quinta-feira, 14 de março de 2013

Babilônia Política

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Há cerca de um mês publiquei um texto intitulado “Confusões clássicas sobre direita e esquerda” aqui no blog. O mesmo texto foi avaliado pelo site “Direitas Já” a pedido meu (o “Direitas” costuma a avaliar e postar textos de leitores) e postado por lá no dia 28 de fevereiro. Ironicamente, um dos administradores do próprio site, Rodrigo Viana, postou, no dia 6 de março, um texto intitulado “Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo”, onde expõe sua discordância com aquilo que eu disse em meu texto.

Digo “ironicamente” não pela discordância ter partido de um administrador do site, já que um site feito por várias pessoas pressupõe a pluralidade de idéias. Porém, a ironia está no fato de Rodrigo Viana se propor, em seu texto, a dizer que Esquerda e Direita são conceitos que não servem para definir muita coisa. Não é o que eu esperaria de uma pessoa que administra um site que leva em seu nome justamente um desses dois rótulos.

Mas, enfim, o texto de Rodrigo, embora bem escrito, me deu a impressão de que ele não entendeu muito bem os meus argumentos. Assim, me sinto na obrigação de tirar aqui algumas dúvidas e de responder a algumas objeções levantadas por ele. Eu o farei de maneira construtiva e educada, mas serei incisivo, ok?

As Cinco Mentalidades Contextuais

Logo no começo de sua postagem, Rodrigo Viana cita um texto de outro administrador do site, Renan Felipe, intitulado “As cinco mentalidades políticas”. Neste texto, Renan adota um modelo de classificação das ideologias políticas, no qual existem cinco mentalidades: Reacionária, Restauradora, Moderadora (conservadora), Reformadora e Revolucionária. Com base nesse modelo do administrador Renan Felipe, Rodrigo Viana afirma que em sua visão:

o que se diz normalmente como Direita são correntes que estão em posições como “reacionária”, contrário a qualquer tipo mudança, e “moderada”, onde certas mudanças podem ser bem vindas, desde que não sejam abruptas. E Esquerda como “reformadora”, visando mudança significativa, porém de cunho pragmática, e “revolucionária”, mudança desde a raiz.
Observando esse trecho é possível averiguarmos que o entendimento de Rodrigo sobre o que é Direita e Esquerda tem algumas falhas pequenas, porém expressivas. Para começar, ele afirma que a mentalidade reformadora, que visa mudanças significativas e pragmáticas, é normalmente dita como Esquerda. Isso é questionável, porque depende muito do contexto político vivido pelo Estado.

O Brasil, por exemplo, vive há muito tempo num contexto de domínio ideológico esquerdista. Então, propostas direitistas como o fim de programas assistencialistas, a redução de impostos, a diminuição do Estado na economia e o investimento no setor privado em vez do público são, sem dúvida, propostas de mudanças muito significativas e de cunho bem mais pragmático (no bom sentido que essa palavra pode oferecer) do que o utopismo apregoado pelo nosso governo de esquerda.

Ou seja, nesse contexto, a mentalidade reformadora é a mentalidade de direita; e a esquerda, curiosamente, passa a ter a mentalidade reacionária, por querer manter tudo como está (ou até mesmo uma mentalidade conservadora, por não almejar mudanças muito bruscas no modo de governo atual, a fim de preservar o status quo).

Rodrigo também afirma que a mentalidade moderada (conservadora) é aquela que pode até aceitar algumas mudanças, desde que não sejam abruptas. Ora, mas essa definição só funciona quando pressupomos que aquilo que o moderado quer conservar ainda existe. Mas em um contexto onde toda a tradição e experiência que valiam à pena ser guardadas foram destruídas por um Estado autoritário, o conservador se transforma no agente que mais apregoa e luta pela mudança. Ele quer de volta os pilares da sociedade que foram derrubados pelo autoritarismo, o mais rápido possível; e talvez seja capaz até de utilizar a força bruta para tal (a depender do contexto). Um perfil bem semelhante ao de um revolucionário, não é mesmo?

Portanto, na realidade, é esse modelo das cinco mentalidades políticas que não diz muita coisa. Tais mentalidades me parecem um tanto contextuais e, por esse motivo, não servem para conceituar Direita e Esquerda, como faz o nosso amigo Rodrigo.

Rodrigo continua o texto, desenvolvendo o seu argumento de que Direita e Esquerda não são bons rótulos, já que muitas de suas ideologias se baseiam em mentalidades que, segundo sua visão, são tanto de Esquerda quanto de Direita. Tal ambigüidade, para Rodrigo, torna impossível saber à qual das duas tais ideologias pertencem, já que elas bebem em fontes opostas uma a outra. Ele diz:

O Liberalismo tanto bebe de fontes “moderadas” como “reformadoras”. Se considerarmos sua versão anárquica, o Anarco-capitalismo, estaria, também, apoiada numa posição “revolucionária” além das duas já herdadas do Liberalismo. São correntes que nem a Esquerda e nem a Direita possuem suporte para tal.
Esse exemplo sobre o liberalismo não diz absolutamente nada porque, como já mostrei, não faz sentido dizer que a mentalidade moderada é sempre de Direita e que a mentalidade reformadora é sempre de Esquerda. Moderação e Reforma, do modo como Rodrigo define, podem pertencer tanto à Direita como à Esquerda, dependendo de como se encontra a política do Estado. Essas mentalidades não definem o espectro político da ideologia. Em um Estado comunista, por exemplo, os “moderados” podem ser aqueles que querem a conservação do regime comunista, aceitando apenas pequenas mudanças de vez em quando. Nesse mesmo Estado, contudo, o “reformador” é aquele agente que deseja a substituição do sistema comunista por outro sistema. É uma questão puramente de contexto político.

Então, o fato do liberalismo clássico beber tanto em fontes moderadas como em fontes reformadoras, não significa que ele não possa ser definido como uma ideologia de Direita ou de Esquerda.

Quanto à corrente anarquista, seus adeptos podem ser tanto de Direita como de Esquerda, sem termos problema algum quanto à classificação [1]. Porque o anarquismo em si não pertence a nenhum dos lados. Ele é apenas a idealização de uma sociedade sem um governo e sem uma hierarquia estatal. E em uma sociedade assim, não há nem Esquerda, nem Direita, evidentemente.

Então, o que define se um anarquista é de Direita ou Esquerda não é o anarquismo em si, mas (1) como o anarquista acredita que essa sociedade funcionaria; (2) o que o anarquista considera empecilhos para a concretização dessa sociedade; (3) como o anarquista acha que esses empecilhos poderiam ser ultrapassados.

Embora haja algumas diferenças entre os anarquistas de Esquerda, em geral eles concordam que a sociedade anarquista funcionaria naturalmente sem problemas, porque o mal da sociedade não está no ser humano, mas nas instituições do Estado e, sobretudo, no próprio Estado. Isso já seria o suficiente para classificar um anarquista como sendo de Esquerda, já que o principal pilar da Esquerda é o otimismo antropológico.

Como o sonho de uma sociedade anarquista é um sonho muito distante é comum que os atuais anarquistas acabem se alinhando com marxistas. É sabido que marxistas e anarquistas tinham muita rivalidade na época de Marx, mas isso não anula o fato de que ambos tinham um objetivo final em comum: uma sociedade sem Estado. Por isso, o alinhamento é normal. Assim, anarquistas de Esquerda freqüentemente se tornam ferrenhos críticos do capitalismo, da burguesia, da religião e, claro, da Direita. Esses acabam sendo os seus principais inimigos.

E como destruir esses inimigos? Aqui, outra vez o alinhamento com marxistas e demais esquerdistas se torna proveitoso. Afinal, todos juntos vão “descer o cacete” em seus inimigos em comum. Tenho um colega anarquista, por exemplo, que adora ler a Carta Capital e o Observatório da Imprensa. Ele também segue páginas virtuais como “Che Brasuca”, “Direitistas Caricatos” e mais uma dúzia de páginas esquerdistas que criticam a direita, a burguesia, o capitalismo, a religião e as igrejas, tratando-os como a raiz de todos os males do mundo.

Já os anarquistas de Direita (Anarco-Capitalistas) são totalmente diferentes. Eles não acreditam que o ser humano é bom e que o mal da sociedade está em um fator ex-terno à espécie. Tendo como base o pessimismo antropológico, que é o principal pilar da Direita, esses anarquistas acham que o Estado é ruim porque, como o ser humano é inclinado ao mal, o Estado sempre será, de alguma maneira, opressor.

Liberais clássicos e conservadores burkeanos não discordam totalmente disso. O mundo não é bom mesmo e a luta do ser humano deve ser para torná-lo melhor e não perfeito. A diferença reside no fato de que o anarquista de Direita acredita que o Estado pode ser abolido sem que a sociedade se torne uma desordem. Isso porque, para o anarquista de Direita, instituições como tribunais, polícia, exércitos e bombeiros (com suas hierarquias internas) continuariam existindo, mas como empresas privadas e cada um podendo criar a sua, se quiser. A busca dos consumidores pelos melhores serviços iria garantir a melhoria na qualidade dos serviços que, por sua vez, garantiria a ordem da sociedade sem Estado. Utópico, por certo, mas baseado no pessimismo antropológico da Direita política.

Percebe-se, portanto, que dentre os inimigos do Anarco-Capitalismo não estão a burguesia, o capitalismo, o livre mercado, as políticas de Direita e a religião, como é o caso da maioria dos anarquistas de Esquerda. Os inimigos dos Anarco-Capitalistas são justamente o marxismo, a social-democracia e todas as ideologias que pretendem fortalecer o Estado ou lutar contra o livre mercado e o capitalismo.

Como destruir esses inimigos? Alinhando-se com liberais clássicos e conserva-dores burkeanos. É extremamente comum ver esse alinhamento. Porque por mais que existam grandes diferenças entre eles, há muito mais semelhanças. Portanto, não há (ou, pelo menos, eu não consigo ver) nenhuma dificuldade em se classificar um anarquista como sendo de Direita ou de Esquerda. Embora ambos não acreditem na manutenção do Estado, as diferenças entre eles são gritantes.

