segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Argumentos para a existência de Deus - Parte 5: Argumento Ontológico

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Ok. Já vimos aqui 4 argumentos lógicos para a existência de Deus. Na ordem, o argumento cosmológico, o teleológico, o moral e o da razão humana. Se o leitor está acompanhando os argumentos, já entendeu como funciona: só raciocínio lógico. Nada de fé cega, como dizem alguns ateus.

Bem, o argumento que vamos ver hoje é um pouco mais complexo de entender do que os outros. E também um argumento estranho. É bom avisar logo, para que caso você não entenda, não ache que é uma pessoa ignorante ou até mesmo que eu estou tentando te enrolar. Esse argumento é mais difícil que os outros mesmo. Mas eu peço que não abandone a leitura agora, amigo leitor. Farei o máximo para deixar o argumento bem claro para todos. Vamos lá?

Introdução

O argumento ontológico foi formulado pela primeira vez pelo teólogo Anselmo de Cantuária (1033-1109), porém, apresenta algumas versões um pouco diferentes feitas por outros estudiosos ao longo do tempo. A versão que colocarei aqui é minha. Eu tentei fazê-la de uma forma que ficasse o mais compreensível e simples possível. O resumo da minha versão é assim:
(1) É possível que exista um Ser maior que tudo (uma hipótese válida); 
(2) um Ser maior que tudo é um Ser maior que tudo tanto em hipótese quanto na realidade (pois é maior que tudo, o que inclui ser maior que tudo no mundo real e maior que tudo em qualquer mundo hipotético possível);  
(3) logo, se é possível que exista esse Ser, Ele já existe no interior de qualquer mundo hipotético possível. E se, necessariamente, esse Ser deve existir dentro e fora de qualquer mundo hipotético possível (porque Ele é maior que tudo), então esse Ser existe em qualquer mundo hipotético e também no mundo real; 
(4) portanto, existe um Ser real maior que tudo (que chamamos de Deus).
O leitor conseguiu entender o argumento? Deixe-me tentar explicar de um modo mais simples. Suponha que eu more em um condomínio que tenha, sem dúvida alguma, as maiores casas de todo o mundo. Não há casas maiores que as casas que existem nesse condomínio. Então, eu pergunto ao síndico: “É possível que a minha casa seja a maior casa que existe no mundo?”. Ele responde: “Sim, é possível”. Então, eu lanço uma nova pergunta: “E ela é?”. O síndico responde: “Ela é a maior daqui desse condomínio, mas não é a maior do mundo”.

Perceba que há uma contradição entre as duas respostas. O síndico afirma que é possível minha casa ser a maior do mundo porque aquele condomínio tem as maiores casas do mundo. Mas também afirma que a minha casa é apenas a maior do condomínio e não a maior do mundo. Ora, se a minha casa é a maior do condomínio e as casas desse condomínio são maiores que todas as outras casas do mundo, então ela tem que ser a maior do mundo. É uma questão de lógica.

Façamos outra analogia. Imagine que a madrasta da Branca de Neve seja de um reino onde todas as mulheres bonitas que existem são mais bonitas que as mulheres dos outros reinos. E a madrasta, por sua vez, é uma mulher bonita. Isso a coloca, automaticamente entre as mulheres mais bonitas do mundo. Então, ela pergunta ao seu espelho mágico: “É possível que eu seja a mulher mais bonita do mundo?”. O espelho responde prontamente: “Sim, é possível”. Ela lança outra pergunta: “E eu sou?”. Aí, o espelho diz assim: “Você é a mulher mais bonita desse reino, mas não a mais bonita do mundo”.

Novamente temos a mesma contradição lógica. Se a madrasta é a mulher mais bonita de seu reino, ela tem que ser a mais bonita do mundo, pois em seu reino, todas as mulheres bonitas, são mais bonitas que as mulheres de outros reinos. Não tem como nós afirmarmos que a madrasta é a mais bonita de seu reino, sem ter que, com isso, concluir que ela é a mais bonita do mundo.

Trazendo isso para a questão do Ser que é maior que tudo, não tem como afirmar que esse Ser existe apenas em um mundo hipotético possível (isto é, no interior de uma hipótese válida), sem concluir também que Ele existe no mundo real. Porque se Ele é maior que tudo, basta que Ele exista em um mundo hipotético para que Ele exista no mundo real. Quando dizemos que é possível que Ele exista, estamos fazendo-o existente dentro de uma hipótese; dentro de um mundo hipotético possível. Em outras palavras, toda a questão gira em torno de um único ponto: é possível logicamente existir um Ser maior que tudo? Se é possível, então Ele existe na realidade, tal como na hipótese.

Refutando Críticas

Se o leitor entendeu o argumento ontológico, podemos partir para as críticas. À primeira vista o argumento parece ser fraco. A grande crítica é: “Com esse pensamento posso provar a existência de qualquer coisa, bastando atribuir ao objeto que eu desejo provar a existência, a característica de ‘maior que tudo’”. Assim, se eu quero provar que existe um lobisomem, ou uma fada, ou um saci, ou um gnomo, basta que eu diga que um desses seres é “maior que tudo”.

Entretanto, há uma falha grave nessa crítica. Ela não leva em conta o significado de “maior que tudo”. Maior que tudo não é maior no sentido de ser mais alto, ou mais gordo, ou mais belo, ou mais legal, ou mais divertido. Maior que tudo é estar além do próprio universo. Maior que tudo é transcender tempo, espaço, matéria e energia. Maior que tudo é não ser criatura, mas criador; não ser efeito, mas causa; não ser dispensável, mas necessário; é ser a própria bondade, a própria moral, o próprio amor. Isso, de fato, é ser maior que tudo o que existe.

Este é o ponto. Uma fada, ou lobisomem, ou gnomo ou qualquer outro ser que se queira sustentar a existência, usando esse argumento, não apresenta essas características de “maior que tudo”.

Para ser mais claro, suponha que alguém queira te provar que existem fadas. O que te levará a duvidar, obviamente será a falta de evidências para a existência de tais seres. Porém, a sua descrença não será contraditória, já que fadas não apresentam como atributo serem maiores que tudo. Fadas são apenas seres imaginários que não tem nem nunca tiveram os atributos que compõem um Ser maior que tudo. Portanto, elas podem existir apenas em hipótese, sem que tenhamos que concluir que elas são reais.

Claro, o ateu pode dizer que a fada em que ele “acredita” apresenta esse atributo divino de maior que tudo, sendo assim, necessariamente, existente. No entanto, isso não só está errado, como é um atestado de idiotice (ou desonestidade). Em primeiro lugar, fadas são seres mitológicos criados pelo homem e que não transcendem tempo, espaço e matéria, como já disse. Dizer que a “sua fada” é diferente, só mostra o quanto você é um imbecil que quer mudar todas as características básicas de uma fada, pensando que pode derrubar o argumento.

Em segundo lugar, se você retira de um ser ou objeto os seus atributos básicos, substituindo-os pelos atributos básicos de Deus (o Ser maior que tudo), então o ser ou objeto sustentado deixa de ser o que era antes e passa a ser o próprio Deus. Isso é muito lógico, mas alguns ateus parecem que não tem raciocínio lógico. É o caso do ateu Lewis Wolpert (PhD em biologia), que em um debate com Craig (PhD em filosofia e teologia e maior apologista cristão atualmente), argumenta que a causa do universo não precisa ser Deus [1]. Transcrevo um trecho do debate:

Wolpert: Mas a causa não precisa ser Deus.

Craig: Lembre-se que lhe dei um argumento para sustentar que esta causa é atemporal, aespacial, imaterial, muito poderosa e pessoal.

Wolpert: Eu acho que é um computador [diz, em tom de sarcasmo e ironia].

Craig: Computadores são projetados por pessoas.

Wolpert: Não, não. Este computador se auto-projetou.

Moderador: É atemporal?

Wolpert: É atemporal.

Craig: Isto é uma contradição de termos.

Wolpert: Por que uma contradição?

Craig: Um computador para funcionar precisa de tempo.

Wolpert: Este é um computador especial! [a platéia ri]

Craig: Certo, mas precisa ser logicamente coerente.

Wolpert: Oh, é logicamente coerente. Este computador é fantástico!

Craig: Além disso, é preciso ser um Ser pessoal.

Wolpert: Não.

Craig: Um computador é um objeto físico.

Wolpert: Este computador não [mais risos da platéia].

Craig: Veja o que você está fazendo: O que você chama de computador é na verdade Deus. Algo não-físico, não-temporal... [a platéia interrompe Craig com um aplauso, enquanto Wolpert faz cara de idiota].

Percebe o que Wolpert faz aqui? Ele diz que a causa do universo poderia ser um computador. Só que o imbecil, retira todas as características que tem um computador, substituindo-as pelas características de Deus. O que mudou? Apenas o nome. Deus passou a se chamar computador, mas continua sendo onipotente, criador do mundo, necessário e único.

