ele não se dá conta que está favorecendo a criação de hegemonias. Afinal, somente as grandes empresas sobrevivem a essas dificuldades.

E quando um religioso político apóia um governo interventor e cheio de funções e serviços, ele não se dá conta de que está criando fortes laços entre as mega empresas e o governo. Também não percebe que quanto mais dinheiro passar pelos cofres públicos, mais chance haverá de ocorrer má administração e corrupção. Também não percebe que quanto maior o setor público, pior tende a ser o serviço prestado.

O que o religioso político faz é apoiar todos os dias da sua vida um inchamento da máquina estatal doando-lhe, com um sorriso no rosto, mais impostos, mais serviços, mais funcionários, mais funções, mais áreas de atuação e mais poder. Isso me lembra a célebre frase do líder do fascismo italiano Benedetto Mussolini: “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”. Essa é a síntese do esquerdismo. Mesmo um cara como Karl Marx, que no fim das contas era um anarquista, não abria mão de um Estado inchado temporário, dono de todos os meios de produção (uma oportunidade de ouro para líderes como Lênin e Stálin se tornarem ditadores vitalícios).

O deus dos religiosos políticos é o ser humano. E a encarnação da vontade desse deus é o Estado. Não creio que o próprio governo americano tenha planejado o ataque às torres gêmeas ou que exista uma conspiração mundial organizada de banqueiros que intentam dominar o mundo. Entretanto, ainda que fosse, a religião política apenas tem facilitado isso. Empresários só têm poder se estiverem unidos ao governo. E o governo só tem poder se ele seguir uma linha interventora. E a linha interventora faz parte do DNA da religião política que, para alcançar as suas utopias ou após vê-las dando errado, acreditam que o caminho é intervir radicalmente por meio do Estado. E assim o Estado continua ganhando poder.

Religião Tradicional x Religião Política

Existe um ponto do documentário Zeitgeist que é típico de qualquer obra que aponta a religião tradicional como um mal: ele omite o fato de que o cristianismo é uma religião apolítica. “Como assim?”, o leitor pode estar perguntando. Vou explicar.

No mundo antigo, era comum que política e religião andassem juntas. Entretanto, conforme a visão bíblica cristã, esse nunca foi um objetivo de Deus. O judaísmo só teria sido uma teocracia por uma questão de necessidade: o judaísmo era a única religião monoteísta do mundo e a única que detinha em sua doutrina uma moral duradoura. Não fosse um governo teocrático, o judaísmo não teria chegado nem até os dias de Cristo. E assim não haveria cristianismo, nem monoteísmo e nem moral judaico-cristã hoje. Não teria havido nem a vinda de Jesus.

Em função da teocracia judaica, portanto, o judaísmo pode ser conservado até Jesus vir (e até hoje, inclusive) e tal teocracia se tornou obsoleta. Jesus, então, fundou um novo contexto. A partir de sua vinda, a religião passou a ser uma questão pessoal e não mais estatal. Em outras palavras, a vinda de Jesus e a forma como ele criou um movimento de pessoas que viajavam espalhando o evangelho, possibilitou a cisão entre a religião do Deus judaico-cristão e a política.

Qualquer que leia o Novo Testamento compreende isso. Jesus diz: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Lucas 20:25). Diz também: “O meu reino não é desse mundo” (João 18:36). O apóstolo Paulo diz: “Foquem mais nas coisas lá do alto e não nas que são daqui da terra” (Colossenses 3:2).

O Novo Testamento deixa claro (claríssimo) que o cristianismo não era para ser uma instituição estatal, mas sim uma filosofia de vida pessoal. Não significa dizer que o cristão não pode ter participação política. Mas ele deve fazê-lo como um cidadão. Sua opção pelo cristianismo nada deve ter a ver com a política, assim como sua opção de se casar ou não, de ter filhos ou não, de fazer faculdade ou não. São questões pessoais e que não interessam à política.

Bem, é interessante ressaltar que foi exatamente dessa maneira que os cristãos trataram sua opção pelo cristianismo de 37 d.C. até 321 d.C.: como uma questão pessoal e não estatal. À bem da verdade foi o governo romano que agiu durante todo esse tempo de modo como se o cristianismo fosse assunto de Estado. Isso explica as perseguições e, posteriormente, a observação de seria interessante acoplar o cristianismo ao governo.

Aonde quero chegar com tudo isso? É simples. A qualquer cristão que realmente siga a Bíblia, é fácil entender que religião e política são duas coisas diferentes há mais de dois mil anos. Em outras palavras, não é da Bíblia que governantes tiram a idéia de criar uma ditadura cristã. Mas, então, como explicar o domínio político do catolicismo durante mais de 12 séculos da história? Como explicar o apoio de padres e intelectuais da idade média a essa mixagem entre política e religião? Eu explico: deram um gelo na Bíblia. Fizeram o que a Bíblia diz para não fazer. Por isso deu merda.

Felizmente, o problema foi resolvido. Os iluministas foram lá, meteram o malho na Igreja, “criaram” o conceito de Estado Laico (que Jesus já tinha inventado, diga-se de passagem), o conceito se desenvolveu, se espalhou e, hoje, grande parte dos países do mundo são laicos (muitos países islâmicos ainda não aderiram ao conceito, contudo, por algum motivo os esquerdistas não criticam muito os islâmicos). A Igreja Católica não domina mais. Não há mais inquisição, nem cruzadas, qualquer imbecil pode blasfemar contra Deus e só dá dinheiro para pastor ladrão quem quer dar. Ou seja, o mandamento de Jesus sobre o laicismo está sendo cumprido, enfim.

Isso mostra que, ao contrário do que o esquerdismo diz, o problema não está em existir cristãos, mas sim em existir cristãos que não seguem o cristianismo da maneira como ele realmente é. Se os cristãos da época de Constantino tivessem boicotado essa mistureba entre religião e Estado que o imperador estava propondo, por certo a história da igreja teria sido bem diferente. Seja como for, deve-se isentar o cristianismo e culpar o deturpação da doutrina cristã pela opressão que se seguiu na idade média.