Compreendendo o processo histórico

Continuando o seu texto, Rodrigo mostra que não compreende bem o processo histórico da passagem entre a antiga política absolutista e nova política iluminista (da qual fazem parte, principalmente, o iluminismo britânico, que influenciou também os EUA e o iluminismo francês). Para Rodrigo, conservadores da antiga política caminham lado a lado com conservadores da nova política. Diz ele:

Outro erro comum é querer atribuir feições individualistas para a Direita e coletivistas para a Esquerda. Ora, isso não é coerente do ponto de vista teórico quanto histórico. A Direita clássica, em que tem o conservadorismo europeu como um de seus representantes, nunca almejou uma legítima posição individualista. Pelo contrário, foi um grande opositor, no passado, da igualdade jurídica entre indivíduos e até hoje se contorce ao ouvir discursos de abolição de privilégios consentidos a certos setores da sociedade.
O que Rodrigo Viana entende como “conservadorismo europeu” é, na verdade, o conservadorismo absolutista, uma mentalidade muito comum nos séculos XVIII e XIX, em pessoas que não se conformavam com a derrubada dos modelos absolutistas de governo. Essa mentalidade, evidentemente, sofreu algumas variações ao longo do tempo e não é mais tão comum. Porém, ainda há alguns desses conservadores que se baseiam em aspectos de um sistema que já foi derrubado há séculos.

Este tipo de conservador, conforme deixo claro em meu texto, não consegue se enquadrar no modelo de classificação Direita x Esquerda porque essa classificação não faz parte da antiga política. Falar em Direita e Esquerda em uma sociedade absolutista não só seria um anacronismo como não faria nenhum sentido lógico. Ou seja, um conservador absolutista não só não faz parte da Direita como também pensa de maneira diametralmente oposta a um conservador burkeano. Não se pode colocá-los lado a lado como se o conservadorismo de ambos fosse o mesmo.

E é de se ressaltar que a maioria dos que eram opositores da igualdade jurídica entre indivíduos e da abolição de privilégios de determinadas classes eram justamente os absolutistas. É certo que os primeiros direitistas também não eram tão respeitadores dos indivíduos como são hoje. Havia muita discriminação entranhada na sociedade. Mas isso era uma questão mais cultural e pessoal do que ideológica. Conforme o contexto foi mudando, os direitistas foram percebendo a verdadeira essência do individualismo.

Então, essa idéia de colocar liberais clássicos e conservadores burkeanos juntos com conservadores absolutistas, todos dentro da Direita, não é muito coerente. Quando se faz isso, aí realmente fica impossível de afirmar, por exemplo, que a Direita defende o individualismo e que a Esquerda defende o coletivismo. Afinal, absolutistas não são respeitadores do indivíduo, como os burkeanos e os liberais. Rodrigo continua:

Se havia intelectuais como Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Donoso Cortés como defensores de um estado moralizador e, muitas vezes, autoritário, havia também Benjamin Disraeli como um representante legítimo do coletivismo e protecionismo. E bem sabemos que o resultado entre coletivismo e estado autoritário pode ser qualquer coisa, menos o da defesa pela autonomia individual.
Aqui Rodrigo Viana cita alguns exemplos para provar que nem todas as Direitas são individualistas. Não é nenhuma surpresa constatar que os três primeiros nomes cita-dos são de pensadores que foram extremamente simpáticos ao regime absolutista (o terceiro começou como um liberal clássico, mas desistiu por achar que o Estado deveria ser forte). Mais uma vez, não dá para chamar essas figuras de representantes do pensa-mento de Direita. Eles eram representantes da velha política.

Benjamin Disraeli era de Direita? Questionável isso. Ele podia até ter algumas características de um conservador de Direita, mas isso não significa muito. Não se pode classificar uma pessoa por algumas características apenas. É necessário ver o panorama geral. Por exemplo, um aluno que tirou cinco notas baixas em química é bom ou ruim nessa matéria? Depende. Se ele fez apenas cinco provas, é um aluno ruim, pois foi mal em todas as provas que fez; se fez dez ou doze, ele é mediano; se fez vinte ou trinta, então ele é bom e suas notas baixas foram apenas exceções. É uma questão numérica.

Do mesmo modo, alguém pode ter algumas (ou até muitas) características de um conservador de Direita, mas também ter um número semelhante de características que são próprias da Esquerda. Este indivíduo acaba, portanto, ficando no centro do espectro, o que o torna um centrista. Rodrigo continua:

A Direita é muito mais do que a visão política americana e Edmund Burke não é o único representante do Conservadorismo. Por isso mesmo que a Direita pode tanto estar mais próximo do individualismo (como a Antiga Direita americana) como do coletivismo (a tradicional Direita europeia).
O próprio Partido Conservador britânico, no período pré e pós-Segunda Guerra, é um exemplo desse socialismo de Direita.
Rodrigo continua fazendo confusão entre diferentes tipos de conservadorismo. É justo explicar aqui: quase todas (senão todas) as pessoas são conservadoras. Tanto as de Direita como as de Esquerda. Afinal, todos desejam conservar algo que acham positivo para sociedade. E naquilo que se deseja conservar, reformas são sempre leves, graduais e vistas até com ceticismo. No caso da Esquerda, por exemplo, temos aqueles que querem conservar o regime socialista cubano (que já tem mais de cinqüenta anos). Eles são conservadores socialistas de Esquerda, portanto.

Então, quando vamos falar de conservadorismo, é muito importante fazer distinção entre os diversos tipos de conservadorismo existentes. É isso que Rodrigo não faz em seu texto. Para ele só existe um tipo de conservadorismo, que engloba absolutistas, teocratas, burkeanos e nacionalistas. E para ele, todos esses formam a Direita. Não me admira que alguém com essa visão, ache inconsistente o rótulo de Direita.

Quanto a Burke, Rodrigo está certo ao dizer que ele não é o único representante do conservadorismo. Existem outros representantes, assim como também existem outros conservadorismos. O conservadorismo de Burke é também chamado de conservadorismo moderno e é invenção da nova política iluminista, da onde surgem também a Direita e a Esquerda. E a Direita se baseia justamente nesse conservadorismo, em oposição ao conservadorismo absolutista. Ficou claro?

Então, no fim das contas, a Direita que existe nos EUA é a mesma Direita que existe na Europa, pois a Direita nasceu baseada no liberalismo e no conservadorismo defendido por homens como Burke, Alexis de Tocqueville e Bastiat. E essa tal “Direita” clássica européia, coletivista e regressista, que Rodrigo menciona, na verdade, é a antiga política absolutista (não a Direita).

Quanto ao “socialismo de Direita”, isso não existe. Quando um partido político dito de Direita se rende ao socialismo, a conclusão a que devemos chegar não é a de que Direita e Esquerda são rótulos ineficientes, mas sim a de que aquele partido abriu mão de princípios direitistas e se moveu em direção à Esquerda. As definições de Direita e Esquerda continuam as mesmas, o que muda é a postura de partidos e de seus políticos.

E o mesmo exemplo serve para a Esquerda. Não são todas as correntes ditas esquerdistas que se opõem ao indivíduo. Mutualistas como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker defendiam medidas “socialistas” ao enfatizar o modo cooperativo e de ajuda mútua da sociedade, porém sem a perda da autonomia individual. Seria então estes anarquistas direitistas? Certamente que não. Ou melhor, existe algum tipo de corrente anarquista que seja adepto da Direita? Bom, só de haver uma ligação entre “anarquia” e “Direita” já demonstra o quão limitado é enxergar a política de modo binário.
Ora, como eu falei antes, se o anarquismo não pertence nem a Esquerda, nem a Direita, podendo ser tanto de um quanto de outro, então é perfeitamente plausível afirmar que um anarquista também pode ficar no meio do espectro. Por que não? Eu não trabalho com uma divisão binária. Para mim, uma pessoa pode ser de Esquerda, ou de Direita, ou de Centro, ou de Centro-Esquerda, ou de Centro-Direita. São cinco posições diferentes. Dá para enquadrar todo mundo em algum lugar (a exceção dos absolutistas, que não fazem parte desse esquema político moderno).

Compreendendo o meu paradigma

Chegando ao fim de seu texto, Rodrigo começa a mostrar que não entendeu nada do que escrevi na postagem “Confusões Clássicas sobre Direita e Esquerda”. Ele diz:

Bem sabemos que a Direita era composta por pessoas anti-revolucionárias e a Esquerda por pessoas favoráveis a mudança.
Não, cara, não! Foi exatamente essa confusão que eu tentei desfazer durante todo o meu texto. Direita e Esquerda são duas vertentes ideológicas que começaram a se desenvolver muito antes do advento da Revolução Francesa (embora não com esses nomes ainda). Duas vertentes que, embora desde o início tenham sido antagônicas, têm algo em comum: ambas surgiram como parte integrante da nova política iluminista, contrária à velha política absolutista.

O que surge na Revolução Francesa não são essas vertentes ideológicas, mas sim a idéia de se chamar políticos mais radicais de Esquerda e políticos mais conservadores de Direita. Entretanto, como tais definições são muito vagas e não conseguem definir uma linha de pensamento específica para cada termo, não demorou muito para que as duas palavrinhas começassem a ser utilizadas para nomear as duas vertentes das quais acabamos de falar. A vertente humanista passou a ser chamada de Esquerda e a vertente não-humanista passou a ser chamada de Direita. Só a partir daí, os termos Esquerda e Direita passaram a ter um significado fixo e concreto.

Pode-se perguntar aqui: “Mas não existem outras acepções das palavras Direita e Esquerda? Por que apenas uma delas pode estar correta?”. É uma ótima pergunta. Eu a respondi no outro texto, mas vou detalhá-la melhor agora. Existem quatro acepções que são possíveis:

(1) Direita = Absolutistas e Esquerda = Revolucionários;

(2) Direita = Conservadores e Esquerda = Radicais;

(3) Direita = Defensores do status quo e Esquerda = Defensores da mudança;

(4) Direita = Amiga da elite e Esquerda = Amiga dos oprimidos.

A primeira acepção é falha porque se você considera os absolutistas como sendo de Direita e os revolucionários anti-absolutistas como sendo de Esquerda, terá que dizer que a Direita e Esquerda sempre existiram, já que reis com poderes absolutos e pessoas contrárias a esses reis são bem anteriores a 1789. E se consideramos esta acepção, então nunca fez sentido chamar, por exemplo, Marx, Gramsci, Lênin, Stalin, Lula e Dilma de Esquerda, assim como também nunca fez sentido chamar Churchill, Reagan e Thatcher de Direita. São termos nulos para um contexto pós-absolutista.

