quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A crença no homem: uma análise crítica

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O presente texto pretende fazer uma breve análise crítica sobre a chamada crença no homem. Não estou falando, obviamente, da crença na existência do homem (o que seria absurdo criticar), mas na crença de que o ser humano é um ser superior, bom por natureza e capaz de vencer todos os obstáculos para a transformação do mundo em um paraíso. Esta fé é a base para a existência da doutrina humanista e, consequentemente, da doutrina esquerdista.

Mas será que realmente podemos confiar nesse “bom homem” humanista? Seria o homem um ser tão bom, superior, racional e capaz a ponto de conseguir resolver todos os problemas do mundo e criar uma sociedade inteiramente nova, pacífica, harmoniosa e igualitária? Podemos confiar na humanidade como se ela fosse um Deus onipotente e amoroso? Aliás, é sensato cultuar a humanidade, como fazem os humanistas? Bem, este é o tema dessa análise.

Rousseau e o bom selvagem

Iniciar a discussão com Rousseau é essencial. Nascido em 1712, em Genebra, na Suíça, Jean Jacques Rousseau foi o principal filósofo a sistematizar a doutrina de que a maldade não está na natureza humana, mas na sociedade. Em suas obras O Contrato Social e Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, o filósofo procura expor uma visão do homem como um ser que não vivia em sociedade no princípio.

Para Rousseau, os primeiros humanos não criavam vínculos duradouros uns com os outros, eram independentes, viviam isoladamente e seus raros encontros e interações não envolviam mais do que o essencial. Os primeiros humanos eram selvagens, mas no melhor sentido da palavra. Conheciam somente os instintos naturais de sobrevivência e piedade a indivíduos da própria espécie. Não haviam desenvolvido idiomas, tampouco escrita. Não tinham moradas fixas, nem faziam construções, mas viviam como nômades solitários, dormindo onde lhe dessem na telha.

Nesse estado de coisas, nenhum homem conhecia a maldade. Rousseau entende a maldade como um componente que só poderia surgir em uma sociedade. Vivendo na solidão, o homem não tinha como cobiçar postos, não havia hierarquia. Não tinha como guardar rancor ou como cobiçar a mulher do outro. Não existia casamento ou família, aliás. Homens e mulheres simplesmente se encontravam ocasionalmente e saciavam seu desejo sexual, sem que houvesse qualquer vínculo que os unisse. O fruto de uma relação podia ser criado por uma mulher até que tivesse idade suficiente para viver por si só.

As regras sociais que conhecemos hoje, as noções que temos, aquilo que nos é normal, não faziam parte da vida dos primeiros humanos. Era um homem primitivo, que não conhecia o mal e que simplesmente vivia, solitária e pacificamente.

O problema todo teria se iniciado quando os homens, conforme se desenvolviam intelectualmente, foram descobrindo que viver em unidade era útil. Daí começaram a fazer as primeiras associações. Surgiu à língua, o comércio, as funções, a reflexão sobre o que pensavam os outros homens e temores. O homem foi criando vínculos que antes não tinha, o nomadismo foi diminuindo, começou a se construir as primeiras cabanas, surgiram as primeiras famílias e, assim, os primeiros tipos de propriedade.

O homem aprendeu sentimentos novos como o amor conjugal, o amor fraternal e a ideia de meu e seu. Minha esposa, meus filhos, meu trabalho, minha casa. “O primeiro que, tendo cercado um terreno, se lembrou de dizer ‘isto é meu’, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil”, diz o filósofo, na segunda parte de seu Discurso.

Deriva daí a ambição por mais propriedades (ou o que o valha), a importância que se dá à honra e ao status, as paixões eróticas, o ciúme, a cobiça, o rancor e, a partir de então, todos os demais males que conhecemos. Assim, para Rousseau, a essência do homem seria boa, mas o tipo de sociedade que se construiu acabou engendrando males, vícios e paixões, que são passados a cada homem, de geração em geração. Quer dizer, nós todos nascemos bons, mas somos corrompidos aos poucos pela sociedade, conforme crescemos.

Essa era a crença de Rousseau. Mas ele não se limitava a enxergar o ser humano como bom por natureza e fim de papo. Para o filósofo, o ser humano tinha a capacidade de mudar esse panorama cruel e desigual da sociedade. E a chave para a mudança era uma reforma política. Rousseau entendia que a concretização dos males ocorrera com a instauração de uma desigualdade política. O despotismo era o último e o pior estágio dessa desigualdade, onde um único homem mandava em todos os homens. Entretanto, qualquer tipo de desigualdade política era nocivo.

Bem, sendo o homem bom por natureza e racional, havia nele a possibilidade de escolher o bem ou o mal mais uma inclinação natural ao bem. No fim de seu Discurso, ele declara: “Basta-me ter provado que esse [estado de maldade] não é o estado original do homem, e que só o espírito da sociedade e da desigualdade que ela engendra modificam e alteram, assim, todas as nossas inclinações naturais”.

Ou seja, as inclinações naturais do homem, para Rousseau, eram boas. É com base nisso que o filósofo vai sustentar as teses da “não-representação” e da “vontade geral”. A não-representação era a idéia de que um povo só é realmente livre se seguir as leis que ele mesmo fez. Assim, o poder legislativo deve ser o próprio povo e não um corpo de representantes do povo.

Quando o povo pode fazer suas próprias leis, prevalece o interesse comum acima do interesse individual. Aqui surge o conceito de vontade geral. Para Rousseau, sendo o homem bom por natureza, inclinado ao bem e fazendo parte de um povo que pode fazer as próprias leis, emerge desse contexto uma vontade geral de todo o povo. Não se trata da vontade da maioria, mas a vontade de todos mesmo. O filósofo entende que não há dissensão na vontade geral, pois todos colocam de lado seus interesses pessoais, o que lhes possibilita chegar a um bem comum (indiscutivelmente bom para todos).

Esta é a resolução do problema, para Rousseau. Quando o homem chega a esse bem comum, derivado da vontade geral (possibilitado pela reforma política), maldades, vícios e desigualdades desaparecem. Afinal, o mal não está dentro do homem, mas sim dentro sociedade, o que significa que se mudarmos a sociedade, nós acabamos com o mal que nos assola.

O mal como problema social

Aqui começam nossas análises. O mal é um problema social ou natural? Vamos supor, primeiramente, que ele seja social, como propõe Rousseau. De fato, muito do que o filósofo apresenta faz sentido. O meio em que vivemos tem grande influência sobre o desenvolvimento de nosso caráter. Assim é possível sustentar que se a sociedade como um todo não estivesse infectada com o mal, ninguém seria mal.

Mas essa concepção apresenta dois grandes problemas. O primeiro: ela ignora as nossas inclinações naturais. Todo indivíduo já nasce com inclinações naturais. Isso não quer dizer que ele precisa segui-las, mas é sempre mais fácil que as siga. Por exemplo, há pessoas que já nascem com um gênio mais forte, sem que haja qualquer influência do meio externo. Ela fica irritada com facilidade, é impulsiva e tem dificuldade de medir as palavras. Já há outras pessoas que nascem com uma calma natural. Seu metabolismo é mais devagar, ela é mais reflexiva e dificilmente se irrita.

Isso não é verdadeiro apenas para modos de agir, mas para gostos e dons. Quem não conhece uma pessoa que já nasceu com facilidade de desenhar? Nunca fez curso e ninguém na família tem essa habilidade, mas a pessoa desenha maravilhosamente bem desde pequena. E quanto à preferência que cada criança tem a algum tipo específico de brinquedo? Eu e meu irmão do meio gostávamos de boneco quando éramos pequenos, mas meu irmão caçula só se interessa por carrinhos. Isso é algo natural nele. Ninguém ensinou ou influenciou meu irmão caçula a gostar de carrinhos.

As pessoas nascem com inclinações naturais. É certo que tais inclinações podem ser desenvolvidas ou não, a depender do meio social em que o indivíduo vive, bem como de suas escolhas. Da mesma forma, o meio social e nossas escolhas podem criar inclinações em nós que não existiam, transformando-nos em pessoas diferentes do que seríamos naturalmente.

A coisa não é diferente quando o assunto são os vícios, as paixões e o mal. Por exemplo, aquela criança de dois ou três anos que recebe um brinquedo (não há nada de mal em ganhar um) e que desenvolve um ciúme excessivo do mesmo sem que ninguém o ensine ou influencie nisso. Isso o leva, por conta própria, a não querer emprestar seu brinquedo para outra criança, a não deixar ninguém pegá-lo e até a dizer: “É meu!”.

Esse é um caso comum e que eu já vi muitas vezes. Quem ensinou a criança a ser egoísta? Quem ensinou a criança a ter ciúmes excessivos? Dizer que foram os pais é uma mentira. É justamente em casos como esse que os próprios pais se surpreendem com a atitude da criança e procuram ensiná-la a fazer diferente. Ora, se somos mesmo bons por natureza, nossa inclinação natural deveria ser a de dividir, bem como a de não nutrir ciúmes excessivos.