Mas e a religião política? Bem, essa aí, ao contrário do cristianismo, não precisa ser distorcida para fazer um monte de merda no mundo. Ela só necessita ser seguida de maneira fiel e fundamentalista. Porque a religião política diz: “Semeie o ódio a algum grupo de pessoas (burgueses, religiosos, conservadores, cristãos, judeus e etc.)”, “Tente se sentir o salvador do mundo”, “Aumente o Estado”, “Dê mais poder aos políticos”, “Dê-lhes mais impostos”. É claro que isso não pode levar a um bom lugar.

Não importa o quão bem intencionado um religioso político pode ser. Tais idéias não dão certo. Nunca darão. São idéias feitas para falharem. E é somente sendo fanático e fundamentalista para não enxergar isso. Há dois vídeos muito bons que nos ajudam a entender o que estou dizendo. Um deles é de um anime (desenho animado japonês) que gosto muito, chamado Death Note (Caderno da Morte). O outro é do filósofo Olavo de Carvalho. Vejam os vídeos e farei alguns comentários.
            

O primeiro vídeo é um trailler do Death Note. Como o leitor pode ver, o anime conta a história de um jovem inteligente do ensino médio de nome Yagami Laito, que encontra um caderno mágico no chão. Esse caderno tem o poder de matar qualquer pessoa que o portador do mesmo escrever o nome e tiver em sua mente o rosto de sua vítima. A pessoa morre no lugar, no horário e da forma como o portador do caderno da morte escreve. Se apenas escrever o nome, a pessoa morre de ataque cardíaco.

Yagami, que era um jovem desiludido com os problemas sociais do mundo e as injustiças, fica fascinado com a idéia de poder matar quem quiser apenas tendo o nome e a imagem do rosto. Ele poderia matar todos os criminosos e fazer um mundo perfeito através daquele caderno. É o que ele começa a fazer e isso atrai a atenção da polícia. É aí que começa a saga de Yagami matando friamente criminosos e qualquer pessoa que se colocava em seu caminho (e tentando esconder sua identidade).

Nas palavras de “L”, o brilhante detetive que investiga o caso: "(...) sua justiça está mal guiada, pois agindo como Deus, ele mesmo se tornou o criminoso". Eu acrescentaria: frio, autoritário e incapaz de ver a si mesmo como mera criatura e pecador também (para usar a terminologia da religião tradicional).

O segundo vídeo é uma excelente palestra de Olavo de Carvalho que mostra que não é necessário ter má intenção para fazer um estrago terrível. Tudo isso nos coloca a pensar sobre a diferença entre a religião tradicional e a religião política. A tradicional pode, eventualmente, ser deturpada. Não por uma falha sua, mas pela própria condição pecaminosa do ser humano. Mas a religião política leva invariavelmente para o mesmo caminho de opressão e genocídio. E Zeitgeist é um documentário feito para disseminar a religião política.

Considerações Finais

Sem dúvida uma das partes mais irônicas e cômicas do documentário Zeitgeist é o trecho em que o locutor diz o seguinte:

Foi sempre o poder político que tentou monopolizar a figura de Jesus para controle social. Em 325 d.C., em Roma, o imperador Constantino reuniu o ‘Concílio Ecumênico de Nicéia’. E foi durante esta reunião que as doutrinas políticas com motivação cristã foram estabelecidas. E assim começou uma longa história de derramamento de sangue e fraude espiritual.

E nos 1600 anos que se seguiram, o Vaticano dominou politicamente com mão de ferro toda a Europa, conduzindo-a a um período conhecido como a ‘idade das trevas’, paralela a eventos ‘esclarecedores’ como as cruzadas e a santa inquisição.

O Cristianismo, bem como todas as crenças teístas, são a fraude desta era. Serviu para afastar o ser humano do seu meio natural, e da mesma maneira, uns dos outros. Sustenta a submissão cega do ser humano à autoridade. Reduz a responsabilidade humana sob a premissa de que ‘Deus’ controla tudo e que por sua vez os crimes mais terríveis podem ser justificados em nome da perseguição divina. E o mais importante, dá o poder àqueles que sabem a verdade e usam o mito para manipular e controlar sociedades. 
O mito religioso é o mais poderoso dispositivo jamais criado e serve como base psicológica para que outros mitos possam florescer.
Enquanto o locutor diz a última frase, ainda aparece na tela a seguinte frase: “A religião não pode transformar a sociedade, porque a religião é escravidão”. É irresistível querer parodiar todo o trecho, voltando a crítica para o esquerdismo, a religião política. O trecho ficaria assim:
Foi sempre o poder político que tentou monopolizar a idéia de fazer um paraíso na terra para controle social. Em 1793, na França, o partido jacobino deu um golpe na assembléia legislativa e tomou o poder. E foi durante esse período que o radicalismo político com motivação humanista foi ratificado. E assim começou uma longa história de derramamento de sangue e fraude intelectual.

E nos 200 anos que se seguiram, as ideologias esquerdistas começaram a lançar raízes em toda a Europa, conduzindo-a a um período conhecido como o ‘século mais sangrento da história’, paralelo a eventos ‘esclarecedores’ como a Revolução Cultural de Mao e o Genocídio no Camboja.

O marxismo, bem como todas as crenças humanistas, são a fraude desta era. Serviu para enganar o ser humano sobre sua situação natural, e da mesma maneira, instigar o ódio de um grupo pelo outro. Sustenta a submissão cega do ser humano à autoridade. Reduz a responsabilidade humana sob a premissa de que o ser humano tem capacidade de fazer o paraíso na terra e que por sua vez os crimes mais terríveis podem ser justificados em nome da perseguição humanista aos responsáveis pelo mal no mundo. E o mais importante, dá o poder àqueles que sabem a verdade e usam o mito para manipular e controlar sociedades.

O mito da religião política é o mais poderoso dispositivo jamais criado e serve como base psicológica para que outros mitos possam florescer”.
Como cobertura do maravilhoso bolo, a frase de fundo usada por Zeitgeist não pode faltar nessa paródia: “A religião política não pode transformar o mundo, porque a religião política é uma utopia”.

Não é bom ser redundante, mas gostaria de terminar a postagem com um vídeo que usei na postagem: “A crença no homem: uma análise crítica”. É um vídeo de Olavo de Carvalho também e que mostra bem a periculosidade dos projetos mirabolantes da esquerda política. Bem, o documentário Zeitgeist está destrinchado.
           