Então, se alguém quer usar essa acepção, deve respeitar essas regras: parar de usar esses termos para nomear ideologias e movimentos dos últimos cento e cinqüenta anos de história e passar a usá-los para nomear ideologias e movimentos de todos os anos anteriores em que houve reis com poderes absolutos e revolucionários contrários ao absolutismo do rei. Bem, não conheço ninguém que tenha utilizado os termos dessa maneira. Nem mesmo os primeiros que os utilizaram.

A segunda acepção também é falha porque é contextual. Como já expliquei, ser conservador ou ser radical depende muito do contexto político. Burke talvez fosse um radical para os integrantes do partido Tory, mas era um conservador para os radicais da Revolução Francesa (tanto que é chamado o Pai do conservadorismo). Ora, se o mesmo cara é conservador (“Direita”) e radical (“Esquerda”), então essa acepção também não serve para definir coisa alguma. E terminologias que não definem nada, são inúteis.

A terceira acepção também é contextual e inútil. Se ser de Direita é ser defensor do status quo e ser de Esquerda é ser defensor da mudança, então Fidel Castro, Lula e o PT são de Direita atualmente, e Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e o partido Republicano dos EUA são de extrema-esquerda até o momento atual (e no futuro pode mudar tudo de novo, pois é uma questão de contexto). Não preciso dizer mais nada, né?

Por fim, a quarta acepção, também não presta. Colocar a Direita como amiga da elite e a Esquerda como amiga dos oprimidos é criar uma visão maniqueísta da política e fazer com que creiamos que um lado sempre está certo e o outro sempre está errado, não importando o que façam. É evidente que essa visão é preconceituosa e, do ponto de vista histórico, totalmente falsa.

É interessante ressaltar que todas essas acepções, quando utilizadas por alguma pessoa, costumam ser misturadas com a acepção mais concreta e definidora das palavras Direita e Esquerda. Trocando em miúdos, o mesmo cara que afirma que Lula, Chávez, Fidel, Moralez e Kirchner são de Esquerda (acepção mais concreta), afirma que ser de Esquerda é ser anti-absolutista, radical, defensor da mudança e amigo dos oprimidos, em oposição a ser de Direita, que significa ser absolutista (ou, pelo menos, ter a mesma ideologia de um absolutista), ser conservador (o mesmo conservadorismo da época do absolutismo), defensor do status quo (mesmo que o status quo do contexto esteja sendo defendido pela esquerda) e ser amigo da elite (ainda que a elite seja de esquerda e você seja contra ela).

O leitor consegue ver a confusão? É uma mistura de várias acepções diferentes, falhas, inúteis e auto-excludentes, que são agregadas umas as outras com o intuito de fazer todo mundo acreditar que Direita é coisa de gente ruim e que Esquerda é coisa de caras legais. E tem um monte de ingênuo dos dois lados que acreditam.

Portanto, entendam: há uma confusão na definição do espectro político. Usa-se acepções diferentes todas juntas. Não pode. Usa-se definições contextuais e definições fixas juntas. Também não pode. Ou você entende Direita e Esquerda como palavras que definem vertentes específicas, anti-absolutistas (as duas), que ainda são válidas nos dias de hoje, ou você escolhe uma daquelas quatro acepções possíveis, que ou não definem nada ou já não servem para nada há mais de cento e cinqüenta anos.

Se você escolhe a primeira opção (vertentes específicas), não pode, por exemplo, dizer que os absolutistas eram de Direita, assim como liberais e burkeanos. Eles podiam ser de Direita espacialmente falando (sentavam-se nas cadeiras que ficavam à Direita do monarca), mas enxergando Direita e Esquerda no sentido de duas vertentes específicas válidas até hoje, você não pode fazer essa mistura. São dois sentidos diferentes.

Normalmente o que se fala é que havia absolutistas na Direita e socialistas e radicais na Esquerda, certo? Sim, porém há mais história a se contar. Não havia apenas socialistas e radicais na Esquerda do parlamento francês, mas liberais também. Frédéric Bastiat, um importante liberal clássico francês, sentou a esquerda dos absolutistas, se juntando a socialistas e anarquistas. Quer dizer então que o Liberalismo é uma corrente legitimamente esquerdista (ou seja, de viés reformador e revolucionário)? Não, quer dizer que ele era oposição à Antiga Ordem e que até mesmo nesta época a conotação Direita e Esquerda já nascera limitada.
Não, Rodrigo! Como eu falei, quando definimos Direita e Esquerda como duas vertentes que se opuseram ao absolutismo e que duram até hoje, os absolutistas, embora se assentassem na Direita, devem ser classificados apenas como absolutistas; e radicais, embora se assentassem na Esquerda, devem ser classificados como opositores do absolutismo, alguns desses de Esquerda e outros de Direita. Entende? Usando esta definição, a questão espacial se torna irrelevante (mesmo tendo servido de base para a adoção dos termos pelas duas novas vertentes posteriormente).

Então, sim, Bastiat, um liberal, estava do lado de anarquistas e socialistas. Isso não o faz um esquerdista, mas um iluminista de orientação direitista, opondo-se a velha política, ao lado de iluministas de orientação esquerdista que, apesar das diferenças para com os liberais, estavam juntos contra o absolutismo. Expliquei isso no outro texto. Não estou fazendo revisionismo histórico aqui. Apenas usando a acepção mais concreta das palavras Direita e Esquerda e não as misturando com outras acepções.

E que por isso enfatizo a feliz argumentação contida no texto Confusões Clássicas… em dizer que a Direita da época estava a defender não os “valores direitistas”, mas o absolutismo. E o mesmo raciocínio pode ser usado para a Esquerda da época, cada um defendendo as suas posições. Isso é um bom exemplo de que Direita e Esquerda também pode ser feita através das circunstâncias e do momento.
Não, eu não disse isso. O que eu disse foi que absolutistas não formam a Direita, se definimos a Direita como uma das vertentes da política iluminista, que existe até os dias de hoje. E, nesse sentido, é claro que absolutistas não estavam defendendo valores direitistas; eles não eram direitistas. Entretanto, se definimos Direita e Esquerda como termos da época, usados para definir quaisquer outras coisas e que não servem hoje ou cujos significados dependem do contexto político, então, esquece tudo o que falei. Só peço, mais uma vez, que não misture as duas coisas.
Indo em tempos mais atrás, porém atravessando o mar, podemos pegar o exemplo da Revolução Gloriosa inglesa. Antes mesmo de qualquer menção a Esquerda ou Direita, a Antiga Ordem era defendida pelo partido Tory e a oposição pelo partido Whig. De modo que os tories vinham de posições mais conservadoras e pró-absolutistas e os whigs de posições liberais e contrários ao absolutismo. E lembramos que um dos opositores, do qual possuía certo prestígio no partido Whig, era ninguém mais que Burke. Seria então o “pai do conservadorismo moderno” um esquerdista de sua época?
Isso tudo só prova o que eu falei. O que se tinha na Inglaterra da época não era um partido de Direita (Tory) e um partido de Esquerda (Whig). O que se tinha era um partido absolutista e um partido iluminista. Dentro do partido iluminista, é que havia os que eram de Direita e os que eram de Esquerda (os termos não existiam ainda, porém as vertentes sim). Burke era de Direita. E os absolutistas? Eram absolutistas. Só.
Outra questão importante a se analisar é a questão das correntes autoritárias. Se a Esquerda possui o Marxismo como forma maior de seu autoritarismo, não seria absurdo dizer que a Direita também tem a sua. É fato que o Fascismo e o Nacionalismo contém certos elementos ligados a Direita, principalmente do conservadorismo europeu. Posições como economia mista, anti-individualismo e nacionalismo são compartilhadas por autoritários de todo tipo. Longe de querer fazer uma análise sobre o Fascismo ou Nacionalismo, apenas relembro que a Direita “deu” contribuições, mesmo que de modo indireto e/ ou inconsciente, para as ideologias autoritárias.
Aqui Rodrigo apenas continua argumentando dentro de seu de raciocínio. Como ele mistura acepções diferentes das palavras Direita e Esquerda, e não faz distinção entre os diferentes tipos de conservadorismo, acredita que a Direita “deu” contribuições para nazistas e fascistas. Mas ainda que o nazismo e o fascismo tenham realmente uma idéia ou outra provenientes da Direita, isso não faz deles movimentos de Direita. Como já disse, não se pode classificar algo se baseando apenas em algumas características. É preciso ver o panorama geral.
Algo a mencionar seria a posição tomada pela Antiga Direita brasileira ao apoiar um golpe autoritário e anti-democrático no país, favorecendo os militares no poder. Dado que também não pretendo entrar no mérito utilitário quanto a isso. Deixo apenas como referência histórica.
Na real, o Brasil nunca teve um governo realmente de Direita. Pode ter tido um governante ou outro de Direita, mas uma andorinha só não faz verão. O que tivemos no Brasil foram governos de Esquerda, de Centro-Esquerda, de Centro e talvez, quem sabe, de Centro-Direita. A ditadura foi centrista (vou explicar mais abaixo). Ela se valeu de elementos tanto de Direita como de Esquerda.

A razão pela qual a ditadura militar do Brasil é vista como de Direita é que (1) ela adotou uma aparência de conservadorismo moral e religioso; (2) ela se posicionou contra o comunismo (e todo mundo que se posiciona contra o comunismo é taxado de direitista); (3) muitas pessoas que eram realmente de Direita apoiaram o golpe porque acreditaram mesmo que este era apenas uma defesa contra o comunismo e que, dentro em breve, a política do país iria voltar ao normal (ingenuidade mesmo); (4) os militares se consideravam (pelo menos se diziam) representantes da Direita. Mas, evidentemente, nada disso prova que essa ditadura foi de Direita.

Toda essa análise nos faz pensar em até que ponto é válido o uso desses termos já universalizados. Novamente, são termos imprecisos que podem gerar interpretações duvidosas, mas que pode ajudar algumas vezes. Não sou contra o seu uso, desde que seja empregado de forma correta e dentro do contexto. Contudo, o mais importante é saber que ele não deve ser usado como único recurso para uma análise política. Estamos nos século 21, vivendo em um novo milênio, e não no século 18. Acho que já deu pra perceber que a velha interpretação está mais do que ultrapassada.
Esse já é o final do texto de Rodrigo. Perceba que a conclusão dele é de que os termos Direita e Esquerda são imprecisos. Na verdade, não são. Imprecisos são termos como Reacionário, Moderado, Conservador, Reformador e Revolucionário. Imprecisas também são algumas acepções possíveis das palavras Esquerda e Direita, que, de modo errôneo, ainda são misturadas à acepção mais fixa e concreta que é comumente utilizada por todos. Também podemos dizer que são imprecisos os políticos e os partidos, porque se desviam de seus princípios muitas vezes. Porém, nenhuma dessas imprecisões altera o significado fixo e concreto dos termos Direita e Esquerda.