Ainda falamos de crianças, também é comum ver crianças pequenas querendo o que é da outra criança para si. As mesmas crianças desobedecem aos pais, mentem para conseguir o que querem e muitas vezes fazem pirraça. Como explicar que uma criança de dois anos de idade aprendeu tudo isso com os pais ou com a sociedade?

O que parece ficar claro é que já nascemos com inclinações a determinados erros e mais que isso, com uma inclinação a não ser perfeito. Isso não está contra a noção de que os males sociais existem. Não há dúvida que existem. Isso também não quer dizer que somos presos as nossas inclinações naturais. Pessoas geniosas podem controlar sua raiva e fazer disso um hábito. Mas o ponto é: as evidências parecem indicar que o mal não é apenas social.

Bem, existe um segundo problema no que diz respeito à visão do mal como um problema apenas social. Ainda que isso fosse verdade e que o homem fosse bom em sua natureza, isso não garante que o homem pode acabar com o mal no mundo e fundar um paraíso na terra. Perceba: todos nós já fomos corrompidos pelo mal social. Se, de fato, é a sociedade que nos corrompe, não há quem não tenha sido corrompido. Qualquer que nasce na sociedade, será um pouco corrompido.

A noção de corrupção social envolve todos e as perguntas que ficam são: Até que ponto eu fui corrompido? Até que ponto cada um foi? Existe volta? Há como cada pessoa se “descorromper” socialmente? E será que podemos ficar imunes à corrupção social? Será que uma vez corrompidos socialmente, é possível se livrar dessa corrupção e nunca mais ser influenciado por ela? E ainda: Será que é necessário se descorromper totalmente ou a sociedade pode se tornar boa mesmo com nossos “pequenos” erros?

Aqui vemos que a doutrina do mal como mero problema social é duplamente ingênua. O humanista não só precisa acreditar que o homem é bom e que o mal é social, como precisa acreditar que o homem, mesmo corrompido, é capaz de se descorromper e de não mais sofrer nenhuma influência social, mesmo vivendo em sociedade. Isso é bem ingênuo quando pensamos em termos de mundo, porém é orgulhoso quando pensamos em nosso próprio ser. Olhe para si mesmo, amigo leitor. Você, com todos os erros que tem, se considera bom o suficiente para formar um mundo perfeito? Corrompido como você é, será que o mundo poderia ser perfeito se todos fossem como você? Será que as diversas situações e contextos do mundo não fariam de muitos que tem o seu caráter, ladrões, exploradores, genocidas, sádicos, estupradores e ditadores?

Em outras palavras, como pessoas que foram corrompidas socialmente, mesmo que o mal não seja natural, não dá para saber se podemos fazer um mundo perfeito. Não nos conhecemos a nós mesmos o suficiente. Como depositar confiança na humanidade inteira, então? A verdade é que as evidências parecem estar contra a descorrupção social da humanidade também. Afinal, todos os exemplos de projetos políticos que intentaram fazer isso na história, fracassaram. O resultado vem sendo sempre genocídios, opressão, ditadura e um fim bem diferente do que os idealizadores gostariam.
Então, vemos aqui que encarar o mal como um problema meramente social e o ser humano como naturalmente bom, apresenta grandes problemas, porque não leva em conta as evidências das inclinações naturais humanas e porque acredita que o homem, mesmo corrompido, pode formar um mundo perfeito (um contra-senso). Ao que parece, o homem já tem uma inclinação ao mal e, por isso, o problema não é só social.

O mal como problema natural

- A visão darwinista:

O mal como problema natural não é muito bem visto pelos acadêmicos. Por uma razão simples: a maioria dos acadêmicos tem tendências humanistas. Desde o advento da Revolução Francesa, tornou-se feio no meio acadêmico afirmar que o homem é mal por natureza, pois isso parece remeter à religião tradicional. Foi a religião tradicional (o judaísmo, o cristianismo e o islamismo) que sempre entendeu o mal dessa forma. Como a Revolução Francesa pretendia minar a religião tradicional e procurar fazer um mundo perfeito através da crença no homem, a herança que recebemos foi a de que o mal como problema natural não passa de uma mentira religiosa.

Felizmente (ou, infelizmente, para os humanistas), o mal como problema natural não necessariamente precisa estar ligado à religião. E creio ser esse o maior trunfo dos conservadores modernos. Conforme aponta o filósofo ateu John Gray, em seus livros Cachorros de Palha e A Missa Negra, o darwinismo não oferece ao humanista uma boa base para crer que o homem é naturalmente bom. Pelo contrário, é por meio da teoria da evolução das espécies que todos nós podemos ter a plena certeza de que o mal é natural e não dá para mudar isso. Explico.

O darwinismo não entende o ser humano como um ser diferente dos animais. Ele apresenta razão, ok, porém não deixa de ser um animal como os outros. Então, existem algumas coisas básicas inerentes aos animais que também são inerentes ao homem, tais como o instinto de luta pela sobrevivência, o territorialismo, o gregarismo, a busca pelo poder no bando, o predadorismo e etc. Trata-se de características naturais e que, quando somadas à razão, tornam-se ainda mais fortes.

Ora, são dessas características que surge o egoísmo, o egocentrismo, a noção de que algumas mentiras podem nos levar a alcançar algo que queremos, o desejo de ser o líder de um “bando”, a concepção de status, a inveja, a idéia de “meu” e “seu”, o ciúme excessivo, o rancor, a necessidade da luta e etc.

Thomas Hobbes, um filósofo e escritor monarquista do século XVII, parecia já ter essa idéia em mente antes de Darwin formular a teoria da evolução. Ele afirmava que o homem, em seu estado natural, estava sempre em conflito. Tais conflitos eram gerados pela competição, pela desconfiança e pela glória. O ser humano compete porque muitas vezes deseja aquilo que é de outrem e que não pode ser desfrutado por ambos; desconfia porque teme pela sua vida (instinto de auto-preservação); busca a glória porque é um ser que naturalmente se julga maior que o outro, querendo esse status.

O que Hobbes descreve aqui nada mais é do que o homem como um animal. É essa a descrição que se espera de um animal racional. Ele preserva elementos naturais que foram responsáveis pela seleção natural de sua espécie, mas por ser racional, tem a condição de usar essas características de maneira pensada. O homem é pior do que os outros animais justamente por racional. É isso lhe permite maquinar o mal contra a sua própria espécie e usar seus instintos para alcançar o que seus instintos não alcançariam naturalmente se não houvesse razão.

É claro que essa descrição incômoda do homem não é uma desculpa para que nós ajamos como pessoas más. Se, por um lado, a razão nos torna capaz de sermos piores, por outro lado, nós temos um senso moral. E é esse senso moral que precisa ser exercitado por cada indivíduo. Isso é possível, pois existem pessoas que são muito boas e justas. Mas a verdade é que como animais, nós temos características naturais que não são boas ou, no mínimo, que nos levam com facilidade a cometer erros. São inclinações que tornam o jargão “ninguém é perfeito” muito verdadeiro.

A idéia de que a evolução nos faz evoluir moralmente também é uma tolice sem tamanho. A história não só nos mostra o oposto, como também a lógica. Afinal, a moral não é uma questão de instinto natural ou genética, mas de conduta pessoal. Ou seja, ser moral ou não, depende de escolhas individuais. Eu é que decido se cometerei um erro ou não. Assim, a evolução das espécies nada tem a ver com a moral. Minha moral só vai evoluir se eu quiser que ela evolua. Ainda assim, eu não serei perfeito. Ainda assim, eu terei inclinações naturais a erros às quais não poderei anular. A vida humana é uma luta eterna contra suas inclinações e, por isso, o ser humano não é confiável.

- A visão criacionista:


Bem, vimos que o darwinismo é uma evidência favorável ao mal como problema natural do ser humano. Agora, creio que nós podemos verificar a concepção da religião tradicional sobre esse tema. A idéia de que o ser humano tem a natureza corrompida é uma das principais bases da religião tradicional. É na Bíblia judaico-cristã, por exemplo, que podemos observar afirmações contundentes como: “Maldito o homem que confia no homem” (Jeremias 17:5) e “Não há justo, um só sequer” (Romanos 3:10). O apóstolo Paulo chega a ser cético quanto a sua própria conduta natural, dizendo:
Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim o que detesto. (...) Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. (...) Então, ao querer fazer o bem encontro a lei de que o mal reside em mim (Romanos 7:15, 18, 19 e 21).
Em Salmos 146:3-4, o rei Davi deixa claro como que deve ser a nossa conduta no que diz respeito à confiança em homens importantes:
Não confiem em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não existe salvação. Sai-lhes o espírito e eles retornam ao pó [morrem]. Nesse mesmo dia, perecem todos os seus desígnios.
Em suma, para a Bíblia, o ser humano é um mero mortal, naturalmente inclinado ao erro e incapaz de levar salvação ao mundo. Ele não pode mudar sua natureza e é por isso que mesmo existindo muitas pessoas relativamente boas e justas, não nos é possível fazer o mundo inteiro ser bom. A humanidade simplesmente é incapaz disso.

A explicação religiosa para essa contingência está na queda dos primeiros seres humanos. Deus os havia criado naturalmente bons; inclinados ao bem. E todo o mundo era harmônico e perfeito. Mas a partir do momento em que eles cometeram o primeiro erro, sua natureza e o mundo começaram a se modificar rapidamente. Surgiu o instinto de sobrevivência em um mundo que não era mais harmônico, o temor da morte, a raiva, a angústia, a falta de paciência, o egocentrismo, o egoísmo e o orgulho. Os instintos e temores novos que surgiam, bem como a hostilidade que aumentava no mundo, faziam com que a humanidade se inclinasse mais e mais aos pecados.

A queda também gerou diferenças naturais nos seres humanos. Homens são mais fortes que mulheres; alguns homens são mais fortes que outros homens; alguns são mais inteligentes. Essas diferenças geraram diferenças de resultados na vida de cada um, o que converteu a auto preservação em um amor excessivo por si mesmo, despertando o desejo de querer o que é do outro, de querer ter sempre mais e de se sentir ameaçado por quem pode querer o que é seu. Os erros se instalaram em nossa natureza.

Uma cadeia lógica de eventos pode explicar bem todo o processo de degradação no mundo e na natureza das espécies. Se no começo tínhamos um mundo harmonioso, as vidas microbióticas existentes neste mundo não representavam um perigo para o homem ou mesmo para os animais em função do forte sistema imunológico de ambos e pelas funções não nocivas que foram dadas a esses micróbios.

A decomposição de matéria orgânica não digerida pelo homem e pelos animais, o auxílio na digestão em algumas espécies e a associação com vegetais são algumas das funções destes micróbios primitivos que ao serem absorvidos por qualquer espécie, não apresentando serventia, são simplesmente expelidos do organismo, sem causar danos a nenhuma das duas espécies. Não há nada que afete o equilíbrio nesse mundo. Cada ser coopera de alguma forma com o ecossistema em constante e perfeito mutualismo.

Não há necessidade de instinto de sobrevivência, não há temor de se perder a vida, não há territorialismo, não há luta. Tanto homem como animal, não se alimentam de carne, mas de frutas, vegetais, cereais, tendo estes os nutrientes essenciais para a sustentação da vida. Uma nutrição que não dá espaço para desgastes, disfunções e câncer. Além disso, o derramamento de sangue é inexistente, não há morte e o espaço terrestre é gigantesco, dando possibilidade a uma extensa procriação.

Mas, no momento em que os primeiros homens cometem o primeiro erro, surge uma leva de sentimentos novos que começam a destruir a harmonia. O pecado pesa na consciência. Surge a tristeza, o remorso e a insegurança. Isso abala o psicológico do ser humano e diminui sua imunidade. Alguns microorganismos passaram a ser prejudiciais ao homem. A luta entre anticorpos e micróbios se torna desequilibrada. Em vez de expulsões sem danos, micróbios passam a deixar problemas no organismo humano e o nosso organismo por sua vez passa a ser um problema para alguns deles. Isso impele essas vidas microbióticas a desencadear um sistema de adaptabilidade. Os micróbios passaram a ficar cada vez mais fortes.

O corpo humano tentava desesperadamente retornar ao seu estado original, mas o psicológico do homem estava muito abalado. Havia estresse. Havia baixa auto-estima. Havia agora problemas causados pela mente. A falta de paciência é um sintoma direto disso, bem como a agressividade. Com mente e corpo abalados, a situação do homem só piora no que diz respeito às suas inclinações naturais.

Os micróbios que desencadeiam os seus primeiros processos de adaptabilidade tornam-se um problema também para os animais. Alguns passam a ficar estressados e se tornar mais agressivos. Disputas começaram a ocorrer e a natureza foi se transformando em um campo de batalha onde somente os melhores adaptados poderiam sobreviver.

O corpo enfraquecido requer uma dieta diferente para muitos. A modificação do instinto natural e as novas necessidades alimentares posteriormente gerariam uma classe de animais carnívoros. Estes também se adaptam ao longo dos tempos, conquistando dentes e garras mais afiadas, além de técnicas próprias para a caça. E, desse modo, cada espécie, animal e ser vivo passa a desenvolver formas diferentes de sobrevivência em um mundo cada vez mais hostil.

Esta visão de mundo está de acordo com a chamada “lei da entropia”, uma lei da física que afirma que o sistema tende a se desordenar. Isso ocorre porque vivemos em um sistema interligado. Uma vez que não exista total harmonia nesse sistema, uma coisa tende a desordenar a outra. É como efeito dominó. Empurre o primeiro dominó de uma série de peças e todas elas começarão a cair, uma derrubando a outra. A diferença entre o dominó e o nosso sistema é que os organismos que compõem o sistema respondem incessantemente a essa tendência à desordem, criando mecanismos de adaptação.

Em suma, a religião tradicional não vê o homem como naturalmente bom, pois a sua natureza humana foi corrompida, o sistema todo se desordenou e desde então nós somos apenas seres inclinados ao que é errado. Podemos e devemos tentar não cometer erros, tentar sermos os mais justos possíveis e procurar nos guiar pela moral, mas não é possível alcançar a perfeição individual e é uma idiotice acreditar que o mundo inteiro alcançará essa perfeição. O paraíso não pode ser alcançado enquanto a natureza do ser humano não for modificada. E isso só ocorrerá após essa vida terrena.

A imbecilidade e a periculosidade da crença humanista

Bem, nós vimos que o mal como problema meramente social não se sustenta. O mal no mundo tem sim uma dimensão social, mas o ser humano nasce com inclinações naturais ao erro. Tanto se aceitarmos a teoria darwinista como se aceitarmos a idéia de queda do ser humano descrita na Bíblia, a conclusão é a mesma. Para quem não deseja aceitar nem uma teoria nem outra, as evidências históricas bastam. A maldade que tem havido na humanidade desde os tempos mais remotos indicam que o problema não pode ser meramente social. Os pequenos erros que cometemos e as inclinações que podemos ver já em crianças indicam que já trazemos uma espécie de “pecado” em nós.

Mas ainda que o mal fosse só social, mais uma vez a crença dos humanistas no homem não se sustentaria. O fato do mal ser social não nos dá a certeza de que podemos vencer esse mal, pois em maior ou menor grau, todos já foram corrompidos socialmente e não estão imunes ao problema. Montesquieu, que não acreditava no mal natural, sabia que o homem não se tornava imune ao erro só por este ser social. É dele a frase: “Todo o homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites”.

Em outras palavras, Montesquieu podia até não concordar que o ser humano era mal por natureza, mas sabia muito bem que não havia volta para a humanidade. Foi isso que o levou a criticar veementemente o poder despótico e a pensar que a tripartição do poder político (em legislativo, executivo e judiciário) era essencial para evitar que um número pequeno de pessoas explorasse o povo inteiro. Montesquieu entendia a questão da luta: acreditava que a limitação e a tensão entre os poderes criavam a moderação. Ele não depositava muita confiança no homem.

Aqui fica comprovada a imbecilidade da crença humanista. O humanista acredita com todas as suas forças no ser humano. O mal é reflexo de uma sociedade corrompida, que tem passado valores errôneos adiante. Mas o homem é plenamente capaz de vencer o mal, de mudar o mundo e de fazer um paraíso na terra. Não é ridículo? Mas o pior não é a imbecilidade da crença, mas a sua periculosidade.

A crença humanista é responsável por pelo menos 150 milhões de mortes só no século XX. Como? É simples. Acompanhe o raciocínio. Se o homem tem a capacidade de mudar o mundo e torná-lo um paraíso, por que não o faz? Bem, é porque existe algo que está impedindo essa mudança. E o que seria? Para Rousseau o problema estava na desigualdade política. Ela impedia que se colocasse em prática a vontade geral (ou algo próximo a isso). Mas as idéias de Rousseau eram muito vagas. Então, veio Karl Marx e revolucionou o pensamento humanista e esquerdista. Em vez de apontar a desigualdade política como a culpada, Marx raciocinou que essa desigualdade era apenas resultado da luta de classes.

Para Marx e seu amigo Engels, essas lutas ocorrem desde o início da sociedade entre “homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos”. E agora essas lutas estariam alcançando o seu apogeu com a burguesia e o proletariado.

Perceba como o marxismo está fortemente baseado no humanismo. O marxismo entende que o capitalismo torna a sociedade desigual porque a burguesia toma conta dos meios de produção e suga todo o lucro do trabalho do proletariado, que é formado pela maior parte da população. Assim, a riqueza da maioria depende da miséria da maioria, criando assim a exploração, a ganância e todos os males que nos assolam.

Em outras palavras, a sociedade deixará de ser má quando o proletariado destruir a burguesia. Não havendo mais antagonismos de classes, não haverá luta e não havendo luta, a sociedade será igualitária e pacífica (o céu na terra). É por ter tanta fé no homem que Marx e Engels não viam problema algum na tal “ditadura do proletariado”. Essa era a ditadura que ocorreria entre o capitalismo e a consolidação do comunismo em todo o mundo, até que a burguesia fosse derrubada, os problemas sociais fossem resolvidos e o próprio Estado se tornasse desnecessário. É preciso muita fé no homem para crer nisso...

Bem, já vimos postagem Os principais erros de Marx que a idéia de burguesia como o câncer do mundo é um engodo. O que Marx faz aqui é adotar a fé no homem naturalmente bom e plenamente capaz e tentar justificar essa fé, colocando a culpa na burguesia. Mas e se tal crença estivesse correta? Bem, se Karl Marx e Friedrich Engels estivessem certos, o comunismo seguiria exatamente o caminho que eles traçaram. De fato, se o homem é bom e capaz e o problema está na burguesia, a ditadura do proletariado com certeza iria dar jeito em tudo, não é?


Mas o que foi que ocorreu no século XX, quando os primeiros países começam a implementar o socialismo marxista em sua política? Uhn... Opressão, autoritarismo, um forte controle dos meios de comunicação, produtos de má qualidade, pobreza para todos (menos para os ditadores, claro), incapacidade de se levar bem a economia, repressão a idéias dissidentes e, claro, genocídios. Era onde eu queria chegar...

Os genocídios não são coisa repugnante para os esquerdistas (todo o esquerdista é humanista e vice versa). Afinal, se há um bem maior para se conquistar, matar quem está atrapalhando (ou quem parece estar atrapalhando) é justo. Os jacobinos, partido de esquerda da Revolução Ultra-humanista Francesa, foram os primeiros a entender bem essa mentalidade maquiavélica. No período que ficou conhecido como Terror Jacobino (1793-1794), os líderes jacobinos prenderam os deputados de oposição, acabaram com a política democrática recém formada e iniciaram uma forte repressão a qualquer que se opusesse às suas idéias, o que levou à morte de algo entre 20 e 50 mil pessoas. Isso tudo em nome de um bem maior. Isso tudo em pouco mais de um ano...

É nesse espírito que os ditadores comunistas do século XX governam os seus países. Lênin, da URSS, mata cerca de 1 milhão de pessoas. Pol Pot, do Camboja, leva à morte cerca de 2 milhões. Stálin, também da URSS, mata cerca de 20 milhões. Mao Tsé Tung, da China, mata cerca de 70 milhões de pessoas. Há também 2 milhões de morte na Coréia do Norte e 150 mil almas levadas na América Latina. E eu não citei tudo. A estimativa média é de que o comunismo tenha levado à morte algo em torno de 100 milhões de pessoas. Bem, era de se esperar, já que todos os países comunistas tiveram regimes ditatoriais e repressivos.

Mas nem só de comunismos se faz um século genocida. Adolf Hitler levou à morte mais ou menos 40 milhões de pessoas. E Benedito Mussolini, o Duce, matou algo em torno de 440 mil, a maioria empurrando para a guerra. Porém, perceba como que os ditadores fascistas compartilhavam exatamente das mesmas idéias básicas dos ditadores comunistas: o ser humano tem a capacidade de mudar o mundo. Ele pode resolver todos os problemas porque não é em sua natureza que reside o mal, mas na sociedade.

Daí é que surge a noção de que uma ditadura não será algo ruim. Um Estado totalitário é uma fórmula infalível para pôr em prática a nova sociedade, para regular a economia, para elevar um determinado grupo (o comunismo queria elevar os proletários de todo o mundo, enquanto que o nazismo queria elevar o homem ariano e o fascismo italiano queria elevar o homem italiano), para tirar obstáculos do caminho, para chegar a um suposto “bem comum”, para tornar o homem menos individualista e, por fim, para criar o paraíso. Todos eles tirando a culpa de si mesmo e pondo a culpa em um grupo, como a burguesia, o conservador, o judeu, o negro ou qualquer outro bode expiatório da humanidade inteira.

Vimos isso na postagem sobre a religião política. O que define religião política é justamente essa crença utópica na bondade e na capacidade do homem. O pilar da fé do religioso político não é Deus, mas o ser humano. E o seu Messias é o revolucionário que usará os poderes do Santo Estado para fazer vir o reino de paz. Hitler, Stálin, Lenin, Mao Tsé Tung, Fidel Castro, Che Guevara. Todos eles, Cristos da religião política. As diferenças existentes entre as ideologias desses Cristos são detalhes secundários, assim como as diferenças entre as diversas vertentes da religião tradicional também o são.

O básico da religião tradicional é: Há um Deus criador onipotente; há santos profetas e Messias. Há o Espírito Santo do Criador. Há um paraíso prometido para os bons. Há os bons e há os maus. Há o Diabo. Há a condenação para os maus.

O básico da religião política é: Há o Ser humano, naturalmente bom e capaz; há santos revolucionários e um líder Messias. Há o Santo Estado do Messias. Há um paraíso que será formado aqui nessa terra por esse líder, seus santos revolucionários e seus discípulos. Há os bons (quem está do lado do líder) e os maus (quem não está do lado do líder). Há um grupo de pessoas que estão impedindo a formação do novo mundo. Há a repressão desses para o bem de todos os “bons”.

Todo o projeto que se pauta no humanismo segue essa mesma linha de redenção mundial através da capacidade do ser humano. E é isso que a esquerda continua a pregar incessantemente até hoje. Por mais que os discursos tenham se tornado mais diluídos e, aparentemente, menos radicais, a religião política continua a mesma. O obamismo que o diga: “Yes, We Can do it” (“Sim, nós podemos fazer isso”).

A estatolatria, os mirabolantes projetos globais e o culto à personalidade são as marcas registradas dessa crença esquerdista no homem que continua a engambelar os indivíduos com a utopia do mundo melhor. E onde isso vai parar? O filósofo e articulista Olavo de Carvalho fala com muita propriedade sobre isso, no vídeo denominado Fujam do Mundo Melhor:


Em suma, a crença no homem não só é imbecil e contrária as evidências, como é perigosa. Se muitos homens, ao longo do tempo, usaram a religião tradicional para fazer o que queriam, com muito mais intensidade usaram a religião política para escravizar as pessoas. Afora isso, um religioso tradicional está errado diante de Deus e de sua própria religião ao cometer atrocidades. A Bíblia nos manda amar ao próximo, não matar, não roubar, não fazer o mal. Porém, um religioso político é livre para fazer qualquer coisa ruim. Afinal, seus atos são justificados pelo bem maior que ele acredita estar fazendo para a humanidade. Vide Che Guevara, um assassino frio. No entanto, sua imagem é venerada e muitos jovens se sentem inspirados pelo “revolucionário”.



Ironicamente, os religiosos políticos atacam os religiosos tradicionais por suas crenças “cegas” e “perigosas”. Acreditam que o mundo estaria melhor sem a existência da religião tradicional. Veja só quanta tolice! Em primeiro lugar, se todos os religiosos tradicionais seguissem realmente a religião tradicional, tudo estaria resolvido. A religião tradicional prega o amor. Então, o problema é justamente a religião não ser seguida da forma como está escrita. Acabar com a religião não é o caminho. O caminho é tornar os religiosos mais praticantes daquilo que prega a sua religião.



Em segundo lugar, se de fato as crenças da religião tradicional são falsas elas não são tão cegas quanto às crenças humanistas. O religioso político crê que o homem é bom, que pode mudar o mundo, que pode fazer um paraíso na terra, que a ditadura do proletariado é uma coisa positiva, que o Estado deve intervir fortemente na vida dos cidadãos, que os genocídios esquerdistas são justificados pelo bem da causa, que o Estado deve acumular inúmeros serviços e funções (o que aumenta os impostos e torna a administração quase impossível – e os desvios de verba, mais freqüentes), que a culpa de tudo é de uma classe de pessoas e etc. São ou não são crenças cegas?



Bem, esta é a crença no homem. Creio que não há mais nada para falar. Tentei mostrar nesse texto que tal crença é infundada, está contra todas as evidências e, ainda por cima, é uma crença perigosa, que anda de mãos dadas com genocídios. Foi um texto breve, pois cada um dos pontos apresentados aqui poderiam ser bem mais detalhados e explicados. Mesmo assim, acredito ter deixado bem claro que as crenças humanistas são dignas de deboche e ridicularização. 



Gostaria de terminar com um apelo: se o leitor é um conservador ou religioso tradicional como eu, não deixe que um humanista (ou esquerdista, dá no mesmo) fique empurrando essas crenças imbecis pra cima de você. Encha-o de questionamentos. Peça para que ele prove cada uma dessas crenças. Não é ele que se julga o dono da razão? A obrigação dele, portanto, será provar ser o dono da razão. Ou melhor, tentar... Porque no final, você vai perceber que ele é mil vezes mais crente do que você.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Afinal, quem foi Jesus? - Parte 3: Mais que um simples homem

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Vimos na última postagem que Jesus também não poderia ter sido apenas um grande mestre da moral, nem um grande mentiroso e nem um grande lunático. Todas essas alternativas falharam feio. O que nos resta, então? Bem, agora não há mais como negar que Jesus era algo mais do que um homem como qualquer outro. Jesus, com certeza, tinha alguma ligação com o sobrenatural. Há três opções aqui: (a) Jesus teria sido alguém com influência satânica – a hipótese judaica; (b) Jesus teria sido um profeta de Deus, mas não divino – hipótese islâmica; (c) Jesus era (e é) parte do próprio Deus – hipótese cristã. Nesta postagem, vamos analisar as três.


A) Possuído por demônios



Quando lemos o Novo Testamento, vemos que os líderes judaicos (que, em sua maioria, não gostavam de Jesus) não negavam que Jesus fazia milagres. Os milagres de Jesus eram conhecidos do público judeu e esse era um dos motivos pelo qual a popularidade de Jesus foi consideravelmente alta até antes de ser crucificado. O motivo pelo qual a maioria dos judeus parou de crer em Jesus, deixando uma forte tradição anticristã para as gerações futuras, foi a sua morte na cruz. Precisamente aquilo que seria o ponto principal de pregação dos cristãos algumas semanas depois, passou a ser a principal razão da recusa judaica em aceitá-lo como Messias.



Quanto aos líderes, eles faziam oposição a Jesus desde antes de sua crucificação. A razão era a atitude de Jesus quanto a eles. Jesus costumava criticá-los por hipocrisia, não os bajulava (como a maioria fazia), não aceitava as tradições rabínicas que não estavam pautadas nas Escrituras e não parecia estar interessado em assumir o trono.



Com isso, a visão que predominava entre os líderes judaicos sobre Jesus e a visão que passou a predominar após sua morte era a de que Jesus tinha sido um homem apóstata, herege e possuído por demônios, que intentou desviar o povo judeu dos caminhos corretos. A influência satânica seria a explicação para os seus milagres. A crucificação seria a confirmação de que Jesus era um “maldito de Deus”, a expressão utilizada para quem morria pendurado.



A questão é: Em que se baseia essa afirmação? Como podemos reconhecer uma pessoa que está agindo por influência satânica? Penso que é aqui que o judaísmo falha. Jesus não tinha as características que uma pessoa possuída. A primeira característica de uma pessoa influenciada pelo Diabo é falar contra a Palavra de Deus ou deturpá-la, a fim de enganar as pessoas. Mas não há na teologia de Jesus nada que contradiga as Escrituras. Pelo contrário, Jesus procurou em todo o seu ministério basear-se nas Escrituras e acusar aqueles que a deturpavam. Em certa ocasião Jesus afirmou:
Jeitosamente vocês rejeitam os mandamentos de Deus para guardar a própria tradição. Pois Moisés disse: ‘Honra teu pai e tua mãe’. Disse também: ‘Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte’. Vocês, porém, dizem: ‘Se um homem disser a seu pai ou sua mãe que aquilo que poderia dar a eles é Corbã, isto é, oferta para o Senhor, isso o dispensa de fazer qualquer coisa em favor de seu pai ou de sua mãe’. Assim, vocês invalidam a Palavra de Deus pela própria tradição de vocês, que vocês mesmos transmitiram. E fazem muitas outras coisas semelhantes (Marcos 7:9-13).
Veja como Jesus está fazendo justamente o oposto do que faria alguém com influência de Satanás. Ele está exaltando as leis das Escrituras e criticando as tradições corrompidas dos líderes judaicos da época. Em outra ocasião, quando um fariseu perguntou a Jesus quais os mandamentos das Escrituras eram mais importantes, ele respondeu:
O principal é: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força’. O segundo é: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Não há outro mandamento maior que estes (Marcos 12:29-31).
A resposta de Jesus é uma citação literal de um texto que está em Deuteronômio 6:4-5 (um texto imprescindível para os judeus) e de outro texto que está em Levítico 19:18. É curioso como que Jesus não só responde corretamente como tem o cuidado de selecionar textos provenientes da Torá (os cinco primeiros livros das Escrituras), que os judeus viam com ainda mais reverência. Ouvindo essa resposta, o fariseu que o havia questionado, teve que reconhecer:
Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que Ele é o único e não há outro senão Ele, e que amar a Deus de todo o coração e de todo o entendimento e de toda a força e amar ao próximo como a ti mesmo excede a todos os holocaustos e sacrifícios (Marcos 12:32-33).
A preocupação de Jesus em fazer tudo conforme as Escrituras (a Palavra de Deus) era tão grande que, logo ao começar seu ministério, ele teve o cuidado de afirmar ao público:
Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus (Mateus 5:17-20).
E Jesus seguiu esse procedimento até o fim da vida. Durante todo o Novo Testamento o que vemos é Jesus elevando a Palavra de Deus. Jesus era uma Bíblia ambulante. E era por isso que não se podia pegá-lo em contradição. Foram diversas as vezes em que os líderes judaicos tentaram fazê-lo, mas sem êxito.



O que diferia a teologia de Jesus da teologia judaica da época não era a doutrina em si, mas a interpretação da doutrina. Por exemplo, a questão da missão do Messias. Jesus, que se identificava como sendo o Messias, tinha a plena convicção de que sua missão não era terrena. Por esse motivo, se recusou a tomar o trono. 



Interessante que se ele era mesmo um endemoninhado, se tornar rei seria algo importante para desviar a povo dos caminhos de Deus. Se ele agisse como os judeus da época esperavam que o Messias iria agir, todos os judeus creriam nele, incluindo os líderes. Da mesma forma, é interessante que se ele era um endemoninhado, caminhar para a morte era frustrar os planos de Satanás. Afinal, o Diabo não pode ressuscitar ninguém. Assim, sua morte não poderia servir de pilar para a crença dos primeiros discípulos na ressurreição corporal de Cristo, nem a tumba vazia seria explicada. 



Poder-se-ia sustentar que Satanás possuiu alguém para roubar o corpo de Cristo e exerceu influência mental em mais de 500 pessoas para que acreditassem ter visto e tocado em Jesus depois de sua morte. Assim, o cristianismo teria surgido. Entretanto, isso seria dar ao Diabo um poder que ele não possui: o de controlar pessoas que se guiam pelos princípios de Deus. Como venho dizendo, Jesus não agia como um endemoninhado e muito menos agiram posteriormente os seus discípulos e os primeiros cristãos. Tal como Jesus seguia estritamente as Escrituras Sagradas, os seus discípulos fizeram o mesmo e assim ensinaram aos demais. Em Tiago, por exemplo, lemos:
Se vós, contudo, observai a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores. Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade (Tiago 2:8-11).
Aqui Tiago deixa claro que os cristãos deveriam seguir as Escrituras e serem zelosos quanto à observância dos dez mandamentos. O discípulo João também afirma:
Todo aquele que pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgressão da lei. Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado. Todo aquele que permanece nele não vive pecando; todo aquele que vive pecando não o viu, nem o conheceu (João 3:4-6).
Isso não é coisa que um integrante de uma seita demoníaca diria. A verdade é que a teologia cristã, se seguida corretamente, preserva os principais pontos da teologia judaica. As diferenças estão nos ritualismos (que para os cristãos eram preceitos temporários, apenas prefiguração de Jesus, não precisando ser mais cumpridos hoje), nas leis civis (que para Jesus eram leis de caráter contextual, devendo ser cumpridas de acordo com o que o contexto ordena) e na concepção de Deus Triúno, isto é, um único Deus, mas formado por três partes (pessoas): o Pai, Jesus Cristo e o Espírito Santo.



O apóstolo Paulo não foge a regra. Ex-fariseu, Paulo mostrava em todos os seus escritos um amplo conhecimento das Escrituras. E todo esse conhecimento era aplicado em sua teologia. Ele diz em Romanos 7:12-16:
Por conseguinte, a lei é santa; e o mandamento, santo, justo e bom. Acaso o bom se me tornou em morte? De modo nenhum! Pelo contrário, o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno. Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido a escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa.
Isso é uma das inúmeras provas de que o cristianismo não era uma religião contrária ao que o judaísmo pregava e muito menos era uma religião pautada em princípios demoníacos. Os judeus (e também os islâmicos) argumentam que o princípio demoníaco do cristianismo seria fazer de Jesus parte de Deus. No entanto, a não ser que realmente Jesus não seja um com Deus, não há pecado em afirmar isso. O cristianismo não afirma que existem vários deuses. Ele afirma que existe um só Deus, formado por três pessoas, que são iguais em essência. Seria algo como três pedaços de uma mesma laranja: são três pedaços, mas os três são iguais em essência; e formam uma laranja, não três.



Então, a questão na qual devemos focalizar é se havia evidências ou não de que Jesus era um endemoninhado. E a resposta é não. Não havia. Pelo contrário, Jesus citava sempre as Escrituras e, antes de retornar para o céu, mostrou aos discípulos as diversas profecias e simbologias que para ele apontavam nas próprias Escrituras judaicas (profecias e simbologias que terei o prazer de expor e de analisar em uma próxima ocasião).



Curiosamente, existe nos evangelhos uma passagem em que Jesus lida com essa hipótese de que ele seria um endemoninhado. Sua resposta aos líderes judaicos é muito interessante:
Então, lhe trouxeram um endemoninhado, cego e mudo; e ele o curou, passando o mudo a falar e ver. E toda a multidão se admirava e dizia: É este, porventura, o Filho [descendente] de Davi? Mas os fariseus, ouvindo isto, murmuravam: Este não expele demônios senão pelo poder de Belzebu [Diabo], maioral dos demônios. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensa-mentos, disse: Todo o reino dividido contra si ficará deserto e toda a cidade ou casa dividida contra si, não subsistirá. Se Satanás expele a Satanás, dividido está contra si mesmo; como, pois, subsistirá o seu reino? (Mateus 12:22-26). 
O raciocínio lógico que Jesus tinha me encanta. Aqui Jesus mostra que não fazia sentido que os líderes judaicos o acusassem de endemoninhado. Suas atitudes não eram de quem estava possuído por demônios, mas de quem lutava contra o poder das trevas. Portanto, se realmente ele fazia o que fazia com o poder do Diabo, então o Diabo estava lutando contra si mesmo. E é evidente que Satanás jamais faria uma idiotice dessas.



A conclusão é óbvia: Jesus não era um endemoninhado. Satanás nada ganhava com as ações de Jesus. Pelo contrário, perdia. A hipótese que resta, antes de aceitar Jesus como divino, seria a de que Jesus foi apenas um profeta de Deus. Essa é a hipótese do islamismo. Vamos vê-la?



B) Um Grande Profeta



Bem, como já disse, a visão de Jesus como um profeta é a visão islâmica de quem teria sido Jesus. Ela é descrita no Corão, o livro sagrado do islamismo. O islamismo surgiu através do profeta Muhammad, durante o sexto século depois de Cristo. O profeta afirmava que recebeu uma visão do anjo Gabriel, cuja mensagem era de que ele (Muhammad) era um profeta e que Deus (o mesmo Deus do judaísmo e do cristianismo) queria restaurar seus ensinamentos originais, que haviam sido detur-pados e/ou esquecidos com o passar do tempo pelas principais religiões monoteístas.



Tendo sido encorajado a espalhar essa mensagem, Muhammad sofreu oposição em Meca (sua cidade natal) e, fugindo para Medina, se tornou chefe da primeira comunidade mulçumana que existiu. A partir daí, travou-se um grande número de batalhas entre os habitantes de Medina e Meca, na maior parte das vezes com vitórias Muhammad e de seus seguidores. O resultado da liderança do profeta foi unificar toda a Arábia Saudita sob uma só religião, o islamismo.



E qual, exatamente, é a visão que os islâmicos tem sobre Jesus e o cristianismo? Bem, para os islâmicos Jesus foi um homem normal que seguia os preceitos de Deus e que se tornou um profeta de grande importância (talvez só menor que Muhammad). Para os islâmicos também, Deus não é um ser Triúno. Sendo assim, o cristianismo teria se corrompido ao elevar Jesus ao posto de Deus, algo que o próprio Jesus, segundo os islâmicos, não teria ensinado.



Agora, vamos começar nossas análises. O islamismo é uma religião que surge seiscentos anos depois de Jesus, afirmando que o cristianismo estava errado por divinizar Cristo. Existem duas hipóteses utilizadas por islâmicos que explicariam esse suposto pecado dos cristãos: (1) a de que os documentos que compõem o Novo Testamento foram deturpados ao longo do tempo, fazendo com que Jesus fosse aparecendo como divino neles; (2) o Novo Testamento tem sido mal interpretado pelos cristãos.



Quanto à primeira hipótese, ela carece de apoio histórico. Talvez o leitor não saiba, mas os documentos do Novo Testamento são os mais confiáveis documentos históricos do mundo quanto à fidelidade do seu conteúdo. Vou explicar o motivo. Conforme eu afirmei na postagem do argumento da ressurreição, um dos métodos dos historiadores para saber se determinado fato foi deturpado ao longo do tempo é a análise das cópias dos documentos que relatam o fato. Por exemplo, suponha que existam 10 cópias de um documento chamado X. Esse documento atesta o fato Y. Acontece que em cada um dos documentos o fato é descrito de maneira diferente. Não, não se tratam de documentos de autores diferentes. São cópias de um mesmo documento, mas com diferenças no conteúdo. A que conclusão eu devo chegar? É lógico. O documento foi adulterado ao longo do tempo.



Então, para um historiador, quanto mais cópias antigas existirem de um determinado documento, mais fácil é para descobrir se a informação presente nele foi deturpada ou não. Se não existe muita diferença no conteúdo, podemos afirmar que a informação é confiável. Pois bem, os documentos do Novo Testamento são campeões nisso. Existem cerca de 5700 manuscritos gregos do Novo Testamento (ou fragmentos dele) com datas bem antigas. E esses documentos não apresentam erros centrais em seus conteúdos. As informações de cada uma das cópias são rigorosamente iguais umas as outras no que diz respeito às doutrinas principais do cristianismo.



Para se ter idéia do que essas informações significam, vamos fazer algumas comparações. A obra Illíada de Homero, a mais bem documentada depois do Novo Testamento, apresenta cerca de 640 manuscritos antigos. Outras obras importantes, como Guerras Gálicas, de Júlio César e Poética, de Aristóteles sobrevivem através de 10 e 5 manuscritos.



Em outras palavras, o número de cópias antigas do Novo Testamento é tão superior aos de outras obras antigas que não há justificativa para aceitar obras muito menos documentadas em detrimento do mesmo; e também não existe possibilidade de adulterações ao longo do tempo, já que as comparações entre os muitos manuscritos mostram que não há diferenças substanciais entre as diversas cópias.



Outro aspecto interessante que deve ser observado é que estas mesmas obras tão menos documentadas são datadas de muitos anos depois da escrita de seus originais. Falando mais uma vez de Illíada, que é a segunda obra com o menor espaço de tempo entre as cópias e os originais, temos uma diferença de 500 anos. Em Guerras Gálicas a diferença é ainda maior, 900 anos. E a cópia mais recente da Poética, de Aristóteles data de 1400 anos depois do original. Mas quando se trata do Novo Testamento, existem cópias que datam de apenas 90 anos depois da morte de Cristo, além de fragmentos discutíveis, talvez dos anos 50 d.C e 70 d.C.



Acabou por aqui? Não, não. Existe ainda outro ponto que confirma a confiabilidade do Novo Testamento. Os escritos dos “pais da Igreja”. Esses primeiros teólogos tinham o costume de escrever comentários sobre passagens do Novo Testamento. O apologista Bruce Mertzger afirma que 95% do Novo Testamento poderia ser reconstituído a partir apenas desses comentários. E esses pais da Igreja viveram realmente muito próximos dos eventos narrados no Novo Testamento, alguns deles chegando a conhecer alguns discípulos de Jesus. Ou seja, não pode ter havido deturpação nesse período.



O apologista Voddie Baucchan, em uma palestra, afirma que se realmente algumas pessoas adulteraram toda a história de Jesus, elas tiveram que:
encontrar seis mil manuscritos e porções de manuscritos em grego, roubá-los, mudá-los, não mostrar sua caligrafia, devolve-los (...), encontrar as traduções em siríaco, copta e latim, mudá-los para que combinem com as mentiras que contaram nos seis mil manuscritos, devolve-las aos lugares de onde roubaram, e então achar todos os escritos de todos os pais da igreja primitiva, mudá-los para combinar com as mentiras que contaram a dois níveis atrás, devolvê-los, nunca contar a ninguém o que fizeram e nunca serem pegos!
Essa argumentação serve tanto para mostrar a ateus e agnósticos que a Bíblia é confiável, como para mostrar para islâmicos que o Jesus divino do Novo Testamento não foi uma invenção dos cristãos, mas uma concepção que surgiu dos próprios ensinos de Jesus. Se fosse diferente, haveria documentos falando de Jesus como um profeta. De fato, um Jesus profeta teria causado muito menos rejeição entre israelitas e pagãos do que um Jesus Messias e divino, que morreu em uma cruz. Profetas costumavam mesmo terem um fim trágico e ninguém se admiraria se Jesus fosse apenas mais um profeta que foi injustiçado. Então, se a história real de Jesus tivesse sido adulterada com o tempo, com toda a certeza o resultado não seria um Jesus Messias e divino, que morreu e ressuscitou corporalmente. Seria um profeta humano, ou um espírito que parecia ter um corpo humano (como afirmam muitas obras apócrifas).



Agora, observe o panorama da situação. Seiscentos anos depois da morte de Jesus, surge um homem se dizendo profeta e que começa a descaracterizar aquele Jesus descrito nos evangelhos, nas cartas de Paulo, de Pedro, de João e de Tiago e nos escritos dos Pais da Igreja – documentos esses que são os registros mais antigos que existem sobre Jesus. Descaracteriza até a história de Jesus que encontramos nos documentos não-cristãos mais antigos. Opõe-se a fé dos cristãos mais antigos e próximos de Jesus. Embora o trate Jesus com respeito, Muhammad deixa claro que ele não passou de um profeta de Deus. A pergunta é: Não é difícil acreditar em alguém que contradiz um gigantesco movimento formado e firmado há seiscentos anos, cuja existência só é plausível se de fato Jesus era divino e ressuscitou?



Aliás, comparar Muhammad a Jesus e aos escritores bíblicos é interessante. O profeta árabe difere de Jesus, por exemplo, por ter sido um chefe militar e político também. Isso é um ponto-chave para entender porque o movimento islâmico cresceu tanto. A teologia islâmica tinha uma visão mais terrena do que a do cristianismo. Para quem se unia ao islamismo, havia muitas chances de uma boa vida ainda nessa terra. Muhammad deu aos árabes algo pelo qual lutar fisicamente. Movidos por um sonho político de unificar a Arábia, o exército do profeta tinha grande interesse em combater.



Ora, é muito mais fácil unificar pessoas para conquistar objetivos terrenos, nos quais a luta física não é descartada, do que unificar pessoas para sair pregando o evangelho, abrindo mão de usar a força. Mas a verdade é que esse sempre foi o plano de Deus. Se Deus precisou manter firmemente a nação israelita por vários séculos, a fim de preservar o monoteísmo e as verdades bíblicas até que Jesus viesse (como crêem os cristãos), quando Jesus veio, um novo contexto foi fundado. Uma nação limitada a determinado pedaço de terra já era passado. Deus tinha, pela primeira vez, a condição de preparar uma “nação” sem pátria, formada por cristãos “nômades”, que se espalhariam por diversos países, espalhando o evangelho sem fazer uso da força. O Espírito Santo, que agora habitava dentro de cada cristão, os tornava aptos a cumprir tal missão. E, de fato, até antes do Estado romano agregar a religião cristã para si (algo lastimável) cristãos espalharam o evangelho sem usar a força.



Muhammad, no entanto, cria um novo movimento que necessitava de luta. Era um contexto antigo retornando. Era uma teologia que fixava os olhos no terreno, na luta, na política. Talvez esse seja um ponto a favor de Jesus e contra Muhammad. Jesus deixava claro: “O meu reino não é desse mundo”. A teologia de Jesus só servia para quem pensava além desse mundo.



A teologia de Muhammad também diferia dos escritos bíblicos no sentido de que era baseada nos escritos de um único homem: ele mesmo. Quão diferente da Bíblia, uma coletânea de diversos documentos de autores diferentes, que viveram em épocas diferentes, mas cuja teologia é a mesma; um escrito complementa o outro. Não há contradições entre esses documentos. Qual a probabilidade disso acontecer sem que haja uma intervenção divina? É muito pequena. Então, a Bíblia acaba sendo bem mais confiável que o Corão.



Em suma, a suposição islâmica de que o conteúdo do Novo Testamento foi deturpado com o tempo não apresenta evidências. Tampouco existem motivos plausíveis para acreditar no Corão em detrimento da Bíblia. Não estou afirmando taxativamente que o Corão está errado, mas pelo menos até aqui ele está se mostrando pouco confiável.



A segunda hipótese islâmica para explicar o suposto pecado cristão de divinizar Jesus seria a de que o Novo Testamento tem sido mal interpretado desde os primeiros séculos. Acredito que esta hipótese é ainda mais fraca. O Novo Testamento é extremamente claro ao dizer que Jesus não é só um homem como qualquer outro, mas parte do próprio Deus. Dizer o oposto é contradizer de modo explícito todo o Novo Testamento. Vejamos algumas passagens:



Em João 8:58, Jesus diz: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”, indicando não só que ele existia antes de Abraão, mas chamando a si próprio pelo nome que ninguém ousaria chamar: Eu Sou. 



Eu Sou era o nome que Deus havia dito a Abraão quando este questionou o que responderia, caso perguntassem o nome de seu Deus. Isto está descrito em Êxodo 3:13-14. O fato de não haver concordância gramatical na frase de Jesus é uma prova do que ele queria expressar. Jesus não disse: “Antes que Abraão existisse, eu era”, ou: “Antes que Abraão existisse, eu existia”. Não, não, o que ele disse foi: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. E por causa disso, no versículo seguinte do texto de João, os judeus pegam pedras para atirarem nele. Claro! A não ser que Jesus realmente fosse divino, o que ele estava dizendo ali era uma blasfêmia sem tamanho.



Em Marcos 2:28, Jesus diz: “... de sorte que o Filho do Homem [Jesus se auto denominava assim, para mostrar que tinha vindo como homem, de carne e osso] é Senhor também do sábado”. 



Ora, Jesus acabava de ser acusado de transgredir a guarda do sétimo dia (o que era uma calúnia, na verdade), pois não o guardava da maneira que guardavam os mestres da lei. No entanto, Jesus vai longe e diz de maneira simples e direta que ele era o Senhor do Sábado, ou seja, sabia bem o que podia e o que não podia fazer neste dia. Ele era o dono, o criador daquele dia. A mesma história ainda é narrada em Mateus 12 e Lucas 6, expressando também essa verdade.



Em João 14:6, Jesus Cristo diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Que profeta teria a petulância e a soberba de aplicar a si mesmo tantos adjetivos grandiosos? Aliás, que profeta tomaria para si atributos que são especificamente divinos? Quem é o caminho, a verdade e a vida, senão o próprio Deus? Pode um profeta se chamar assim? 



Mas Jesus sabia que era muito mais do que um simples profeta e por isso proferiu em João 10:30: “Eu e o Pai somos um”. Em outras palavras, Jesus estava dizendo: “Eu sou parte do Deus Pai todo-poderoso. Quem conhece a mim, conhece ao Pai. Eu não sou só Filho de Deus. Eu sou parte do próprio Deus encarnado em um corpo de Filho de homem”.



Em Mateus 11:27, Jesus continua mostrando que não era só um profeta, dizendo: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. 



Era incrível como que Jesus aproximava Deus de sua pessoa! Ele se colocava numa posição acima de todos os seres humanos existentes na Terra: o único que viu a Deus, o único ser perfeito, aquele que revela a Deus e que de Deus recebeu tudo. Seria ele um mero profeta humano?



O discípulo Tomé, embora de pouca fé, sabia que Jesus não era só um profeta e, por isso, ao vê-lo após a ressurreição, exclamou: “Senhor meu e Deus meu!”, em João 20:28. Não, ele não estava usando uma força de expressão por estar impressionado ao ver Jesus. Os judeus tinham extrema reverência ao nome de Deus, de forma que jamais o colocariam em bordões ou expressões. O que Tomé faz aqui é olhar para Jesus e chamá-lo conscientemente de “Senhor meu e Deus meu!”. O fato de estarem em um ambiente fechado, só ele e os discípulos, contribuiu para que Tomé não temesse dizer isso. Tomé não seria apedrejado pelos judeus ali.



O apóstolo João também sabia quem era Jesus. No seu evangelho, logo no primeiro capítulo, ele escreve: “No princípio era o Verbo [Jesus], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. 



Conforme é possível ver no contexto do primeiro capítulo de João, o “Verbo” mencionado é Jesus e, segundo João, esse Verbo estava com Deus e era o próprio Deus! Quer um texto mais claro que esse? Não existe outra forma de interpretar. E no decorrer do evangelho, só confirmamos isso, vendo que Jesus dizia com autoridade ser o bom pastor, a porta, a salvação, a ressurreição, a vida, a água da vida, o pão da vida, enfim, adjetivos que só se aplicariam a um ser divino. 



Em concordância com essa interpretação, o incansável apóstolo Paulo, em Romanos 9:5, confirma tudo isso, dizendo que Jesus “é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre”. Então, será que existe escapatória para o islamismo? É possível que todos esses escritores bíblicos, que viveram no mesmo contexto histórico de Jesus não quisessem dizer o que disseram? Isso é pouco provável e extremamente implausível.



Com relação ao Antigo Testamento, que também faz parte das Escrituras, as indicações de que viria um homem com características divinas e libertaria as pessoas são abrangentes. Trata-se de profecias e simbologias que apontam para Jesus como sendo Cristo e como sendo divino, sem qualquer tipo de tentativa forçosa de comparação, mas apenas averiguando a compatibilidade.



Só para citar alguns dos mais de 50 exemplos, em Miquéias 5:2 lemos:
E tu, Belém-Efrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. 
Note que Jesus veio nasceu justamente em Belém e sua origem é bem antiga (é eterna), já que ele mesmo diz que “Antes de Abraão, Eu Sou”.



Em Isaías, no capítulo 53, podemos ler:

Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. 


Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.



Todavia ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará em suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.

É incrível como que toda a teologia cristã está resumida nesse texto, que foi escrito pelo profeta Isaías cerca de 700 anos antes de Cristo. Vemos aqui que aquele que nos justificaria dos pecados seria humilhado, machucado e entregue como ovelha ao matadouro. E sendo morto, seria sepultado com os perversos (os ladrões da cruz, lembra?), mas um rico lhe designaria uma sepultura (José de Arimatéia). Só que ele olharia para os frutos do seu trabalho (ou seja, ele ressuscitaria para ver isso, é claro) e ficaria satisfeito. Passou, então, a interceder pelas pessoas.



Para quem está familiarizado com o básico da história de Jesus e do Novo Testamento, é fácil captar esses e outros elementos conhecidos e específicos da teologia cristã que são comuns ao relato do profeta. Era como se o profeta Isaías tivesse observado com os próprios olhos os sofrimentos de Jesus, séculos antes de ele os passar. 



Temos ainda profecias muito interessantes em passagens como Isaías 11:2, Malaquias 3:1 e pelo menos mais 50 outras descritas por profetas diferentes, em épocas diferentes, muito antes do nascimento de Jesus, mas que se cumpriram em sua vida. Os detalhes dados sobre Jesus são tão fiéis que não há como desprezá-los, dizendo que se tratam de passagens fora do contexto ou mesmo que se referiam a outra pessoa.



As simbologias também se explicam com perfeição por meio da divindade de Jesus. Talvez os melhores exemplos disso sejam aqueles que envolvem os sacrifícios de animais presentes no sistema ritualístico do Antigo Testamento. Os judeus foram ordenados por Deus a fazerem esses sacrifícios e, antes mesmo do desenvolvimento da religião judaica, podemos observar essa estranha atitude de Deus.



Ora, para qualquer um que não entenda esses sacrifícios como uma simbologia do sacrifício de Jesus Cristo pelo ser humano na cruz, Deus parecerá um tanto sádico e louco. Sobretudo pelo fato de que o próprio Deus afirma, no Antigo Testamento, que não tinha prazer em sacrifícios de animais mais do que tinha em misericórdia e obediência. Ou seja, os sacrifícios não tinham valor em si. Eles só tinham valor se acompanhados de uma boa conduta, pois aqueles sacrifícios eram simbologias de algo maior que se aceitava pela fé em Deus.



Então, o Antigo Testamento só faz sentido se Jesus é, de fato, o Cristo esperado e divino. É apenas o Novo Testamento que apresenta a explicação para as profecias e as simbologias do Antigo Testamento. É apenas no Novo Testamento que aparece um homem extremamente sábio, capaz de calar doutores da lei, de pregar com autoridade que era um com Deus, de perdoar todos os pecados e de ser apontado como o sacrifício real e supremo que os profetas do qual os profetas falavam.



O judeu Jesus de Nazaré, se encarado como o Messias prometido, é o cumprimento de toda a simbologia. Todo o ritualismo judaico era uma prefiguração de Jesus e de seu sacrifício de amor pelo ser humano. Uma espécie de cheque pré-datado para os que esperavam o pagamento definitivo de suas dívidas (as quais não poderiam pagar).



Tudo se torna mais fiel quando lemos em Atos 5:34-40, que outros, antes de Jesus, já haviam se levantado afirmando serem o Messias. Estes conseguiram seguidores, mas duraram pouco tempo e seus ensinos não se espalharam. Não é difícil deduzir que muitos tentaram usar as Escrituras em benefício próprio, mas sem êxito, provavelmente por entrarem em contradições, por não pregarem com autoridade ou por terem sido silenciados pelos grandes doutores da lei judaica.



Jesus, entretanto, é o homem que se enquadra em todas as profecias e simbologias. Ele fala com autoridade, conhece as Escrituras a fundo, cala os doutores da lei, não entra em contradições, prega durante três anos e meio, anuncia a própria morte e ressurreição, se diz um com o Pai e leva milhares de pessoas a seguirem firmemente os seus ensinos, que perduram até aos dias de hoje.



Com todas essas evidências, torna-se muito difícil de sustentar que Jesus era apenas um profeta de Deus. Além do mais, o islamismo não tolera a idéia de Deus se tornar um homem como nós. Mas é justamente este o ato que mais nos dá certeza da existência e do caráter de Deus. Um Deus que somente assistisse tudo do alto, não só nos privaria de sermos justificados, como não poderia habitar em nós (através de seu Espírito), nos deixando eternamente indignos e impuros.



Assim, morreríamos em nossos pecados, tentando sem êxito sermos bons por nossas próprias forças. E, como se isso não bastasse, um Deus que não se tornasse um ser humano nos privaria de valiosas evidências de sua existência, envergonhando o seu povo na frente dos ateus.



Mas conforme a teologia cristã, Deus prova o seu amor através de Jesus. Certa vez, Jó, um personagem do Antigo Testamento, falou que Deus não podia saber o que o homem passava, porque não era um homem. Para o islamismo e o judaísmo, isso continua sendo assim até hoje. Mas para cristianismo, Jesus resolveu o problema. Conforme a epístola de Hebreus nos diz:
Tendo, pois, Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo-sacerdote que não possa compadecer-se de nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (Hebreus 4:14-15).
C) Jesus é parte do Deus Triúno



Aqui já podemos concluir que a hipótese cristã de que Jesus realmente foi e é divino é a mais plausível e provável. O que tentei fazer nesta postagem, de uma maneira clara, objetiva e resumida, foi analisar logicamente cada hipótese de quem teria sido Jesus e mostrar que as evidências estão a favor de um Jesus divino, tal como os cristãos sustentam há séculos. É óbvio que eu poderia ter abordado mais pontos interessantes e me aprofundado mais na questão da identidade de Jesus. Isso é assunto para um livro inteiro. Mas o pouco que foi dito aqui é o suficiente para que o leitor comece a compreender um pouco mais sobre o Deus apresentado na Bíblia.



Não é minha pretensão ser preconceituoso, intolerante ou ofensivo, mas não é muito lógico aceitar que Jesus Cristo, o homem que dividiu a história ao meio, tenha sido alguma das opções apresentadas até aqui. A sua perfeição em todas as coisas não nos permite tal infâmia. Ele provou de forma simples e clara que sempre existiu e veio a Terra para ser a perfeita ponte entre o Pai e os homens. Sim, uma ponte, pois veio como homem, se despindo de toda a sua glória, limitando-se a ponto de ter as nossas necessidades, mas ao mesmo tempo, ligado ao Pai, cheio de Espírito Santo, vencendo todas as tentações e prevalecendo como o único homem que não caiu em pecado. Ele nos deu toda a autoridade, para vencer a Satanás, pois nos justificou e através do seu nome, alcançamos vitória sobre o pecado.



Portanto, dizer que não existem motivos suficientes para acreditar que Jesus foi (e ainda é) o Senhor do Universo não passa de desculpa de quem não quer estudar com mais atenção cada detalhe da vida deste homem. Ele, em toda a sua grandeza fez questão de nos prover de evidências, para que a nossa fé não fosse cega. Porque a fé, certeza das coisas que não se viram (Hebreus 11:1) não é a certeza das coisas que não possuem evidências. O Senhor da Razão escreveu a fé com a caneta das evidências lógicas. E a principal evidência de que Deus existe, é Jesus. Afinal, Ele é parte de Deus, mas fez questão de vir a Terra, por mim e por você.



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Bibliografia:
1. Norman Geisler e Frank Turek, Não tenho Fe suficiente para ser ateu.
2. F. F. Bruce, Merece confiança o Novo Testamento?
3. Voddie Bauccham, Por que eu acredito na Bíblia? (Palestra) – Presente nos seguintes links: https://www.youtube.com/watch?v=8xidS64Ck9Q (Parte 1);