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Bibliografia:
1. Curtois, Stéphane e outros autores. O Livro Negro do Comunismo. Bertrand Brasil, 1999.
2. Chang, Jung e Halliday, Jon. Mao: A história desconhecida. Companhia das Letras, 2006.
3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.
4. Gray, John. Cachorros de Palha. Editora Record, 2005.
5. Gray, John. A Missa Negra. Editora Record, 2009.
6. Johnson, Paul. Tempos Modernos (O Mundo dos anos 20 aos 80). Editora Bibliex.
7. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.
8. Overy, Richard. Os Ditadores - A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler. José Olympio, 2009.
9.  Gellately, Robert. Lênin, Stálin e Hitler: A Era da Catástrofe Social. Editora Record, 2010.
10.  Carvalho, Olavo de. A Mentalidade Revolucionária. Diário do Comércio (Editorial), 2007.
11. Carvalho, Olavo de. Ainda a Mentalidade Revolucionária. Diário do Comércio (Editorial), 2007.
12.  Kekes, John. Por que Robespierre escolheu o Terror? Front Page Magazini (traduzido por Jorge Nobre do blog da Juventude Conservadora da UNB).
13.  Block, Walter. Religião e Libertarianismo. Lew Rock Well, 2008 (traduzido por Renan Felipe do site Direitas Já).
14. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).

domingo, 13 de janeiro de 2013

Destrinchando Zeitgeist – Parte 4: Truques Psicológicos

Um comentário:
No final da última postagem da série, eu falei que iria fazer um texto abordando os truques psicológicos utilizados pelo documentário por Zeitgeist para engambelar o espectador. Um truque psicológico é uma forma de enganar um indivíduo através do efeito psicológico que determinada alegação causa, não importando se ela é verdadeira ou se ela é falsa. Em outras palavras, é fazer alguém crer meramente pela emoção.

O documentário Zeitgeist é craque em fazer isso. Cada frase, cada palavra, cada imagem foi calculadamente escolhida para gerar um efeito psicológico que pudesse ser mais eficaz que o argumento (lógico, afinal o documentário não tem qualidade alguma em seus argumentos).

Nesta postagem, vamos dar uma olhadinha em alguns desses truques e mostrar ao leitor que o sucesso do documentário se deve aos ótimos truques psicológicos que seus produtores utilizaram.

Nas paredes de Luxor

Quem assistiu o documentário, deve se lembrar que em determinado momento se faz menção a uma imagem egípcia antiga que se encontra nas paredes do templo de Luxor. Neste trecho, o narrador afirma que essas imagens retratam a imaculada concepção de Hórus e a sua adoração. Então, a tela foca nos detalhes de cada quadro da imagem e o narrador continua afirmando: “As imagens começam com o anuncio à virgem Isis de que ela iria gerar Hórus, que Nef, o Espírito Santo, irá engravidar a virgem e depois o parto e a adoração”. Clique em cada quadro para ver melhor.





São desenhos, não é mesmo? Agora, eu pergunto: o leitor está conseguindo ver a virgindade da deusa Isis no desenho? Está conseguindo ver o Espírito Santo? Dá para saber se o homem que conversa com ela está anunciando o nascimento de Hórus? Claro que não o leitor não pode ver. São desenhos. E nem adianta vir com o argumento de que existem escritos que afirmam isso. É mentira. Já analisamos isso na primeira postagem.

Mas mostrar o desenho gera um efeito psicológico conveniente no espectador, pois dá a impressão de que uma ampla pesquisa foi feita, os produtores chegaram a ir lá no Egito e tiveram acesso à fontes primárias. O desenho é como serve como se fosse a prova concreta. “Está aqui. Você pode ver as imagens da virgem”. E um bando de bocó acredita. “É mesmo. Olha a imagem da virgem ali”.

As Eras de Touro, Áries e Peixes

Em outro trecho, ao argumentar que a Bíblia é um livro astrológico, Zeitgeist afirma que Jesus teria fundado a Era de Peixes. A prova seria o símbolo do cristianismo, que desde o início sempre foi um peixe. O documentário só “esquece” de dizer que o peixe foi escolhido porque no grego, ICHTHUS (peixe), serve para formar o acrônimo Insous, Christos, Theos, Uios e Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).

O documentário afirma também que as eras do zodíaco duram 2150 anos e que Moisés teria sido o fundador da era de Áries que durou até Jesus nascer. A prova de que Moisés representava a era de Áries, segundo o documentário, é o fato de que ele ficou irritado quando o povo fez um bezerro de ouro para adorar (estavam retornando a era antiga).

Não obstante, a Bíblia deixa claro que Moisés se irritou porque tal atitude era um pecado terrível contra Deus. E, além disso, de Moisés até Jesus se passaram cerca de 1500 anos e não 2150 anos. É uma diferença um tanto grande, não? Mas quem se importa com isso? O efeito psicológico causado por essas alegações é suficiente para fazer o espectador crer. Porque ele vai pensar: “É mesmo, o símbolo do cristianismo é o peixe. É mesmo, Moisés se irritou com a adoração ao bezerro. Jesus e Moisés devem ser fundadores das eras de Áries e Peixes mesmo”.

As afirmações de Justino Mártir

O documentário mostra duas citações de Justino Mártir, um apologista cristão que viveu no segundo século. As citações foram retiradas de seu livro I Apologia. Elas são as seguintes:
Quando nós [cristãos] dizemos que o Logos, primeiro rebento de Deus, isto é, Jesus Cristo, nosso mestre, foi produzido sem união sexual, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus, não apresentamos nada de novo se levarmos em conta o que vocês chamam de filhos de Zeus [Júpiter] (I Apologia 21:1).
Nós anunciamos que ele nasceu de uma virgem, mas isso para vocês pode ser semelhante a Perseu” (I Apologia 22:5).
Essas afirmações, tal como foram postas no documentário, geram um tremendo efeito psicológico no espectador. Elas realmente parecem confirmar tudo o que fora dito por Zeitgeist desde o início. E quem é que vai se dar ao trabalho de ir até I Apologia, ver o contexto das frases e estudar sobre Perseu e os filhos de Zeus, a fim de entender melhor as afirmações de Justino?