Enfim, sinceramente, a argumentação de Rodrigo não conseguiu me convencer quanto a pouca utilidade dos termos Direita e Esquerda. Creio que, se eles forem usados corretamente, sem misturas de diferentes acepções das duas palavras e primando por significados fixos e específicos, não vejo dificuldades na classificação.

A Questão do Centrismo e a classificação geral

Resta uma questão pendente. O que é centrismo? Não cheguei a definir com exatidão esse termo em nenhum texto meu. Eu já pretendia fazer isso há um bom tempo, mas até então não tinha percebido que era tão necessário.

Enfim, como eu falei, eu não vejo o espectro político como uma divisão binária, na qual só se pode ser de Esquerda ou de Direita. Pelo contrário, reconheço que entre os dois pólos existem muitos posicionamentos diferentes, alguns mais inclinados para a Esquerda, outros mais inclinados para a Direita e outros que, de fato, ficam exatamente no meio do espectro. Todos esses posicionamentos intermediários são o que chamo de Centrismo.

Isso não é novidade. Não fui eu que inventei a idéia. A diferença da minha visão de centrismo para a visão comum das pessoas é que não entendo que ser de Centro signifique “ser moderado”. Todo mundo acha que um governo, partido ou pessoa centrista é aquele que é meio capitalista, meio socialista; meio individualista, meio coletivista; meio livre mercado, meio interventor; e, claro, que não faz uso de violência e repressão, porque violência e repressão são coisas de extremistas, e o centrista não está no extremo de nada.

Mas essa definição não é lógica. É só raciocinar: se o centrista é centrista porque está no centro do espectro, entre um lado e outro, isso significa que ele adotou tanto idéias de Direita como idéias de Esquerda, em número semelhante. Por isso é que não dá para defini-lo em um dos lados. Moderação de idéias e moderação de violência nada tem a ver com ser de Centro.

Primeiro, porque a maioria das idéias de Direita e de Esquerda não pode ser adotada pela metade. Não se pode ser meio individualista e meio coletivista. Não se pode ser meio livre mercado e meio interventor. Não se pode ser meio pró-aborto e meio pró-vida. Não se pode ser meio a favor da legalização da venda de armas e meio contra a mesma. Você pode até ser moderado em cada uma dessas idéias, mas não pode adotar as duas, já que são excludentes.

Segundo, porque o espectro político não é um gráfico de violência e repressão nos diferentes regimes, no qual os extremos representam os regimes mais agressivos e violadores dos direitos humanos. Não! O espectro político é um gráfico de ideologias, no qual os extremos representam os regimes que adotaram um grande número de idéias do pólo em que estão e que seguem essas idéias com mais afinco. Assim, extremista não quer dizer violento e repressivo (a não ser sua idéia extremada implique em violência e repressão), tal como centrista não quer dizer moderado e democrático.

Ser centrista é seguir idéias de Direita e de Esquerda em número parecido, não importando quais sejam essas idéias. Todo mundo tem alguma idéia do pólo oposto que adota para si. Sou de Direita, mas concordo com uma coisa ou outra de Esquerda. Isso não muda em nada minha posição no espectro, pois a maioria esmagadora das idéias que sigo são de Direita. O mesmo serve para alguém de Esquerda que concorda com uma coisa ou outra de Direita. Isso é normal. Contudo, o centrista é aquele que concorda com muitas posturas da Direita e muitas posturas da Esquerda, o que o tira de ambos os pólos, deixando-o no centro.

Deve-se ressaltar ainda, que um centrista não tem um perfil definido. Justamente por ter idéias de ambos os pólos, há uma maior flexibilidade. Um centrista pode ser bem diferente de outro, em função disso. Um pode ser anticomunista, mas crer na intervenção estatal. Outro pode ser contra a legalização da venda de armas, mas a favor de um governo que intervenha pouco. Outro já pode ser a favor de um governo muito intervencionista, mas também a favor da legalização das armas. É claro que só essas características não definem se uma pessoa é de Centro. Entretanto, o que quero mostrar é que, diferentemente de esquerdistas e direitistas, os centristas formam um grupo muito mais amplo e heterogêneo.

Aí entra a questão das ditaduras centristas. O termo pode causar estranheza, mas por que não seria possível uma ditadura centrista? Se já vimos que centrismo nada tem a ver com moderação de violência, não faz sentido achar que há contradição entre esses dois termos. De fato, procurando por alguém que pensasse parecido comigo, encontrei um belo artigo do senhor Plínio Corrêa de Oliveira, intitulado “Ditatorialismo Publicitário Centrista” [2]. Embora, o artigo não tenha como objetivo principal definir o que é o centrismo político, ele lança uma tremenda luz sobre o tema. Diz a introdução do artigo:

A dignidade da abertura consiste na neutralidade. Com efeito, ela é o contrário da ditadura. E esta última não consiste em fechamento para todos, mas sim para um dos lados do tabuleiro político. Isto é, abertura para o lado em que se encontra o Poder, e fechamento para os que discordam do Poder. Não vem ao caso se a abertura é para a esquerda e o fechamento para a direita, ou vice-versa o contrário. Não é o colorido político do ditador que caracteriza a ditadura. E, por isto mesmo, a palavra ditadura se aplica tanto aos governos que fazem fechamento para a direita quanto aos que o fazem para a esquerda: "ditadura de direita", "ditadura de esquerda" são expressões que se encontram a qualquer momento em todos os lábios, se lêem em todos os jornais e se ouvem em todos os rádios e televisões.
Reduzindo a essa clareza elementar e óbvia conceitos já tão conhecidos, tenho a intenção de levar ao último grau da evidência a relação entre neutralidade e abertura. Uma abertura não neutra – disfarce-se como se queira – não é senão uma ditadura. As correntes de pensamento e os órgãos de comunicação social favoráveis à abertura lucrariam muito tendo continuamente em vista esta verdade tão elementar.
Digo-o especialmente com referência a personalidades, emissoras e folhas que se ufanam de intitular-se centristas. Pois mais de uma vez violam a neutralidade "aberturista", julgando que ficam a salvo da pecha de ditatoriais pelo simples fato de usarem a etiqueta de centrista. Como se uma ditadura centrista constituísse uma contradição nos termos.
A mais ligeira análise revela ser isto inexato. Se um governo, para executar seu programa centrista, praticasse um fechamento tanto para a direita quanto para a esquerda, ele apresentaria evidentemente a grande característica ditatorial, a qual consiste em trancar a voz dos discordantes.
E não se julgue que a hipótese de uma ditadura centrista constitua uma quimera, um simples ente de razão. Para prová-lo, cito um exemplo histórico característico. Em função da política interna da França de seu tempo, Napoleão foi essencialmente um centrista. A França estava então esquartejada em duas facções irredutíveis: os republicanos e os monarquistas partidários dos Bourbons. Instalado no poder, o Corso perseguiu e reduziu ao silêncio os líderes de uma e outra França. E, pela força bruta, impôs seu regime centrista, mescla violentamente contraditória de vulgaridade revolucionária e de aparato régio, justapostos pelas garras da águia imperial nimbada de glória militar. No tempo, era esta a forma praticável de centrismo. De centrismo ditatorial.
Embora, Plínio utilize as palavras Direita e Esquerda, neste artigo, como termos mais contextuais (como se Direita e Esquerda sempre fossem duas facções opostas entre si, em determinado contexto, não importando a ideologia que sigam), o artigo é maravilhoso. Ele mostra de maneira muito clara que (1) ser centrista é ter características tanto de Direita como de Esquerda e que (2) ser um ditador centrista é se fechar tanto para um lado como para o outro, afinal, quem não é de nenhum dos lados, não cumpre a agenda de ninguém.

Pois bem, é exatamente isso que o período ditatorial do Brasil fez. Ele procurou calar a voz da Esquerda, mas agiu como esquerdista ao fortalecer estatais e colocar o governo como gestor da vida individual e do progresso. Ele agiu como direitista ao criar uma cultura de conservadorismo moral-religioso e tentar abrir o mercado brasileiro para indústrias estrangeiras, mas rechaçou uma política mais direitista, que minimizasse a ação do governo na economia e na vida das pessoas, deixando o mercado mais livre e respeitando o individualismo.

Se tal regime foi de Centro-Direita ou de Centro-Esquerda, só uma análise mais profunda de suas diversas características pode nos dizer. Tenho para mim que em sua maior parte, a ditadura do Brasil foi de Centro-Esquerda, diferentemente da ditadura de Pinochet, no Chile, que pode ter sido de Centro-Direita (ou de Direita, talvez).

Quanto a outros representantes do Centro, podemos mencionar o ex-presidente FHC e seu partido, o PSDB. A Social-Democracia é originalmente de Esquerda (uma Esquerda moderada), mas, a depender do contexto, pode se deslocar para o Centro, tornando-se um governo de Centro-Esquerda (como no caso do PSDB mesmo). Entretanto, a Social-Democracia quase sempre é mais bem enquadrada na Esquerda.

O DEM é um partido de Centro que às vezes se desloca para Centro-Direita, por ter alguns integrantes com propostas liberais. Entretanto, o vício esquerdista do nosso país coopta este partido para Centro-Esquerda na maioria das vezes. Recentemente, seu deputado Rodrigo Maia se candidatou à prefeitura do Rio. Suas propostas não tinham nada que o diferisse de propostas do PSDB e PMDB (este último, também de Centro e Centro-Esquerda).

O PT é de Esquerda. Sempre foi. Sempre será. Mas, estando no poder, é muito difícil um partido, de Esquerda ou de Direita, não se deslocar ao menos um pouco em direção ao Centro. Primeiro, em função da pressão da oposição. Segundo, em função da necessidade de ser pragmático às vezes. E, por fim, por causa da mídia. A mídia é e sempre foi centrista. Porque tanto a visão extrema da Esquerda como a visão extrema da Direita são prejudiciais aos interesses das grandes empresas midiáticas. Nenhum grande empresário da mídia quer um governo comunista, porque sua empresa vai rodar. Mas também nenhum grande empresário da mídia quer um governo laissez-faire, pois a concorrência vai aumentar (e ela pode engolir sua empresa).