Aliás, é importante deixar claro o motivo pelo qual só há possibilidade de existir um Deus, e não vários. Com base em todos os argumentos que temos visto até aqui (e, principalmente o argumento ontológico), sabemos que Deus é um Ser “maior que tudo o que existe”. Ou seja, Ele é onipotente. A onipotência é um atributo que o Ser criador do universo tem que ter já que ele está acima de tempo, espaço, matéria e energia. O que nos limita não limita a ele, pois ele está fora e acima de tudo o que criou. O próprio fato de criar indica que ele tudo pode. Como Deus tem que ser onipotente, não pode haver mais de um Deus, já que dois onipotentes não poderiam contra si mesmos; e logo não haveria onipotência (apenas “grande potência”).

Considerações Finais

Voltando ao argumento ontológico, já que as críticas que acabamos de analisar não derrubam o argumento, informo qual seria o único modo de refutá-lo.

A base do argumento, como já dito, é a possibilidade da existência de um ser que seja maior que tudo. Então, se o ateu quer invalidar o argumento ontológico, ele deve provar que a existência desse Ser é logicamente impossível. Mas o que é, exatamente, uma impossibilidade lógica? Bem, uma impossibilidade lógica é qualquer suposto fato que contradiz a si mesmo. Por exemplo, um triângulo redondo, um solteiro casado, um vigarista honesto. Repare que nada disso é possível logicamente falando, porque um atributo anula o outro. Então, será que a existência de um Ser maior que tudo é uma impossibilidade lógica? Com certeza não (impossibilidade lógica seria o universo criar a si mesmo, como já vimos em outra postagem – e tem quem creia nisso).

Ora, além de não haver nenhuma impossibilidade lógica para a existência de Deus, os argumentos que vimos até aqui indicam não só que é possível que esse Ser exista, como que esse Ser foi e é necessário à existência do universo como é hoje, e da vida que nele existe. Portanto, não vejo nada que derrube o argumento ontológico. E, a não ser que se prove que é impossível Deus existir, Deus existe.

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Referências:

1. Trecho de debate entre William Lane Craig e Lewis Wolpert. Não o encontrei no site oficial do Dr. Craig, o Reasonable Faith (Fé Racional). Mas o trecho que citei pode ser encontrado no seguinte link: http://www.youtube.com/watch?v=0R5GpV5nSRQ

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Argumentos para a existência de Deus - Parte 4: Argumento da Razão Humana

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Já vimos até aqui 3 argumentos lógicos para a existência de Deus: o argumento cosmológico, o argumento teleológico e o argumento moral. A coerência científica e a validade lógica dos 3 nos faz constatar que existe um agente transcendente, causador do universo, inteligente, pessoal e do qual procedem os valores morais. Nós denominamos esse agente Deus.

O argumento que explanarei hoje, o argumento da razão humana, segue a mesma linha dos demais no sentido de mostrar que nada no mundo faz sentido lógico se não existir tal agente. Trata-se de um argumento interessante e que deixa o ateísmo numa situação bem pior do que a deixada pelo argumento moral, no que tange à razão. Vamos estudá-lo?

Introdução

O argumento da razão humana pode ser resumido da seguinte maneira:

(1) Tudo o que nós pensamos, afirmamos, validamos e/ou provamos, bem como todo o conhecimento que apreendemos, fazemos por meio do raciocínio (razão); 
(2) então, todo o conhecimento possível depende da validade do raciocínio;
(3) só que não há como provar que nosso sistema de raciocínio é válido, porque todo pensamento é validado pelo próprio raciocínio, de modo que não posso validar a razão usando a própria razão;
(4) assim, a não ser que aceitemos a razão como válida (sem provar isso), não há como comprovar, afirmar ou validar nenhum pensamento.
Até aqui, não há nada que nos leve a sustentar que Deus existe. O argumento tão somente mostra que nós, humanos, somos obrigados a aceitar a razão como válida sem poder provar isso, pois ela é o ponto de partida para todo pensamento. Se colocarmos em dúvida nosso sistema de raciocínio, automaticamente ficaremos impossibilitados de fazer qualquer afirmação. Então, tudo o que nos faz sentido pode, na verdade, não fazer sentido nenhum, se a razão estiver errada.

C. S. Lewis afirma em seu livro Milagres:

A menos que o raciocínio humano seja válido, nenhuma ciência pode ser verdadeira. Conseqüentemente, nenhuma consideração do universo pode ser verídica, a menos que leve em conta a possibilidade do nosso pensamento ser uma percepção real [1].
E complementa em outro ponto do mesmo livro:
(...) de todas as alegações apresentadas pela mente humana, a única que o naturalista [pessoa que não acredita em sobrenatural] não pode negar sem cortar a própria garganta (falando em termos filosóficos) é a de que o raciocínio é válido [2].
Isso é o que o argumento da razão humana sustenta. Contudo, suas implicações são uma evidência poderosa para a existência de Deus. Isso porque, embora o teísta e o ateu pareçam estar no mesmo barco ao ter que acreditar na validade da razão sem poder provar isso, uma análise mais detida da situação mostra que o teísta tem boas evidências para acreditar que o raciocínio humano é válido, enquanto que o ateu tem evidências contrárias à validade da razão. Vamos entender isso melhor.

As implicações do argumento

Para o teísta, a origem do universo e dos seres que nele habitam se deve a uma causa inteligente e superior, que deu a cada mecanismo do universo e dos organismos vivos complexidade, finalidade, funcionalidade e estabilidade. As leis do universo são fixas e funcionam. As partes que compõem cada organismo apresentam e seguem suas finalidades enquanto o curso natural das coisas não é interrompido por alguma patologia (o que não é a regra funcional dos organismos).

Desta forma, a razão humana é um produto da criação divina. Nosso raciocínio tem valor e pode ser usado para avaliar qualquer pensamento porque, de fato, uma causa racional é a responsável pela existência da razão. A razão do teísta não é um produto de causas não-inteligentes, de eventos aleatórios e sem uma finalidade.

Em contraponto, para o ateu (ou naturalista), o raciocínio humano não provém de uma inteligência superior. O ateu crê que todas as coisas que existem se resumem a causas naturais. Então, o seu raciocínio é apenas um conjunto de átomos que se movem em seu cérebro e que começaram a se mover no cérebro da humanidade um dia, sem um objetivo e sem nenhuma regulação.

A razão, para o pensamento ateísta, surge de causas inteiramente não-racionais, não-intencionais e não-inteligentes. É algo mais ou menos como dizer que a teoria da relatividade é fruto de uma cadeira ou de um pé de maçã ou do longo desenvolvimento de uma mangueira. C. S. Lewis diz:

Todos concordam em que a razão, até mesmo a sensibilidade, e a própria vida chegaram posteriormente à natureza. Se não existe nada além da natureza, então a razão deve ter vindo à existência por um processo histórico, e para o naturalista esse processo com certeza não se destinava a produzir um comportamento mental que levasse à descoberta da verdade. Não houve um Planejador, e, de fato, até que surgissem os pensadores, não havia verdade nem falsidade [3].
O que C. S. Lewis deixa claro aqui é que, para o pensamento naturalista, a razão surge de um processo cego, sem inteligência. Lewis continua em outro capítulo:
(...) como já vimos, uma linha de pensamento perde toda a sua racionalidade no momento em que se apresenta como resultado de causas não racionais. Quando a natureza, por assim dizer, se aventura em coisas que dizem respeito a conceitos racionais, ela só consegue destruí-los. (...) A natureza só pode invadir a razão para matar, mas a razão pode penetrar o território da natureza para fazer prisioneiros e mesmo colonizar. Cada objeto à sua frente neste momento – paredes, teto, móveis, este livro, suas mãos lavadas e unhas cortadas – dá testemunho da colonização da natureza pela razão, pois nenhuma dessas coisas estaria nessas condições se a natureza tivesse seguido seu curso [4].
Em outras palavras, a natureza não é uma pessoa. Ela não é racional. Ela é uma simples entidade que funciona automaticamente, sem reflexões, seguindo leis fixas que, para o ateu, surgiram por mero acaso. Tudo, para o ateu naturalista, veio à existência por meio de causas não-racionais. Assim, a sua razão não faz sentido algum. Como crer na validade de uma razão que advém da não-razão? O leitor acreditaria em uma teoria cuja validação se baseasse no número que eu tirei no dado? “Se cair 1, 2 ou 3, a teoria é válida. Se cair 4, 5 ou 6, a teoria e inválida”. Podemos dizer que esse raciocínio é certo, mesmo sabendo que ele se baseia na aleatoriedade e não-razão do dado? Então, como é que podemos acreditar em uma razão que não provém de Deus?

Considerações Finais

De modo interessante, C. S. Lewis, em seu livro, conecta o argumento da razão com o argumento moral. Para ele, tanto a crença na moral objetiva como na razão, não fazem sentido se não existir um agente racional e moral exterior ao universo, do qual a moral e a razão procedem. Afirmar que somos morais e racionais quando nossa moral advém de causas não-morais e nossa razão advém de causas não-racionais é incoerente com a própria noção de moral e racionalidade.

O curioso é que, com estes argumentos, o ateu é colocado contra a parede de um modo extremo. Sua moral objetiva já não faz mais sentido. Sua razão já não faz mais sentido. Nenhum pensamento seu pode ser afirmado como correto. Nenhuma concepção moral sua pode ser tomada como verdadeira. Adeus às ciências. Adeus à obrigação de cada um fazer o “bem”. Adeus a toda e qualquer afirmação contundente.