Bem, eu me dei a esse trabalho e, a começar pelo contexto, já fica claro que as semelhanças existentes entre alguns deuses romanos e Jesus Cristo são muito gerais. Por exemplo, em 21:2 ele afirma:
De fato, vocês sabem bem a quantidade de filhos que seus estimados escritores atribuem a Zeus: Hermes, o Verbo intérprete e mestre de todos; Asclépio, que foi médico e que, depois de ter sido fulminado, subiu ao céu; Dionísio, depois que foi esquartejado; Herácles, depois de se atirar ao fogo para fugir dos trabalhos (...).
Perceba que Justino descreve como foram as sofridas mortes de alguns filhos de Zeus. Note que não há nenhuma crucificação e nenhum sacrifício em benefício do ser humano. Então, mais à diante, em 22:3-4, Justino afirma: 

Se nos lançam em rosto que ele [Cristo] foi crucificado, também isso é comum com os antes citados filhos de Zeus, que vocês admitem terem sofrido. Com efeito, conta-se que eles não sofreram um mesmo gênero de morte (...).
Como podemos ver, a semelhança, no que tange à morte, está apenas no fato de todos terem sofrido e não no tipo de morte e suas causas. Quando Justino diz: “Isso é comum com os antes citados filhos de Zeus”, não está falando da morte por crucificação ou da morte em prol do ser humano, mas apenas do sofrimento. Convenhamos que se trata de uma semelhança muito geral. Não dá para alguém provar um plágio utilizando o fato de que tanto Jesus como outros deuses sofreram ao morrer. O sofrimento na morte é algo comum demais para que seja usado como comparação.

No capítulo 33, existe mais uma prova de que as semelhanças são gerais demais para provar plágio. Falando sobre a profecia de Isaías sobre a concepção imaculada de Jesus, Justino diz:
Escutem agora como foi literalmente profetizado por Isaías que Cristo seria concebido por uma virgem. Ele diz o seguinte: ‘Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe porão o nome Deus conosco [Emanuel]’ (Isaías 7:14).
O que os homens poderiam considerar incrível e impossível de ocorrer, Deus indicou antecipadamente por meio do Espírito profético, para que quando ocorresse, não negassem a fé, mas sim, justamente por ter sido predito, cressem.
Esclareçamos agora as palavras da profecia para que, por não entendê-la, façam a mesma crítica que nós fazemos quando seus poetas nos falam de Zeus: a crítica de que Zeus, para satisfazer sua paixão libidinosa, uniu-se com diversas mulheres. ‘Eis que uma virgem conceberá’, significa que a concepção seria sem relação carnal, pois, se esta houvesse, ela não mais seria virgem; mas foi a força de Deus que veio sobre a virgem e a cobriu com a sua sombra e fez com que ela concebesse permanecendo virgem (I Apologia 33:1-5).
O que eu acho mais interessante nesse texto é que Justino vê a necessidade de explicar que “concepção virginal” não era um relacionamento sexual entre um deus e uma mulher, tal como na mitologia ocorreu entre Zeus e diversas mulheres. Ou seja, Justino sabia que essa confusão existia. Era por isso que alguns romanos alegavam que Jesus era semelhante a alguns semideuses. Afinal, semideuses resultavam da união entre deuses e humanos, e a concepção de Jesus por Maria era visto por alguns, exatamente, como uma união entre Deus e Maria.


Aliás, é com base nesse raciocínio, que o documentário chama de virgens muitas mulheres que tiveram relações sexuais com deuses. Mas, desfeita essa confusão, vemos que não há semelhança alguma entre o nascimento de Jesus e o desses seres míticos.

Outro interessante trecho de I Apologia complementa nossa análise. Ele diz o seguinte:
(...) em nenhum lugar e em nenhum dos supostos filhos de Zeus, [os demônios] imitaram a crucifixão, por não tê-la entendido, pois, conforme dissemos antes, tudo o que se refere à cruz foi dito de forma simbólica (I Apologia 55:1).
A questão toda é simples de entender. Justino Mártir, com toda sua boa vontade, queria mostrar aos romanos que qualquer possível pequena semelhança entre os deuses romanos e Jesus, poderia ser explicada em função da ação de demônios. O argumento de Justino era que os demônios, ao longo dos tempos, quando ouviam profecias sobre a vinda de Cristo, tentavam criar mitos que contivessem as características das profecias, para enganar as pessoas. Como profecias são sempre complexas de se interpretar, isso explicaria o fato das semelhanças não serem tão grandes.

O raciocínio de Justino é chacoteado pelo documentário, mas se pensarmos bem, ele não é implausível. Se, de fato, existem demônios que odeiam tudo o que é de Deus e que tem poder de se transformar até em anjos de luz (conforme a Bíblia), por que eles não tentariam fazer exatamente o que Justino raciocinou? Se você, amigo leitor, fosse um demônio, não tentaria se aproveitar das profecias para criar mitos que depois iriam confundir a cabeça das pessoas?

No entanto, acredito que Justino acabou sendo muito ingênuo. As semelhanças alegadas são demasiadamente gerais para provar plágio. Era nessa tecla que ele deveria ter batido. O nascimento dos deuses e semideuses não foi virginal; sua morte não foi por crucificação (o texto que acabamos de ler deixa isso claro) e nem foi em benefício da humanidade. 

Com relação à ressurreição e ascensão aos céus, ainda outro texto de I Apologia nos é muito útil para essa discussão. Justino afirma:
Para quem reflete, o que pareceria mais incrível do que se, estando fora do nosso corpo, alguém dissesse que de uma pequena gota do sêmen humano seria possível nascer ossos, tendões e carnes com a forma em que os vemos, e víssemos isso em imagem? Façamos uma suposição. Se vocês não fossem como são agora, nem nascidos de tais pais [e causas] e alguém lhes mostrasse uma semente humana e a figura de um homem, e dissesse com confiança que, de uma substância como aquela, tal homem pudesse ser produzido, você acreditaria antes de ver o produto real? Ninguém ousará negar [que essa alegação está além da crença]. Do mesmo modo, então, agora vocês são incrédulos porque nunca viram um morto ressuscitar. 
Mas assim como num primeiro momento vocês não acreditariam que de uma pequena gota nasceriam tais seres e, no entanto, os vêem nascidos agora, assim também considerem que não é impossível que os corpos humanos, depois de dissolvidos e espalhados como sementes na terra, ressuscitem a seu tempo, por ordem de Deus e se revistam da incorruptibilidade (I Apologia 19:1-4).
Veja que Justino faz uma belíssima argumentação a respeito da ressurreição. Tal argumentação é feita por Justino porque ele sabia que os romanos não acreditavam na ressurreição corporal. Sendo assim, quando Justino diz que Jesus ter ressuscitado é algo em comum com os filhos de Zeus, ele está usando a palavra ressurreição com o sentido de “continuar vivendo depois da morte”. Nenhum filho de Zeus ressuscitou como Jesus, tornando ao seu antigo corpo e ao seu antigo mundo. Justino se utiliza desse sentido simplesmente porque citava as semelhanças gerais que os romanos alegavam.