Com relação à política dos EUA, muitos costumam a dizer que lá não existe uma Direita e uma Esquerda; que o partido Republicano e o partido Democrata são ambos de Centro. Mas a verdade é que a luta entre Direita e Esquerda nos EUA é uma das mais visíveis do mundo. Os dois partidos são sim de Esquerda e Direita. Agora, é claro que no interior de cada partido existem políticos que são mais extremos e políticos que são mais centristas. Um político pode mudar para o pólo contrário, entrando em contradição com a ideologia do próprio partido. Mas isso, penso, é mais raro. Creio ser mais fácil passar do extremo de seu pólo para o Centro. E como a mídia é muito centrista, então é comum que, ao chegar ao poder, muitos políticos ajam de um modo parecido, embora de pólos opostos.

Por fim, o nacional socialismo alemão (nazismo), o fascismo italiano, fascismo espanhol (franquismo) e o populismo getulista no Brasil, não são de Direita. O nazismo é indubitavelmente de Esquerda, tanto por sua plataforma teórica, como pelo que fez na prática. O fascismo italiano teve diferentes fases. Como Mussolini era um político bem pragmático, podemos dizer que em alguns momentos sua política foi de Centro-Direita e em outros, de Esquerda. Contudo, o conjunto da obra não nos permite apontar o fascismo de Mussolini como um regime de Direita.

O franquismo, por zelar por uma aparência conservadora, no âmbito moral religioso, talvez tenha chegado a ser de Centro-Direita em alguns momentos. Mas dificilmente poderia ser chamado de regime de Direita, já que o fascismo não é um regime de Direita em sua essência. O populismo getulista, por fim, não só foi de Esquerda como é um dos melhores exemplos de como um ditador de Esquerda pode ser um exímio estrategista, conseguindo conter as tensões entre diversos grupos de interesse e manter uma imagem positiva com o povo. A política de Getúlio é uma coluna para ditadores como o falecido Hugo Chávez, Evo Moralez e Cristina Kirchner.

Conclusão

Esta postagem ficou maior do que eu gostaria que ficasse. E o pior é que alguns assuntos foram apenas pincelados, já que merecem postagens individuais. Mas creio que consegui mostrar um panorama geral de uma definição concreta, fixa, lógica e historicamente coerente de Direita e Esquerda. A idéia foi mostrar que existem acepções dos termos que são falhas, e que há mistura entre acepções diferentes, o que gera incoerências nas definições.

Não intentei provar que sei mais. Apenas desejei dar minha contribuição sobre um assunto que julgo interessante. Talvez eu tenha errado em algum ponto, mas busquei não me afastar da lógica. Por fim, não intentei ofender Rodrigo Viana e Felipe Renan, cujos textos acompanho e admiro. A discussão aqui visa somente uma livre, construtiva e saudável troca de idéias. Só isso.

____________________________

Notas:

[1] Uma crítica possível e que não tratei no texto é a de que o anarquismo não pode ser de Direita porque seria muito incoerente colocar Anarco-Capitalistas e Conservadores direitistas lado a lado. De fato, um Anarco-Capitalista não pode ser um Conservador (e vice-versa), já que o conservador preza pelas instituições antigas e uma das instituições mais antigas do mundo é justamente o Estado, o qual o Anarco-Capitalista deseja tirar de cena. Entretanto, acredito que mesmo o Anarco-Capitalista não sendo Conservador, ele apresenta idéias conservadoras que estão entranhadas no liberalismo. Idéias como o pessimismo antropológico (que é base das religiões tradicionais, inclusive); o respeito à religião; a visão de que os seres humanos são diferentes e que, por isso, é normal haver diferença de resultados na vida; a responsabilização do indivíduo pelos seus atos; uma moral não-relativista; a valorização da coletividade espontânea; o direito de escolha; e até mesmo a valorização das instituições, já que, embora o Anarco-Capitalista queira acabar com o Estado, ele não se opõe às demais instituições, apenas quer que tudo passe a ser propriedade privada. Em vista disso, é plausível dizer que o Anarco-Capitalista não está tão distante do Conservador. Pelo menos, ele está mais perto do Conservador do que dos esquerdistas.

[2] Oliveira, Plínio Corrêa de. Ditatorialismo Publicitário Centrista. São Paulo: Folha de São Paulo (09/08/83). Presente no link abaixo:

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/MAN_19830809_Ditatorialismopublicitariocentrista.htm

Leituras Recomendadas:

1. Ayan, Luciano. Reacionários e Conservadores de Esquerda?! Claro que sim! São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/09/27/reacionarios-e-conservadores-de-esquerda-claro-que-sim/

2. Ayan, Luciano. Será o Nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior... São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/07/15/sera-o-nazismo-de-extrema-direita-not-so-fast-junior/

3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.

4. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).

5. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intel-lectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Carta a um professor marxista

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No dia 5 de fevereiro deste ano enviei uma carta-email a um professor meu da minha universidade. O assunto da carta: Reflexões sobre a doutrinação ideológica de meu professor em sala de aula. Embora os fatos que aqui serão citados sejam reais, optei por utilizar nomes fictícios, a fim de não expor ninguém a qualquer tipo de constrangimento ou popularidade indesejada.

Antes de ser criticado pelo leitor por levar este texto a público, devo dizer que meu professor não entendeu meu email como uma falta de respeito. Visto que sua resposta (a qual mostrarei no final desta postagem) foi positiva e elogiosa à minha postura questionadora, ratificando que não se sentiu ofendido, acredito não haver problema em expor o texto aqui, respeitando, no entanto, a sua identidade.

As datas estranhas que cito aqui (sempre no mês de fevereiro, mês de férias nas faculdades) se justificam pelo fato de minha universidade ter ficado três meses sem aulas, em função da greve das universidades federais e estaduais que ocorreu no ano passado. Portanto, estamos tendo aulas desde a segunda semana de Janeiro para repor esse tempo de inatividade. Por fim... Segue-se o documento.

A Carta

Caro professor Fernando [nome fictício],

O objetivo deste email é fazer conhecido ao senhor uma série de reflexões que tenho feito em cada uma de nossas aulas (desde o semestre passado) a respeito de seus comentários sobre política. Desde já, quero deixar claro que admiro o senhor pelo seu senso crítico e seu engajamento político, bem como o vejo como um professor que ama a seus alunos e que ama dar aulas (coisas essenciais em um professor).

Entretanto (e esse é o assunto deste email), eu não concordo com a maioria das análises que o senhor faz e, para não correr o risco de me passar por hipócrita em nossas aulas, acredito que o melhor a fazer é expor-lhe minhas opiniões. Se não o fiz antes, nas próprias aulas, não foi por covardia, mas por sensatez e humildade. O senhor é um homem culto, que já leu e ainda lê muito, que desde novo sempre esteve muito inteirado em assuntos políticos e que tem bastante experiência de vida. E eu sou um mero aluno universitário, de dezenove anos de idade, que não viu muita coisa e que não tem um ano que começou a se interessar por política.

Eu o rebateria em todas as aulas se o senhor fizesse ataques à crença em Deus e ao cristianismo, pois deste assunto eu entendo e venho estudando fortemente há mais de quatro anos. Mas eu simplesmente não tenho condição de me levantar, em plena sala de aula, para discutir sobre política com um doutor de sessenta anos que respira política desde jovem. O senhor iria citar detalhes que desconheço, formaria argumentos em cima disso e eu não teria como responder naquele momento. Sobretudo, num ambiente onde, provavelmente, os meus colegas de classe estariam do seu lado e contra mim, tendo em vista a aceitação unânime que meus colegas parecem ter do que o senhor diz. Seria uma bancarrota histórica.

Em vez de fazer tamanha idiotice, preferi me recolher à minha ignorância e fazer o que de mais importante um aluno pode fazer: ouvir e ponderar. É o que tenho feito em todas as suas aulas. É possível que o senhor pense que concordo com tudo o que o você fala, já que nunca me opus. Mas quem cala nem sempre consente; às vezes reflete.

De modo nenhum o que vou escrever aqui se constitui um ataque ou um texto que intenta desmoralizar o senhor. É apenas um texto fruto de reflexões a respeito do que tenho ouvido em cada aula. A opção pela escrita é que sempre me saio melhor escrevendo do que falando.

Ponderações sobre a aula do dia 29 de fevereiro

A UERJ é um antro de esquerdistas. Quase todo mundo que eu conheço lá ou é de esquerda ou é aquele típico centrista que está sempre inclinado para a esquerda. Mas, dificilmente encontrarei alguém mais esquerdista que o senhor. O senhor é daqueles esquerdistas que já nasceu lendo Karl Marx. Não que ser de esquerda seja necessária-mente o mesmo que ser marxista e/ou comunista, mas o senhor abraçou a doutrina do alemão barbudo com uma convicção que faz inveja até a um mulçumano tradicional que crê com todas no profeta Maomé. E não há queda do muro de Berlim que o faça parar de criticar vorazmente o capitalismo.

Em todas as nossas aulas, ao dar exemplos e contar histórias que nos possam ajudar a entender melhor a matéria, o senhor não deixa de dar “pauladas” em nossos governantes (o que o faz com toda a razão, diga-se de passagem), pondo, entretanto, a culpa de tudo na direita, nos burgueses, no capitalismo e naqueles conchavos entre governo e mega empresas, que o senhor chama de política “neoliberal” e faz parecer aos alunos que é uma política típica dos governantes de direita.

Pois bem, na terça-feira do dia 29 de fevereiro, acordei cedo, me arrumei e saí de casa rumo à universidade, como faço todos os dias. O tempo estava bem cinza, frio e um pouco chuvoso. Eu já esperava poucos alunos em sala, mas surpreendentemente, ao chegar lá, tornei-me o único aluno da aula. Não havia mais ninguém. E assim foi quase a aula inteira até chegar a Bruna [nome fictício], assistir dez minutos junto comigo e depois sair, uns trinta minutos antes do fim. O senhor deve se lembrar.