A não ser, é claro, que ele aceite a ilusão de que existe uma moral objetiva e uma razão, mesmo sabendo que isso não faz sentido em um universo sem Deus. Mas, neste caso, o ateu estará tendo uma fé maior e muito mais cega do que qualquer pessoa que acredite em Deus. Ela não acreditará em Deus, mas crerá com todas as forças em ilusões como a moral e a razão.

Dessa forma, o materialismo estrito contradiz a si mesmo, pela razão apresentada pelo professor doutor Haldane: ‘Se meus processos mentais forem inteiramente determinados pelo movimento dos átomos em meu cérebro, não há razão para supor que minhas crenças sejam verdadeiras [...] e, portanto, não tenho razão para supor que meu cérebro seja composto de átomos’ [Possible Worlds (Mundos Possíveis), p. 209]. (...). [5].
Se o fato de os homens terem idéias como devo e não devo puder ser explicado completamente por causas irracionais e não morais, então essas idéias não passam de ilusão. (...) exclui a própria possibilidade de estarem certos. Pois quando os indivíduos dizem: “Eu devo”, certamente pensam que estão dizendo algo verdadeiro quanto à natureza da ação proposta, e não simplesmente falando dos próprios sentimentos [6].
Em suma, querido amigo leitor, se cremos na existência e na validade da razão e da moral, não existe uma alternativa mais honesta e racional do que acreditar também na existência de Deus. Termino a postagem com mais uma citação de Lewis:
Não existe saída nessa direção. Se é para continuar a fazer julgamentos morais (e não importa o que afirmemos, continuaremos fazendo isso), então devemos acreditar que a consciência do homem não é produto da natureza. Ela só tem valor se for derivada de alguma sabedoria moral absoluta, uma sabedoria moral que existe absolutamente ‘por si mesma’ e não seja produto de uma natureza não moral e não racional. Da mesma forma que o argumento do capítulo anterior nos levou ao conhecimento de uma fonte sobrenatural do pensamento racional, igualmente o argumento deste capítulo nos leva a uma fonte sobrenatural para nossas idéias sobre o bem e o mal. Ou seja, agora sabemos alguma coisa a mais sobre Deus. (...) Se você, como eu, pensa que o julgamento moral é um tipo de raciocínio, então dirá: "Agora sabemos mais sobre a Razão Divina” [7].
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Bibliografia:

1. Milagres, C. S. Lewis. – Editora: Vida, São Paulo, 2006. - Pág. 29
2. Idem. - Pág. 59
3. Idem. - Pág. 35
4. Idem. – Pág. 47
5. Idem. – Pág. 29
6. Idem. – Pág. 61 e 62
7. Idem. - Pág. 65 e 66

domingo, 21 de outubro de 2012

Argumentos para a existência de Deus – Parte 3: Argumento Moral

85 comentários:
Esta é a terceira postagem da nossa série. Vimos nas duas últimas os argumentos cosmológico e teleológico. O primeiro nos mostra a necessidade lógica de uma causa transcendente para o universo. O segundo observa a improbabilidade do surgimento de mecanismos complexos, estáveis, com finalidades e funcionais no universo, sem uma inteligência que os tenha conduzido propositalmente para tal estado.

Em outras palavras, até aqui, através do raciocínio lógico e do respaldo de dados científicos, podemos constatar que existe um agente causador do universo (e dos seres que nele existem), atemporal, aespacial, imaterial, pessoal e inteligente.

O argumento que vamos estudar hoje, o argumento moral, não só ratifica que há um agente exterior ao universo e logicamente necessário ao mesmo, mas atribui a esse agente características que o aproximam um pouquinho mais do que as religiões chamam de Deus. Vamos vê-lo?

Introdução

Basicamente ele se propõe a dizer o seguinte:

(1) Existem valores morais absolutos; 
(2) se existem valores morais absolutos, então há um padrão moral absoluto;
(3) se há um padrão moral absoluto, este padrão deve ser superior à humanidade, transcendendo-a (ou seja, algo além de tempo, espaço, matéria e energia - Deus).
Para evitar qualquer problema quanto ao significado de moral ou a diferença entre moral e ética, entenda moral, aqui, como aquilo que é dever ou, o entendimento do que é correto. Assim, conceitos como: bem e mal, justo e injusto, certo e errado; atitudes como: dar água ao sedento, ajudar um acidentado, salvar uma vida; proibições como: não matar, não roubar, não mentir, não machucar; e também os valores atribuídos a uma vida, a um sorriso ou a uma lágrima, fazem parte do que definimos, neste postagem, como moral.

Agora, vamos destrinchar o argumento e responder às prováveis questões que irão surgir aqui.

Destrinchando o argumento: Premissa 1

Devemos iniciar nossas análises pela primeira premissa do argumento. Segundo esta, existem valores morais absolutos no mundo. Mas será que isso é uma verdade? Os relativistas hão de dizer que não existem valores absolutos, mas sim, pontos de vista diferentes. “Tudo é relativo”. Já ouvimos muito essa frase, não é? O problema é que os próprios relativistas valorizam o direito de fazer esta afirmação, por exemplo. E esta afirmação, ironicamente, é uma contradição, pois se em um mundo relativista não há verdades absolutas, então também não é verdade o que os relativistas dizem.

Além do mais, é muito pouco provável que um relativista seja relativista com relação ao estuprador de sua filha ou a um assaltante que matou toda a sua família, dizendo: “Não, não é errado. É apenas uma questão de opinião. Eles gostam de estuprar, roubar e matar. Eu não gosto”. O relativista tem noção de certo e errado, toma posições contra ou a favor de algo, defende e quer impor, tem opiniões e quer passá-las à diante. Mas se tudo é relativo e todo o valor é só questão de opinião, posicionar-se contra ou a favor de qualquer coisa não faz sentido.

Isso me faz lembrar uma história interessante descrita no livro Não tenho fé suficiente para ser ateu, onde um aluno ateu faz um trabalho sobre relativismo, argumentando de maneira convincente que não existem verdades e valores absolutos, mas apenas opiniões diferentes.

“Eu gosto de chocolate e você de baunilha”, sustentava o aluno. O trabalho era digno de nota máxima, entregue na data certa, encapado e dentro dos moldes pedidos pelo professor. No entanto, a correção do trabalho surpreendeu o estudante. Bem grande, na capa, o professor colocou: “Nota F. Não gosto de capas azuis”. Obviamente o aluno vai reclamar, afirmando que aquilo era injusto, errado, anti-ético, imoral, que seu trabalho merecia uma nota A e etc. Contudo, o professor se defende com o próprio argumento do aluno, sustentando que não existem verdades e valores objetivos; é só questão de opinião [1].

Alguém pode dizer que estou falando de ética. Chame do que quiser. O importante aqui não é discutir nomenclaturas, mas mostrar que aparentemente existe um padrão objetivo de atitudes a serem seguidas pelo homem e que nos possibilita julgar o valor das coisas e saber o que é certo e o que é errado. São regras gerais que por algum motivo todo o ser humano deve seguir e que por algum motivo a grande maioria das pessoas concorda com a sua existência, consciente ou inconscientemente (ainda que se julgue um relativista).

Destrinchando o argumento: Premissa 2

Se realmente existe uma moral objetiva e absoluta, esta constatação traz consigo algumas implicações muito sérias, sobretudo para a visão ateísta do mundo, pois se não há Deus, não há padrão absoluto no qual possamos basear a nossa moralidade. Deus é o ser transcendente do qual emana toda a moral. Ele é o padrão moral absoluto do qual as noções morais provém. O escritor C. S. Lewis (mais conhecido como o autor de As Crônicas de Nárnia) que se converteu do ateísmo para o cristianismo, escreve assim no livro Cristianismo Puro e Simples:

[Como ateu] meu argumento contra Deus era que o Universo parecia cruel e injusto demais. Mas de que modo eu tinha esta idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha está torta até que tenha alguma idéia do que seja uma linha reta. Com o que eu estava comparando este Universo quando o chamei de injusto? [2].
Para entender melhor essa reflexão, precisamos percorrer alguns pensamentos ateístas sobre qual seria a base para a crença na existência de valores morais objetivos.

O químico ateu Peter Atkins em um debate contra Craig, sustenta que nós “sabemos o que é certo e o que é errado quando nossas aspirações atingem as aspirações dos outros” [3]. Já o humanista Austin Dacey, também em debate, diz que a moral é um conjunto de regras que fazem a sociedade funcionar melhor, e que por isso nós procuramos segui-la [4].

Estes dois pensamentos refletem bem o que muitos ateus pensam sobre o que é a moral: um padrão de atitudes formado através da racionalidade humana, capaz de distinguir o que é melhor e o que é pior para a sociedade. Mas o problema desses pensamentos é que eles não alcançam a raiz da questão. Atkins, por exemplo, faz uso de um raciocínio circular: pressupõe que o egoísmo é errado para afirmar que não devemos atingir as aspirações das demais pessoas. Mas por que o egoísmo é errado? Como ele sabe que o egoísmo é errado? O que o faz pensar que o egoísmo é errado? Por que isso não pode ser questionado? Em que ele se baseia para fazer tal afirmação?