Aqui temos um gancho para a questão da ascensão aos céus. É comum a quase todas as religiões que Deus ou os deuses vivam no céu e que os que morrem vão para o céu ou para o inferno. Os filhos de Zeus, por serem seus filhos, logicamente iriam para o céu após a morte. Ou melhor, suas almas iriam para lá. O corpo estava morto. Então, a ascensão também não passa de uma semelhança geral demais para ser considerada uma prova de plágio.

Um questionamento pode aparecer aqui: “E por que existem idéias básicas que são compartilhadas pela maioria das religiões?”. É simples. Isso é uma evidência de que todas elas descendem de uma só crença que existiu bem no início da humanidade. Seja lá qual é a religião correta atualmente, sabemos que todas as religiões são descendentes dessa crença original. As semelhanças básicas, portanto, seriam traços remanescentes de uma crença inicial que foi sendo adulterada e fragmentada, que foi criando vertentes e misturando essas vertentes. As diferenças cresceram, mas elementos básicos continuam e são a prova de que todas as religiões bebem em uma mesma fonte.

Bem, por fim, podemos dizer que a primeira afirmação de Justino mostrada por Zeitgeist está analisada. Vou repeti-la aqui, apenas para resumir a análise. 
Quando nós [cristãos] dizemos que o Logos, primeiro rebento de Deus, isto é, Jesus Cristo, nosso mestre, foi produzido sem união sexual, morreu, ressuscitou e ascendeu aos céus, não apresentamos nada de novo se levarmos em conta o que vocês chamam de filhos de Zeus [Júpiter] (I Apologia 21:1).
A parte em negrito foi o que analisamos. São quatro alegadas semelhanças entre Jesus e os filhos de Zeus. A primeira não existe, sendo apenas uma interpretação errada feita pelos romanos a respeito do que seria “concepção virginal”. As outras três são comparações sem importância, pois se baseiam em semelhanças demasiadamente gerais para que se alegue plágio.


Agora, vamos analisar a segunda afirmação de Justino. Essa é bem mais fácil, já que só precisamos dar uma olhadinha na história de Perseu. Segundo a mitologia, este personagem era filho de Zeus com a humana Danae. Sua concepção ocorreu da seguinte forma: o rei Acrísio, pai de Danae, fora informado por seu oráculo que um dia seu neto o mataria. Temendo a morte, Acrísio aprisionou sua filha para que não tivesse relações sexuais com nenhum homem.

Entretanto, Zeus sentia desejo sexual pela filha do rei. Por isso, ele se disfarçou de chuva de ouro, entrou na prisão e teve relações com Danae. A história não deixa claro se Zeus teve tais relações em forma de chuva de ouro ou se, uma vez dentro da prisão, se transformou novamente no que era para se deitar com a moça. Seja como for, houve uma união sexual e o resultado da união foi o nascimento de Perseu.

Acho que o leitor já entendeu tudo. O que temos aqui, mais uma vez, é aquela confusão que os romanos faziam entre concepção virginal e concepção através de sexo entre um deus e um humano. Perseu não era filho de uma virgem. Ele era filho de uma mulher que teve relações sexuais com um deus. É uma senhora diferença. Vamos expor o texto mais uma vez.
Nós anunciamos que ele nasceu de uma virgem, mas isso para vocês pode ser semelhante a Perseu (I Apologia 22:5).
Note a ênfase no “para vocês”. Justino não está dizendo que ele realmente acha que é semelhante. Ele apenas está citando uma alegação dos romanos. Em suma, Justino Mártir faz um bom trabalho em seu livro, mas peca em não bater mais forte e de forma clara na questão das semelhanças serem gerais demais (ou mesmo falsas) para servirem como prova do cristianismo ser um plágio.


Agora, veja o tempo que levei para mostrar tudo isso ao leitor. Veja como que tudo isso depende de bastante estudo e atenção. Quem é que vai se preocupar em fazer isso? A idéia é sempre a seguinte: “Se o documentário está citando as fontes, não pode ser mentira. Logo, eu não preciso pesquisar nada”.

Muitos outros truques psicológicos poderiam ser mostrados aqui. O sucesso que o documentário teve entre os internautas se deve inteiramente a esses truques. Eles são o elemento mágico que permite esconder a má qualidade dos argumentos e fazer com que o espectador acredite que os produtores do documentário são os paladinos da verdade, homens estudiosos e honestos, que não tem compromisso com nenhuma crença que não tenha fundamento racional, mas apenas com a verdade.

Não obstante, o que mostrei aqui já é o suficiente. Na próxima postagem, que é a última da série, iremos refutar justamente essa imagem de “dono da razão” que aqueles que produziram Zeitgeist tentaram formar para si. Ficará claro que há um conjunto de crenças extremamente irracionais, idiotas e, sobretudo, perigosas, que os produtores do documentário carregam e que fazem um esforço incrível para incutir na cabeça do pobre espectador. Sim, a próxima postagem não será uma defesa contra os pífios argumentos de Zeitgeist, mas um ataque contra suas crenças infantis.
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*Observação: Os textos utilizados nessa postagem tiveram sua linguagem atualizada, a fim de que o conteúdo se tornasse mais claro para o leitor. Entretanto, o conteúdo dos textos permanece exatamente o mesmo, conforme o leitor poderá conferir em qualquer Bíblia e em qualquer versão do livro I Apologia, de Justino Mártir. 
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Bibliografia:
1. Mártir, Justino. I Apologia. Presente neste link:
2. [Site com a história de Perseu]. Presente no link:

domingo, 6 de janeiro de 2013

Destrinchando Zeitgeist – Parte 3: O Jesus Histórico

6 comentários:
Existem pessoas que se acostumaram tanto a mentir sobre um determinado tema que já o fazem sem perceber. Esse é o maior estágio que um mentiroso pode alcançar, já que a partir daí, ele passa a acreditar nas próprias mentiras que conta, e seu cérebro perde a capacidade de entender as coisas da maneira como realmente são.

