terça-feira, 28 de maio de 2013

Como seria um bom governo de direita - Parte 2

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Na primeira parte dessa série (se você não leu, clique aqui), começamos a ver algumas das principais propostas da direita. Lembrando que a direita é formada por várias vertentes distintas, algumas mais conservadoras, outras mais liberais, outras mais moderadas e outras mais radicais. Afora isso, cada indivíduo pensa de uma maneira e o fato de ser de direita não impede ninguém de adotar uma ou outra ideia mais centrista.

Sendo assim, as propostas mostradas nessa série constituem tão-somente uma base, que poderá ser desenvolvida de maneira diferente por cada pessoa, a depender da vertente de direita da qual ela faz parte. Portanto, o leitor não precisa se preocupar, caso discorde do modo de aplicação de uma das propostas ou até da proposta em si. Minha intenção é apenas fazer conhecidas algumas idéias tipicamente de direita e que, a meu ver, bons governos de direita se esforçariam para colocar em prática, gradualmente.

Bem, na primeira parte vimos cinco propostas. Hoje nós vamos conhecer mais quatro idéias: privatizações, as concessões de curto prazo, os presídio privados e a abertura da economia para empresas e produtos estrangeiros.

6) A questão das privatizações

Chama-se “privatização” o processo pelo qual uma empresa pública, de qualquer ramo que seja, é vendida pelo governo ao setor privado. O processo tem como objetivos principais: reduzir o número funções do Estado, facilitando a administração do governo; evitar o aumento de poder estatal, a fim de não gerar autoritarismo; desfazer monopólios de empresas estatais, abrindo concorrência; melhorar os serviços prestados pela empresa através da pressão do mercado; e impulsionar o crescimento da economia, gerando mais empregos e mais riqueza para o país.

Os resultados das privatizações, a médio e longo prazo, são satisfatórios. Todos esses objetivos quase sempre são alcançados. A Embraer, em sua era estatal, chegou a ter uma dívida de mais de 800 milhões de dólares. Nos anos 90, mandou embora quase 30% de seus funcionários contratados por não ter como pagá-los. Por não ter lucros, era isenta de imposto de renda. Quando foi privatizada, seus prejuízos foram diminuindo ano a ano e em 2001, a empresa já lucrava 1 bilhão por ano. De 2001 a 2004, ela gerou 2 bilhões em impostos e contribuição social para o governo. Antes da crise em 2007, a empresa chegou a 23 mil funcionários, 10 mil funcionários a mais que na era estatal. [1]

A Vale do Rio Doce, em sua era estatal, lucrava 500 milhões de reais por ano. O lucro hoje, na era privatizada, é de 40 bilhões. A empresa tem 8 vezes mais funcionários, paga cerca de 5 bilhões de salário (dez vezes mais do que seu lucro total antigo!) e gera mais de 2 bilhões de imposto anual para o governo. [1]

A Telebrás, sistema estatal de telefonia, oferecia péssimos serviços. Para se comprar um telefone, era necessário se inscrever e esperar por anos pela chegada do aparelho. Conseguir uma linha telefônica era um suplício. Um celular era tão caro que quem tinha um, precisava declarar imposto de renda. Mas com a privatização do sistema e a abertura para concorrência, em poucos anos o quadro mudou. Hoje tem gente que com dois telefones fixos e quatro celulares. Promoções é o que não falta. E mesmo que haja muita reclamação das empresas de telefonia, não há dúvida de o quadro atual é muito melhor do que o da era estatal. [1]

Então, conforme podemos ver, a privatização é um processo positivo para todos, tanto o mercado consumidor, quanto o mercado de trabalho, como para o governo. Mas, sempre a médio e longo prazo.

Não obstante, existe um mito espalhado pela esquerda de que a privatização de empresas públicas é prejudicial ao povo. Diz-se que “privatizar é entregar o patrimônio público nas mãos dos empresários” ou que “empresários só pensam no lucro e não na qualidade dos serviços” ou ainda que “privatização se resume a um conchavo entre governo e empresas privadas”.

É tudo mentira. Em primeiro lugar, o que os esquerdistas chamam de patrimônio público, nada mais é do que patrimônio dos governantes e dos funcionários da empresa estatal. Não é um patrimônio do povo. Por exemplo, a Petrobrás. O povo inteiro detém as ações dessa empresa na bolsa de valores? O povo inteiro recebe aumento de salário quando essa empresa gera muitos lucros? O povo inteiro tem poder de decisão dentro dessa empresa? Existem votações periódicas entre o povo brasileiro para saber como e onde a Petrobras irá gastar seu dinheiro? É claro que não. Então, esta empresa não é nossa. Ela é do governo. E como o governo não tem competência moral e administrativa para nos representar, a tendência é sempre vermos o dinheiro dos nossos impostos indo para o ralo com essas empresas, ou com corrupção ou com ineficiência ou com projetos que não queremos bancar. Eu não quero patrocinar a turnê da Maria Betânia ou o filme do fulano de tal. Mas eu tenho escolha?

A empresa estatal causa muitos prejuízos porque ela não se enquadra no modelo de competição do mercado, não sendo pressionada a oferecer bons serviços e nem tendo o perigo de falir. Se ela vai mal das pernas, em vez de falir, receberá mais dinheiro do governo. E se ela vai bem, o governo vai utilizá-la para desviar verba ou assegurar-se no poder. Por isso é que a privatização é uma boa saída para acabar com esse problema. Se não se privatiza, além do patrimônio não ser nosso, ainda perdemos dinheiro, pois nós é que financiamos o governo com nossos impostos.

Em segundo lugar, é verdade que empresários só pensam em lucro. Mas isso não é algo que a direita não saiba e nem é algo ruim. Como já disse, é a competição que faz os serviços ganharem mais qualidade e os produtos ficarem mais baratos. É só você se imaginar um empresário tendo que competir com dez empresas. Você vai deixar que os seus concorrentes ofereçam produtos melhores (ou mais baratos) que o seu sem fazer nada? Você acha que as pessoas vão querer comprar seus produtos se eles forem ruins e caros? Você vai ter lucro dessa maneira? Pois é, por precisar lucrar, seus produtos vão ficar melhores e/ou mais baratos. Essa é a lógica do mercado.

Então, é uma imbecilidade sem tamanho afirmar que empresários não pensam na qualidade dos produtos porque pensam no lucro. É o contrário. Empresários pensam no lucro e, por isso, pensam na qualidade do produto. O mundo empresarial não é o mundo dos contos de fada, onde dinheiro pode nascer em árvore. Se você quer lucrar bastante, seu produto precisa ter um diferencial.

Agora, no mundo governamental não existe isso. Para quê se preocupar com a qualidade dos serviços, com a velocidade do atendimento ou com a boa administração do dinheiro da empresa, se é impossível a empresa falir? E para quê pensar em benefícios de longo prazo, se o governo necessita garantir apenas a próxima reeleição de seus candidatos atuais?

Por fim, em terceiro lugar, a privatização proposta pela direita (pela direita e não pelo PSDB, ok?) não tem como meta aumentar a participação do Estado na economia e criar grandes empresários ligados ao governo; pelo contrário, a ideia é tirar do governo e das grandes empresas o poder que hoje eles têm. E para isso acontecer, a privatização tem que seguir a fórmula básica da direita: governo pouco interventor e concorrência pesada entre empresas. É difícil entender isso?

Então, não há motivos para crer que as privatizações são ruins. E os exemplos que temos de privatizações no Brasil provam isso. Empresas como a Vale do Rio Doce, a Embraer e a Telebrás hoje empregam mais gente, rendem mais, geram mais impostos para o governo, pagam melhor seus funcionários e produzem serviços de qualidade bem melhor do que na era estatal. Assim, por que não privatizar outras empresas e outros serviços também?

7) Concessões de Curto Prazo

O sucesso de uma privatização reside na existência de concorrência. Se existe concorrência, a empresa privatizada será pressionada pelo mercado a melhorar preços e serviços. Se não existe concorrência, a empresa privatizada relaxará, pois não tem como perder a clientela, nem falir. Diante deste fato, muitos acreditam que os “monopólios naturais” não devem ser privatizados e nem sequer concedidos à administração privada por algum tempo (as chamadas “concessões”).

Monopólios naturais são aquelas empresas que prestam um serviço que só pode ser prestado por uma empresa. Por exemplo, companhia de luz e de água; trem, metrô; estradas privadas e etc. Não há concorrência entre essas empresas.

De fato, se formos comparar resultados, as empresas privatizadas que possuem concorrentes no mercado melhoraram muito mais os seus serviços do que as empresas privatizadas (ou concedidas) que constituem monopólios naturais. Então, será que essas empresas realmente precisam ficar nas mãos do governo?

Não tão rápido. Já vimos que o problema do monopólio natural é justamente a falta de concorrência. Então, realmente não vai mudar muito se o monopólio pertence ao governo ou a uma empresa privada. Tanto em um caso como em outro nós iremos gastar dinheiro com um serviço ruim, sem poder escolher. Entretanto, o que aconteceria se o governo fizesse concessões desses monopólios que durasse pouco tempo?

Deixe-me exemplificar. No estado do Rio de Janeiro o serviço de trens urbanos é controlado por uma empresa privada de nome “Super Via”. Trata-se de uma concessão de 25 anos feita pelo governo do estado. Isso mesmo, 25 anos! Tempo para uma pessoa nascer, crescer, terminar o ensino fundamental e médio, se formar em direito, começar a advogar, se casar e ter um filho.

Aí eu pergunto: Quando o leitor acha que os administradores dessa empresa irão se importar com os serviços que prestam? Na melhor das hipóteses, nos últimos quatro anos de concessão, a fim de renovar o contrato com o governo vigente e ficar mais 25 anos na bonança. E é o que tem acontecido. Os serviços de trem no Rio de Janeiro são caros e ruins. E nem mesmo as multas que de vez em quando a agência regulatória de transporte aplica à empresa são capazes de mudar o quadro. Afinal, o lucro que uma empresa consegue em 25 anos de monopólio é astronomicamente maior do que todas as multas que se pode aplicar.