Percebe? O que Peter Atkins faz é usar padrões morais (que definem o amor como correto e o egoísmo como errado) para explicar a existência dos próprios padrões morais. Em outras palavras, ele está dizendo que é errado atingir as aspirações das demais pessoas porque é errado ser egoísta; e é errado ser egoísta porque é errado atingir as aspirações das demais pessoas.

Austin Dacey também não colabora em nada com a sua explicação. A sua concepção de que a moral é um conjunto de regras que fazem a sociedade funcionar melhor tem como pressuposto a ideia de que devemos pensar no bem coletivo. Só que mais uma vez esse pressuposto já é baseado na moral. Por que é correto pensar no bem coletivo? Por que eu não posso pensar só em mim? Em que se baseia essa noção de certo e errado? Mais uma vez, não há preocupação por parte do ateu de provar porque seria errado ser egoísta.

O erro de Dacey ainda repousa em uma confusão entre moral e lei civil. Sua concepção humanista de que devemos pensar no bem coletivo resulta do temor de um mundo onde não houvesse leis que pudessem garantir a auto-preservação. É isto que está em jogo quando ele diz que a sociedade funciona melhor com esse conjunto de regras; é o medo de se encontrar em um estado sem garantias para a própria vida.

Esse medo pode ser descrito como sendo natural do ser humano, posto que é resultado do instinto individual de auto-preservação da vida. E é aqui que nos deparamos com uma verdade essencial: não é necessário existir moral para que exista instinto de auto-preservação. Não é necessário que eu realmente me importe com o bem coletivo ou que eu ache isso moralmente correto para que eu me importe com minha própria vida.

Portanto, a existência de leis civis não é uma prova de que existe uma moral objetiva. Este é o erro de Dacey. Ele vincula a existência de lei civil à obrigação moral de segui-las, quando, na verdade, se Deus não existe, as leis são apenas uma forma encontrada pelo ser humano de garantir sua própria vida, independentemente se é certo ou não pensar no bem coletivo.

Então, tomando como pressupostos que o homem pode almejar um conjunto de regras sobre toda a sociedade apenas por instinto de auto-preservação e que a moral não é necessária para tal, o egoísmo se transforma em um sentimento útil. Então, por que a maioria das pessoas continua insistindo que pensar no bem coletivo é certo e que ser egoísta é errado? De onde vem essa concepção?

Vamos nos aprofundar um pouco mais na questão, observando quais seriam as implicações genuínas de se acreditar que não existe Deus. Para começar, o universo, o planeta, a natureza e o ser humano não existem por um propósito. Não há um objetivo maior para nossa existência. Tudo o que existe é obra do acaso. Não existem regras ou leis maiores. Não há um manual que ensine o que se deve e o que não se deve fazer. Todos um dia morrerão e deixarão de existir. Tudo o que se faz aqui será esquecido por quem fez e por quem viu fazer. Tudo será apagado. Não há consequencias. Não há padrão. Não há possibilidade de julgamentos dentro do campo moral.

Portanto, não há motivo para se pensar no bem da sociedade ou na preservação da espécie humana à longo prazo. Assim, o que chamamos de moral não passa de uma ilusão através da qual é possível que cada pessoa tenha a garantia de que não farão com ela o que ela não quer que façam. Este é o verdadeiro panorama ateísta.

Então, se vivêssemos em um mundo ateu, tal mundo não necessariamente seria sem lei. Poderia haver leis, tais como as temos em nosso mundo. Não obstante, um homem poderia não matar um desafeto simplesmente por não querer ser preso, mas crer que o seu sentimento homicida é correto. Tal ato seria objetivamente errado? Não. No máximo uma pessoa poderia ter uma opinião contrária, mas seria mera opinião, um sentimento subjetivo, e não uma verdade absoluta.

E mais: Se este mesmo homem matasse sua esposa, sem deixar rastros para a polícia (e para os parentes dela), poderia ser considerado um herói, pois fez o que achou ser correto, se livrou de um obstáculo, burlou a lei (o que em um mundo ateísta não é imoral) e continuará a viver bem a sua vida. Não existe sequer espaço para remorso, pois (1) um dia sua esposa morreria mesmo; (2) ele também morrerá algum dia; (3) não existe vida após a morte; (4) não existe um padrão moral absoluto; (5) o seu ato egoísta não irá desencadear uma desordem geral na sociedade que o afete; e (6) o egoísmo é uma boa ferramenta para cada um fazer o que quiser e ser feliz em sua breve vida.

Então, segue-se que, em uma visão de mundo onde não existe Deus (que seria o padrão moral absoluto), este homem não foi imoral, mas racional. Sua racionalidade é até muito admirável. Ele poderia receber um nobel por sua inteligência, oportunismo e frieza – se alguém quer levar a sério o seu ateísmo, deve aceitar este panorama, onde a moral é uma ilusão.

A situação intelectual do ateu, portanto, é a seguinte: ou ele aceita que não existe moral objetiva, tornando-se assim um relativista (como vimos há pouco) ou ele sustenta uma moral objetiva, aceitando também que existe um padrão maior e absoluto do qual se originou a nossa moral.

Uma boa analogia

Talvez o leitor ainda não tenha se convencido totalmente de que essa linha de raciocínio está correta. Então, para que não restem dúvidas, vamos fazer uso de uma analogia que deixará tudo mais claro.

Imaginemos, pois, que sou um marceneiro que caminha pela rua em um fim de tarde. Então, encontro um pedaço grande e proveitoso de madeira. Olho para os lados, vejo que não é de ninguém e que, quem quer que o tenha colocado naquele local, somente o abandonou. Então, levo o pedaço de madeira para casa e começo a trabalhar na fabricação de uma prateleira. Pergunto: Eu tinha alguma obrigação objetiva de fazer ou de não fazer a prateleira com aquele pedaço de madeira? Havia alguma indicação do que eu deveria ou não fazer? Claro que não. O pedaço de madeira não tinha nenhuma finalidade, e, portanto, eu podia fazer dele o que eu quisesse.

Agora, digamos que eu, o mesmo marceneiro, em vez de ter encontrado o pedaço de madeira abandonado, tivesse recebido de meu chefe esse mesmo pedaço, dizendo que ele pertencia a um cliente e que eu deveria fazer uma cadeira com ele para entregar ao cliente. Então, eu levo o pedaço de madeira para casa, só que, em vez de fazer uma cadeira para o cliente de meu patrão (como ordenado), me apropio dele e o transformo em minha prateleira. Pergunto: Será que agora eu tinha alguma obrigação e indicação do que eu deveria ou não fazer com a madeira? É óbvio que sim. O pedaço de madeira tinha um fim determinado e, por isso, eu deveria tê-lo cumprido.

Trazendo isso para a questão da moral, se há realmente um Deus do qual provém toda a moral, ela é objetiva e todos devem segui-la. Mas, se não há nenhum Deus, a moral é apenas um pedaço de madeira abandonado e sem um fim determinado, em meio a um universo que também não tem objetivo. Cada um pode fazer o que quiser com esse “pedaço de madeira”.

Refutando contra-argumentos

Neste ponto, o ateu ainda terá alguns argumentos para tentar sair desse dilema. Ele poderá afirmar que, por mais que sejamos fruto do acaso, devemos seguir aquilo que a natureza determinou. Com isso o ateu conclui que a moral é um instinto desenvolvido pelo ser humano naturalmente, e que, por isso, não podemos violá-lo.

Mas esse argumento também não é válido. Primeiro porque é necessário que o ateu prove que “devemos seguir aquilo que a natureza determina”. Por que devemos? Veja que outra vez o raciocínio é circular, pois o ateu precisa recorrer a valores (aquilo que se deve ou não fazer) para explicar os próprios valores.

Segundo, porque o ateu acaba se contradizendo quando afirma que devemos fazer o que a natureza determinou, pois há um bom número de práticas não-naturais que os ateus não veem como imorais. Por exemplo, as relações homossexuais, as tatuagens, os brincos, as roupas, o parto cesariana, a camisinha, as bebidas alcoólicas, a depilação, o cigarro e etc.

Ora, naturalmente falando as relações sexuais devem ocorrer entre homem e mulher, porque é o mecanismo natural para se preservar a espécie; e o ânus serve para secretar fezes e não para receber sêmen e a orelha não apresenta furos para se colocar brincos; e a pele é apenas uma proteção do organismo humano, não uma parede para se pintar; e não nascemos com roupas; e o parto natural é aquele em que o bebê é expelido pelo canal vaginal; e a camisinha evita o mecanismo natural de preservação da espécie; e as bebidas alcoólicas não dão em rios. Então, se práticas não-naturais não são corretas, então o ateu não deve fazer nada disso.

Finalmente, é interessante ressaltar que na maioria das vezes a moral é contrária aos próprios instintos. E é por isso que ela pode ser mais facilmente ignorada e até mesmo deturpada, diferentemente dos instintos. Por exemplo, o que é que impede um homem de saciar o seu instinto natural por sexo quando vê uma mulher bonita na rua? É a moral. E o que nos impulsiona a salvar uma pessoa desconhecida de algum tipo de perigo mesmo que isso ponha em risco a nossa vida? É a moral.