As duas primeiras postagens da nossa série deixam claro que os produtores do documentário Zeitgeist estão bem próximos desse estágio. Eles não têm vergonha de veicular um filme repleto de distorções, omissões propositais, comparações forçadas e mentiras. Tudo para convencer seu expectador a aceitar as suas crenças humanistas (das quais falarei na última postagem da série).

Na postagem de hoje, quero abordar as alegações de Zeitgeist referentes ao que os estudiosos chamam de “Jesus histórico”. Jesus foi um personagem histórico? Dá para se afirmar isso através dos documentos antigos que falam sobre ele? O cristianismo é uma religião de fatos ou foi criada por Roma para manipular as pessoas? É o que nós vamos ver agora.

“Jesus não é um personagem histórico”

Eu quase caí da cadeira quando vi que o documentário faria essa alegação. Por quê? Porque sou um religioso fanático que não pode ouvir uma crítica acadêmica séria a sua religião? Não, não. Eu quase caí da cadeira porque a alegação de que Jesus não é um personagem histórico é uma das alegações mais imbecis, do ponto de vista histórico, que alguém poderia fazer. Vou lhes contar a história dessa alegação.

Com a chegada do iluminismo e aquele boom de pensadores céticos à religião tradicional surgindo em toda Europa, tornou-se conveniente postular que Jesus não fez nada de sobrenatural. Então, uma leva de escritores começou a pensar na hipótese de que Jesus fora apenas um mito. O problema é que, com o passar do tempo, acadêmicos perceberam que os documentos que afirmam a existência de Jesus satisfazem todos os critérios utilizados por historiadores para averiguar se um fato é histórico ou não. E por isso a maioria dos historiadores e teólogos não cristãos, desde o início do século XX, não levam a sério essa hipótese.

Eu falei sobre esses critérios na postagem “Argumento da Ressurreição”. São 10 critérios: Contexto Histórico, Multiplicidade, Antiguidade, Constrangimento, Ausência de Benefícios (e/ou presença de malefícios), Dissimilaridade, Concordância, Citação Próxima, Comprovação Inimiga e Citação de Testemunhas. Ora, tanto os documentos cristãos como os não-cristãos satisfazem esses critérios (se o leitor duvida disso, leia a postagem que citei acima). Mas vamos falar dos documentos não-cristãos.

Zeitgeist cita quatro historiadores que mencionam Jesus em seus escritos. O judeu Flávio Josefo (37 d.C – 100 d.C) e os romanos Cornélio Tácito (55 d.C – 120 d.C), Caio Plínio II (61 d.C – 114 d.C) e Suetônio (69 d.C – 141 d.C). Sobre o primeiro, Fávio Josefo, o documentário afirma que suas menções a Jesus foram provadas como sendo falsificações. Sobre os três últimos, afirma-se que eles mencionaram “Cristo”, que não é um nome, mas um título (podendo ser qualquer um, então).

Agora, vamos às picaretagens. Em primeiro lugar, as menções de Flávio Josefo a Jesus não foram provadas como falsificações. Há uma distorção aqui. O que realmente ocorre é que há um consenso entre os acadêmicos de que algumas versões (cópias) dos escritos de Josefo que chegaram até nós, sofreram interpolações em uma das menções a Jesus. Ou seja, não é o texto todo que foi falsificado. São trechos de um texto que foram adulterados em algumas versões. Isso é muito diferente de afirmar que o texto inteiro que menciona Jesus é uma falsificação.

O texto de Josefo, ou melhor, os dois textos de Josefo que mencionam Jesus tem aceitação acadêmica. Nenhum acadêmico sério tem dúvidas de que realmente Josefo fez duas menções a Jesus em seus escritos. Os estudiosos mais céticos apenas apontam que existem versões com interpolações e procuram usar versões que consideram puras.

As versões que apresentam interpolações são aquelas em que Josefo cita Jesus de um jeito como se acreditasse mesmo que Jesus fosse o Messias. Só que Josefo não era cristão e sim um fervoroso judeu. Então, provavelmente essas versões são reflexo de uma interpolação de algum cristão fanático que queria fazer as pessoas acreditarem que o famoso historiador judeu achava que Jesus era o Messias.

Já as versões consideradas puras, apresentam uma descrição mais seca e cética por parte de Josefo (o que se esperaria de um não-cristão). Todas essas versões, contudo, conservam praticamente o mesmo texto. São apenas algumas palavras que mudam de versão para versão. Então, o texto que o documentário alega ser falso, na verdade, não é falso coisíssima nenhuma. Afora isso, como falei, Josefo faz duas citações a Jesus e não apenas uma. O documentário omite essa informação.

A segunda picaretagem é o “argumento” de que os outros autores não citam o nome Jesus, mas sim o termo “Cristo”, que não é nome de pessoa, mas um título. A ideia é induzir o espectador a acreditar que os autores podem estar falando de qualquer pessoa. Veja que argumento horroroso! Quer dizer que se eu afirmo que um jogador de futebol chamado “Alemão”, jogou pela seleção brasileira de futebol em 1986, mas não cito o seu nome verdadeiro (Ricardo Rogério de Brito), então quer dizer que posso estar falando de qualquer pessoa?

Ora, é claro que isso é um argumento falacioso. Você pode não citar o nome de uma pessoa, mas se você dá características da pessoa ou do que ela fez ou mesmo liga essa pessoa a algum evento conhecido em que consta seu nome, é fácil saber de quem se trata. No caso do jogador “Alemão”, eu sei de qual Alemão se trata, mesmo existindo outros com esse mesmo apelido. Afinal, eu sei que em 1986 existiu alguém chamado Alemão que jogou na seleção brasileira.

Com Jesus Cristo é a mesma coisa. Os cristãos reconheciam Jesus como sendo o Cristo (Messias – Ungido) esperado pelos judeus. Por isso, Cristo passou a ser um dos nomes pelos quais Jesus era chamado. Pode reparar que na Bíblia o nome Cristo quase sempre aparece junto ao nome Jesus. Então, quando Tácito, Suetônio e Plínio falam de Cristo e dizem que ele que iniciou o movimento cristão e dão características do mesmo Jesus descrito no Novo Testamento, é óbvio que eles estão falando da mesma pessoa.