Embora mais moderado do que nos demais dias, o senhor não deixou de afirmar suas opiniões. Foi durante o pequeno período de dez minutos em que Bruna estava na sala de aula. O senhor deu um exemplo de como a mídia pode se colocar a favor de um político e contra outro sem falsificar fatos e mantendo aparente neutralidade. Disse algo mais ou menos assim:

Suponha que vocês dois sejam políticos. A Bruna é a favor da privatização dos hospitais públicos e o Davi é contra. Mas a mídia é a favor da Bruna. Como a mídia fará para defender Bruna mantendo uma aparência de neutralidade? Bem, ela irá mostrar como os hospitais públicos estão horríveis e abandonados para que o espectador já forme uma opinião contrária aos hospitais públicos. Também procurará dar mais repercussão a coisas boas em que Bruna está envolvida (por exemplo, Bruna foi a uma festa repleta de pessoas conhecidas que o público gosta) e mais repercussão a coisas ruins na vida de Davi (exemplo: a filha dele foi encontrada se drogando na rua). 
É isso que a mídia faz a favor do nosso governo atual [principalmente a Globo, segundo o senhor]. Nosso prefeito e nosso governador querem acabar com a saúde pública. Os caras querem privatizar tudo. São uns filhos da p*ta. E a mídia está do lado deles.
Não discordo de tudo o que o senhor falou. Realmente a mídia goza de um poder manipulador considerável. Mas isso não é necessariamente ruim ou imoral. É inevitável para todo ser humano manipular. Existe um campo de estudo, em cultura, que se chama semiótica. Dentro dele, alguns autores trabalham com a tese de que todo e qualquer discurso é manipulatório, pois manipular é fazer com que alguém aceite seu ponto de vista. E um ponto de vista por vezes não é uma mentira, mas apenas uma das visões que existem sobre um mesmo fato, a depender das circunstâncias analisadas. É aquela velha história do copo pela metade. Para quem é otimista, o copo está meio cheio e para quem é pessimista, o copo está meio vazio.

Eu não endosso totalmente a tese dos autores de semiótica, pois não concordo com a definição deles de “manipulação”. Mas a tese me serve para averiguar que, pelo menos uma boa parte dos discursos são manipulatórios no sentido de que, mesmo sem perceber, nós sempre vamos puxar sardinha para o nosso lado. Ninguém lista os seus piores defeitos quando está de olho em uma mulher, mas ao falar de si mesmo, costuma mostrar só seus lados positivos. Por isso, para saber qual é a visão mais plausível sobre qualquer fato, é indispensável que se estude as diferentes visões sobre ele.

Creio que as diferentes visões de mundo são um ingrediente essencial para que a democracia funcione e mesmo que a maior parte da mídia apresente uma mesma visão de mundo, ainda assim não é difícil averiguar isso e fugir dessa manipulação. O homem tem capacidade de escolher em que vai acreditar. Basta ter um pouco de senso crítico e procurar estudar (e ler, ler muito).

Agora, perceba que o senhor mesmo se utilizou de manipulação, de indução e de truques psicológicos em seu exemplo. Primeiro, fez com que a mídia ficasse do lado da privatização dos hospitais. Depois, tentou nos induzir a crer que a mídia só fala mal dos hospitais públicos porque quer vê-los privados. Finalmente, em seu comentário, acusa o nosso governo de querer privatizar os hospitais e os chama de filhos da p*ta, o que nos inclina a pensar que, de fato, essa é a meta do nosso governo e que privatizar é uma coisa muito ruim.

Nada disso é evidente. Primeiro, a mídia não está do lado da privatização em si, mas da manutenção desse sistema capitalista aguado de “terceira via” que, ironicamente, é chamado de “neoliberal”. Eu explico: desde os primórdios, o genuíno pensamento de direita vem defendendo o capitalismo como um sistema que não deve sofrer intervenção do governo. Isso significa que o empresário é livre, dentro da lei, para fazer o que quiser de seus negócios e, do mesmo modo, não recebe ajuda alguma do governo se não gerir direito a sua empresa. Ele que arque com as conseqüências.

O Estado, dentro do pensamento da direita, deve se meter o mínimo possível no mundo dos negócios, limitando-se a criar e votar leis justas e fiscalizar o cumprimento dessas leis. Foi justamente esse pensamento que a esquerda sempre rechaçou. Para ela, o Estado tem o papel fundamental de se meter o máximo possível em tudo, a fim de fazer da sociedade um paraíso. Mesmo Marx, que no fim das contas queria o fim do Estado, via o mesmo como uma ferramenta para acabar com a burguesia e transformar o mundo em um lugar igualitário e pronto para não ter mais governos.

Enfim, à exceção da vertente puramente anárquica da esquerda, a ideologia da esquerda é estatizante e intervencionista, o extremo oposto da direita. Se uma pessoa consegue entender isso, também consegue entender que a política de parceria entre o público e o privado chamado pela esquerda de “neoliberalismo” não é uma ideologia de direita, mas uma ideologia esquerdista menos marxista e mais keynesiana (Keynes, o economista que pregava um forte intervencionismo estatal dentro do capitalismo). É a “terceira via”, que não quer destruir o capitalismo, mas quer subordiná-lo totalmente ao Estado, a pretexto de justiça social.

O problema é que, na prática, o que a terceira via sempre gera é: ou uma ditadura populista ou um governo extremamente incompetente e corrupto. A segunda opção é o caso brasileiro. É fácil entender o motivo. O governo intervencionista dificulta a vida de pequenos e médios empresários com altos impostos e muita burocracia. Sobrevivem os grandes empresários que acabam se unindo ao governo para fazer inúmeras obras “para o povo”, o que gera as corrupções e joga fora o nosso dinheiro. Ou seja, o governo está em tudo e, por isso, tem muito mais oportunidade desviar ou usar mal a verba pública.

Os esquerdistas pensam que um Estado intervencionista é um Estado no qual as empresas estão subordinadas a ele. Não necessariamente. Um Estado intervencionista é, na verdade, qualquer Estado que se mete a empresário. São desses modelos que surgem as parcerias público-privadas que tanto facilitam a corrupção, bem como os chamados lobbys (o apoio mútuo entre políticos e empresários, no qual um favorece o outro).

Esse modelo esquerdista de capitalismo aguado pode ser ruim para o povo e para as pequenas e médias empresas, mas é ótimo para os políticos e para as empresas que já estão bem no mercado. É aí que entra a grande mídia. A Globo, por exemplo, não é o que se pode chamar de expoente do pensamento conservador (não vejo nada de Burke, John Locke, Alexis de Tocqueville e Kirk Russell na Globo). Ela é, sim, uma mega em-presa que conseguiu crescer fazendo lobby com os governos militares (ditadores cen-tristas e não de direita, aliás).

Como a ditadura acabou, a Globo precisava se posicionar ao lado de políticos que mantivessem um regime mais ou menos centrista. Não servia a esquerda marxista, porque em pleno fim de guerra fria, nenhuma grande empresa confiaria em políticos que apoiavam o comunismo. Por outro lado, não servia um político laissez-faire, porque ele iria estimular a concorrência entre empresas (até empresas estrangeiras) e se retirar do cenário, deixando a Globo em perigo de perder a hegemonia. Bem, que eu saiba nunca houve um político laissez-faire no Brasil, então a Globo se concentrou apenas em tirar os marxistas do caminho. Viva a terceira via!

Então, voltando à questão das privatizações, a grande mídia não a defende. Ela defende é o modelo público-privado. Desde que esse modelo continue, não importa se as empresas serão públicas ou privadas, porque no fim das contas, dá no mesmo. Esse modelo público-privado da terceira via emperra a concorrência entre as empresas e faz a alegria de quem tem um monopólio. O que seria de Eike Batista se não fossem nossos políticos terceira via?

Mas o que o senhor quer é que seus alunos acreditem que a terceira via é uma política de direita. Não o faz por desonestidade, tenho certeza, mas porque realmente acredita com todas as forças na “estatização de todos os meios de produção”. Então, o que quer que fuja disso, para o senhor, é política de direita.

Um segundo ponto de sua indução é quando dá a entender que nossos hospitais públicos só são criticados pela mídia porque ela quer a privatização deles. Mas como eu já deixei claro, isso é irrelevante para a mídia. A não ser, evidentemente, nos casos em que os empresários por trás de uma organização midiática pretendam comprar esses hospitais. Mas não acho que toda a mídia tenha interesse no setor de saúde.

Seja como for, é fato que o sistema de saúde do Brasil é péssimo. E a mídia deve mesmo bater em cima disso, seja lá qual são as suas reais intenções. Ainda que a Globo e outras empresas midiáticas quisessem comprar alguns hospitais públicos, suponhamos, não vejo isso como algo ruim. Tenho por certo que, em busca de lucro, todas elas iriam melhorar muito os seus serviços médicos para conseguir angariar pacientes de clínicas e outros hospitais particulares, bem como dos que iam aos hospitais públicos.

Caso os hospitais ficassem caros demais para a população mais carente, o Estado teria muito menos gasto em pagar os serviços privados de algum desses hospitais para os mais necessitados (que poderia ser escolhido pela própria pessoa necessitada) do que teria pagando toda a estrutura dos hospitais públicos. Sobraria mais dinheiro, inclusive, para reformar alguns hospitais públicos que não fossem vendidos.

Isso é uma suposição de um interesse da mídia na privatização dos hospitais. Se for verdadeira, no entanto, isso não quer dizer que a mídia seja de direita, conforme o professor sempre afirma. Porque a privatização que grandes empresas querem jamais é uma privatização aos moldes da economia liberal clássica. Elas querem privatizações ao estilo PSDB, onde o governo não incentiva a concorrência. Aliás, uma economia liberal clássica causa calafrios em qualquer grande empresário. Imagine se o governo tornasse bem fácil a criação de emissoras na TV aberta. Pense no desespero da Globo ao ver algo como 20 novas emissoras de grande porte aparecendo em canal aberto.

E os bancos? Sabe por que temos crises financeiras no mundo? É porque todos os governos têm conchavos com bancos. Bancos Centrais existem para unir governo e bancos privados. Essa união traz benefícios para os bancos e para os políticos, mas é a raiz de males como gastos públicos desnecessários, investimentos ruins, hiperinflação, queda fictícia de juros, bolhas imobiliárias, crises mundiais e etc. No entanto, o governo continua sempre bem e os bancos, quando estão para quebrar (depois de fazerem muita merda), são auxiliados com o dinheiro dos nossos impostos. A crise de 1929 ocorreu em função desse conchavo entre governo e bancos, assegurado pelo FED (Federal Reserve), o Banco Central americano (criado em 1913).