Então, vemos que a moral é um elemento bem diferente dos instintos, podendo ser ignorada e deturpada; podendo ser contrária aos instintos e até mesmo fortalecendo um instinto específico em uma situação onde exista um conflito entre dois instintos. Por exemplo: uma mãe tentando proteger seus filhos de um perigo (auto-preservação versus preservação da espécie).

Ainda devemos ressaltar que: se os instintos tivessem que ser seguidos sempre apenas pelo fato de serem naturais, então não há erro em estuprar uma mulher na rua e deixar morrer um desconhecido. Essas atitudes são ações instintivas (instinto sexual – ou de procriação – e instinto de auto-proteção).

Considerações Finais

Irritado com às incômodas conclusões às quais estamos chegando, um ateu pode tentar se defender dizendo que ateus não são pessoas imorais, que a moral não depende da religião, que existem muitos ateus mais morais que cristãos e etc. Ok. Concordo com tudo isso. Mas o que isso tem a ver com o argumento moral? Nada! O argumento moral não se propõe a dizer que os ateus são imorais, mas sim que existem valores morais no mundo, que eles não são relativos e que só podem existir mediante um padrão moral superior e transcendente, ao qual chamamos de Deus.

O ateu também pode argumentar que existiram sociedades que cometeram e ensinaram atrocidades e que isso é uma prova de que não existem valores morais. Porém, uma coisa nada tem a ver com a outra. A existência de valores morais absolutos não impedem que a moral seja deturpada ou, em parte, ignorada. Agora, ignorar ou deturpar a moral não significa não saber distinguir o certo do errado e, sim, tentar justificar o erro, tornando-o uma exceção – um marido traído, por exemplo, ao assassinar a esposa, justifica-se dizendo que ela mereceu. Além disso, mesmo em uma sociedade imoral, existem resquícios de moralidade suficientes para que um indivíduo reflita sobre suas atitudes e escolha mudar.

O próprio fato de observar o sofrimento alheio e se colocar no lugar do sofredor não só é um convite à moralidade como a prova de que há uma espécie de consciência no homem; um padrão a ser seguido, ensinado e ratificado no convívio da sociedade. O valor de uma lágrima, de um sofrimento de um sorriso ou de uma vida, tal como o sentimento de reciprocidade, existe devido a este padrão. A nossa concepção de bom e ruim, de certo e errado, de moral e imoral, só faz sentido mediante um padrão superior do qual emana essas concepções. E... Cabe a cada um, escolher se vai seguir, ignorar ou deturpar essas concepções. Quem as ignora, tende a se tornar insensível à elas.

Segue-se, então, a conclusão de nossas análises sobre a moral: se ela é objetiva, ela não pode ser resultado de convenção humana e nem de mero instinto. Ela é um elemento presente na sociedade e no ser humano individualmente, e só existe porque há um padrão maior do qual ela emana. Esse padrão é chamado pelos teístas de Deus, cuja moral, na realidade, faz parte de seu próprio ser. Assim, se a moral é objetiva (como a maior parte das pessoas parece concordar), ela é uma evidência de que Deus existe.
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Referências:

1. Não tenho fé suficiente para ser ateu, Normam Geisler e Frank Turek
2. Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis
3. Debate: William Lane Craig x Peter Atkins, no Carter Presidential Center, Atlanta, Georgia, EUA – 1998. Presente no link: http://descontradizendocontradicoes.blogspot.com.br/2010/11/debate-deus-existe-wlliam-lane-craig-x.html
4. Debate: William Lane Craig x Austin Dacey, em Pardue University, West Lafayette, Indiana, EUA – 2004. Presente no link: http://descontradizendocontradicoes.blogspot.com.br/2010/10/debate-william-lane-craig-x-austin.html

domingo, 14 de outubro de 2012

Argumentos para a existência de Deus – Parte 2: Argumento Teleológico

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Na primeira postagem dessa série, nós estudamos sobre o argumento cosmológico. Segundo este argumento, que é baseado no raciocínio lógico e respaldado por dados científicos, o universo teve um início. Como tudo o que teve um início, teve uma causa para esse início, constata-se que o universo teve uma causa. E como essa causa não pode ser o próprio universo, conclui-se que a causa deve ser um agente que está além de elementos compositores do universo tais como: tempo, espaço, matéria e energia; sem início e com propriedades de criação. A este agente necessário e poderoso, os teístas chamam de Deus.

Nessa segunda postagem, vamos estudar um pouco sobre o argumento teleológico. Teleologia vem do grego “teleo”, que quer dizer “finalidade” e “logia”, que quer dizer “estudo”. Em outras palavras, o argumento teleológico é o argumento que estuda a finalidade. Mas que finalidade? Vamos entender. 


Introdução 


O filósofo e teólogo William Paley (1743-1805) explica o argumento através da chamada “Analogia do Relojoeiro”. Nesta analogia, Paley argumenta que se alguém encontra um relógio no chão, jamais acreditará que ele se formou por meio de forças casuais da natureza. Em vez disso, concluirá que o relógio foi projetado, pois todo seu mecanismo é complexo, ordenado e apresenta uma finalidade. 

Se o relógio é um projeto, isso significa que houve um projetista por trás desse projeto. Uma mente responsável pela ordem do mecanismo, pela finalidade do projeto e pelo seu funcionamento. Da mesma forma, ao observar o universo e a vida é racional concluir que há um projetista para ambos. 

Embora o argumento possa parecer poético à primeira vista, é incrivelmente irracional sustentar que a complexidade e a ordem existente foram alcançadas através de um conjunto imensurável de casualidades sem objetivos. Friso aqui a expressão “sem objetivos” porque me parece que os ateus adeptos da teoria da evolução esquecem que casualidades são eventos aleatórios e não ordenados. Não há um ordenador, logo não há motivo para haver uma ordem. Em um universo onde todos os eventos não apresentam um ordenador, não há finalidades a serem alcançadas. Logo, não há evolução. Tudo é mera casualidade e a casualidade gera caos e não ordem. 

O argumento teleológico pode ser resumido da seguinte forma: 
(1) Os mecanismos do universo e os organismos dos seres vivos são complexos e detalhados, apresentando funcionalidade, estabilidade e finalidade;
(2) um universo onde todos os eventos são meras casualidades, sem objetivos e sem um agente que ordena os eventos, não poderia ser responsável por tais mecanismos e organismos ordenados;
(3) logo, conclui-se que deve existir um agente ordenador inteligente que pôs o universo e os organismos para funcionarem e deu estabilidade a este funcionamento; tudo de maneira bem intencional.

A Sintonia Fina do Universo 


Suponhamos que você tenha a missão de contar quantas bolas de sinuca verdes, azuis, pretas, brancas, roxas, amarelas, vermelhas existem num conjunto de 9200 bolas. Com certeza, por você ter mente, consciência e objetividade, contará as bolas colocando-as em outros compartimentos do lugar onde você se encontra. Isso evitará que as mesmas bolas sejam contadas mais de uma vez. Além disso, você anotará de tempos em tempos o número de bolas, contará um grupo de cada vez (para se errar, não errar todos os grupos de cores) e com sorte poderá cumprir a missão ou chegar perto. 

Agora, imagine que você não pudesse transportar as bolas contadas para outros compartimentos do lugar em que você se encontra. Todas deveriam ficar amontoadas, espalhadas por todo o chão, em uma única sala e alcançando quase altura da mesma. Será que você conseguiria obter os mesmos resultados corretos ou próximos, que conseguiria no início? Dificultando mais: E se você não pudesse fazer as anotações de tempos em tempos do número em que está? E se simplesmente tivessem jogado você ali sem dizer o que deveria ser feito? 

Está entendendo onde quero chegar? Os valores que o universo necessita para comportar vida são “milimétricos”. A probabilidade de acertar todos eles, sem a ação de um agente que o faça conscientemente, é infinitesimal. Vamos pensar como um ateísta: para acertar os números que possibilitam a vida, o universo não teve uma mente objetiva para indicar o que precisava fazer e, a cada modificação, não pôde jogar fora a possibilidade de cometer os mesmos erros novamente. 

Para se ter ideia do que estamos falando, podemos citar dar alguns exemplos do que aconteceria se as constantes do universo, ajustadas desde o seu início, fossem minimamente modificadas [1]. Eis aí: 

(1) Se a constante da força da gravidade fosse alterada em 10 elevado a – 37 por cento (ou, se preferir 0,00000000000000000000000000000000000001), nosso Sol não existiria e, assim, nenhum ser humano. 

(2) Se a força centrífuga do movimento planetário não equilibrasse precisamente as forças gravitacionais, nada poderia ser mantido numa órbita ao redor do Sol. 

(3) Se a constante da interação gravitacional entre a Terra e a Lua fosse maior do que é atualmente, as marés dos oceanos, a atmosfera e o tempo de rotação seriam bastante severos. Se fosse menor, as mudanças orbitais provocariam instabilidades no clima. Em qualquer das hipóteses, não haveria vida na Terra. 

(4) Se Júpiter não estivesse em sua rota atual, a Terra seria bombardeada com material espacial. O campo gravitacional de Júpiter age como uma espécie de aspirador de pó, atraindo asteróides e cometas que, de outra maneira, atingiriam a Terra. 

(5) Se o Universo tivesse se expandido numa taxa um milionésimo mais lento do que o que aconteceu, a expansão teria parado, e o Universo desabaria sobre si mesmo antes que qualquer estrela pudesse ser formada. Se tivesse se expandido mais rapidamente, então as galáxias não teriam surgido. 

(6) Qualquer uma das leis da física pode ser descrita como uma função da velocidade da luz. Até mesmo uma pequena variação na velocidade da luz alteraria as outras constantes e impediria a possibilidade de vida no planeta Terra. 

(7) Se a rotação da Terra durasse mais que 24 horas, as diferenças de temperatura entre o dia e a noite seriam extremas. Se o período de rotação fosse menor, a velocidade dos ventos atmosféricos seria grande demais. 

(8) Cerca de 20% da atmosfera é composta por oxigênio. Se essa constante fosse de 25%, incêndios espontâneos seriam comuns; sendo de 15%, seríamos sufocados. 

(9) Se o nível de CO2 fosse mais alto do que é agora, teríamos o desenvolvimento de um enorme efeito estufa e todas as pessoas seríam queimadas. Se o nível fosse menor, as plantas não seriam capazes de manter uma fotossíntese eficiente e as pessoas não poderiam respirar. 

(10) Se os níveis de vapor de água na atmosfera fossem maiores do que são agora, um efeito estufa descontrolado faria as temperaturas subirem a níveis altíssimos para a vida humana; se fossem menores, um efeito estufa insuficiente faria a Terra ficar fria demais para a existência de vida. 

Aqui pudemos observar 10 constantes, cuja precisão é responsável pela existência de vida na Terra. Entretanto, existem mais de 100 constatantes como estas, as quais, embora não fossem estudadas há 2000 anos, seu efeito já era conhecido: a Terra estava ali, perfeitamente habitável, com todo um sistema natural que trabalhava junto, com um objetivo (uma meta), coisa que em um mundo ateísta, não existe. Por esta causa, o apóstolo Paulo, no início de sua epístola aos Romanos afirma assim: 

Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina [transcendente], têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis (Romanos 1:20).


Considerações Finais


Sobre todas estas exigências milagrosamente satisfeitas, os ateus vêm tentando desenvolver inúmeras explicações que fujam à necessidade da existência de um agente ordenador. Lembro-me de um debate entre William Lane Craig (PhD em filosofia e teologia e maior apologista cristão atualmente) e Austin Dacey (filósofo e humanista), onde o segundo sustentou que coisas improváveis ocorrem. “Ganhar na loteria é muito improvável, mas pessoas ganham” [2]. A analogia é ridícula! Comparar a probabilidade de alguém ganhar na loteria com a de surgir um universo capaz de comportar vida nele e de surgir vida espontaneamente neste universo é insustentável. 

Então, para terminar este tópico, proponho um pequeno teste. Arrume um dado de seis lados. Sua missão será jogar o seu dado seis vezes consecutivas e conseguir a série correta de 1 a 6. Ou seja, todas as vezes em que a sua série não começar com 1, ou começar com 1, mas não prosseguir com 2, 3, 4, 5 e 6, nessa ordem exata, sua série já deve ser contabilizada como um erro. Sendo muito pequena a probabilidade de isso ocorrer, tente fazer isso, pelo menos... 100 vezes por dia... Durante o tempo que você quiser (sugiro que faça por um mês inteiro). Tenho certeza de que jamais conseguirá a série correta. 

Mas ainda que você consiga, lembre-se: a probabilidade de o universo ter se ordenado sem uma inteligência ordenadora que guiasse essa ordem é muito menor do que a probabilidade de acertar a série correta em um dado de seis lados. Talvez seja algo como acertar a série correta de um dado de 100 lados. Essa comparação é desprovida de cálculos e eu não sou nenhum matemático. Entretanto, isso serve para ilustrar o quão improvável vem a ser o surgimento do universo e da vida no universo, caso não haja uma inteligência transcendente por trás disso. 
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Bibliografia: 


1. Livro: Não tenho fé suficiente para ser ateu, Norman Geisler e Frank Turek 
2. Debate: William Lane Craig x Austin Dacey, na Purdue University, West Lafayette, Indiana, EUA, 2004. – Presente no link: http://descontradizendocontradicoes.blogspot.com.br/2010/10/debate-william-lane-craig-x-austin.html

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Argumentos para a existência de Deus – Parte 1: Argumento Cosmológico

3 comentários:
Vou iniciar aqui hoje uma série de postagens sobre argumentos racionais para a existência de Deus. São argumentos que a maioria das pessoas não conhecem (o que é uma pena), mas que são expostos, desenvolvidos e debatidos nas verdadeiras discussões filosóficas. Descreverei os argumentos de modo bem simples. Então, se você acredita que discussões filosóficas são coisas complexas demais para “pessoas comuns”, não precisa ter medo do que vai encontrar por aqui.

Introdução

Este é o primeiro de uma série cumulativa de argumentos para a existência de Deus. Ele invoca uma observação lógica do universo e suas leis, concluindo de maneira simples e racional, que é necessária a existência de um agente transcendente criador do universo. Podemos dispô-lo da seguinte forma:
(1) Tudo o que começa a existir tem uma causa;

(2) O Universo começou a existir;

(3) Logo, ele teve uma causa.
Até este ponto, só introdução; nada que possa sustentar a necessidade da existência de Deus. Mas essa introdução é muito importante, pois nos permite ter a certeza de que o universo teve uma causa. O argumento se completa com as implicações dessa introdução. Perceba: se o universo realmente teve um início e esse início teve uma causa, isso significa que um dia o universo não existia e que alguma coisa o fez existir (o causou). Mas se o universo não existia, então a causa do universo não pode ter sido o próprio universo, não é verdade? Então, o que foi?

Aqui começamos a nos aproximar da conclusão do argumento cosmológico. Se as duas premissas de nossa introdução estão, de fato, corretas (o que veremos mais adiante), já sabemos que o universo teve um começo, que tal começo teve uma causa e que essa causa necessita ser algo além do próprio universo. Bem, do que é formado o universo? De tempo, espaço, matéria e energia, não é mesmo? Estas coisas estão todas interligadas. O nosso universo é a interligação entre esses quatro elementos. Isto implica que a causa do universo não pode ser nenhum deles (pois não existiam).

A conclusão de tudo isso é essa: a causa do universo só pode ser um agente transcendente (que está além da natureza) e com capacidade de fazer surgir o universo. Esse agente necessário e poderoso, os teístas chamam de Deus.

O argumento é simples e aparentemente lógico. Agora, é claro que existem tentativas de refutação por parte de ateístas e agnósticos. E seria muita indelicadeza minha se eu não os apresentasse aqui, até para que nós possamos observar se eles fazem algum sentido lógico. Então, vamos lá.

Tentativa de Refutação 1: Teoria do Nada


Para tentar refutar o argumento cosmológico, algumas teorias foram sendo pro-postas ao longo do tempo. Uma delas foi a de que o universo teria surgido do nada e o nada não necessita de causa, pois é nada. Alguns adeptos dessa teoria ainda salientam que no nada não existem leis da natureza e nem lógica, o que possibilita qualquer acontecimento, inclusive o surgimento espontâneo de todo o universo.

O argumento é aparentemente convincente, porém está completamente errado. O problema advém de uma confusão filosófica. Os adeptos da teoria do nada tratam o nada como uma entidade, um estado físico, um algo (alguns chegam a dizer que “nada” e “vácuo quântico” são a mesma coisa), quando na realidade, o nada é simplesmente a ausência de todas as coisas; o não-ser absoluto. O nada é a falta da lógica e também a falta da ilogicidade. Qualquer coisa que se postule acontecer no nada é contrária à própria definição correta de nada; pois o nada não é algo. O nada não tem capacidade de gerar ou agregar. O nada nem sequer tem capacidades. O nada é simplesmente nada, e nada mais. Portanto, o nada não pode causar algo.

Tentativa de Refutação 2: Teoria do nada + Teoria dos eventos sem causa

Mas argumentos lógicos não convencem cientificistas e empiristas radicais. Eles desdenham da filosofia e da lógica, buscando nos métodos de suas ciências específicas as respostas para todas as ciências. É o caso de outra classe de pessoas, que acredita veementemente que a física prova que coisas podem surgir sem causa, o que refuta a primeira premissa do argumento cosmológico e abre possibilidade para a existência do nada. Os exemplos aos quais recorrem são: o decaimento dos núcleos radioativos de um átomo e a emissão de fótons (partículas de luz), ambos estudados pela física subatômica. Segundo os físicos, estes eventos não apresentam causas visíveis, refutando a lei da causalidade. Em outras palavras, o universo poderia ter surgido do nada e sem nenhuma causa ou explicação.

Porém, o argumento é infantil e facilmente refutável. O primeiro ponto a ser esclarecido é que as partículas subatômicas não surgem do nada (no sentido real da palavra). Elas surgem dentro de um átomo, que por sua vez vai existir dentro de um universo. E se todas estas coisas existem e se originam dentro do universo, obviamente não surgem, nem passam a existir a partir do nada, pois estão dentro de algo.

Com relação à causa, o que existe na física subatômica é a impossibilidade de determinar ou predizer a velocidade e a posição das partículas em determinado momento. Isso pode ser chamado de princípio do indeterminismo ou principio da incer-teza de Heisenberg, o que nem de longe indica que tais eventos não apresentam uma causa. Até porque, quando uma partícula é estimulada para ocorrer um decaimento de núcleo, o mesmo ocorre porque ela foi estimulada, o que envolve um estado específico do átomo, da partícula e de tudo o que se relaciona com o evento; para que o decaimento ocorra. Então, ainda que não se possa determinar a causa específica, a causa geral englobará as condições especiais estabelecidas, sem as quais, o evento jamais ocorreria. E a causa geral não é “um nada”, vale lembrar.

Ainda um terceiro ponto pode ser abordado contra a “teoria do nada + a teoria dos eventos sem causa”: a impossibilidade de se provar ou evidenciar que algo surgiu do nada e/ou sem causa alguma. Ninguém pode provar que algo surgiu do nada ou que não teve causa. O que se faz é olhar para um efeito ao qual não se conseguiu determinar a causa e dizer que ele não foi causado. Isso não é uma prova. Isso é especulação grosseira e que milita contra a própria ciência, já que abre mão da razão.

É mais ou menos como quando dizemos que um amigo apareceu do nada por não tê-lo visto chegar. Ninguém que seja racional pensará que tal amigo surgiu espontaneamente do nada, sem nenhuma causa ou explicação. Mas é nisso que deveríamos crer se o fato de não determinar a causa de um evento nos conduzisse logicamente à conclusão de que tal evento realmente não teve causa.

Aliás, o cenário que um ateu tem que estar disposto a aceitar caso sustente que as partículas subatômicas e também o universo surgem sem causa, sem explicação e do nada (em todos os sentidos que a palavra pode oferecer) é absurdo. O artigo de Alex Pruss sobre isso é esclarecedor. Ele mostra que, ignorando o Princípio da Razão Suficiente – idéia de que fatos necessitam de causas e explicações – toda a vida se torna uma bagunça. Eis um trecho de seu artigo:
Comece com a observação de que uma vez que admitimos que alguns estados de coisas contingentes não têm explicação, um novo cenário completamente cético se torna possível: nenhum demônio está enganando você, mas seus estados de percepção estão ocorrendo por razão nenhuma, sem causas anteriores.

Além disso, probabilidades estão relacionadas a leis da natureza ou tendências objetivas. Por isso, se uma probabilidade se liga a algum fato aleatório, essa situação pode ser explicada em termos de leis da natureza ou tendências objetivas. Agora, se o PRS [Princípio da Razão Suficiente] é falso para algum fato aleatório, então nenhuma probabilidade objetiva está ligada ao tal fato.

Então, se o PRS é falso, nós sequer podemos dizer que violações dele são improváveis. Conseqüentemente, alguém que não afirme o PRS não pode dizer que esse cenário cético é objetivamente improvável. O que pode ser tirado disso é que se o PRS fosse falso, ou mesmo, não conhecido a priori, nós não saberíamos nenhuma verdade empírica [1].
O apologista James Sinclair complementa as palavras do articulista Alex Pruss com muita sabedoria e propriedade:
Se nós estamos falando da criação (definitiva) do universo, então o cenário ateu... acabará tendo essa realidade vinda do ‘nada’, onde o ‘nada’ é concebido como ‘ausência de ser’. ‘Nada’ não tem nenhuma propriedade ou restrições. Se coisas podem aparecer em existência, então tudo e qualquer coisa pode aparecer, sem restrições e sem nenhuma probabilidade ligada ao fato. 
Então, você não pode dizer: ‘Isso pode acontecer, mas apenas com universos’. Você não pode dizer: ‘Pode acontecer com universos, mas nós não podemos vê-los porque eles não interagem entre si’. Você não pode dizer: ‘Isso pode acontecer, mas é raro e, por isso, eu não espero um universo aparecendo na xícara do meu café na próxima manhã (ou um elefante rosa com uma gravata borboleta)’. 
As implicações totais disso seriam o cenário cético máximo: sem pensamentos e observações. Nada poderia em qualquer hipótese ser seguramente atribuído a algum processo evolucionário baseado na física, porque qualquer coisa simplesmente poderia ocorrer sem explicação [2].
Assim, a teoria de que o universo teria se originado do nada, sem nenhuma causa ou explicação, não só é incoerente e logicamente inválida, como terrivelmente perigosa para quem se julga racional. Para aceitá-la, mesmo sendo tão falha, é necessário que o indivíduo abra mão de todo o sistema de pensamento em que vivemos e aceite esse cenário incrivelmente cético, onde qualquer coisa pode acontecer do nada e sem explicação.

Tentativas de Refutação 3: Teoria do Universo Eterno (sem início)

Uma terceira teoria criada para resolver o problema da causa do universo é ainda mais ridícula. Sua idéia consiste em fazer do universo uma grande exceção. Quer dizer, o universo, formado por tempo, espaço, matéria e energia, não teve início, sendo ele eterno e auto-suficiente. A teoria é muito conveniente, pois um universo sem início e estático, como se acreditava na época de Albert Einstein, acaba com o problema da quebra da lei da causalidade e evita o incômodo de concordar com os teístas, defensores de um princípio para o universo, cuja causa seria Deus.

Entretanto, avanços na ciência e contribuições valiosas do pensamento lógico, fizeram a idéia do universo eterno e sem causa desmoronar por completa, confirmando que o universo teve um início, isto é, passou a existir um dia:

Começando pela ciência [3], podemos listar alguns fatos fundamentais para estas conclusões:

(1) a segunda lei da Termodinâmica;
(2) a primeira lei da termodinâmica;
(3) a expansão do universo;
(4) a radiação da expansão;
(5) sementes de grandes galáxias;
(6) a teoria da relatividade de Einstein.

Vamos dar uma pincelada em cada uma delas:

1 – A Segunda Lei da Termodinâmica: Esta é uma lei da física, que provavelmente o leitor já estudou na escola. Entre outras coisas a lei afirma que a quantidade de energia utilizável do universo está ficando menor a cada momento. Desta forma, o universo caminha para a sua extinção, já que um dia não haverá mais energia para sustentá-lo. Ora, se a energia irá se acabar é porque ela é finita, e se ela é finita, ela não poderia ter existido pela eternidade. Evidência de que o universo teve um início.

2 – A Primeira Lei da Termodinâmica: De maneira semelhante à segunda lei da termodinâmica, esta lei afirma que o universo não pode aumentar a energia existente (gerar mais); ou seja, ela é finita, constante. Então, se temos uma determinada quantidade de energia, que não aumentará, mas, pelo contrário, será gasta a cada momento que passa (segunda lei), podemos postular que essa energia surgiu juntamente com o universo e decretará o seu fim, em determinado momento.

Os apologistas Norman Geisler e Frank Turek utilizam uma analogia interessante para exemplificar o assunto [3]. Eles comparam o universo a um carro. Um carro tem uma quantidade finita de combustível que o faz funcionar. Ao ligarmos o carro, o combustível começa a ser gasto e numa hora, não haverá mais energia para mantê-lo ligado. Ou seja, a energia utilizável do carro é transformada em energia não-utilizável no processo de alimentação do automóvel. E embora a soma das duas energias resulte sempre na mesma quantidade inicial (pois a energia é constante), a energia não-utilizável será cada vez maior. Assim também é o universo.

3 – A Expansão do Universo: Foi o que astrônomo Edwin Hubble confirmou no fim da década de 1920, constatando em seu telescópio que todas as galáxias estão se afastando da nossa, em um constante processo de expansão. Ora, se o uni-erso se expande constantemente, significa que se retrocedessemos cada dia no tempo, veríamos o universo cada vez menor até um determinado ponto em que simplesmente apareceu, tendo sido causado por algum agente de ordem transcendente. Ou seja, a descoberta provou que o universo não é estático.

4- Radiação da Expansão: Chama-se de big bang, justamente a teoria de que em dado momento o universo surgiu (explodiu), e a partir daí começou a se expandir. Ao contrário do que muitos pensam, o big bang não indica que o universo surgiu a partir de uma espécie de pré-universo primitivo, onde um caldeirão de “pontos matemáticos” causou uma grande explosão que o originou. Não. Isso é teorização ateísta para tentar fugir do que a teoria realmente revela: o universo surgiu e antes dele não havia tempo, espaço, matéria e energia. Exatamente por isso, antes que a teoria alcançasse aceitação no meio científico, havia muita relutância por parte dos ateus, pois o big bang acabava com a folga de crer em um universo eterno e estático.

Em 1965, no entanto, as coisas ficaram mais difíceis para os ateus. Acidentalmente, os cientistas Arno Penzias e Robert Wilson, detectaram uma radiação na antena do laboratório Bell, em Holmdel, Nova Jersey. A radiação cósmica de fundo, como veio a ser chamada, era esperada caso a teoria do big bang esti-vesse correta. Ela já tinha sido prevista por George Gamov, Ralph Alpher e Robert Herman em 1948.

Basicamente, esta radiação é um brilho de luz e calor emanados da explosão inicial que deu origem ao universo, onde a luz não é mais tão visível em função da expansão do universo, mas o calor ainda pode ser detectado. A descoberta da dupla de cientistas acabou por lhes render o prêmio Nobel de Física, em 1978 e sufocou a ideia de um universo sem início.

5- Sementes de Grandes Galáxias: Em 1989, a NASA lançava um satélite chamado COBE (Cosmic Background Ex-plorer), com o intuito de encontrar o que seria mais uma linha de sustentação da teoria do big bang: ondulações na temperatura da radiação cósmica de fundo. Com essas ondulações, a matéria poderia ser reunida em galáxias por meio da atração gravitacional, o que seria mais uma forte evidência para a teoria.

Em 1992, o satélite produziu o que alguns cientistas chamaram de a “descoberta do século”. COBE não só descobriu as ondulações (ou oscilações) esperadas, como revelou a incrível precisão (de cerca de um sobre cem mil) com que o universo surgiu e se expandiu, unindo matéria em galáxias, sem que ele mesmo desabasse sobre si. Uma pequena variação que fosse e não haveria possibilidade de existir vida no universo.

O satélite conseguiu, ainda, tirar fotografias em infraver-melho que apontavam para a matéria do início do universo que viria formar galáxias e conjuntos de galáxias. Isso se deu pelo fato de que as observações espaciais, na realidade, são obser-vações do passado, em fator do tempo que a luz leva para chegar até nós. Assim, o que os cientistas viram em 1992 foram as “sementes” das galáxias, a prova de que o universo já foi um “pequeno feto”.

A respeito da nova descoberta, o líder do projeto, George Smut, concluiu: “O que nós descobrimos é uma evidência do nascimento do universo (...) Se você é religioso, então é como estar olhando para Deus”.

6- A Teoria da Relatividade de Einstein: Esta, na verdade, foi a base para que os cientistas começassem a predizer aspectos de um universo com princípio. A teoria afirma por meio de vários cálculos que tempo, espaço, matéria e energia estão correlacionados (são interdependentes) e que é necessário um mesmo início absoluto para eles.

Os cálculos haviam sido feitos em 1916, por Einstein, e talvez por estar em uma fase ateísta da vida, o físico resolveu criar uma constante em seus cálculos, para que não chegasse à conclusão de que o universo necessitava de um princípio. Mas com as descobertas cientificas, e principalemente o fato de que seu “fator disfarce” se constituía de um erro básico de matemá-tica, Albert Einstein se rendeu à ideia de um universo causado, chamando o seu erro de “o pior de sua vida”.

Esta meia dúzia de simples evidências científicas, aceitas unanimemente, é suficiente para que qualquer pessoa entenda que o universo é um efeito. Não obstante, algumas observações ainda mais simples, ligadas ao puro raciocínio lógico, podem ser feitas. Eis aí:

Se o universo fosse eterno, não haveria movimento ou modificações nele, pois com o tempo eterno, jamais chegaria o tempo de haver alguma modificação. É simples. Suponhamos que tenho uma reta numérica infinita. Digo que o universo teve determinada modificação no ponto 43 da reta. Mas onde começa a reta? Em nenhum ponto, pois é infinita tanto para frente como para trás. Logo, o ponto 43 jamais chegará.

E o interessante é que estamos falando de uma única modificação, mas sabemos que o tempo é incessante e que tudo muda o tempo todo. Dizer que espaço, energia e matéria sempre existiram, criando deste modo um tempo sem início nem fim, é dizer que a matéria e a energia do espaço são absolutamente estáticas, em função do tempo eterno. Mas como sabemos que o universo (e tudo o que há nele) não é assim, a conclusão lógica e muito simples é de que o universo teve um início; e este início teve uma causa que ainda não pode ser explicado pela própria natureza, que, a saber, não existia.

Tentativa de Refutação 4: Teoria da auto-criação do universo

Em uma linha superior de teorias idiotas, ainda temos a idéia de que o universo criou a si mesmo. Bem, trata-se de uma contradição lógica que uma criancinha de cinco anos de idade conseguiria compreender: algo que não existe, não pode vir a fazer alguma coisa. Para fazer alguma coisa é necessário existir primeiro. E se algo já existe, não criará a si mesmo, porque já existe. Vou simplificar ainda mais através de um exemplo da vida prática: Se uma mulher ainda não nasceu, não pode ficar grávida e gerar um filho. Como uma mulher que não existe vai parir um filho?

Tentativa de Refutação 5: Teoria dos múltiplos universos

Completando o leque de absurdos, temos a teoria de que o universo na verdade é somente um de trilhões de outros universos, que por muita sorte reuniu informações necessárias para dar certo. Muito bem. E daí? Isso não explica de onde ele surgiu, como surgiu, porque surgiu, qual é a sua causa, enfim, não explica nada. Antony Flew, importante filósofo do século XX, tendo sido ateu por mais de cinqüenta anos e mudado de opinião nos anos 2000, brinca com isto no livro Deus existe:
Como já mencionei, não achei muito útil a alternativa do multiverso. A hipótese de múltiplos universos, sus¬tentei, era uma alternativa desesperada. Se a existência de um único uni-verso requer uma explicação, universos múltiplos requerem uma muito maior: o problema é aumentado pelo fator de que teríamos de descobrir o número total desses universos. Vejo isso um pouco como o caso do menino cujo professor não acredita que o cachorro comeu sua lição de casa e que muda a primeira versão da história, dizendo que não foi apenas um cachorro que fez aquilo, mas um enorme bando deles [4].
Voltando ao Argumento Cosmológico

Finalmente, depois de analisar as diversas teorias para o problema da questão da causa do universo, chegamos a algumas conclusões racionais:
(1) O universo continua precisando de uma causa;

(2) Esta causa precisa mesmo ser transcendente;

(3) Esta causa não pode ser causada para não cair no problema do regresso infinito, onde o universo será eterno.
Em outras palavras, a causa do universo deve estar além do tempo, do espaço, da matéria e da energia, sendo antes o criador desses elementos. Então, mais uma vez voltamos para as implicações básicas do argumento cosmológico, às quais nos mostram que a causa do universo só pode ser aquele agente poderoso que os teístas chamam de Deus. Agora, veja como as coisas se encaixam:
(1) Um agente causador que não tem início (isto é, não começa a existir) também não precisa de uma causa, pois só o que começa a existir precisa de uma causa.

(2) Um agente causador que criou todas as coisas, não está sujeito a nenhuma delas. Não estando sujeito a nenhuma delas, ele detém o poder sobre todas.

(3) Então, tudo está resolvido: a causa do universo é um agente transcendente, onipotente e não-causado.
Por isso é que Deus é a resposta. Ele é o único agente que se adéqua a estas características. Mas falo de Deus, com D maiúsculo, o criador; e não de divindades menores com diversas características humanas. As religiões monoteístas sempre sus-tentaram esse Deus criador lógico, infinitamente superior e diferente de tudo o que existe. O judaísmo, a primeira religião oficialmente monoteísta e base para as outras, já afirmava isso há pelo menos trinta e seis séculos. Ele era o Criador, e, portanto, diferente de tudo o que havia criado.

Considerações Finais

Três coisas, no entanto, devem ficar claras. A primeira é que ao chamar esse agente de Deus, estamos apenas designando um nome apropriado para um agente transcendente. Eu poderia chamá-lo de sofá, ou qualquer outra coisa, mas seria incoerente, pois coisas como sofá são materiais, espaciais, temporais e, além disso, fabricadas pela humanidade. Não é o caso do agente que causou o universo.

A segunda é que a necessidade da existência de um agente transcendente e criador do universo, conforme nos diz o argumento cosmológico, não nos dá nenhuma base lógica para inferir qualquer característica sobre esse agente, a não ser as que foram concluídas pelo próprio argumento.

A terceira, e não menos importante coisa a ser deixada clara, é que quando digo que esse agente é imaterial, isso não significa que ele é feito de nada ou que ele é o nada. Significa que ele não é limitado a átomos ou formado por matéria, como qualquer um de nós enquadrados no espaço.

Isso não vem a ser o nada. O nada é nada, mas Deus é uma unidade ontológica básica com propriedades positivas de causa para fazer surgir todo o universo. Isso é Deus. Esse é o agente necessário que o argumento cosmológico pressupõe.
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Citações:

1. Artigo de Alex Pruss, seção 2.2.2, sobre o argumento cosmológico, retirado e traduzido do livro: Blackwell Companion to Natural Teology.
2. Artigo-resposta de James Sinclair e William Lane Craig, extraído do site Resonable Faith (fé racional).
3. Livro: Não tenho fé suficiente para ser ateu, de Normam Geisler e Frank Turek.
4. Livro: Deus Existe, de Antony Flew.