É bem chato ser repetitivo. Já expus as citações desses historiadores na primeira postagem da série “Afinal, quem foi Jesus?”. Então, se quiser lê-las, clique no link e leia lá. O leitor verá que com as menções desses quatro historiadores e mais outras como a de Mara-Bar Serapion, Luciano de Samósata e dos Talmudes Judaicos (todos, escritos não-cristãos) é possível montar a história básica de Jesus que nós já conhecemos nos evangelhos e nos demais escritos cristãos do primeiro século.

“Jesus foi inventado por Roma para manipulação política”

Os produtores de Zeitgeist, que devem ser analfabetos funcionais, simplesmente jogam quatro séculos de história no lixo quando afirmam uma coisa dessas. A primeira coisa que devemos lembrar aqui é que o cristianismo não surgiu quando Constantino se converteu, no início do século IV, mas já existia desde o início do século I, quando Jesus foi condenado à cruz. Dessa época até a conversão de Constantino, o cristianismo foi implacavelmente hostilizado por quase todos os romanos. Será que os produtores do documentário não sabem disso?

Os romanos (e isso inclui os governantes) achavam o cristianismo uma religião odiosa. É simples entender o motivo: tudo o que os romanos acreditavam, os cristãos condenavam. Tudo o que os cristãos acreditavam, os romanos condenavam. Vamos ver algumas coisas.

Os romanos acreditavam em vários deuses. Os cristãos pregavam a existência de um só. Os romanos acreditavam em reencarnação. Os cristãos pregavam que o homem só vive uma vida. Os romanos achavam ridícula a ideia de que pudesse haver uma ressurreição corporal. Os cristãos pregavam que Jesus havia ressuscitado corporalmente e que no juízo final haveria uma ressurreição geral. Os romanos acreditavam em deuses que permitiam uma vida devassa e sem muitas regras morais. Os cristãos pregavam que as pessoas deveriam viver uma vida santa. Os romanos (e todos os povos) achavam que a cruz era uma condenação vergonhosa. Os cristãos falavam sobre um líder que morreu numa cruz. Os romanos não conseguiam conceber a ideia de um Deus que se humilhou e que morreu. Os cristãos faziam disso a tônica da pregação cristã. Os romanos (e outros povos) costumavam misturar crenças diversas. Os cristãos afirmavam que só a crença em Jesus era a correta.

Como podemos ver, havia motivos de sobra para que os romanos não tivessem simpatia pelos cristãos. Some esses motivos ao fato de que os romanos não eram muito simpáticos aos judeus e o cristianismo era um movimento surgido dos judeus. E vamos lembrar que os romanos eram orgulhosos. Eles jamais encarariam com bons olhos uma seita judaica maluca que pretendia ser a única religião correta. Enfim, os romanos não gostavam dos cristãos.

É por esse motivo que nos primeiros quatro séculos de cristianismo, houve tanta perseguição aos cristãos. Cristianismo e política foram coisas que não se misturaram até quando Constantino se converteu. O cristianismo surgiu e passou quase trezentos anos sendo perseguido. Ser cristão nos primeiros quatro séculos era ter a garantia de que não haveria nenhum benefício político em sua vida e que, se você incomodasse o governo com o seu Jesus, poderia ser preso, torturado e/ou morto.

Então, afirmar que o cristianismo foi criado para manipulação política é assinar um atestado de idiotice. Mas a alegação de criação romana tem uma variante. Há quem sustente que antes de Constantino “se converter”, o cristianismo acreditava em outras coisas e que depois que Constantino se converteu e acoplou a religião à política, Roma criou todo o mito de Jesus, o judeu Filho de Deus que foi crucificado e ressuscitou É o que os pseudointelectuais leitores de O Código da Vinci costumam a afirmar. Desse modo, o que conhecemos hoje como cristianismo não seria o mesmo cristianismo que existiu antes de Constantino.

Tal argumento também não se sustenta. Em primeiro lugar, porque há material abundante sobre as principais doutrinas cristãs antes de Constantino. Não há dúvidas de que doutrinas como a morte, ressurreição e ascensão de Jesus faziam parte do conjunto de crenças dos primeiros cristãos.

Em segundo lugar, como já vimos, o cristianismo era muito contrário ao que pregava o paganismo romano. Então, se Roma tivesse modificado as principais crenças cristãs para uma melhor aceitação por parte das pessoas, a história de Jesus não seria essa que conhecemos hoje. Com certeza Jesus não teria sido um homem pobre, judeu, que foi humilhado a vida inteira, que morreu em uma cruz, que ressuscitou e que ensina as pessoas a renegarem todos os deuses romanos, adorarem o Deus dos judeus e agirem de maneira santa.

Em vez disso, ele seria alguém como Aquiles, Hércules ou Cratos, um guerreiro forte, que nunca era humilhado, filho de deuses e que não impunha nenhuma restrição ao espírito de guerra e à imoralidade sexual. Ou seria um ser espiritual sábio que apenas parecia humano (mas que não tinha carne de verdade) e que não sofreu nem morreu de verdade também (como alguns escritos apócrifos do segundo século afirmam).

Ou seja, a história que temos, por ser totalmente contrária ao que os romanos criam e por apresentar amplas evidências de que era a mesma pregada pelos primeiros cristãos, não pode ser considerada uma invenção de Roma para manipular politicamente as pessoas. Você pode até não acreditar que Jesus realmente ressuscitou dos mortos e que é o Filho de Deus, mas é inegável que existiu um judeu chamado Jesus que foi morto numa cruz e que os primeiros cristãos criam que ele havia ressuscitado e que era o Filho de Deus. Essa crença básica não foi inventada por Roma ou Constantino.

Por que não há mais menções não cristãs sobre Jesus?

O documentário não levanta essa questão, mas como nós acabamos de ver que os quatro historiadores citados por Zeitgeist são fontes confiáveis, alguém pode rebater dizendo que existem poucas menções a Jesus. “Se Jesus realmente existiu e foi alguém tão influente, por que não há mais menções sobre ele entre autores não cristãos?”.