É aqui que entra a proposta da curta concessão. Em vez de 25 anos, por que não uma concessão de três anos, por exemplo? O efeito de uma concessão tão pequena a uma empresa privada seria semelhante à concorrência existente entre empresas que não são monopólios naturais. A empresa concessionária teria que mostrar bons serviços para não correr o risco de perder a sua galinha dos ovos de ouro para outra empresa, ao fim dos três anos.

Este modelo concessionário certamente seria melhor do que os atuais e daria às pessoas mais voz. As muitas reclamações sobre um serviço obrigariam o governo a não renovar um contrato com uma empresa ruim. Assim, seria possível delegar à iniciativa privada estradas, redes de esgoto, companhias de luz e água e etc., sem medo de ficar escravo de serviços ruins por décadas.

8) Presídios Privados

Presídios privados. A idéia lhe assusta? Bem, ela não é muito popular e nem há muitos presídios do tipo no mundo. Mas que tal analisarmos a proposta? Todos estão carecas de saber que os presídios são o resumo do que de pior há no mundo. As celas são lotadas, o lugar é sujo, os presos passam o dia sem fazer nada, existe agressão de policiais a alguns presidiários e, como conseqüência de todas essas desgraças, o preso que lá entra dificilmente se regenera; sai pior do que entrou, querendo agora se vingar de todo o mundo.

E como o governo vê essa questão? Bem, para o governo não é interessante fazer algo para mudar isso. Por quê? Bem, imagine que você é um político interesseiro. Tudo o que você faz para o povo é apenas com a intenção de angariar mais votos. Agora, me diz: o que dá mais votos, dar esmola para pessoas pobres ou reformar um presídio? E mais: qual é o cidadão que vai admirar o político que construir um presídio novo logo no seu bairro? E por que gastar dinheiro com algo que só interessa a uma minoria e que não afeta diretamente a maioria das pessoas?

O leitor compreende? Melhorar a condição dos presídios é algo que o governo não só não tem capacidade de fazer (pois é algo complexo demais para a administração pública conseguir êxito), como também não tem o mínimo interesse em tentar.

E qual seria a alternativa para mudar esse quadro? Presídios privados. Essa é a proposta da Direita. Raciocine comigo: como é que um empresário ganharia dinheiro mantendo um presídio? Criando empregos dentro do presídio! Fábricas de eletrodomésticos, fábricas de roupas, fábricas de sapatos, fábricas de celulares, fábricas de materiais esportivos, fábricas de móveis… Tantas fábricas poderiam funcionar em presídios…

O preso trabalharia como qualquer outro empregado normal. Teria seus direitos, um dia de folga por semana, jornada de oito horas, horário de almoço; um salário para poder adquirir livros, revistas, CDs, cadernos, material de estudo, materiais esportivos, fazer cursos e etc.; e o direito de utilizar os serviços básicos da penitenciária (luz, água e alimentação). Se não quisesse trabalhar, ninguém iria aplicar nenhuma pena a ele, mas também ele não receberia salário e nem poderia utilizar os serviços básicos do presídio por mais de um mês. Ou seja, o detento se veria na mesma situação de um indivíduo comum: se não trabalhar, não vive.

Os presídios, por sua vez, teriam melhores condições em função da concorrência entre as fábricas de diferentes presídios, da fiscalização semanal (que seria feita não só por fiscais do governo, mas também por representantes das empresas concorrentes, o que acabaria com o risco de subornos) e das câmeras de segurança espalhadas por todo o local (a fim de evitar qualquer tipo de exploração).

Alguém poderia criticar aqui: “Um sistema presidiário privado não iria gerar um interesse no aumento de criminalidade e punições por parte dos administradores, a fim de terem mais mão de obra trabalhando para ganhar apenas o salário mínimo? Isso não daria margem para tribunais, governo e administradores de presídios trabalharem juntos para alimentar a indústria do crime?”.

Não, porque o “negócio” seria muito limitado. Em primeiro lugar, os presídios seriam concessões. Deste modo, nenhum empresário poderia criar seu próprio presídio, ou aumentar o presídio administrado para colocar mais presos e ou sair mundo a fora comprando prisões para lucrar mais. O lucro da empresa administradora seria relativamente estável e teria um limite, em função de não poder se expandir.

Em segundo lugar, seria requisitado das empresas administradoras que a fábrica a ser colocada dentro do presídio, já existisse fora, com um bom lucro e com filiais. Isso impediria que a maior fonte de lucros dos administradores viesse da prisão ou que algum negócio fosse iniciado dentro do presídio. A empresa administradora iria apenas colocar para dentro do presídio o que já estava dando certo fora. Seria como mais uma filial, só que no interior de uma prisão.

Em terceiro lugar, uma possível diminuição da criminalidade e o cumprimento das penas dos presos não iria afetar a empresa administradora. Os presos, ao saírem da prisão, estariam aptos para trabalhar nas filiais externas das fábricas. Se por um lado, a empresa administradora perde um trabalhador na filial do presídio, por outro lado, ela ganha em outra. Como as filiais externas são mais livres, pois não precisam respeitar as normas de presídio, evidentemente, elas são muito mais lucrativas. Então, na verdade, a empresa ganha mais quando um preso é solto, pois tem um trabalhador experiente para ser admitido em uma filial externa, que dá mais lucro.

Vale lembrar que a ideia não é apenas um sonho, uma quimera. Vários países já possuem penitenciárias privadas, inclusive o Brasil. Em nossa pátria contamos com a Penitenciária Industrial Regional do Cairi (Ceará) e a Penitenciária Industrial Regional de Guarapuava (Paraná). O que se vê nessas duas instituições são celas limpas, espaço respeitado (não há super lotação), presos trabalhando, estudando, comprando livros e por aí vai [2].

Enfim, os presídios privados não iriam solucionar todos os problemas do sistema presidiário. Não é essa a meta da direita. Mas com certeza iriam deixar a situação muito melhor do que é hoje. No final, todos sairiam ganhando: os administradores, que teriam uma fonte de lucro a mais, além de suas fábricas normais já existentes; os presos, que teriam melhores condições de vida geradas pela concorrência e a fiscalização; o cidadão comum, que não precisaria mais sustentar os presos com seus impostos; a economia do Estado, que teria mais pessoas produzindo; e o ideal de reabilitação, já que os presos aprenderiam a fazer algo útil, a trabalhar honestamente e a manter a mente ocupada com coisas boas.

9) Abertura para as empresas e produtos estrangeiros

Quando eu digo que o nacionalismo é coisa da esquerda, as pessoas não levam a sério o que eu digo. Mas é. E uma prova disso está no nacionalismo econômico. Basta alguém dizer que quer facilitar a entrada de empresas e produtos estrangeiros no Brasil, que os esquerdistas se remoem todos e argumentam que isso irá atrapalhar a vida das empresas brasileiras.

Isso é de uma tolice tão grande! O que atrapalha a vida das empresas brasileiras é a intervenção desgraçada do Estado, com suas burocracias, regulamentações, impostos altíssimos e autoritarismo. Retirada a pesada mão do Estado sobre a economia, nossas empresas estarão aptas para competir com as empresas estrangeiras. E que vençam as que mais agradam a nós, consumidores. Estou certo ou estou errado?

A abertura do mercado é boa não só para economia do nosso país como para as nossas relações internacionais. Nenhum país gosta de ter “amigos” protecionistas. Aliás, aqui cabe uma pergunta: Se a esquerda odeia tanto os EUA, por serem imperialistas e terem empresas e produtos em vários países do mundo (como se isso fosse um pecado), por que querem tanto que o governo estadunidense acabe com o embargo econômico a Cuba? É… Protecionismo nos olhos dos outros é refresco…

Fim da Segunda Parte

Chegamos ao fim da segunda parte. Entendemos os motivos pelos quais a direita defende que algumas empresas e serviços sejam privatizados; estudamos uma proposta para pressionar “monopólios naturais” que foram concedidos pelo governo a empresas privadas; vimos os benefícios que presídios administrados por empresas privadas iriam trazer para o sistema penitenciário; e constatamos que um mercado aberto para outras nações, só tem a melhorar a economia e os produtos.

Na próxima postagem da série, veremos as propostas da direita para evitar crises financeiras e para proteger florestas. Também saberemos melhor como a direita enxerga a questão da discriminação racial e sexual e a previdência social.

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Observações:

1. Todos os dados foram retirados do livro “Privatize Já”, do economista Rodrigo Constantino, que, por sua a vez, os retirou de sites de agências reguladoras e dos sites das próprias empresas.

2. Para saber mais obre as Penitenciárias Industriais de Guarapuava e do Cairi, os seguintes links são recomendados:

Empresa administra presídio-modelo

Departamento de Execução Penal (DEPEN)

A terceirização de Presídios a partir do estudo de uma penitenciária do Ceará

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Como seria um bom governo de direita? - Parte 1

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A esquerda tem feito um ótimo trabalho. Não no sentido de resolver problemas sociais importantes, mas no sentido de fazer propaganda contra a direita. Uma prova do que digo é a total desinformação da maioria das pessoas quando se trata das propostas direitistas para a resolução de alguns problemas sociais.

As pessoas sabem o que diz a esquerda. Todo mundo conhece Marx e a sua idéia de estatizar todos os meios de produção. Todos conhecem também a postura dos partidos de esquerda após a queda da União Soviética: “Não queremos destruir o capitalismo, mas criar um governo que diminua ao máximo as desigualdades sociais” (o que, na prática, quer dizer: muitos programas sociais “tapa-buracos”, muitos impostos, muito poder governamental, má administração de recursos e facilidade de corrupção).

Mas alguém pode citar uma proposta de direita? Quais são as idéias que a direita tem para melhorar a educação e a saúde? Como a direita pretende diminuir a violência e tornar melhores as condições dos presídios? O que exatamente a direita pensa sobre as estradas esburacadas, o desemprego, os impostos, a corrupção, as crises financeiras, a economia, os problemas ambientais, a discriminação social e racial, os direitos dos trabalhadores, o sistema público de previdência social, a democracia, o Estado de Direito, a liberdade de expressão e as leis?

Infelizmente, para a maioria das pessoas (sobretudo os brasileiros), a direita se resume à equação: “governo + empresários = exploração do trabalhador”. E esse resumo é, evidentemente, uma criação dos marketeiros de esquerda.

O objetivo da série de postagens que inicio hoje, portanto, é mostrar ao leitor as propostas do verdadeiro pensamento de direita. Serão abordadas quatro ou cinco idéias típicas da direitista em cada um dos textos, que orientariam as ações de um bom governo de direita. Antes, contudo, é necessário fazer uma pequena introdução sobre a diferença entre as propostas de Direita e as de Esquerda. Depois disso poderemos partir para as propostas em si.

Propostas de Direita x Propostas de Esquerda

A base do pensamento da direita é o ceticismo em relação ao ser humano e ao governo. Ao contrário da esquerda, a direita não vê no Estado uma boa ferramenta para transformar a sociedade num paraíso, primeiro porque o Estado é feito de homens e os homens são falhos; e, segundo, porque esse tal paraíso é inalcançável. Quando colocamos poder demais nas mãos do Estado, ainda que almejando o “bem comum”, o resultado é sempre diferente do que aquilo que gostaríamos de ver. Autoritarismo, ditaduras, repressões, dinheiro público jogado fora, péssimas administrações, corrupções envolvendo modelos público-privados, exploração do trabalhador pelo governo e etc. Assim, uma diferença básica entre direita e esquerda é que a esquerda é crente no poder do Estado (à exceção dos anarquistas) e a direita não.

Não obstante, o fato de a direita desconfiar do poder público não implica em uma confiança no poder privado. Aqui reside um ponto importante. A direita não enxerga o poder privado como um santo salvador da sociedade, mas apenas entende que o poder dos empresários pode ser facilmente limitado quando se incentiva à concorrência e quando o governo deixa de criar vínculos com determinadas empresas através de sua inconveniente intromissão na economia.

A concorrência entre as empresas é um fator essencial na equação, porque faz com que as mesmas busquem sempre produzir serviços e produtos com mais qualidade, com mais rapidez e/ou com o preço mais baixo, a fim de ganharem do concorrente ou de não falirem. Assim os consumidores saem ganhando e também os trabalhadores, que ganham mais oferta de empregos conforme a economia cresce.

Em resumo, a base do pensamento de direita para as propostas sociais é a idéia de que o Estado deve tirar a mão do maior número possível de serviços, diminuindo os impostos, dando ao cidadão autonomia para escolher com quais serviços quer gastar o seu precioso dinheiro e dando a todas as empresas o direito de disputarem a confiança deste mesmo cidadão.

As Propostas

1) Diminuição da interferência

A primeira ação de um governo de direita é desburocratizar e desregulamentar a economia de seu Estado (isto é, diminuir sua interferência nos negócios). Isso porque muita burocracia e regulamentações excessivas dificultam a vida de pequenas e médias empresas, o que enfraquece a concorrência, facilita que as grandes empresas se tornem monopólios e estreita as relações entre o governo e essas empresas monopolistas (raiz de muitos desvios de verba).

Um exemplo interessante de como a interferência do Estado nos negócios pode ser muito prejudicial às pequenas e médias empresas pode ser visto no filme “A Creche do Papai”. No filme, Charlie Hinton (interpretado por Eddie Murphie), cria uma creche em sua casa com mais dois amigos. Em dado momento, um fiscal do governo, ao inspecionar a casa, afirma que existe uma norma do governo impedindo que uma creche caseira tenha mais do que 12 crianças (e a casa tinha 14). Charlie argumenta que sua casa é grande e que cabe até mais do que 12 crianças (um fato), ao que o inspetor responde: “Não sou eu que faço as regras. Eu só as cumpro. Se querem continuar com as 14 crianças, terão que se mudar para outro espaço”.

Sem dinheiro para comprar um espaço grande que pudesse servir de creche e não querendo ter que escolher duas crianças para sair (já que tinham se apegado à todas), Charlie e seus amigos se viram obrigados a fechar o negócio. O leitor compreende como o excesso de regulamentação impediu que a creche continuasse? No filme a situação é resolvida depois, porém na vida real é comum que muitas empresas pequenas e médias não suportem essas amarras do governo. E quem sai ganhando com isso no final? As empresas de grande porte, claro.

Portanto, a retirada de dificuldades burocráticas do caminho é um fator essencial para que a economia tenha um melhor desenvolvimento. O objetivo dessa ação é gerar mais oportunidades para aquele que quer abrir seu negócio, para aquele que quer manter sua empresa, para aquele que quer expandir seu comércio e para aquele que apenas quer arranjar um emprego.

2) Diminuição dos Tributos e Corte nos Gastos Públicos

Imagine um trabalhador que ganhe 1000 reais por mês de salário. Dessa quantia, pasme, cerca de 430 reais irão para o governo em forma de tributos diretos e indiretos (o que, popularmente conhecemos como impostos). Em outras palavras, somos obrigados a jogar fora quase metade do nosso salário, já que se precisarmos de escolas de qualidade para nossos filhos, de bons serviços médicos ou de segurança, por exemplo, o governo não será capaz de nos dar.

O dinheiro que pagamos de imposto acaba sempre sendo gasto em obras públicas desnecessárias (ou que não são prioridade para o povo), em programas educativos para crianças (como se o governo devesse fazer o papel dos pais), em shows e festas que vira e volta o governo financia, em ajuda à ONG’s (Deus do Céu! Elas não deveriam ser Organizações NÃO Governamentais?!), em assistencialismos tapa-buraco, em salários exorbitantes para as dezenas de assessores de gabinete para cada político e etc.

Assim, a segunda ação de um bom governo de direita após desregulamentar e desburocratizar a economia, seria a de cortar ao máximo seus gastos públicos e diminuir a enorme carga tributária que pesa sobre os nossos ombros. Isso diminuiria a possibilidade de desvios de verba e daria mais autonomia ao cidadão para gastar o seu salário.

3) Financiando o aluno em vez da escola

Aqui começam os temas mais famosos. A decadência da educação pública é um dos problemas mais graves que temos. Faltam professores nos colégios; os professores que temos não recebem bem e ficam desestimulados; os alunos desordeiros têm liberdade para agirem como querem sem receberem punição; o governo, querendo bons índices de aprovação, cria um sistema que passa qualquer um; as salas lotadas tornam difícil a passagem de todo o conteúdo por parte do professor; alguns professores sem caráter não se esforçam para passar matéria e muitas vezes não vão à aula; falta material; falta estrutura; faltam incentivos ao bom aluno e etc.

Como resolver esse panorama? Bem, em primeiro lugar, o governo deve incentivar ao máximo a criação, manutenção e expansão de colégios particulares, porque estes apresentam melhores resultados. Lembrando que quanto maior a concorrência, melhores são os serviços prestados e/ou o preço do produto.

Em segundo lugar, o governo deve pouco a pouco abandonar o modelo de financiamento de escolas, passando a financiar o aluno. Isso mesmo. O governo passaria a dar bolsas para estudantes carentes de escolas públicas, a fim de que seus pais tivessem a oportunidade de escolher um colégio particular de sua preferência e colocar seu filho, sendo financiado pelo governo.

Esse modelo de financiamento individual tornaria muito difícil o desvio de verba pública, já que ela teria um destino diretamente monitorado pelos pais do aluno financiado e pelo colégio escolhido por eles. Funcionaria mais ou menos como à bolsa de 400 reais que alguns alunos carentes recebem do governo em faculdades públicas: financiamento individual que o aluno consegue receber certinho todo mês (é até difícil acreditar que vem do governo, né?).

Este modelo de financiamento individual do aluno também transfere a administração do dinheiro para o setor privado que, ao contrário do setor público, terá o cuidado em aplicá-lo de maneira bem refletida, já que seu lucro depende inteiramente da qualidade de seu serviço (algo que não ocorre com as empresas públicas).

Entretanto, como nada deve ser tão fácil (senão vira bagunça), os colégios que recebem alunos pagos pelo governo deverão manter boa estrutura, aulas de qualidade e um preço condizente com aquilo que oferece. Caso contrário, o governo poderá suprimir o número de bolsas anuais até ao ponto em que o colégio não poderá mais ser agraciado com os alunos financiados pelo governo. Ou seja, para receber o benefício, os colégios serão pressionados a oferecerem bons serviços.

Da mesma forma, o aluno agraciado pelo financiamento público deverá mostrar um desempenho pelo menos mediano nas notas, no comportamento e na avaliação geral dos professores (isto é, se ele é um aluno esforçado, apesar de suas dificuldades). Caso contrário, ao final de um ano, sua bolsa poderá ser diminuída ou retirada.

Na medida em que os colégios públicos forem esvaziando, um bom governo de direita poderia ainda formar grupos colégios públicos em cada região, transformá-los em empresas de capital aberto e repassar suas ações para os próprios funcionários desses colégios (e até alguns pais interessados). Seria colocar a educação pública nas mãos daqueles que mais se preocupam com ela.

Com essas ações, o governo teria muito menos coisas para administrar e tão logo as questões de ordem educativa passariam a ser resolvidas por pais de alunos, professores e diretores. Os pais dos alunos poderiam, inclusive, se organizar em pequenas assembléias com os professores e administradores para discutir os rumos da escola, formando órgãos espontâneos de opinião, fiscalização e pressão na educação.

4) Criando concorrência no sistema de saúde privado

O sistema de saúde pública do Brasil está doente. E os sintomas são os mesmos da educação pública. Faltam funcionários; funcionários faltam (perceba que são coisas diferentes); os médicos que vão são desestimulados pela desorganização e péssima condição dos hospitais; há muitos médicos incompetentes e muitos de mau caráter; não há equipamentos; não há estrutura; enfim, está morrendo.

Se os sintomas são os mesmos, não é de se admirar que o diagnóstico também seja o mesmo. É esse modelo de financiamento de hospitais pelo governo. Isso não dá certo. Principalmente os hospitais, pois os seus equipamentos são caros, bem como seu corpo de trabalhadores, o que dá uma margem extraordinária para desvios de verba e má administração.

Se os sintomas são iguais e a doença é a mesma, o remédio também não pode ser diferente. O governo deve incentivar a concorrência entre hospitais privados. De todo o tipo. Quanto mais hospitais privados houver, melhor para a qualidade do serviço. Essa concorrência deve ser tão forte a ponto de hospitais disputarem pacientes.

Quanto aos hospitais públicos, que se vendam todos eles, sem titubear! Eles não prestam. A existência deles é a causa de tantas mortes bobas e absurdas que poderiam ser evitadas. A manutenção desse sistema é um genocídio. Em vez de hospitais, que o governo pague planos de saúde individuais aos mais necessitados. É até uma forma de ressarcir as pessoas que perderam tanto dinheiro pagando impostos durante sua vida e nunca puderam ter um serviço de saúde de qualidade.

5) Endurecendo as Leis

As leis do Brasil são muito frouxas. Nesses dias eu estava vendo um caso de um jovem ciclista que perdeu um braço, arrancado por um carro em alta velocidade. O cara que dirigia não socorreu a vítima e ainda jogou o braço arrancado do jovem (que havia ficado preso no carro) em um rio sujo. A médica que operou o jovem afirmou que se o motorista não tivesse feito isso, era possível colocar o braço do ciclista de volta. Aí você pergunta: “O que aconteceu com o motorista que fez isso?”. Nada. Ele está solto.

Casos absurdos como esses acontecem o tempo todo. Sabe por quê? Porque os criminosos sabem que as leis são frouxas e o sistema é fácil de burlar. Por isso eles não têm respeito nem temor. Zombam da lei.

Grande parte da culpa por nossas leis serem assim é da mentalidade de esquerda que domina o nosso país. Para a esquerda, o criminoso é uma vítima da sociedade e não uma pessoa responsável pelos seus atos. Para esquerda, invadir terras alheias, cometer atos de vandalismo contra igrejas, expropriar bens, agredir direitistas, proibir a liberdade de opinião e apoiar regimes genocidas é correto. Para a esquerda, o Estado é tão sacro-santo que governantes não são nossos funcionários, mas os pais dos pobres, tendo assim direitos que ninguém tem. Isso também vale para “minorias oprimidas” que devem ter mais direitos do que as outras pessoas. E, para a esquerda, por fim, a idéia de que “os fins justificam todos os meios utilizados” sempre foi muito respeitada.

Como podemos ver, a esquerda nunca gostou muito de leis. Ela prega igualdade de resultados na vida (o que é tão ridículo como tirar uma média geral em uma turma, a fim de que todos tenham a mesma nota), mas não a igualdade perante a lei. A lei, para a esquerda, serve para ser burlada ou para gerar classes distintas. Toda a lei justa que haja se esfarela em vista de seus ideais utópicos.

É essa a mentalidade que nossas leis absorveram. Junte isso com nossas heranças malditas: a corrupção e a visão do Estado como um Leviatã poderoso e intrometido. O resultado não poderia ser diferente. Criou-se uma cultura que não sabe o que é lei. Não fomos acostumados a entender o conceito de lei, nem de justiça, nem de ordem. Nem o povo nem o governo conhecem a profundidade e a importância desses termos.

Mas como isso poderia ser resolvido? Em primeiro lugar, fazendo cada pessoa entender o que quer dizer lei, justiça e ordem. Em segundo lugar, endurecendo as leis de nosso país. A obrigação do código penal é colocar medo na pessoa que deseja cometer um crime. A lei deve fazer saber ao indivíduo que se ele cometer um crime, certamente ele será punido e com a intensidade proporcional à gravidade do caso. É isso o que os direitistas vêm afirmando há tanto tempo.

Ao contrário da Esquerda, que enxerga o criminoso como vítima e exalta vários crimes e delitos, a Direita vê o criminoso como um ser humano responsável pelos seus atos, assim como qualquer outro. Não há justificativa para seus crimes. A lei deve ser firme e igual para todos. Se alguém faz o que é errado perante a lei, deve ser punido. E ponto final. É essa a mentalidade que os códigos civis e penais precisam absorver.

Vou dar alguns exemplos para o leitor ter uma visão mais geral do estou falando.

1. estupradores, assassinos frios, seqüestradores e criminosos que cometeram crimes hediondos ficariam presos por mais tempo (50 anos, por exemplo) sem direito a redução de pena ou migração para regimes semi-abertos ou abertos;

2. motoristas pegos dirigindo bêbados pela segunda (ou terceira) vez ou cometendo repetidas imprudências no trânsito, perderiam definitivamente suas habilitações, não podendo dirigir nunca mais;

3. policiais corruptos não apenas seriam excluídos da corporação, mas condenados à prisão civil, já que oferecem risco à sociedade;

4. menores de idade que cometeram crimes de caráter hediondo tais como homicídio doloso, estupro, seqüestro, tortura e espancamento seriam tratados e punidos como maiores de idade;

5. políticos corruptos seriam julgados como cidadãos comuns e não como cidadãos superiores, que gozam de imunidade parlamentar;

6. criminosos não seriam liberados da prisão em feriados como dia das mães e natal por bom comportamento (como é o costume aqui no Brasil);

7. não apenas o tráfico de drogas seria criminalizado, mas o seu uso também, já que o traficante só existe por causa do usuário (neste caso, há direitistas que são favoráveis à legalização da venda de drogas, regulando apenas os lugares onde as pessoas poderiam usar. Isso pode ser discutido. A questão é: ou se criminaliza o uso e a venda ou se legaliza ambos);

8. o espancamento de qualquer tipo de pessoa por discriminação ou motivo torpe seria considerado crime hediondo;

9. o desvio de verba pública seria considerado um crime muito grave, já que é um roubo a toda a nação.

O objetivo aqui não foi fixar como deveriam ser as leis. Mas apenas mostrar, através desses exemplos, que as leis poderiam ser muito mais rígidas do que hoje são. Isso é uma das propostas mais importantes da direita para, inclusive, melhorar a segurança pública. Sem leis firmes e justas, não há como se ter boa segurança.

Fim da Primeira Parte

Chegamos ao fim da primeira parte. Vimos que a direita propõe desburocratizar a economia, a fim de facilitar a vida de pequenas e médias empresas e criar mais empregos; cortar gastos públicos desnecessários ou que não são prioridade no momento; diminuir impostos; incentivar a iniciativa privada na área da educação e da saúde; investir em financiamentos individuais em saúde e educação, em vez de escolas e hospitais públicos; e fortalecer as leis.

É claro que, assim como a esquerda, a direita também tem divergências internas quanto a como se aplicará cada uma dessas propostas. Existem várias correntes de pensamento direitistas, algumas mais moderadas, outras mais radicais, umas mais liberais, outras mais conservadoras, algumas mais nacionalistas e etc. E é importante que essas ideias sejam discutidas entre as diferentes correntes. Mas, em suma, o pensamento de direita não foge muito do que foi proposto aqui. A ideia é mesmo ter um governo menos inchado e mais útil no que tange às suas verdadeiras funções: criar boas leis, zelar por elas e proteger o cidadão.

Na próxima postagem da série, iremos conhecer mais sobre outras propostas como: privatizações de empresas públicas, concessões de curto prazo, presídios privados, abertura para empresas e produtos estrangeiros.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A Droga da Mentalidade Classista

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O senhor Pedro Bandeira é um famoso escritor de livros infanto-juvenis com temática predominantemente voltada para romances policiais, suspense e mistério. Uma de suas obras mais conhecidas chama-se “A Droga da Obediência”. O título, um tanto sugestivo, faz referência a uma droga que, no livro, fazia as pessoas obedecerem a um comando.
Por algum motivo, a lembrança do livro de Bandeira, me fez atinar para o fato de que a mentalidade classista (ou coletivista, se preferir) também é uma droga. Para quem não sabe, mentalidade classista é a tendência de encarar os indivíduos sempre como representantes de uma classe homogênea e uniforme. Ora, se a classe é homogênea e uniforme, todos os indivíduos serão tratados como se fossem exatamente iguais. Logo, o indivíduo deixa de existir e a classe passa a existir em seu lugar.
Dando continuidade ao raciocínio, averigüei que, semelhantemente às drogas, a mentalidade classista causa vício e leva o indivíduo a querer usar cada vez mais da droga. Vou mais longe: a mentalidade classista entorpece as pessoas de tal modo que seus cérebros são levados a criar alucinações. O resultado é que o classista começa a desenvolver graves psicoses, como a síndrome da perseguição. Um exemplo disso pode ser visto neste vídeo:
Perceba que no vídeo, a mocinha não reconhece a existência de indivíduos, mas apenas de classes. No caso específico, as classes são: negros e brancos. Os negros são definidos como indivíduos pobres, injustiçados e trabalhadores, ao passo que os brancos são definidos como bem abastados, “filhinhos-de-papai”, exploradores, parasitas e vagabundos.
Qualquer pessoa sã consegue perceber o delírio aqui. Não podemos reunir um monte de pessoas diferentes, cuja maioria nós sequer conhecemos, e traçar um perfil igual para todas elas. Há negros honestos e desonestos. Há brancos ricos e pobres. E por aí vai. Mas a idéia delirante de enxergar os indivíduos como classes, impele a jovem a traçar um perfil específico para cada classe.
É daí que se iniciam as psicoses. Em geral começa com a síndrome maniqueísta, isto é, a mania de entender as interações humanas em termos de bem versus mal. O seu cérebro aqui monta um cenário onde a classe a que você pertence é a classe dos caras do bem, os mocinhos. As demais classes são dos malvados, os vilões. E a história se resume a essa luta entre a classe boa e a classe má.
A síndrome maniqueísta desencadeia a síndrome da perseguição. A pessoa começa a se enxergar como explorado, perseguido e injustiçado. Isso resulta em vários problemas. O primeiro é que a pessoa se torna paranóica. Ela enxerga discriminação e exploração contra a sua classe em tudo. Qualquer fala, qualquer opinião, qualquer gesto, pode servir como base para que o indivíduo alegue injustiça.
O segundo é a perda de percepção do tempo. O indivíduo não consegue mais entender o que é passado. Por exemplo, se um etíope matou um egípcio há 400 anos, os egípcios de hoje são os injustiçados e os etíopes de hoje são os vilões. Não importa se foi há 400 anos. Não importa se o evento envolveu só duas pessoas. Não importa se as pessoas de hoje em dia nada tem a ver com o evento. Estamos falando de classes. O que um faz, todos fazem, em todos os tempos.
O terceiro problema que a síndrome da perseguição gera em uma pessoa é a idéia de que os fins justificam os meios. Ora, se você está sendo perseguido por um inimigo sórdido, cruel e explorador, seu cérebro vai impelir você a acreditar que pode fazer qualquer tipo de atrocidade para com ele. Aliás, você pode fazer até injustiças porque, em sua mente, o injustiçado é você e assim sempre será.
A síndrome da perseguição e todos os seus efeitos desencadeiam o ódio extremo à classe inimiga e o culto extremo a sua própria classe. A sua classe se torna uma classe superior e a classe inimiga se torna inferior. Na verdade, já era assim antes, quando você via sua classe como a classe dos caras bons. Mas, como já disse, a mentalidade classista é uma droga, e a droga torna a dependência do indivíduo gradualmente maior. O último estágio deste drogado é a hábito discriminatório, o preconceito.
É a hora em que nos perguntamos: não foi exatamente este o processo pelo qual passou Adolf Hitler? E não é exatamente este o processo pelo qual passam todos os genocidas? Lênin, Stálin, Mao Tsé Tung, Pol Pot... A mentalidade classista tem várias faces, cada qual com suas classes e seus antagonismos entre classes. Negros x Brancos; Mulheres x Homens; Homossexuais x Heterossexuais; Religiosos x Anti-religiosos; Ricos x Pobres; Patrões x Funcionários; Nativos x Estrangeiros; Saudáveis x Doentes; Esquerdistas x Direitistas e etc. Mas a droga é a mesma, bem como os seus efeitos.
Uma Tendência Humana
Pode-se perguntar: “Mas agrupar-se e enxergar as pessoas em grupos não é uma tendência humana?”. A resposta é sim. Em geral, desejamos estar com pessoas que tem os mesmos gostos que nós, a fim de podermos compartilhar o que nos agrada com elas e de nos sentir parte de um grupo. Gostamos de estar em grupos. E é normal valorizar os grupos em que nos enquadramos. Certamente é por isso que tendemos a agrupar as pessoas em nosso cérebro.
Entretanto, seguir essa tendência natural humana é diferente de adulterá-la por meio de uma mentalidade psicótica, tornando-a um elemento discriminador. Este é o x da questão. Querer estar em um grupo ou reconhecer a existência de grupos no mundo nada tem a ver com enxergar o indivíduo como o grupo. O reconhecimento de grupos não pode substituir o reconhecimento do indivíduo. Classe não é indivíduo e indivíduo não é classe. Entende?
Eu posso fazer parte da classe dos rockeiros, mas devo ser analisado, tratado e julgado como Davi Caldas e não como rockeiro. Conforme afirmei uma vez em uma breve reflexão, eu não sou negro, nem branco, nem alemão, nem italiano, nem ariano, nem proletariado, nem burguesia, nem machista, nem feminista, nem gayzista, nem uma ONG, nem uma ideologia, nem um partido, nem uma religião, nem o povo, nem a massa, nem a comunidade, nem a sociedade, nem a humanidade...
Posso até fazer parte dessas classes, mas não sou uma abstração coletivista. Eu sou eu. Eu sou Davi Caldas, um indivíduo, com toda a sua individualidade. Por isso, me recuso a ser caracterizado, conhecido, definido, analisado e julgado como mais um número dentro de algum rótulo coletivista.
A minha individualidade está acima da coletividade onde me encontro. Isso não é egoísmo. Isso é o entendimento de que cada pessoa deve ser tratada, definida e respeitada como uma pessoa e não como parte de uma massa amorfa, abstrata e indefinida. Se um dia todos entendessem isso, o preconceito diminuiria muito e a manipulação de massas não lograria mais êxito algum. O ator Morgan Freeman diz isso de modo simples e direito nesta entrevista:
A Mentalidade Classista e a Esquerda
Compreendendo que a mentalidade classista é uma droga perigosa, que pode levar algumas pessoas a contraírem sérios distúrbios e psicoses, como já evidenciado, nossos olhos se voltam imediatamente para a esquerda política. A esquerda tem em seu DNA a mentalidade classista. Desde que o seu pensamento começou a se desenvolver, com Rousseau, Robespierre, Fourier e Marx, a idéia de enxergar os indivíduos como massa e o mundo como um campo de batalha entre classes antagônicas sempre esteve em sua base. E assim é até hoje. Não há esquerda se não houver a psicose classista.
Invariavelmente esse posicionamento nos tem levado às discriminações, aos regimes antidemocráticos, às perseguições, aos genocídios; ao culto ao partido que está no poder, ao governo, ao Estado, ao líder; à homogeneização forçada do mundo. A liberdade de expressão é destruída. A sociedade vira palco de uma luta sangrenta na qual uma classe deverá sucumbir para que a paz no mundo seja alcançada. Esse é o projeto da esquerda.
A Mentalidade Classista e a Direita
A direita rechaça e sempre rechaçou a mentalidade classista. Digo a direita e não os direitistas (notou a diferença?). É certo que há direitistas que foram contaminados pela droga da mentalidade classista, afastando-se dos ideais originais da direita. Mas o pensamento da direita encara a mentalidade classista como um delírio. Desde Smith e Burke até Churchill, Kirk Russell, Thatcher e Reagan, a idéia de que o indivíduo deve ser valorizado acima da classe sempre foi a base do pensamento da direita.
Para a direita o mundo pode até ser um campo de batalha, mas entre indivíduos e não entre classes. Porque a classe, seja esta a burguesia, o proletariado, a mulherada ou uma nação inteira, ela não define todos os indivíduos. Isso é generalizar. É olhar para uma favela e dizer que lá só tem bandido. A mentalidade classista é o princípio de quase todos os preconceitos. “Todo religioso é burro”, “todo padre é pedófilo”, “todo pastor é ladrão”, “todo ateu é imoral”, “todo rico é explorador”. São preconceitos típicos de quem se droga com a mentalidade classista. É o que a direita rechaça.
Que fique claro que não estou dizendo que nenhum direitista é preconceituoso ou que todo o esquerdista o é. Longe de mim, fazer tal generalização (o que, iria ruir com todo o meu texto, aliás). Apenas estou dizendo que o pensamento da esquerda se baseia na mentalidade classista e o da direita não.
Para aqueles que querem seguir fielmente os seus princípios, isso precisa ser esclarecido. Um direitista que siga total e irrestritamente os ideais de direita, não poderá se drogar com a mentalidade classista, ao passo que um esquerdista que siga total e irrestritamente os ideais de esquerda, não poderá se abster de usar a droga da mentalidade classista. Este é um dos motivos pelos quais escolhi ser de direita.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O Problema do Sofrimento

Um comentário:
Se ele [Deus] quer evitar o mal, mas não é capaz de fazê-lo, então ele é impotente. Se ele é capaz, mas não quer evitá-lo, então ele é malévolo. Ora, se ele quer evitar o mal e é capaz de evitá-lo, então como se explica o mal?
Este pequeno questionamento, proferido pelo filósofo escocês do século XVIII, David Hume, é repetido todos os dias por milhares de pessoas, não só ateístas ou agnósticos, mas por teístas e cristãos que, ao analisarem todo o sofrimento que existe no mundo ou, ainda, passarem por algum problema mais grave, se perguntam como poderia ser Deus bondoso e onipotente, se ele permite tanto sofrimento. 

O problema se torna mais melindroso nem tanto pelo seu conteúdo lógico e sim mais por estar ligado de modo íntimo às nossas emoções. Mas, mesmo não querendo desprezar este fato, a primeira atitude que devemos tomar para analisar o problema do sofrimento é a de deixar de lado o velho “tô de mal, come sal, na panela do mingau”. Unir os dois dedos indicadores e dizer para Deus: “Corta aqui” pode até ser uma atitude viável para quem resolve seus problemas na base dos impulsos emocionais, porém se queremos encarar as dificuldades utilizando a cabeça, devemos deixar de ser infantis. Sejamos como crianças em nossa pureza, mas não sejamos infantis em nossos pensamentos. 

A proposta, então, está feita. Vamos analisar de modo detalhado todos os enlaces do sofrimento humano, a fim de procurar respostas para dúvidas freqüentes como: “Se Deus existe, por que existe tanto sofrimento?”, “Se Deus é bom, por que não intervém no mal?”, “Por que Deus permite que tantas injustiças aconteçam?”, “Onde estava Deus em tal, tal e tal situação?”. O leitor se aventura a continuar lendo? A escolha é só sua. 

Delimitando o Problema do Sofrimento 

Algo que é imprescindível para se analisar o problema do sofrimento é delimitar o problema. Em outras palavras, o que exatamente é o problema do sofrimento? À primeira vista, pode parecer uma pergunta boba. Boa parte das pessoas diria aqui que o problema do sofrimento está no fato de que se houvesse um Deus bondoso e onipotente não haveria sofrimento; como há sofrimento, não pode haver um Deus bondoso e onipotente. Em suma, para muitas pessoas há uma contradição lógica entre a existência de Deus e a existência do sofrimento. 

A dificuldade dessa concepção é que ela simplesmente não prova que haja uma contradição lógica entre a existência de Deus e a existência do sofrimento. Para provar essa contradição, seria necessário provar que o fato de Deus ser bom e onipotente torna possível que ele evite todo o sofrimento. Mas aqui tanto a onipotência quanto bondade de Deus não são suficientes para tornar isso possível. E por um motivo simples: Deus deu ao ser humano o poder de escolha. 

É no poder de escolha, o livre arbítrio, que se encontra o “x” da questão. Se Deus, de fato, deseja que o ser humano faça suas próprias escolhas, ele limita sua onipotência para que isso seja possível. E essa limitação consciente de onipotência é uma prova incontestável de sua bondade, pois seu desejo é que o ser humano não seja manipulado. Digamos, por exemplo, que sou um nobre francês do século XVII que sonha em casar-se com determinada dama. No entanto, essa dama me despreza. Então, certo dia eu resolvo entorpecê-la e, sob efeito de drogas a moça escolhe se deitar comigo. Agora, eu pergunto: a escolha da dama foi legítima e consciente? E a minha atitude foi boa, louvável e moral? Tenho certeza que o leitor responderá “não” para as duas perguntas. Em seu juízo perfeito a moça não se deitaria comigo, e se eu fosse uma pessoa moral não entorpeceria a moça. Com Deus acontece o mesmo. Ele é bom e por isso deseja que nossas escolhas sejam legítimas e conscientes. 

Aqui está o drama da história. Se o ser humano faz suas próprias escolhas, pode fazer o bem ou fazer o mal. Se escolhe fazer o mal, torna o mundo mal. Se torna o mundo mal, então é inevitável que exista sofrimento. Portanto, não podemos dizer que existe uma contradição lógica entre a existência de Deus e a existência de sofrimento. É possível que ambos existam porque o ser humano pode escolher fazer o mal. 

Então, voltamos à questão inicial: o que exatamente é o problema do sofrimento? Bem, se é possível que exista Deus e que exista sofrimento, as pessoas vão passar a perguntar por que esse sofrimento nunca acaba. Afinal, ainda que Deus não possa evitar que ele surja, por conta do livre arbítrio, é certo que ele pode selecionar pessoas que fazem as escolhas certas e fazer um mundo só delas. Se não faz isso, é porque não se importa. E se não se importa, é porque é mal. 

Existem duas respostas para essa pergunta. A primeira está pautada justamente na bondade de Deus. Nas principais religiões monoteístas é forte a concepção de que um dia Deus acabará com o sofrimento e o mal no mundo. É uma promessa de Deus que foi guardada por grande parte das pessoas. Quando adotamos o cristianismo, que tem sido a religião mais coerente até aqui, a resposta pode ser encontrada na própria Bíblia. Diz assim o apóstolo Pedro: 
Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento (II Pedro 3:8-9). 
A promessa da qual Pedro fala é a promessa da volta de Jesus, quando todo o mal e o sofrimento cessarão. Para ele, essa promessa é demorada para nós, que enxergamos mil anos como sendo muito tempo, porém não para Deus, que é atemporal. E o motivo de Deus esperar por milhares de anos para cumprir sua promessa é justamente por amar o homem e querer dar tempo de arrependimento para todos. É uma idéia palpável. Imagine que o leitor não creia em Cristo atualmente, mas crerá, através de suas próprias escolhas, daqui a um ano. Se Jesus Cristo voltasse hoje, o leitor não poderia ser salvo da morte. Não seria insensível da parte de Deus? 

Mas chegará um tempo em que todas as chances terão sido dadas e todos os que escolherem ficar contra Deus, saberão exatamente o que estão fazendo. Nesse dia, não haverá como o Senhor não cumprir sua promessa; e quem não tiver se arrependido, infelizmente, não poderá mais fazê-lo. É por isso que Deus é tão paciente para com o ser humano. 

Uma segunda resposta para essa pergunta é que o ser humano se tornou naturalmente inclinado para o mal quando sua espécie escolheu desobedecer a Deus. Isso implica em dizer que não há mais jeito para esse mundo. Se Deus passasse a destruir hoje todas as pessoas que escolhem o mal, teria que destruir a todos, pois em maior ou menor escala, todos escolhem o mal em diversas situações. Assim, o que Deus se compromete a fazer é destruir essa inclinação natural ao mal apenas quando todas as pessoas estiverem bem certas de qual lado desejam seguir; mais uma vez uma prova de paciência. 

Alguém poderia dizer: “Mas Deus poderia já ir punindo quem escolhe o mal em maior escala”. Não é verdade. Porque há aqueles que escolhem fazer o mal em grande escala, mas um dia se arrependem; e com mais sinceridade do que alguns que pecaram muito menos. Também porque há aqueles que olham para as punições imediatistas de Deus e o encaram como sendo um Deus violento, passando a odiá-lo ou adorá-lo por medo. E, principalmente, porque o sofrimento no mundo é conseqüência direta do pecado. É quando olhamos para tudo o que é ruim, que entendemos que a única esperança do mundo é a volta de Jesus Cristo e a eliminação do pecado. 

Algumas pessoas insistem em se apegar ao mundo como ele é hoje: cheio de erros. Para este mundo, errar é normal e nem todo erro é ruim. Essas pessoas são hipócritas, porque querem que o mal seja eliminado, mas não querem deixar de ser más. E cada um defende o seu erro preferido, dizendo que ele não é tão grande quanto outros. Mas para Deus, todo erro é erro. O seu objetivo não é fazer esse mundo ter menos erros e sofrimentos, mas formar um novo mundo em que simplesmente não exista nenhum dos dois. Por este motivo, ainda existe sofrimento nesse mundo: porque não é nele, da forma como tem sido, que Deus deseja que nós habitemos em paz. 

Então, mais uma vez, retornamos à questão inicial sobre o que exatamente é o problema do sofrimento. Já vimos que não é uma contradição entre a existência de Deus e do sofrimento; e nem uma indiferença de Deus de acabar logo ele. Esses aspectos são apenas dificuldades pequenas que sempre foram resolvidas pelo cristianismo com facilidade. Uma simples leitura da Bíblia, sem grande esforço, nos mostra isso. 

Mas o problema do sofrimento verdadeiro não está em uma forma tão simples de explicar. Quando alguém propõe o verdadeiro problema do sofrimento, essa pessoa está querendo entender temas mais específicos como: por que Deus protege alguns e permite que outros sofram? Todos os sofrimentos têm um objetivo? Por que determinado sofrimento aconteceu a esta pessoa? Qual o objetivo desse sofrimento ou, mesmo, desse tipo de sofrimento? Todos os sofrimentos são necessários? Deus não poderia evitar alguns sofrimentos apenas por amor? 

Note que não lidamos mais aqui com a esfera geral do sofrimento. Não é mais o sofrimento humano que está em jogo, mas o sofrimento específico de cada indivíduo humano. É por isso que o problema do sofrimento está fortemente relacionado às nossas emoções. Quando uma mãe tem seu filho morto de modo brutal por um bandido ou quando um pai vê seu filho pequeno sofrer de câncer, eles não estão interessados em saber que o pecado do ser humano faz o mundo ser mal e que um dia o sofrimento vai acabar quando Jesus voltar. Eles querem saber se aquele sofrimento específico, tão doído, tão incompreensível, realmente era necessário. 

Então, o problema real do sofrimento é a existência de sofrimentos que parecem não fazer sentido. Se estes sofrimentos não fazem mesmo sentido, se são desnecessários, se poderiam ser evitados, por que eles existem? Tendo compreendido isso, podemos começar a esboçar uma resposta para o problema. 

O Sentido do Sofrimento 

Para começar a resolver o problema do sofrimento nós devemos ter em mente que cada caso é um caso. Isso significa, em primeiro lugar, que não há como solucionar o problema do sofrimento por inteiro. Solucioná-lo por inteiro seria analisar todos os sofrimentos que todas as pessoas do mundo já passaram e provar que cada um deles foi necessário. Evidentemente isso é uma tarefa impossível para nós. 

Em segundo lugar, dizer que cada caso é um caso é dizer que para cada sofrimento permitido por Deus a alguém existe uma série de circunstâncias envolvidas que diferem de caso para caso. A maior parte delas não é conhecida por nós e por isso nós só podemos trabalhar com hipóteses. Mas se pudermos observar que existem hipóteses possíveis e prováveis para a necessidade de alguns sofrimentos, isso já é o suficiente para dizer que Deus tem boas razões para permiti-los. Afinal, se Deus sabe de todas as coisas, sabe melhor das circunstâncias do que nós. 

Esses dois parágrafos podem parecer uma tentativa de fuga do problema, mas não é. Estamos trabalhando com a idéia de que Deus é um ser supremo, que sabe de todas as coisas; e que nós somos seres limitados, que mal enxergamos o aqui e o agora. É uma visão clássica, e, se verdadeira, implica que Deus tem um melhor panorama da história inteira da humanidade do que qualquer um de nós. A fim de tornar isso mais claro para o leitor, irei usar aqui dois exemplos. O primeiro é um trecho de um filme chamado O curioso caso de Benjamin Button, narrado pelo ator Brad Pitt, que interpreta o Benjamin Button. Preste a atenção na narrativa de Button: 
Uma mulher em Paris estava indo fazer compras, mas ela esquecera o seu casaco e voltou para pegá-lo. Quando ela pegou o seu casaco, o telefone tocou e ela resolveu atender e conversou por alguns minutos. Enquanto ela alava ao telefone, Dayse [a mulher que Button amava] estava ensaiando para uma apresentação na ópera Hauss, em Paris. E, enquanto ela ensaiava, a mulher, após o telefonema, saiu para pegar um táxi. 
Um taxista deixou um passageiro mais cedo e parou para tomar uma xícara de café. Enquanto isso, Dayse estava ensaiando. E este taxista que deixou um passageiro mais cedo e havia parado para tomar uma xícara de café, pegou a mulher que estava saindo para fazer compras e que não pegou um táxi mais cedo. O táxi teve que parar – um homem atravessou a rua, saindo para o trabalho cinco minutos mais tarde do que de costume; porque se esqueceu de ajustar o seu despertador. Enquanto aquele homem estava atravessando a rua, Dayse terminou de ensaiar e estava tomando banho.  
Enquanto Dayse tomava banho, o taxista esperava pela mulher do pacote [a mulher parou numa loja para pegar algo que havia encomendado] que ainda não fora embrulhado, porque a moça que devia embrulhar, rompeu com seu namorado na noite anterior; e esqueceu. Quando ele estava embrulhado, a mulher que tinha voltado ao táxi foi bloqueada por um caminhão de entrega. Enquanto isso, Dayse estava se arrumando. O caminhão de entrega se afastou e o táxi pôde seguir em frente, enquanto Dayse, a última a se arrumar, esperava pela amiga dela, cujo cadarço arrebentara.  
Enquanto o táxi estava parado, esperando o sinal abrir, Dayse e sua amiga saíam pelos fundos do Teatro. Se, ao menos uma coisa, tivesse ocorrido diferente; se o cadarço não tivesse arrebentado, ou se o caminhão de entrega tivesse se afastado antes, ou se o pacote tivesse sido embrulhado antes porque a moça não rompera com seu namorado, ou se aquele homem tivesse ajustado seu despertador e acordado cinco minutos antes, ou se o taxista não tivesse parado para tomar uma xícara de café, ou se a mulher tivesse se lembrado do casaco dela e pego o táxi mais cedo, Dayse e sua amiga teriam atravessado a rua e o táxi não a teria atropelado. Mas, sendo a vida como ela é: uma série de eventos incidentes interligados, que não se pode controlar, aquele táxi não passou direto, o motorista teve um momento de distração, e o táxi atropelou Dayse, e quebrou a perna dela [1]. 
Esta cena que transcrevi do filme (se o leitor não viu o filme, veja e entenderá melhor a cena) nos dá um belo panorama sobre como cada situação depende de uma série de pequenas outras situações. Se, por exemplo, alguém dissesse ao taxista que ele não poderia tomar aquela xícara de café (o que, em si, não tem nada de mal) com certeza ele não entenderia nada. E ficaria ainda mais confuso se dissessem a ele que por causa dessa xícara de café, ele atropelaria uma mulher. 

Falando sobre este mesmo assunto, o filósofo e teólogo William Lane Craig oferece um exemplo de outro filme, Sliding Doors (No Brasil, De caso com o acaso). Neste, uma mulher corre para pegar o metrô. Então, o filme se divide em duas possíveis situações: na primeira, a mulher consegue entrar no metrô e na segunda, as portas se fecham antes que ela consiga entrar. Na hipótese em que ela pega o metrô, uma série de circunstâncias faz com que sua história mude; ela se torna bem sucedida e próspera. Já na segunda hipótese, a mesma mulher passa por uma série de fracassos, misérias e infelicidade. E tudo a partir de uma simples diferença no tempo entre sua corrida e o fechamento das portas do metrô. 

Ora, essa diferença, no filme, depende de uma garotinha brincando com sua boneca nas escadas, que, numa realidade, é apanhada rapidamente pelo pai, e, noutra, acaba por atrapalhar a corrida da mulher. Lembrando isso, Craig começa a dizer que muitas outras trivialidades poderiam ter acarretado aquela situação. O Pai e a filha poderiam estar atrasados naquela manhã porque a garotinha não gostou do cereal que sua mãe colocou no café da manhã daquele dia. O homem pode não ter dado atenção a sua filha porque estava chateado por ter brigado com a esposa ou preocupado com algo que leu no jornal. Enfim, tal como no filme de Button, o conjunto de situações aparentemente triviais que contribuíram para mudar uma vida começa a se multiplicar até um ponto em que as ramificações se tornam praticamente incalculáveis. 

O arremate de Craig é interessante: Ele conta que, no fim do filme, a jovem feliz e bem sucedida da primeira hipótese é morta em um acidente, enquanto que a vida cheia de miséria e infelicidade da mulher da segunda hipótese melhora bastante e ela permanece viva. Em outras palavras, a vida realmente boa foi a da mulher que muito sofreu. O apologista ainda ressalta que seu objetivo não é dizer que tudo sempre termina bem, mas que “dada a estonteante complexidade da vida, nós não estamos na posição de julgar que Deus não tem razões suficientes para permitir [que] algumas situações de sofrimento [aparentemente sem sentido] ocorram em nossas vidas” [2]. 

Esse é o ponto-chave. Deus apresenta a capacidade de saber tudo o que pode acontecer no futuro, sejam quais sejam as nossas escolhas. Portanto, o trabalho de Deus é agir na história do mundo de maneira que, sem quebrar o livre arbítrio humano, ele consiga alcançar os seus objetivos, que são santos e perfeitos e, por isso, prioridade em relação até os nossos planos. 

Não obstante, os filmes não constituem a realidade. Será que existem exemplos reais de sofrimentos, aparentemente sem sentido, cujo nexo pôde ser observado algum tempo depois? É claro que sim! Um exemplo é o de um homem chamado Nick Vujicic. 

Nick Vujicic nasceu em uma família cristã, que era firme na igreja. Sua mãe era enfermeira e, por isso, sua gestação ocorreu dentro dos cuidados de saúde necessários. Contudo, Nick nasceu sem braços e sem pernas. Os únicos membros que tinha, se podemos chamá-los de membros, eram dois pequenos pés mal formados. Ninguém na família e na igreja entendeu por que Deus havia permitido aquilo. 

Durante a infância, Nick sofreu muito preconceito na escola. As crianças não faziam amizade com ele e também não gostavam de se aproximar. Os familiares e os amigos de igreja o olhavam como um pobre coitado, e ninguém acreditava que ele poderia ser alguém na vida; nem mesmo ele. Assim, quando tinha oito anos, tentou suicídio em uma banheira, virando-se umas três ou quatro vezes. Mas a cada vez que fazia isso, pensava nos seus pais, que faziam tanto por ele; em como os mesmos se sentiriam culpados e entristecidos se ele se matasse. Isso o impediu. 

Nick continuou com depressões e, principalmente, chateado com Deus. Chegou, inclusive, a pedir a Deus que ele lhe fizesse nascer braços e pernas. Sua vida começou a mudar, no entanto, quando sua mãe lhe mostrou um artigo de jornal sobre um homem que lidava com grave deficiência. A partir dali, Nick percebeu que não era o único que precisava lidar com problemas graves. E mais: Começou a perceber que a felicidade não residia no fato de se ter braços e pernas e que, mesmo com a deficiência, ele podia fazer uma série de coisas, o que acabava sendo inspirador para muitas pessoas. 

Resultado: Nick começou a agradecer a Deus por estar vivo, entregou a sua vida a Jesus ainda na adolescência e com dezessete anos passou a dar palestras em seu grupo de oração. Depois disso, Nick se formou em contabilidade e planejamento financeiro, iniciou uma organização sem fins lucrativos de nome Life Without Limbs (Vida Sem Membros) e começou uma série de viagens por vários países, dando palestras motivacionais e pregando o evangelho. 

Hoje, Nick tem uma vida financeira estável, trabalha com o que gosta, faz quase tudo sozinho (coisas como tomar banho, fazer comida, escrever, pegar o controle da televisão, se arrumar, subir e descer as escadas, atender ao telefone, andar de skate, levar o cachorro para passear, nadar, boiar e até surfar), já visitou mais de 25 países, já deu palestras para mais de 3 milhões de pessoas, já ajudou na salvação de muitos (tanto física quanto espiritual), casou-se com uma mulher fisicamente normal (e bonita, diga-se de passagem), se tornou pai, recentemente e é extremamente feliz. [3].

Ora, eu poderia descrever aqui muitas outras histórias reais, com o intuito de mostrar como um sofrimento, aparentemente sem nexo, foi importante para que determinado plano de Deus pudesse ser alcançado, mas esta já é suficiente para nossa análise. 

Bem, devemos lembrar que ele não nasceu assim porque “Deus assim o criou”. Ele nasceu assim em função de uma anomalia natural que, Deus já sabia que ele teria, mas não impediu. Mas por que Deus não impediu essa anomalia, se sua família era cristã e firme na igreja? É óbvio: Porque Deus queria que Nick superasse aquele problema, tornando-se um exemplo para várias pessoas e um instrumento pelo qual o Senhor salvaria muita gente. Provavelmente Nick não faria nem dois por cento do que faz hoje se tivesse nascido com braços e pernas como a maioria das pessoas. 

Mas o ponto-chave dessa história é que, embora seja possível para nós entendermos o motivo do sofrimento nela, seu protagonista demorara anos para que tivesse a mesma compreensão. Esse é um dos motivos pelos quais não convém tentar analisar cada sofrimento que passamos para tentar achar o propósito deles. Em geral, não chegaremos a lugar nenhum porque falta-nos saber de diversos pontos. 

Por certo, sabendo que Deus é perfeito e onisciente, ele leva em conta diversos pontos para que permita ou não um mal aparentemente desnecessário na vida de alguém. Pontos como: a sua vida oração, a sua sinceridade, a sua conduta, os seus erros, a sua família, a sua casa, a sua vizinhança, os seus amigos, o seu bairro, a sua cidade, o seu trabalho, as pessoas a sua volta, a humanidade, a história do mundo, a conversão de terceiros, as conseqüências de seus atos, o que este alguém já sofreu, o que este alguém precisa sofrer para aprender algo importante ou para mudar a vida de alguém e etc. 

Deus conhece a relação que já existe ou que irá existir entre o sofrimento e cada um desses pontos. Deus conhece quais as conseqüências de se permitir ou não um sofrimento levando em conta cada circunstância envolvida. É por isso que não vejo problema em crer que cada sofrimento tem um propósito, que talvez não saibamos, mas que Deus sabe. 

Mas suponhamos que realmente exista uma classe de sofrimentos que não apresentem nenhum propósito. É possível dizer que esta classe de sofrimentos não é impedida por Deus porque as circunstâncias não o permitem. É possível que esta classe de sofrimentos seja tão-somente conseqüência inevitável de se viver em um mundo mal e que, por mais que Deus queira evitá-los, não o pode. Talvez Deus só possa evitar alguns sofrimentos controlando mentes, coisa que não faz. Pode ser que sua intervenção em determinados sofrimentos possam desencadear problemas ainda piores. Não temos como saber ao certo, mas são panoramas possíveis e que não podem simplesmente ser taxados de improváveis. Improvável é que nossa visão limitada da realidade seja a mesma visão que tem um ser onisciente. Por certo um ser onisciente enxerga bem mais que nós. 

Agora, mesmo sabendo que é impossível analisar todas as circunstâncias envolvidas em cada situação de sofrimento, a solução do problema ainda não é satisfatória para quem está sentindo na pele algum tipo de sofrimento aparentemente sem necessidade. Quem está sofrendo, não quer saber de explicações filosóficas, mas quer sim uma explicação que gere conforto. É aqui que devemos fechar nosso arsenal filosófico e ser sensível à dor que está passando o nosso próximo. 

O Maior dos Sofredores 

Ninguém sofre mais no universo do que Deus. Todas as injustiças do mundo são, primeiro, injustiças contra ele. Quando o homem desobedeceu a Deus, e cometendo o primeiro pecado, ele foi injustiçado. Por que um ser que nunca pecou mereceria aquele sofrimento de ver sua obra-prima se rebelando e se per-dendo na vida? E, a partir dali a injustiça contra Deus não parou mais. Houve o primeiro assassinato, o segundo e muitos outros; e os furtos; e os adultérios; as mentiras; a hipocrisia; a preguiça; os machismos e feminismos; as blasfêmias; a impiedade. Todos os pecados do mundo são pecados contra Deus. 

Mas Deus não sofreu somente como sendo Deus; sofreu ainda um pouco mais. Sofreu como homem também. Se tornou como uma de suas criaturas caídas e passou por cada sofrimento que já o remoía no céu. Sentiu calor, frio, cansaço, dor, fome, sede e estresse. Estresse sobre-humano em um corpo de mero homem de carne, ossos e sangue. 

Como se não bastasse, Deus passou ainda a sofrer mais um pouco, agora como habitante do corpo e da mente de alguns desses seres humanos que, apesar de o aceitarem, continuam a pecar quase todos os dias. E como sofre Deus, sendo Espírito Santo e sensível, com estes que não querem ouvir a sua voz! O cristão que se estrepa após ignorar a Deus, não sofre mais que o Espírito que tanto insistiu com ele. 

Deus sofreu e sofre todos os dias. Por cada morte, por cada desvio, por cada lágrima, por cada pecado cometido contra ele e contra as suas criaturas; porque para Deus todo pecado lhe machuca, todo pecado é injusto para com a sua bondade, todo o pecado é pecado, não importa o tamanho. 

Deus é o ser mais injustiçado do mundo. Às vezes nós reclamamos que alguns sofrimentos que passamos parecem ser desproporcionais aos nossos erros. Pensamos: “Meus erros não são tão grandes para que eu mereça tamanho sofrimento”. Mas o que diríamos de Deus, que nunca cometeu pecado algum? Para ele, qualquer sofrimento é infinitamente injusto. 

Não há quem conheça melhor o sofrimento, a injustiça e a dor do que Deus. E é por isso que nós devemos crer que ele realmente se importa com o que passamos. Não importa o quão pecador o leitor seja, ou quão pequeno seja para a sociedade, Deus se importa com o seu sofrimento e, por certo, fará todo o possível para livrá-lo. 

O mundo é mal, sem dúvida, mas duas coisas nós não devemos esquecer: a primeira é que ele seria muito pior se Deus não trabalhasse todos os dias, todas as horas, a cada minuto e segundo para evitar sofrimentos piores. Vemos os sofrimentos a todo o memento, mas quem é que vê os sofrimentos dos quais Deus nos livra? Quantas vezes não teremos sido salvos da morte ou de terríveis enfermidades, ou de tristezas que de nenhum modo não suportaríamos? E quantos sofrimentos dos quais nós reclamamos tanto não foram dos menores permitidos por Deus ou os responsáveis por não passarmos por algo pior? Coisas assim acontecem e algumas vezes nós podemos visualizar isso em nossas vidas. 

A segunda é que, por mais sofrimentos que passemos ou que vejamos nesse mundo, a Bíblia nos orienta a não olhar para as coisas daqui debaixo, mas sim para as de lá do alto. Porque os sofrimentos que passamos nesse mundo são demasiadamente leves e curtos se comparados à glória que teremos quando Deus limpar o mundo do pecado. Qualquer injustiça que alguém tenha passado por aqui será massacrada pela felicidade, pela justiça, pela dupla honra que teremos se aceitarmos Jesus como nosso Senhor e Salvador. 

Portanto, o problema do sofrimento parece encontrar sua solução quando observamos o quão bondoso, poderoso, sábio, fiel, sensível e companheiro é o nosso Deus. Ele tudo sabe, tudo ouve e tudo vê, como diz um velho hino cristão. E por mais que esse parágrafo pareça conter uma mensagem tão simples, essa é a síntese da resolução do problema do sofrimento. 

O golpe final sobre o ateísmo

Tendo provido uma solução para o tão temido problema do sofrimento, é necessário que o leitor entenda quão grande é a incoerência de um ateu sustentar este “problema” como prova da inexistência de Deus. Como vem sendo evidenciado ao longo deste livro, o verdadeiro ateísmo não deve apresentar nenhuma concepção de valores morais, posto que não há nenhuma base para que o ateu diga que algo é absolutamente bom ou mal, certo ou errado. 

Há quem não entenda esta linha de raciocínio e insista em concluir que estou acusando os ateus de serem imorais. Mas, não é isso. O ponto é que, se Deus não existe, todas as coisas são relativas. O que é mal para você, pode ser bom para mim. E quem vai dizer que eu estou definitivamente errado? A sociedade diz que estamos errados por questão de ordem. A minha biologia diz que estou errado por questão de preservação da espécie humana. Mas por que eu devo adotar como padrões a sociedade e a biologia? O que me prova que elas devem ser os padrões? O que me prova que o egoísmo é errado e que eu devo pensar na ordem e na preservação da espécie? E por que devo me importar com o próximo e com o mundo se um dia tudo irá acabar para todos, inclusive para mim? 

Se somos apenas fruto de sorte e acaso, se viemos do nada e para o nada vamos jazer eternamente no esquecimento, o que fazemos ou deixamos de fazer nesta terra não tem importân-cia nenhuma. Portanto, não temos obrigação de nada. Valores são ilusórios e dispensáveis – tentativas de fugir da realidade. 

Uma música de título Mondo Muderno, do cantor Jay Vaquer [4], apresenta o que eu chamaria de “ateísmo perfeito” em sua letra. Sinceramente não sei qual era a crítica que o cantor desejava fazer quando escreveu a canção, mas seja como for, cai como uma luva para a caracterização de um mundo ateísta que realmente encarasse às conseqüências de sua escolha. Diz assim a música: 

Tudo que faço é pra mim
Até a bondade que ofereço
Fui evoluindo assim
Pra conseguir o que mereço

Questão de sobrevivência
Quem falou em decência?
Passo por cima pra ninguém me atropelar 
O que é que há? Sai pra lá!
O seu vem depois, muito natural 
Depois, se sobrar tempo, meu caro
Vou ser a pessoa mais legal
Se restar alguma migalha, fui claro?

Depois, se sobrar espaço
Ninguém é de ferro
Ninguém é de aço
E é no berro que faço
o diacho pra garantir o meu
compreendeu?
Com certeza!
A seleção natural é da natureza
então por gentileza
vê se não cansa a beleza
e responda à seguinte questão:

Você é diferente?
Não é assim?
A gente logo sente
Quem é ruim
Você, Madre Teresa
Uma bondade só
Vai ensinar ao mundo
Um amor maior 

Cada frase da música forma um bom argumento para que não se tenha moral em um mundo sem Deus, no qual somos resultados de um processo cego de evolução e seleção natural. E, havendo apenas uma vida, nada mais natural que não se perca tempo com outras pessoas, a não ser que seja para interesse próprio. 

O grande problema é que a maioria dos ateus não tem coragem de aceitar a realidade do paradigma ateísta, chegando ao cúmulo de apontar Deus como imoral pelo fato de haver sofrimento no mundo. Vê-se de longe a desonestidade: Se realmente o motivo pelo qual o ateu não acreditasse em Deus fosse o sofrimento no mundo, passar a sustentar uma visão de mundo que acaba com a existência da moralidade é trocar seis por meia dúzia. Tornar-se ateu, em sua essência, deveria ser: assumir que maldade e bondade são ilusões, e que ninguém tem absolutamente obrigação de nada. 

Portanto, terminado, devo dizer que o problema do sofrimento humano não logra êxito algum em sua tentativa de tentar provar que Deus não existe. E concluo com a seguinte assertiva: A existência do sofrimento, juntamente com a promessa de que um dia o Senhor o destruirá, apenas mostra o caráter imaculado de Deus, que concedeu ao homem a possibilidade de escolha e, mesmo o ser humano tendo feito a escolha errada, o Senhor da Pureza fez questão de salvá-lo, passando ele mesmo pelo problema do sofrimento.
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Referências:

1. O trecho transcrito de "O Curioso caso de Benjamin Button", pode ser visto, em vídeo, neste link: http://www.youtube.com/watch?v=8pQ4Bu700Bw

2. Palestra do filósofo e teólogo William Lane Craig sobre o problema do sofrimento, baseada em seu livro "Apologética para questões difíceis da vida", pela editora Vida Nova (2010 - Primeira Edição), páginas 81-121.

3. A história de Nick Vujicic pode ser encontrada, em vídeos, pelo leitor no seguinte link:
http://direcaodivina.blogspot.com.br/2012/04/testemunho-de-nick-vujicic.html

http://direcaodivina.blogspot.com.br/2012/09/nick-vujicic-casou-se-testemunho.html


4. A música "Mondo Muderno" de Jay Vaquer, pode ser encontrada neste link:
http://www.youtube.com/watch?v=9wMcq9G7HEs