Isso não é liberalismo clássico, não é direita, não é laissez-faire. É uma mistura maligna de governo e negócios. A “privatização” nesse tipo de governo é quase sempre a mesma coisa que um casamento entre o governo e os grandes empresários. Se, de fato, nós tivéssemos um governo de direita, as privatizações ocorreriam em conjunto com um afastamento do Estado das questões empresariais e o incentivo a uma concorrência que colocaria pressão nas hegemonias.

A sua terceira indução é quando o senhor dá a entender que nossos governos têm como meta privatizar todo o sistema de saúde pública. Será? O que vejo é apenas um governo se tornando cada dia mais gigante. O prefeito Eduardo Paes, por exemplo, criou um monte de UPA’s e de Clínicas da Família e nenhum hospital foi privatizado. Ou seja, o sistema público de saúde se tornou maior (embora não melhor). Se privatização, para o senhor professor, é o mesmo que parcerias público-privadas, então é possível mesmo que o governo tenha como meta “privatizar”.

Certamente o senhor não concorda que esse tipo de regime é resultado direto da esquerda. Mas basta se lembrar da retórica esquerdista (sobretudo a marxista) no que se refere o capitalismo: “O sistema capitalista é um sistema perverso que se baseia na concorrência selvagem. Todo mundo só está atrás de lucro. Essa é a visão de mundo no modelo capitalista. Mas a esquerda defende uma visão de mundo de mais colaboração e menos competição”. Não é assim? E não é o que vivemos hoje? Onde está a competição acirrada entre várias empresas? Não existe. Só existem monopólios. E o governo é que cria esse sistema.

Por fim, o senhor professor induz os alunos a pensarem que a privatização é algo ruim. Gostaria que o senhor me mostrasse porque pensa assim. Será que a privatização realmente é ruim para as pessoas? Isso é algo tão evidente? Creio que não. Estou lendo um livro interessante recém lançado pelo economista brasileiro Marcelo Constantino chamado “Privatize já”. No livro, o economista mostra de maneira simples e objetiva, comparando os dados, como que as privatizações de empresas como a Telebrás, a Vale, a Embraer e outras melhoraram muito a qualidade e velocidade dos serviços, cresceram, lucraram muito mais, geraram mais impostos para os governos, aumentaram a oferta de empregos ao longo do tempo e aumentaram a folha de pagamento dos funcionários.

Os pontos negativos são, em geral, de curto prazo. Uma empresa que acaba de ser privatizada costuma demitir alguns funcionários no começo, a fim de equilibrar suas finanças e investir em crescimento. A empresa pública não precisa equilibrar finanças, já que o dinheiro é eterno, vem do governo. No entanto, o crescimento que a empresa privatizada experimenta depois de um período de investimentos cria sempre muito mais empregos do que o que existia no inicio. A Vale, por exemplo, emprega hoje oito vezes mais gente do empregava na era estatal. Ora, se a esquerda se preocupa tanto com os que perderão os empregos no início do processo (preocupação justa, claro), a solução é simples: pagar uma gorda indenização ao desempregado. Sem dúvidas, o governo teria dinheiro para isso, sobretudo, depois de não precisar mais pagar o salário de todos.

O problema é que o governo nunca pensa a longo prazo. Ele pensa é na próxima eleição e, por isso, não quer correr risco de ter um monte de sindicato na oposição. E aí as estatais continuam péssimas e sugando dinheiro do nosso bolso (altíssimos impostos, o principal pilar em uma economia de esquerda). Mas o senhor professor, como bom comunista e esquerdista que é, não consegue enxergar isso. Para o senhor, quanto mais poder nós dermos ao todo-poderoso Estado, melhor. Sinto muito, mas não tenho essa fé toda no Estado...

Uma conversa esclarecedora

Um minuto para a aula acabar e duas coisas me incomodaram: eu não fiz muitas perguntas e nem deixei no ar minha opinião. Então, resolvi fazer isso. Comecei dizendo ao senhor que, em minha opinião, grande parte dos problemas residia nessas parcerias público-privadas. O senhor concordou comigo. Perguntei, então, como que essas coisas poderiam ser resolvidas.

Saímos da sala e o senhor foi me falando de suas idéias no cumprido corredor que leva à sala dos professores. O senhor disse mais ou menos assim:

Eu sou a favor de um Estado interventor. Acho que todos esses serviços mais importantes deveriam ficar nas mãos do Estado. Não digo nem acabar com as empresas privadas, mas limitar a atuação delas. Elas podem continuar existindo e competindo, mas o governo deve ficar em cima e não favorecer nenhuma delas, em especial. Cristina Kirchner e Hugo Chávez estão fazendo isso na Argentina e na Venezuela.
Como não poderia deixar de ser, o senhor exalta presidentes que tomam atitudes autoritárias. Nenhuma surpresa, vindo de um comunista. Mas é uma coisa que não entra na minha cabeça, sabe? Posso até entender que um historiador seja comunista, que um filósofo seja comunista, que um economista seja comunista. Mas um jornalista?

Sei que não tenho experiência nenhuma, mas eu aprendi algo em jornalismo: que a liberdade de expressão é o bem mais importante de um jornalista. Então, como é que um jornalista vai defender governos autoritários e ditaduras? Como um jornalista pode ser favorável ao comunismo, cujas empresas jornalistas são do governo? Será que em um regime comunista é permitido ter um jornal que critique as ações do governo?

Jornalistas Comunistas... Acho a coisa mais incoerente do mundo. Eles criticam com todo o fervor o período ditatorial do Brasil (1964-1985) com toda a razão. Mas são incapazes de fazerem o mesmo com os regimes ditatoriais comunistas da URSS, China, Cuba, Coréia do Norte e Camboja, que foram muito mais intensos e que causaram um número de morte milhões de vezes superior (não é exagero ou hipérbole: calcula-se que todos os regimes comunistas, juntos, foram responsáveis por cerca de 100 milhões de mortes, por fome, repressão e guerras).

Para mim, o jornalista deveria ser contrário a todo e qualquer regime ditatorial, não importando se é um regime comunista, fascista ou militar. Há quem diga que Cuba não é uma ditadura, pois as pessoas têm acesso a boa saúde e educação. Ok. Mas ainda que isso seja verdade, como jornalista, não posso aceitar um lugar onde o governo tolhe a liberdade de expressão. Se me perguntassem o que é mais importante, se é o bem estar das pessoas ou a liberdade de expressão eu responderia com outra pergunta: “O que é mais importante para um indivíduo, seu coração ou seu cérebro?”.

O senhor professor continuou:

O Estado deveria ter uma TV estatal, por exemplo. Ali as pessoas teriam voz e nós poderíamos ter acesso a informações diferentes das que as grandes empresas nos oferecem. Uma TV estatal também iria acabar com o financiamento privado das campanhas eleitorais.
Eu quase enfartei quando ouvi isso. O senhor quer uma TV estatal porque acha que ali teremos voz, teremos a verdade e a corrupção que emerge das parcerias entre Estado e empresas no que diz respeito a financiamentos de campanha iria acabar. Poxa, em que mundo o senhor vive? Uma TV estatal apenas aumentaria o poder do Estado, servindo de propaganda para os partidos dominantes e de ferramenta para corruptos e totalitaristas. Ainda mais com o Estado interventor que o senhor deseja: um Estado que vai fechar algumas TV’s privadas, dificultar a expansão de outras e regular o que pode ou não ser falado. Parece que o senhor quer mesmo uma ditadura no Brasil.

Não acreditando no que ouvia, tomei coragem e perguntei:

Professor, eu confesso que sou cético quanto ao Estado. O senhor não acha que aumentar o poder do governo só iria piorar a situação? Penso que quanto mais o Estado se meter, mais corrupção e incompetência nós teremos e quanto menos o Estado se meter nas coisas, melhor.
O senhor respondeu:
Ora, o Brasil, dos anos 30 aos 60 se industrializou e desenvolveu muito. E tudo por iniciativa do Estado. Depois disso, o Brasil parou. Os militares fizeram tudo errado. Então, o problema não está na participação do Estado. O problema está nesse Estado que nós temos hoje. Esse Estado está todo errado. Ele precisa de uma reforma: Os partidos não têm direito ao mesmo tempo de propaganda na mídia. Se eu quisesse me eleger hoje, não ganharia merda nenhuma. Só ganham as mesmas pessoas de sempre. E o partido não tem direito ao mandato, mas sim o candidato. Existem candidatos que atrapalham candidatos do próprio partido. E as empresas têm um poder absurdo. Há muitos monopólios... A constituição de 1988 foi um avanço, mas ela é falha. Tem muita coisa para mudar. Então, com Estado que está aí hoje, não é possível. É preciso mudar o Estado. Neste ponto, você está certíssimo: quanto menos esse Estado se meter, melhor.
A sua argumentação pode até parecer convincente à primeira vista, porém uma observação mais aprofundada mostra que ela não faz sentido. Primeiro, o senhor supõe que a atuação maciça do Estado é benéfica porque o Brasil começou a se industrializar a partir dessa atuação, em 1930. Acontece que o Brasil era um país basicamente agrário e que precisava se industrializar de qualquer jeito. Era isso ou se transformar em uma segunda África. Ou seja, qualquer investimento em indústria e tecnologia, fosse pelo Estado ou pela iniciativa privada, iria modificar completamente o cenário brasileiro. É aquela história que conhecemos: “Para quem não tem nada, a metade e o dobro são a mesma coisa”.

Não há porque pensarmos que o progresso do Brasil de 30 a 60 se deu porque o Estado esteve presente. OS EUA, por exemplo, progrediram muito de 1879 a 1913 com uma intervenção mínima do Estado. Se compararmos esses 34 anos dos EUA com os 34 brasileiros decorridos de 1930 a 1964, veremos que os EUA foram muito superiores em seu desenvolvimento. Quer dizer, o progresso brasileiro não se deu por causa da atuação do Estado, mas apesar da atuação dele.

Aliás, vale lembrar que foi sempre o Estado que atrapalhou o desenvolvimento do Brasil. O Barão de Mauá foi solapado pelo Estado. Morreu pobre, até. Investidores estrangeiros que poderiam concorrer com Mauá também foram solapados. Fazendeiros não foram incentivados a abrirem indústrias. Os negros que foram livres em 1888, não receberam incentivos financeiros para abrirem pequenos negócios. O Estado não moveu uma palha para industrializar o país, pelo contrário, só atrapalhou. Estou certo de que se o Estado tivesse apoiado a industrialização por meio da iniciativa privada, o Brasil seria muito mais desenvolvido atualmente.

Devemos lembrar ainda que quando o Estado quer tomar as rédeas da economia, planejando tudo, dificilmente consegue fazê-lo se não aumentar seu poder, criando uma ditadura. Não é por acaso que Getúlio Vargas foi um ditador por longos onze anos. E o aumento da participação estatal a partir dele criou uma cultura governamental onde o Estado deve ser o motor da vida humana. Não me admira que após isso o Brasil tenha passado por uma ditadura militar de 64 a 85. A cultura tem poder...

Em segundo lugar, o senhor professor diz que o problema está nesse Estado. É aqui que ficou bem claro para mim tudo o que venho analisando em meu blog (Mundo Analista) desde que eu comecei a falar sobre política: o senhor, como todo esquerdista, apresenta a crença no homem. Ou seja, o senhor acredita mesmo que o homem é bom por natureza, corrompido por fatores externos a ele, mas que tem a plena capacidade de transformar todo o mundo, de se descorromper e de fazer um paraíso na terra. Por isso, o senhor acredita que o Estado deve ter mais poder – porque o problema não está na natureza humana, mas no sistema atual, no Estado atual, nos políticos atuais. Os homens certos no poder poderão mudar tudo e nos levar à felicidade. Eu não preciso lembrar que esse pensamento levou às maiores ditaduras e aos maiores genocídios da história, né?

Bem, eu não discordo de tudo o que o senhor falou. Afinal, não estou propondo aqui uma espécie de darwinismo social, no qual “o mundo não pode melhorar nem um pouco, devemos nos conformar e incentivar que os mais ‘fortes’ (ricos e poderosos) devam eliminar os mais ‘fracos’ (pobres e oprimidos)”. Vamos com calma!

O que estou propondo (e esse é o verdadeiro pensamento de direita, desde Smith e Burke) é que não dá para transformar esse mundo em um paraíso. Isso é utopia. Todas as tentativas irão sempre levar a projetos incompetentes, à corrupção, à ditaduras e a genocídios. Porque o ser humano é inclinado naturalmente a não ser perfeito (e mesmo que não fosse, não há evidências de que podemos nos livrar da corrupção social que já nos sujou – há evidências que nos provam justamente o oposto disso na história).

Mas isso não quer dizer que não exista moral, certo e errado. Não quer dizer que não dê para mudar alguma coisa. Por exemplo, Montesquieu tinha plena convicção que o homem com poder vai até encontrar limites. Ou seja, é preciso limitar esse poder com uma divisão do mesmo, na qual cada um dos poderes resultantes estará em tensão um com o outro, evitando o despotismo. Isso não evita que o mundo continue sendo mal e que pessoas autoritárias surjam vez ou outra. Mas melhora bastante o quadro. É isso que proponho: melhoras possíveis e não projetos mirabolantes.

Por isso, acho importante a existência da esquerda. Eu não concordo com quase nada do que ela diz, mas é preciso haver tensão entre ideologias, tensão entre partidos, tensão entre poderes políticos, tensão entre público e privado. É assim que se faz uma democracia legítima. Não obstante, a esquerda acha que um governo democrático é um governo autoritário, estatizante, de um partido só e que quer resolver tudo sozinho. A esquerda tem uma visão maniqueísta do mundo: a esquerda é o bem, a direita é o mal; a burguesia é o vilão, o proletariado é a vítima; o branco é o estúpido, o negro é o herói; o heterossexual é o psicopata, o homossexual é o santo; o religioso é a doença, o câncer, o verme, o anti-religioso é o remédio, a cura, a salvação. Aí realmente é complicado.

Mas para não fugir muito do assunto, o que o senhor professor falou sobre uma reforma política, é válido. A constituição tem muitos defeitos. O sistema eleitoral é ruim, de fato. Partidos não terem o mesmo tempo para expor suas idéias é algo que atrapalha bastante, pois em um país tão corrupto, quem se dará melhor são os desonestos. Agora, não é necessário um Estado mais inchado reformar isso.

Quanto à constituição de 1988, acho legítimo comentar que se ela não é boa, a culpa é, majoritariamente, da esquerda. Porque ao fim da ditadura quase todo mundo era de esquerda. É fácil entender o motivo. A ditadura no Brasil foi a melhor coisa que já aconteceu para a esquerda brasileira. Porque, no início, muitos conservadores que não viam com bons olhos a insensatez da esquerda apoiaram o regime. O regime que se viu, no entanto, não foi uma direita e sim uma ditadura centrista que utilizou alguns poucos elementos da direita apenas como pretexto para manter o poder. Aí o mal já estava feito e não adiantava chorar.

A direita foi estigmatizada como ditatorial, a esquerda ganhou mais adeptos do que nunca e o governo, que não era nem de esquerda, nem de direita, não se empenhou em um combate intelectual democrático contra a esquerda (limitou-se a reprimir com violência física os dissidentes do sistema). Quando a ditadura acabou, quase ninguém tinha vontade de ser de direita. A direita morreu ideologicamente. E quem a matou foi a ditadura centrista, chamada erroneamente de direitista.

A verdade é que a esquerda deve muito ao centrismo. Porque ele é amplo e não muito bem definido. Pode ser democrático ou ditatorial. Pode ser usado por governos de esquerda para conseguir apoio da mídia e de certos grupos, mas também pode ser usado para acusar a direita, dizendo que determinadas posturas de centro e de centro-esquerda são, na verdade, de centro-direita e de direita. A competição entre PT e o PSDB é um exemplo claríssimo disso. O PSDB é taxado como partido de direita, embora seja um partido de centro-esquerda que carrega a Social Democracia no nome e no DNA. Aliás, lembro-me de uma aula na qual o senhor fez um rápido comentário em tom cômico, mas sincero, que FHC é de extrema-direita... E todos os alunos concordaram com isso, o que mostra que a esquerda está a milhões de quilômetros à frente da direita no que tange à aceitação do que ela diz.

Mas para não se afastar muito do ponto, a questão é: se a constituição é tão falha, isso é culpa da esquerda, que era majoritária quando a constituição foi feita. E ela ainda é majoritária hoje. Se fizerem outra constituição, vamos continuar seguindo os mesmos moldes de governo que nós estamos seguindo desde Getúlio até hoje.

A estratégia gramsciana

Antônio Gramsci, um grande teórico italiano do marxismo, acreditava que culpa do comunismo não ter sido implantado em toda a Europa era da cultura. A massa não estava habituada às idéias de Marx. As classes mais baixas não tinham, em sua cultura, a mentalidade marxista. Para Gramsci, o comunismo só poderia ser implantado em todo o mundo se os marxistas começassem a investir pesado em cultura. Em outras palavras, a ideologia do alemão barbudo deveria entrar nas escolas primárias, nas universidades, nos hábitos dos estudantes, nas relações familiares, na mesa do almoço, no futebol com os amigos, nas construções civis, no bar, na cama, no prostíbulo e etc. Porém, a porta de entrada do marxismo tinha que ser mesmo as escolas e universidades.

O pensamento de Gramsci, muito perspicaz, era de que se os mestres de escola e universidade se tornassem doutrinadores marxistas, seus alunos também se tornariam marxistas. Esses alunos sairiam de suas salas de aula disseminando o que aprenderam com seus mestres marxistas para o “povão”, só que com uma linguagem muito mais simples e acessível. Então, gradualmente a mentalidade e a cultura das pessoas seriam moldadas. Lembre-se ainda como que é extremamente fácil excitar massas de jovens imaturos e inexperientes.

A estratégia gramsciana foi cooptada por toda a esquerda. Mesmo aqueles que já não sonham com um mundo comunista, sabem que a esquerda deve atacar fortemente no campo da cultura. E é isso o que o senhor professor faz, assim como muitos outros professores.

Do ponto de vista da guerra política (falo do campo intelectual), o certo seria eu ter rebatido o senhor em todas as aulas, mostrando para a platéia que existem equívocos claros em sua argumentação. E caso o senhor permanecesse nesses erros, eu teria como obrigação ridicularizar seus ideais. Mas, como já disse, não tenho esse ímpeto. Então, o senhor ganhará mais um combate contra a direita (e como tem sido fácil, né?), formando mais uma leva de estudantes marxistas e fazendo sua parte dentro da estratégia do nosso querido filósofo italiano. Não obstante, ao menos isso me serve de exemplo empírico do que venho estudando sobre a luta entre direita e esquerda.

Espero não ter ofendido a sua pessoa. Se o fiz, não era a minha intenção. Devo ressaltar outra vez que esse email não foi um ataque pessoal, mas apenas uma exposição de minhas reflexões. Estou aberto para debates por email. Caso tenha interesse em ler meus textos sobre política, pode começar por esse:

http://mundoanalista.blogspot.com.br/2012/12/a-crenca-no-homem-uma-analise-critica.html

No blog, há um Índice na lateral superior direita da tela. Clicando lá, é possível ver as principais postagens políticas do blog. Bem, isso é tudo.

Cordialmente,

Davi Caldas.


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A Resposta do Professor

O Professor “Fernando” me respondeu por email, com as seguintes palavras:

Caro Davi Caldas. Parabenizo pela iniciativa e me orgulho de ter você como aluno. Sinto muita alegria de ver em seu texto uma curiosidade intelectual aguçada, preocupação com o campo político no pensamento científico e filosófico e em seus contextos históricos. Nossa discordância não é só ideológica, também é de formação cultural e intelectual, mas discordância não significa nivelamento vertical, onde um pensa acima e outro fica abaixo. Cada um se inscreve no processo histórico de forma singular, cuja ação implica na discussão contra si e com outros. Alguns comentários construídos pelo seu belo texto também percorrem o víeis ideológico consagrado no consenso coletivo e minha confissão política não se camuflou momento algum.

Não entendo sua resposta por escrito como um ato de desrespeito. É corajoso e está sustentado de uma rica discussão principalmente para o estudo de Jornalismo, sem aí se limitar à crença da liberdade de expressão. O debate vai além da moda tecnológica e entra na região da TEORIA GERAL DA IDEOLOGIA, demonstrando a interdisciplinaridade da Comunicação Social. Vamos conversando.
Conclusão desta postagem

Ok, professor. Vamos conversando. :D