A questão não é difícil de responder. Em primeiro lugar, porque o ministério de Jesus foi curto e restrito a um espaço pequeno. Foram apenas três e meio de pregações e ele sequer saiu de Israel. Ou seja, o ministério de Jesus não foi algo que se estendeu por diversos lugares do mundo e/ou por um longo tempo. Como também não havia internet, nem televisão, nem rádio, nem agências de notícias, então, sua influência ficou muito restrita, tornando improvável a existência de um número grande de relatos escritos.

Em segundo lugar, porque a maior parte das pessoas para as quais Jesus pregou era pobre. Levando em consideração que Jesus viveu num contexto onde a tradição oral era muito valorizada, onde a escrita não era uma prática comum entre as massas e onde muitas pessoas eram analfabetas, também não era de se esperar o surgimento de muitos relatos escritos sobre Jesus.

Em terceiro lugar, as pessoas que não eram cristãs não teriam muito interesse em escrever relatos sobre Cristo. Por exemplo, os escribas judeus tinham grande antipatia por Jesus, pois ele costumeiramente os criticava por hipocrisia. Os rabinos também não gostavam de Jesus por suas críticas e porque ele não agia conforme os rabinos da época acreditavam que o Messias deveria agir.

Para os romanos, falar sobre o tal Jesus seria ainda mais desinteressante. Jesus, na visão dos poucos romanos que devem ter ouvido falar dele enquanto estava aqui na terra, era apenas um rabino que algumas pessoas diziam que operava milagres. O que há de interessante nisso? Rabino existia um monte espalhado por aí. Se fazia milagres, isso não era algo tão incrível. Afinal, o ceticismo ao sobrenatural não era lá muito comum naquela época. As pessoas não tinham dificuldade de acreditar no sobrenatural. Enfim, Jesus não era notícia. Se existisse jornais romanos na época, talvez ele nem saísse em uma notinha.

Em quarto lugar, é possível que muita coisa que foi escrita não foi copiada aos montes e se perdeu no tempo. Vamos supor, por exemplo, que aquele oficial romano que teve seu filho curado por Jesus, tenha escrito uma carta a um amigo, falando que um judeu chamado Jesus curou seu filho. O amigo recebe a carta, lê, responde e guarda a carta em suas coisas. Então, esquece da carta e ela acaba parando no lixo. Ou passa o tempo, ele morre, a carta fica perdida e se deteriora ou as traças comem. Acabou. Nunca alguém saberá daquela carta.

Podemos também supor que um escriba judeu ficou impressionado com algum milagre de Jesus e resolveu escrever alguns de seus feitos. Mas, depois, vendo que Jesus morreu em uma cruz, perde a fé no mestre e destrói seus escritos. Ou mesmo, mantém a fé em Jesus, compartilhando da crença da ressurreição, mas por medo da retalhação dos outros escribas e rabinos, resolve não tornar o documento público e o destrói (ou ele se perde no tempo também).

Essas suposições são plausíveis. Muito do que pode ter sido escrito sobre Jesus, pode não ter sido copiado e espalhado por aí, tendo sido destruído (ou se perdido) para sempre. O fato é que a quem mais interessava o espalhamento dos relatos escritos sobre Jesus era aos cristãos. Não porque era possível ganhar algum tipo de benefício político ou financeiro com isso (como já vimos, isso não existiu nos primeiros quatro séculos de cristianismo), mas porque os cristãos acreditavam mesmo que Jesus havia ressuscitado e que era o Cristo. Era isso que os movia. Era isso que os fazia aceitarem uma vida de pobreza, hostilidades, preconceitos, perseguições, prisões, torturas e até a morte.

Em quinto lugar, vamos lembrar uma fato que vimos em outra postagem: muitos personagens que são considerados históricos apresentam muito menos menções antigas do que Jesus; muitas vezes menções feitas por autores que viveram séculos depois. Por exemplo, Alexandre, o Grande. Tudo o que sabemos sobre ele está em praticamente duas biografias apenas, escritas por Adriano e Plutarco, 400 anos depois de Alexandre, o grande. O que provavelmente ocorreu é que os dois autores fizeram uma pesquisa a documentos que existiam na época e que não existem mais hoje.

Ainda assim, os historiadores consideram as biografias de Alexandre, o Grande confiáveis. Ninguém debate a historicidade desse personagem. Então, por que debater a de Jesus, que tem menções feitas por Josefo, Tácito, Suetônio, Plínio, Celso, Serapion, os Talmudes, Talo, Flegão, Luciano de Samósata (que não foram cristãos) e dezenas de autores cristãos do primeiro século (que não ganharam nada por tais escritos)? Jesus tem mais menções que diversos personagens considerados históricos. Isso é fato.

Em sexto lugar, grandes catástrofes podem ter destruído muitos documentos que falavam sobre Jesus. Por exemplo, no ano 70 d.C. a cidade de Jerusalém sofreu terrível destruição por parte dos romanos. Antes disso, em 64 d.C. Roma tinha sido incendiada no governo de Nero. A Biblioteca de Alexandria, no Egito, e a de Pérgamo, na Turquia, que foram as maiores bibliotecas do mundo durante muito tempo, foram destruídas no segundo século. O quanto não pode ter sido perdido, hein?

Conclusão: não existem motivos para acreditar que deveriam haver mais relatos não cristãos antigos sobre Jesus do que os que temos hoje às mãos. O que temos hoje é mais que suficiente para provar a historicidade de Jesus.

Bem, essa postagem termina aqui. Ficou claro que, ao contrário do que Zeitgeist afirma, Jesus é um personagem de historicidade muito confiável. Também ficou claro que já não dá para confiar em nada do que o documentário veicula como fato. A careta de pau dos produtores desse lixo pseudo-acadêmico chegou a um nível que necessita de uma explicação para tal. É o que farei na última postagem da série. Mas antes disso, eu vou ainda fazer uma postagem analisando alguns truques psicológicos utilizados pelo documentário para engambelar o espectador.
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Bibliografia:
1. Bruce, F. F. Merece confiança o Novo Testamento? Vida Nova, 2010.
2. Bock, Darrel. Os Evangelhos Perdidos.Thomas Nelson Brasil, 2007.
3. Bock, Darrel. Quebrando o código da Vinci. Novo Século, 2004.
4. Geisler, Norman e Turek Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu.