segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Definição de Direita e Esquerda

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O leitor com certeza já ouviu falar que uma ideologia, partido ou governo pode ser de “direita” ou de “esquerda”. Mas o que exatamente significa esses dois termos? De onde esses termos surgiram? Como podemos definir o que é direita e o que é esquerda no campo da política?

Bem, a primeira coisa que nós devemos ter em mente quando vamos definir esses dois termos é o seguinte: direita não é a mesma coisa que capitalismo e esquerda não é a mesma coisa que comunismo. Aqueles que definem direita e esquerda desta maneira jamais conseguirão compreender plenamente o que se passa na política. E não são poucos os que apresentam esta definição.

O motivo pelo qual esta errônea e simplista definição é tão aceita pelas pessoas é bem mais simples do que o leitor pode imaginar. Quando Karl Marx e Friedrich Engels criaram o que podemos chamar de comunismo, não demorou muito para que essa ideologia se tornasse a mais ampla e influente das ideologias de esquerda. Isso porque o comunismo conseguia agregar bem quase todas as bases do esquerdismo. Mais tarde, com a bipolarização político-econômica do mundo pelos EUA e URSS, o comunismo passou a ser oficialmente o ápice da esquerda. Estes dois fatos geraram a impressão de que a esquerda era o próprio comunismo. E se a esquerda era o comunismo, então a direita era o capitalismo.

Mas vamos aos fatos: (1) a esquerda surgiu antes de o comunismo ser formulado por Marx e Engels, o que deixa bem claro que esquerda e comunismo não podem ser a mesma coisa; (2) quando a direita surgiu, já existia o capitalismo, o que mostra que também estes dois não são a mesma coisa; (3) a esquerda não surgiu como uma posição contrária à burguesia ou ao capitalismo, mas antes, surgiu como uma posição favorável à pequena burguesia, que era a principal classe social representada pelo partido jacobino (o primeiro partido de esquerda que existiu); (4) a esquerda não-comunista sempre se mesclou muito bem com o capitalismo (a social-democracia é um exemplo).

Outras definições errôneas e simplistas também devem ser descartadas aqui. Por exemplo, há aqueles que definem a esquerda como “governo para os pobres” e a direita como “governo para os ricos”. Existe a definição de esquerda como o posicionamento a favor de mudanças e a direita como o posicionamento contrário a elas. Todas essas definições são tendenciosas e nos afastam do significado real dos termos, devendo assim ser descartadas.

Bem, se ficou bem claro para o leitor o que a esquerda e a direita não são, nós podemos começar definir o que a esquerda e a direita são sem que idéias pré-concebidas atrapalhem nosso raciocínio.

O surgimento dos termos e das definições

Os termos Direita e Esquerda política surgem a partir do contexto da Revolução Francesa (1789 – 1799). A França, tal como a maior parte do continente europeu, vivia sob o domínio da velha política absolutista, na qual o rei é soberano sobre seu Estado, detendo o poder absoluto. Nesse sistema, sempre há uma classe de nobres que apóia a manutenção do regime em troca de privilégios concedidos pelo rei. E estes privilégios, evidentemente, são obtidos através dos impostos do povo.

Esse antigo regime também se diferia dos atuais por se basear em premissas que hoje nos são estranhas como a de que Estado e religião devem andar juntas e a de que o rei era o representante máximo de Deus aqui na terra (o que seria a explicação para que o monarca tivesse o poder absoluto). Vale lembrar que, este regime, embora intentasse encontrar apoio na Bíblia, jamais apresentou base bíblica legítima. Em nenhum ponto, a Bíblia dá todo o poder a um rei e, no Novo Testamento, Jesus Cristo deixa muito claro que religião e política são coisas que não deveriam se misturar.

Agora, o fato da Bíblia não incitar esse tipo de regime não é, evidentemente, uma garantia de que alguém não deturpará o livro sagrado dos cristãos, a fim de “legitimar” seu poder. E também não é garantia de que alguns cristãos ingênuos não irão ser enganados por esse tipo de argumento, ajudando a dar poder ao regime. Foi o que aconteceu durante séculos na Europa. E, uma vez tornado tradição esta prática, a dificuldade de se mudar a mentalidade e o medo de se almejar uma reforma são grandes.

Mas voltando ao contexto histórico da Revolução Francesa, a França enfrentava uma forte crise econômica. Sem saber como resolvê-la, o então rei absoluto Luís XVI, convocou uma assembléia com os representantes das três classes da época (o clero, a nobreza e o restante do povo), a fim de obter aconselhamento sobre o que fazer.

Nesta assembléia, os que representavam a nobreza, favorável à manutenção de todo o sistema absolutista, assentaram-se à direita do rei. Já os representantes do povo, influenciados pelos ideais iluministas que surgiam e contrários a esse sistema vigente da época, sentaram-se à esquerda do rei.

A tal assembléia acabou sendo violentamente dissolvida pelos representantes do povo e a França deixou de ser uma monarquia absolutista para se tornar uma república, através do sangrento golpe dos revolucionários (que se estendeu pelas ruas de Paris e outras cidades da França). A partir de então, os revolucionários franceses se dividiram em três partidos: Gironda, Planície e Montanha; e formaram uma assembléia chamada Convenção, que passou a governar o país.

Os deputados da Gironda (girondinos) passaram a se assentar na parte direita da Convenção. Eram deputados mais conservadores (isto é, menos radicais), que estavam de acordo com a queda da monarquia absolutista, mas que temiam o aprofundamento da revolução e a agitação das massas.

Os deputados da Planície passaram a ocupar o centro da Convenção. Não tinham posições muito firmes e, por isso, costumavam a votar nas propostas que acreditavam ter mais chances de vencer, oscilando assim, freqüentemente, entre o partido da direita (Gironda) e o partido da esquerda (Montanha).

Finalmente, os deputados da Montanha, chamados de montanheses ou jacobinos, eram os que se sentavam na ala esquerda da Convenção, na parte mais alta. Eles eram os mais radicais dos revolucionários franceses. Pouco satisfeitos com as conquistas da revolução, defendiam o aprofundamento e a radicalização da mesma.

Pois bem, como podemos perceber, antes da França se tornar uma república, os absolutistas se assentavam à direita e os revolucionários à esquerda. Tendo os revolucionários derrubado o absolutismo e instaurado a república, os próprios se dividiram em três partidos: um partido mais radical, que se assentou à esquerda; um partido mediano, que se assentou no centro; e um partido mais conservador (no sentido de querer conter a mentalidade de agitação, afobação e violência que eles próprios ajudaram a criar), que se assentou à direita.

Ora, em função dessa disposição espacial na assembléia francesa, onde os mais conservadores tinham o costume de se assentar à direita e os mais radicais de se assentar à esquerda, os dois termos passaram a ser relacionados, inicialmente, a postura de um político. Em outras palavras, quem tinha a postura mais conservadora, era chamado de político de Direita. Quem tinha a postura mais radical e revolucionária era chamado de político de Esquerda. O mesmo servia para partidos e ideologias.

Entretanto, tal acepção destas palavras logo se mostrou problemática. Afinal, ser conservador e ser radical são duas posturas contextuais. Um exemplo interessante disso é a postura do político e pensador Edmund Burke (1729-1797). Este é considerado o pai do conservadorismo anglo-americano. Este tipo de conservadorismo, também chamado de conservadorismo burkeano, é definido como, principalmente, uma postura contrária a mudanças bruscas, e respeitosa para com a experiência e para com o tradicional (já que o futuro é incerto, mas o passado pode nos ensinar muito). Edmund Burke também foi um ferrenho crítico da Revolução Francesa, em função de sua violência e de sua quebra geral com o passado.

Com apenas estas informações, nós poderíamos acreditar que Edmund Burke foi um absolutista, não é mesmo? No entanto, este homem foi também um ferrenho crítico do absolutismo e um dos principais integrantes do partido Whig, da Inglaterra, que fazia oposição ao partido absolutista Tory. Ora, foi justamente o partido Whig que derrubou o absolutismo inglês, na chamada Revolução Gloriosa.

Então, fica a pergunta: Edmund Burke era conservador ou era radical? Para os revolucionários franceses ele era conservador, mas para o partido Tory e os defensores do absolutismo ele era radical e revolucionário. O leitor percebe como esses termos são contextuais? Assim, dizer que os conservadores eram de Direita e os radicais eram de Esquerda não definia absolutamente nada.

Por esse motivo, não demorou muito e os termos Direita e Esquerda deixaram de ser utilizados para definir questões contextuais, passando a designar duas vertentes diferentes da nova política europeia que surgia: a vertente humanista e a vertente cética. Tais vertentes tinham em comum serem contrárias ao absolutismo. No entanto, diferiam radicalmente em sua visão de mundo.

A vertente humanista acreditava que o ser humano era plenamente capaz de criar uma sociedade totalmente nova, sem mais desigualdade e injustiças. A fé na capacidade, na racionalidade e na natureza boa do homem tornava esse sonho possível. E se o ser humano tinha essa capacidade toda de transformar o mundo, ele tinha como obrigação buscar essa transformação. Por essa razão, humanistas logo começaram a defender uma maior participação do Estado revolucionário na economia, um governo intervencionista, a radicalização das ações revolucionárias, uma maior valorização do coletivismo, um discurso voltado para a defesa das minorias, a excitação das massas e a luta pela igualdade social. Eram ações que visavam o alcance dessa sociedade paradisíaca que eles almejavam.

Essa vertente humanista da nova política passou a ser chamada de Esquerda. E é deste modo até os dias de atuais. A definição é fixa e concreta. Esquerda é o posicionamento político pós-absolutista que se baseia nos ideais humanistas de um ser humano perfectível, capaz de transformar o mundo, de um radicalismo político que quebre com as bases da sociedade atual e de um governo revolucionário forte e interventor que consiga servir de meio para o ser humano mudar o mundo. A Revolução Francesa é um ótimo exemplo desse tipo de iluminismo; e o partido jacobino francês é a encarnação do espírito humanista da Revolução Francesa.

A visão da vertente cética era exatamente a oposta. Era uma vertente mais pessimista da nova política no que se refere à natureza do ser humano e a sua capacidade de transformar totalmente o mundo. Para o cético político, o ser humano não era bom por natureza, mas sim naturalmente inclinado ao mal e incapaz de mudar sua natureza. Ou, mesmo que não inclinado naturalmente ao mal, ainda assim corrompido e falho demais como espécie para conseguir transformar o mundo em um paraíso. Isso não quer dizer que o cético político não acreitava na existência de uma moral a ser seguida. Entretanto, ele reconhecia no ser humano uma tendência (social ou natural) a não obedecer a essa moral.

Portanto, o cético era extremamente desconfiado do ser humano e do governo. Ele não acreditava que os homens poderiam formar um paraíso na terra e tinha aversão a um governo que tomasse para si muitas funções, porque isso gerava um risco muito grande de o governo abusar de seu poder, tornando-se despótico. Essa vertente cética defendia as idéias do liberalismo clássico (livre comércio, autonomia do indivíduo, Estado pouco intervencionista, governo com o poder bem limitado pelas leis e etc.) e as idéias do conservadorismo de Edmund Burke (respeito às tradições e à experiência, ceticismo em relação ao homem, mudanças não bruscas e etc).

A vertente cética da nova política passou a ser chamada de Direita, em oposição à vertente humanista (Esquerda). E do mesmo modo é assim até os dias atuais. A definição é fixa e concreta. Direita é o posicionamento que se distancia do humanismo, baseando-se no conservadorismo de Burke e no liberalismo clássico, visões que encaram com pessimismo a natureza do homem e sua capacidade de transformar o mundo em um paraíso, contudo, entendem que o mundo pode ser um pouco melhorado através de um governo limitado e uma economia livre. A Revolução Gloriosa, na Inglaterra, e a Revolução Americana, nos EUA, são exemplos de movimentos orientados por essa vertente

A vertente cética, importa ressaltar, muitas vezes é conhecida como iluminismo britânico, já que muitos dos seus principais defensores eram iluministas da Grã-Bretanha, como Adam Smith, David Hume e Edmund Burke. E foi justamente na Grã-Bretanha que esta vertente melhor se desenvolveu, derrubando, inclusive, o absolutismo. A vertente humanista, por sua vez, é muitas vezes conhecida como iluminismo francês, pelos mesmos motivos: muitos de seus defensores eram iluministas franceses e foi lá, na França, que o humanismo mais se desenvolveu, derrubando também o absolutismo e influenciando muitas nações.

Voltando à Revolução Francesa

Voltando à Revolução Francesa, é possível aplicar essa nova definição, mais fixa e concreta na oposição entre jacobinos e girondinos dentro da Convenção. Embora os dois partidos defendessem os interesses da burguesia (foi uma revolução burguesa, não se esqueça disso), os jacobinos acreditavam que as propostas dos girondinos não eram suficientes para dar prosseguimento à revolução. Na visão jacobina, o governo deveria agir de maneira radical (o mesmo radicalismo sangrento com o qual os revolucionários derrubaram a monarquia absolutista).

Um ponto deve ser ressaltado aqui: embora o partido girondino tenha sido mais cético que o partido jacobino, fazendo oposição à manutenção da política radicalista herdada pela derrubada violenta da monarquia absolutista, os girondinos não podem ser considerados expoentes do conservadorismo de Direita. Afinal de contas, girondinos e jacobinos estavam juntos na violenta derrubada da monarquia absolutista.

Muito mais influente para o desenvolvimento do conservadorismo de Direita foi o escritor francês Alexis de Tocqueville, que via com maus olhos os excessos cometidos pelos revolucionários franceses como um todo. O já citado Edmund do Burke também foi um pensador muito importante para o conservadorismo direitista. Para tais autores, a revolução na França foi um movimento de muitos aspectos negativos, o oposto do que pensavam sobre movimentos como a Revolução Inglesa e a independência dos Estados Unidos, que foram, para eles, revoluções mais prudentes.

Nesse sentido, pode-se dizer que os girondinos não eram conservadores, mas sim menos radicais que os jacobinos. O partido girondino era, na realidade, um partido que percebeu que a manutenção de todo aquele espírito revolucionário poderia trazer alguns problemas desagradáveis. Seja como for, o partido girondino era bem menos radical que o jacobino, o que levava muitos de seus integrantes a aceitarem melhor o chamado liberalismo clássico.

A rivalidade existente entre os dois partidos tomou maiores proporções quando algumas potências absolutistas da Europa uniram as forças para atacar a França e acabar com a revolução. Com as fronteiras derrubadas e os exércitos inimigos avançando, os jacobinos propuseram tomar “empréstimos” dos ricos (para equipar o exército popular) e limitar o preço dos cereais.

Os girondinos discordaram de ambas as propostas, por julgarem ser propostas de cunho autoritário, agressivo e contrárias ao liberalismo clássico. Como os girondinos eram sempre menos radicais, os jacobinos acusaram os girondinos de serem os responsáveis pelas derrotas do exército francês. A acusação foi aceita pelo povo e o resultado foi uma invasão popular à Convenção e o aprisionamento dos deputados girondinos. Assim, os jacobinos passaram a governar sozinhos.

Com o partido jacobino no poder, diversas medidas foram tomadas com o intuito de proteger a revolução. Uma delas foi a formação do Comitê de Salvação Pública, cujo objetivo era dar início a uma repressão implacável contra os “inimigos da revolução”, isto é, qualquer pessoa que aparentasse não estar de acordo com os jacobinos. O tribunal funcionou por pouco mais de um ano e estima-se que pelo menos 20 mil pessoas foram levadas à morte; o período ficou conhecido como Terror.

Estas ações políticas por parte dos jacobinos deixam claro o quanto que o partido se baseava no ideal da construção de uma sociedade sem desigualdades. O magnífico futuro imaginado pelos jacobinos deveria ser o objetivo supremo de cada pessoa. Assim, qualquer um que aparentasse ser um obstáculo ao alcance desse objetivo deveria ser eliminado. Trata-se de um pensamento fincado nos pilares da Esquerda que observamos: o humanismo, o radicalismo político e o Estado interventor. E é exatamente o oposto do pensamento de direita, cujos pilares são o conservadorismo burkeano e o liberalismo clássico.

A revolução foi protegida e algumas reformas sociais foram feitas, mas o terror imposto pelos jacobinos à população enfraqueceu o partido e fez com que as massas deixassem de apoiá-los, o que possibilitou o retorno dos girondinos ao poder.

Contudo, a crise política vivida pela França não permitiu que os girondinos firmassem sua autoridade sobre o país. Assim, temendo pela ameaça de mais um golpe do partido jacobino e sem capacidade de continuar administrando a nação, os girondinos afastaram-se de vez do liberalismo clássico e apoiaram a ascensão de um governo ditatorial que resolvesse essas dificuldades de modo rápido e bruto (provando que, de fato, o partido girondino ainda conservava as suas raízes autoritárias que foram herdadas pelo iluminismo francês).

No fim das contas, fica claro que girondinos e jacobinos, por terem raízes comuns, acabaram se mostrando iguais em termos de autoritarismo. É por esse motivo que pessoas como Burke e Tocqueville criticavam a Revolução Francesa. Eles acreditavam que uma revolução fundamentada na violência, na agitação, na quebra geral do passado e na busca por mudanças através do autoritarismo, jamais poderia ser bem sucedida.

Pois bem, em 1799 o general Napoleão Bonaparte assume o poder na França e finaliza a Revolução Francesa, tornando-se ditador. Nossa viajem pelo contexto histórico termina aqui. Tendo feito esse mergulho no contexto que originou as definições de Direita e Esquerda, não corremos riscos de cometer erros na classificação de um partido, governo, político ou ideologia.

Considerações Finais

Vamos resumir o que aprendemos. Direita e esquerda são vertentes de uma nova política europeia que surge com a crise e o declínio do sistema absolutista de governo. As duas vertentes perduram até hoje. Direita é o posicionamento político baseado no (1) conservadorismo burkeano (ou anglo-americano, ou moderno), uma política da prudência, da valorização da experiência e do ceticismo em relação a capacidade do ser humano de transformar plenamente o mundo; (2) no ideal de Estado limitado, a fim de evitar despotismos; e (3) na defesa de uma economia mais livre. Esquerda é um posicionamento político baseado nos (1) ideais humanistas de um ser humano perfectível, capaz de construir uma nova sociedade; (2) em um radicalismo político que quebre com as bases da sociedade atual; e (3) na defesa de um Estado forte e interventor que sirva como meio para que o ser humano possa transformar o mundo.

Para se tornar mais fácil a distinção, vejamos um quadro comparativo expondo o que cada posicionamento defende:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

When I Fall in Love

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Daqui há dois dias vai fazer um ano que escrevi uma postagem chamada “O bom e o velho romantismo”. De lá para cá, não postei muito no blog, de modo que a última postagem da seção “Reflexões” é esta mesma. A pequena e sucinta postagem expressava a minha espera por uma companheira que conservasse o bom e o velho romantismo.

Mas por que essa questão do romantismo era tão importante para mim? É no mínimo estranho que um jovem, do sexo masculino, em pleno século XXI se preocupe tanto com uma característica que nem mesmo as mulheres dão tanta importância como davam há 70 ou 80 anos atrás. O normal, tendo em vista os padrões modernos, era que eu estivesse disputando quem pega o maior número de mulheres em uma festa ou, pelo menos, enrolando mulheres um pouco mais apaixonadas dizendo coisas como: “Você é muito especial para mim, mas estou um pouco confuso para começar algo sério agora”.

Isso é o que a maioria dos homens faz. Investem em diversões egoístas, usam as mulheres como objetos e depois procuram algo mais interessante. Não há vínculo, não há dor de cabeça, não há preocupações. E não são poucas as mulheres que começaram a enxergar isso como uma atitude interessante. “Se os homens sempre foram cachorros, por que as mulheres não podem ser também?”.

O mundo expandiu e democratizou a “cachorragem”. Hoje todos podem ser cachorros e não há mais motivos se importar com o romantismo. Os mais resistentes são taxados de retrógrados, imbecis e até errados. Coisas como amor, respeito, companheirismo e, sobretudo, a paciência são cada vez mais ignoradas, esquecidas e renegadas. “Agora, o importante é ser feliz”. Egoísta e miseravelmente feliz; com uma garrafa de álcool na mão, um cigarro na boca e uma “pessoa-objeto” do lado para aguentar o peso dessa felicidade estúpida.

Por que eu não optei por esse quadro. Teria sido tão mais fácil... “Todo mundo faz, não é?”. Por que que é que essa questão do romantismo era tão importante para mim?

Bem, hoje, dia 10 de agosto de 2012, eu faço três meses de namoro. Não tenho vergonha de dizer que ela é minha primeira namorada. E o meu tipo de namoro com ela é exatamente o tipo de namoro que me completa. Eu não preciso de álcool, de cigarro ou de uma mulher-objeto. Tudo o que eu preciso, tudo o que sei que irá me completar, é poder amar verdadeiramente uma mulher e ser amado por ela; respeitar e ser respeitado; ser paciente e receber paciência também. É por isso que essa questão do romantismo era tão importante para mim. E é por isso que ainda é.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Um pouquinho sobre os Adventistas do Sétimo Dia

39 comentários:
Todas as doutrinas adventistas são baseadas na Bíblia Sagrada que, para nós, é a única regra de fé e prática. Esta pequena postagem tem como objetivo mostrar como as principais doutrinas adventistas estão fundamentadas na Palavra de Deus. Trata-se de um resumo, é verdade, mas está bem explicado e fácil de entender. Dúvidas mais específicas e aprofundadas serão respondidas em outras postagens.


(1) Por que os adventistas do sétimo dia guardam o sábado?



O sábado foi o dia escolhido por Deus para que o homem cessasse seus trabalhos seculares e se dedicasse a Deus, à família e ao próximo (Êxodo 20:8-11). O objetivo é que cada ser humano possa descansar fisicamente, mentalmente e espiritualmente, além de poder ser descanso para o seu próximo também. Por esse motivo é que Jesus insistia que o sábado não era um dia de descaso, mas de descanso. Por isso, era permitido fazer o bem. Um mandamento que nos impedisse de sermos bons, não seria um bom manda-mento, por certo.



Muitos cristãos sinceros acreditam que Jesus Cristo aboliu o sábado após morrer na cruz. Essas pessoas se dividem em dois grupos. Um grupo acredita que não existe mais um dia específico para se guardar. Já outro grupo acredita que esse dia de guarda ainda existe, mas que ele deixou de ser o sábado e passou a ser o domingo, em função da ressurreição de Cristo ter ocorrido no domingo.



Mas a Bíblia mostra que os dois grupos estão errados. Em primeiro lugar, porque não há nenhuma passagem do Novo Testamento que afirme que Jesus aboliu a guarda do sétimo dia semana. A única passagem do Novo Testamento que parece indicar que os sábados foram abolidos (Colossenses 2:16-17), na realidade, se refere a feriados religiosos (que também eram chamados de sábados pelos judeus – ler Levítico 23:26-32 e 37-38, por exemplo), conforme o contexto deixa muito claro.



Em segundo lugar, no que diz respeito à santidade do primeiro dia da semana, a Novo Testamento simplesmente não diz nada. Existem 8 passagens que falam sobre o primeiro dia da semana no Novo Testamento. Nenhuma delas afirma que esse dia ficou no lugar do sábado.



Em terceiro lugar, o simples fato de Jesus ter ressuscitado no domingo, não é uma prova de que o domingo passou a ser o dia de guarda. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Prova, por assim dizer, seria se Jesus dissesse: “Como eu ressuscitei no domingo, agora quero que guardem o domingo, em lugar do sábado”. Mas Jesus jamais disse isso na Bíblia.



Portanto, não há nada que indique que o sábado foi abolido. E ao contrário do que se pensa o sábado não é um fardo. Os fariseus o tinham tornado um fardo, com tradições que não se encontravam nas escrituras. Mas quando Jesus veio, mostrou como que se deve guardá-lo de maneira a satisfazer o ser humano (ler com atenção os textos de Marcos 2:27-28; Mateus 12:9-14).



(2) Por que os adventistas do sétimo dia enfatizam tanto o cumprimento da lei, se não vivemos mais debaixo da lei e sim debaixo da graça de Jesus?



Os adventistas concordam que a lei não tem poder para perdoar, nem para salvar e nem para purificar uma pessoa. Jesus Cristo é o único capaz de nos perdoar perante o Pai, nos salvar da morte eterna e nos purificar através do Espírito Santo. Ele é capaz disso porque se tornou homem como nós, mas sem pecado, e se sacrificou para que nós tivéssemos vida por meio dele. Isso é básico para nós.



Agora, isso não significa que a lei não tem sua função. Conforme Paulo afirma em Romanos 3:20, a lei tem o objetivo de nos mostrar o que é certo e o que é errado. Ou seja, ela é um padrão de conduta. Isso é tão claro no Novo Testamento que o apóstolo João afirma que “o pecado é a transgressão da lei” (João 3:4). Então, ainda há uma lei que deve ser seguida; e quando não a seguimos, estamos pecando.



É claro que as leis civis e as leis cerimoniais contidas na Bíblia não precisam mais ser seguidas porque foram dadas para contextos específicos. As leis civis do Velho Testamento eram leis feitas para o funcionamento de Israel como nação, obedecendo o contexto histórico-cultural. Em nosso contexto, seguimos as leis civis de nosso país e de seus estados membros. As leis cerimoniais eram os rituais judaicos que simbolizavam o sacrifício de Jesus ou a antiga aliança e que, obviamente, se tornaram obsoletos quando Jesus operou o seu sacrifício santo. Mas as leis morais (os 10 mandamentos) continuam de pé. Tiago confirma isso em Tiago 2:8-12. Paulo confirma isso em Romanos 7:7-14 e em Romanos 13:8-10. Jesus confirma isso em Lucas 17:19-20, em Mateus 24:20-21 e em Mateus 5:17-20. 



Assim, quando enfatizamos que existe uma lei, não estamos querendo dizer que essa lei perdoa, salva ou purifica. Isso quem faz é Jesus. A lei apenas diz o que é certo e o que é errado.



Vamos a um exemplo. Digamos que eu pratique um furto. Por que eu sei que o ato de furtar é errado? Porque existe uma lei nos 10 mandamentos que deixa claro que eu não devo furtar. Por isso, eu sei que furtar não é do agrado de Deus. Agora, só o fato de eu saber disso é o suficiente para que eu seja perdoado, salvo e purificado? Não! Para que isso aconteça, eu preciso de Jesus. Eu preciso crer que Jesus morreu por mim para que eu fosse salvo. Eu preciso confessar a Jesus o meu pecado. Eu preciso aceitar que o Espírito Santo trabalhe em mim para que eu me afaste desse pecado.



E quanto à graça? A graça é justamente o fato de que quando eu peco, tenho a condição de ser perdoado por Jesus Cristo. Se existisse apenas a lei, eu jamais poderia ser perdoado, salvo e purificado. Isso é graça. E é uma dádiva imerecida, pois o salário do pecado é a morte, mas se simplesmente confessamos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça.



(3) Por que os adventistas do sétimo dia insistem em manter a dieta do Antigo Testamento que Deus havia ordenado aos judeus?



Os adventistas crêem que tudo o que temos é de Deus e que por isso devemos cuidar bem do que temos. A isso chamamos de mordomia. Através da mordomia nós somos convidados a cuidar bem do nosso tempo, do nosso dinheiro, da nossa saúde, do nosso intelecto; tudo isso sempre como uma forma de agradecimento e serviço a Deus, que nos dá todas essas coisas.



Afora isso, a Bíblia deixa bem claro que nós, cristãos, somos o povo escolhido de Deus, raça eleita, além de “o Israel espiritual de Deus”. Sendo assim, é necessário que o cristão seja realmente diferente dos não-cristãos, tal como os judeus deveriam ser diferentes dos povos pagãos.



Tudo isso corrobora para que os adventistas entendam que também devemos ter um cuidado diferente com a saúde. Mas isso não é tudo. O Novo Testamento ainda vai mais longe que o Antigo na questão da nossa santidade, dizendo que o nosso corpo é templo do Espírito Santo (I Coríntios 6:19-20) e que nós devemos manter nossos corpos íntegros (I Tessalonicenses 5:23). Tais coisas não se referem só à pureza sexual, mas a tudo o que se relaciona ao seu corpo; porque todo o nosso corpo é propriedade de Deus, já que ele nos criou, ele nos comprou com o seu sangue e ele habita dentro de nós.



Como se esses motivos não bastassem, ainda é bom ressaltar que não há nenhum lugar no Novo Testamento que indique que as leis de saúde foram abolidas. O que há são passagens mal interpretadas. Por exemplo, a passagem em que Pedro tem um sonho com os animais puros e impuros juntos é muito usada para dizer que as leis de saúde perderam o vigor. Mas a própria passagem deixa claro que o sonho era uma metáfora para uma verdade maior, a saber, que Pedro deveria pregar também para os gentios, pois em Cristo não “há judeu, nem grego”, todos são iguais. Ou seja, o contexto da passagem não tinha nada a ver com leis de saúde, mas com a pregação do evangelho.



Agora, é claro que a igreja adventista não impõe como mandamento aquilo que a Bíblia não diz. Por isso, você não vai ver um adventista sóbrio dizendo que é lei você não comer produtos com agrotóxicos, ou que é lei não beber refrigerante. Essas coisas, embora sejam importantes para a saúde, por não se encontrarem na Bíblia (obviamente), são apenas práticas aconselháveis, mas não impostas pelos adventistas.



Por fim, quando as leis de saúde são seguidas pelo cristão, elas aumentam a sua expectativa e qualidade de vida. Isso é positivo para ele e importante para que Deus possa abençoá-lo. Alguém que não cuida de sua saúde, por exemplo, dificilmente será abençoado com longevidade, boa saúde e cura de doenças. Deus muito faz por nós, mas jamais irá fazer aquilo que nós mesmos precisamos fazer.



(4) Por que os adventistas do sétimo dia não acreditam na imortalidade da alma humana?



Nós, adventistas, não acreditamos na imortalidade da alma porque a Bíblia não sustenta essa doutrina. A Bíblia deixa claro que o homem foi feito a partir da união do barro com fôlego de Deus (Gênesis 2:7 e Gênesis 3:19). Quando essa união é desfeita a pessoa deixa de existir e a sua consciência fica desativada até o dia da ressurreição dos mortos. Isso é enfatizado em diversas passagens como Salmos 146:3-4; Salmo 17:15 Salmo 6:4-5; Salmo 115:17-18; Eclesiastes 3:18-20; Eclesiastes 9:5-6 e 10; Eclesiastes 12:1-7; Isaías 38:18-19; Daniel 12:2; Lucas 8:49-55; Atos 2:25-35; I Coríntios 15:20-26; I Coríntios 15:50-54; I Tessalonicenses 4:13-17; I Timóteo 6:13-16; Hebreus 9:27-28; Apocalipse 20:4-6 e etc.



Com relação às passagens que supostamente provam que o ser humano possui uma parte imaterial que continua viva após a morte do corpo, elas são mal interpretadas e, ainda que não fossem, não afirmam enfaticamente que a alma é imortal. Ora, como se trata de uma doutrina importante seria esperado que a Bíblia dissesse enfaticamente que a alma é imortal, caso ela realmente fosse. Mas o que a Bíblia afirma enfaticamente é que um dia Jesus vai voltar e vai ressuscitar todos os mortos. É nesse dia que aqueles que aceitaram Jesus se tornarão imortais.



(5) Por que os adventistas do sétimo dia não acreditam na existência de um inferno eterno?



A idéia de que Deus preparou um lugar de fogo que queimará eternamente as almas pecadoras não advém da Bíblia. Ela é fruto de (1) crenças das religiões pagãs somadas a (2) más interpretações de passagens bíblicas.



Com relação às passagens bíblicas é necessário começar dizendo que a palavra inferno não existe nos idiomas oficiais em que a Bíblia foi escrita. Ela provém da palavra latina “inferum”, que quer dizer “mundo inferior”; e é utilizada no lugar de três palavras bíblicas oficiais: Sheol, Hades e Geena.



Sheol é uma palavra hebraica e significa literalmente sepulcro, sepultura, lugar inferior. Hades é uma palavra grega e significa a mesma coisa. Quanto à Geena, este era um vale localizado em Jerusalém onde o povo jogava lixo e restos de animais. Por causa do vasto material orgânico que lá havia, o lugar vivia pegando fogo.



Então, todas as vezes que lemos a palavra “inferno” na Bíblia, o texto original se referia ou à sepultura ou à Geena. Até aqui, portanto, nada que indique a existência de um lugar onde os homens vão queimar para sempre.



No caso de Geena, Jesus utilizou essa palavra como metáfora para indicar o que aconteceria com os ímpios. Na época, corpos de criminosos eram jogados no vale de Geena e incinerados. Assim, Jesus queria indicar que o ímpio também seria incinerado no último dia. Isso nem de longe indica que o ímpio queimará eternamente até porque, se o fogo consome algo, um dia esse algo terminará de ser consumido. É lógico. 



Com relação a expressões como “fogo eterno”, “fogo inextinguível”, “queimar pelos séculos dos séculos” e etc., todas elas, no grego, apresentam o mesmo radical, a saber, aión (eterno). E a palavra aión tem um sentido que vai pode diferir dependendo de a quem ou ao quê ela é aplicada. Por exemplo, se aplico a palavra aión à existência de Deus, isso significa que Deus nunca morrerá. Agora, se aplico essa palavra à queima de palha do meu celeiro, isso significa que a palha queimará “eternamente” enquanto houver palha para queimar.



Em outras palavras, se algo não é eterno por natureza, não pode queimar para sempre. Queimará até onde existir. A expressão é utilizada dessa maneira para mostrar o caráter da punição do ímpio. Ela não é uma espécie de purgatório, no qual o ímpio queimará um pouco e depois poderá ir para o céu. Não. Ele queimará “eternamente” sem que nada atrapalhe essa queima. E quando essa queima acabar, o ímpio não existirá nunca mais. Não haverá volta.



(6) Os adventistas do sétimo dia acreditam na Trindade?



Com certeza. Nós acreditamos na Trindade porque a Bíblia é muito clara a este respeito, mostrando que Jesus é um com o Pai e com o Espírito Santo, e que os três são iguais em essência, poder e existência; pois formam o mesmo Deus.



Infelizmente muitos cristãos nos associam às Testemunhas de Jeová. Mas isso pode ser facilmente refutado através das 28 crenças fundamentais adventistas, que é um documento no qual mostramos as principais doutrinas bíblicas em que cremos; ou então através dos livros da escritora Ellen White, uma mulher extremamente importante no desenvolvimento da igreja adventista do sétimo dia. Nesses locais é possível averiguar que a igreja adventista crê plenamente na Trindade.



(7) Os adventistas se guiam pelos livros de Ellen White?



Definitivamente não. A igreja adventista crê que apenas na Bíblia está a Palavra de Deus. Por conseguinte, tudo o que qualquer pessoa fale deve estar de acordo com o que está escrito na Bíblia. Se não estiver, não será seguido.



A senhora Ellen White foi uma peça importante no desenvolvimento da igreja adventista, pois era uma cristã fervorosa e que, ao longo de sua vida, recebeu visões por parte de Deus. Não obstante, isso não faz dela a mulher mais perfeita que já existiu e muito menos alguém que deva ser adorada. Ela foi simplesmente um ser humano como nós. E seus escritos só são de serventia para os adventistas porque estão todos baseados na Palavra de Deus (a Bíblia). Não fosse assim, seriam renegados.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Por que é importante ter uma fé racional?

20 comentários:
Existem duas coisas básicas que os cristãos precisam saber. A primeira é que é importante que se cultive uma fé inteligente, com bases racionais e que ofereça certeza de veracidade. A segunda é que essa fé inteligente não deve ficar guardada dentro de sua casa, escondida do mundo. Pelo contrário, o cristão que possui uma fé inteligente deve, sempre que possível, expô-la aos que acreditam que fé é apenas crença infundada e sem evidências.

Agora, por que essas duas coisas são importantes? O que vale não é apenas crer e pronto? Cada um não tem direito de crer no que bem entender? Não é melhor deixar de lado as discussões e não interferir nas crenças dos outros? Vamos responder esses questionamentos.

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que é natural querer saber se algo é verdadeiro antes de aceitar como verdade. O nome disso é ceticismo e por mais ingênua que seja uma pessoa, ela sempre terá certo nível de ceticismo. Um bom exemplo para se mostrar como que o ceticismo é natural e importante, imagine que alguém chegasse para você e dissesse: “Sou um lobisomem”. O que você faria? Simplesmente acreditaria, sem questionar? Eu tenho certeza que não. Você não acreditaria a menos que tivesse fortes evidências para crer nisso. Então, vemos que o ceticismo é natural e importante.

Da mesma forma, não pode haver fé se não houver também ceticismo. Afinal, para que você acredite em algo, é necessário que você tenha boas razões para crer que aquilo é verdadeiro, bem como ter boas razões para crer que as visões opostas a que você adotou são falsas. Então, fé envolve uma boa dose de ceticismo.

É claro que nem sempre as razões que temos para crer em algo são razões evidentes para outras pessoas. Muitas vezes cremos em algo por experiência pessoal. E o que é pessoal, é pessoal. Esse tipo de razão é válido, pois não deixa de ser uma razão, um motivo para crer. E é importante ter experiências pessoais, pois são as experiências pessoais que mais nos tocam e nos inclinam a crer na veracidade de algo.

Entretanto, se cultivamos apenas razões pessoais para nossa fé, poderemos ter dois problemas. Primeiro: Dificilmente poderemos convencer alguém de que nossa fé é verdadeira e racional. Segundo: Quando estivermos diante de argumentos contrários à nossa fé, provavelmente não saberemos refutá-los e, assim, além de passarmos vergonha e deixarmos uma má impressão da nossa fé, vamos também ficar com dúvidas. E essas dúvidas provavelmente não serão respondidas, pois nós não temos o costume de buscar razões lógicas (que excedem o campo do pessoal).

O resultado é catastrófico: Damos a impressão de que nossa fé é burra, ajudamos os argumentos contrários, afastamos as pessoas de acreditarem no que nós acreditamos e, por fim, acabamos perdendo a nossa fé. Isso não sou eu que estou dizendo. Isso pode ser atestado todos os dias nas faculdades e em meios mais intelectuais. Os cristãos são vistos como burros, retrógrados, ingênuos, anti-intelectuais, idiotas e por aí vai. Vários cristãos abandonam sua fé, muitos ateus não se convertem e os doutores e professores da faculdade continuam tratando fé como um empecilho.

Portanto, vemos que é essencial os cristãos cultivarem uma fé inteligente para que o cristianismo seja visto com mais respeito; para que menos cristãos abandonem a fé; para que mais ateus e agnósticos possam enxergar que o cristianismo é uma opção racional e viável.

Com relação ao direito de escolha, sim, todas as pessoas tem direito de crerem naquilo que bem entendem. E devemos respeitar isso. Agora, isso não significa que não podemos falar para as pessoas sobre algo que, a princípio, elas discordam. E existem vários motivos para isso. Um deles é que a pessoa pode estar errada e você certo. Assim, ao conversar com a pessoa, se ela realmente se importa em saber a verdade, ela terá a chance de perceber que está errada e mudar. Outro motivo é que você pode estar errado e a pessoa certa. Assim, você terá a chance de perceber que está errado e mudar.

Em todo o caso, a discussão pacífica e construtiva de qualquer assunto, sempre será positiva, pois poderá levar alguém a perceber o seu erro. Mas para isso é necessário que você estude o assunto para que não corra o risco de você estar certo, mas por falta de estudo achar que está errado.

Como cristãos, a questão fica ainda mais séria. Jesus afirma que quem conhecer a verdade, será liberto (João 8:32). Ele também diz que nos capacita para sermos suas testemunhas (Atos 1:8). Pedro nos diz que devemos estar sempre preparados para dar a razão de nossa esperança às pessoas (I Pedro 3:15). Calar-nos e deixar que as pessoas pensem que a fé é irracional, é, portanto, até mesmo uma falta de amor para com ateus, agnósticos e cristãos de fé vacilante. Cristo deseja que todos estes conheçam a verdade e se acheguem a ele. Cabe a nós dar a eles essa oportunidade. Se depois não quiserem aceitar, pelo menos estaremos certos de que fizemos a nossa parte.

Por fim, estudar as razões da nossa fé colabora para o nosso próprio crescimento espiritual, pois acrescenta mais certeza e segurança para o nosso coração de que estamos seguindo a coisa certa. Devemos lembrar também que se Deus criou o mundo também é dono da racionalidade, da inteligência e do raciocínio lógico. Então, tentar desassociar fé e razão é uma forma de chamar Deus de burro. Se Deus existe é claro que podemos chegar a ele através da razão.

Quanto às discussões, mais uma vez ressalta-se que elas devem ser pacíficas e construtivas. É preciso mostrar à pessoa com a qual discute, que você está interessado em discutir racionalmente, que está interessado em saber quais são as dúvidas ou as razões da descrença dela com o fim de ambos saberem a verdade.

Conclui-se, então, que é importante ser engajado intelectualmente no que diz respeito a sua fé. Mas não se assuste. Não é necessário saber muito e nem gastar anos e anos estudando. Apenas é necessário saber o básico. Um aprofundamento fica por conta do gosto do estudante pelo assunto. É curioso notar que ao estudar um pouquinho, nós percebemos que a maior parte das dúvidas dos não-cristãos são fáceis de responder. E mais interessante é que muitos ou não tem argumentos concretos para sua descrença ou simplesmente repetem o que outros disseram. Quando nos damos conta disso, aí vemos como o cristianismo tem perdido espaço nas universidades e centros intelectuais por verdadeiras bobagens. É claro que existem bons argumentos e bons argumentadores que militam contra o cristianismo e a crença em Deus em geral. Mas são poucos e também não devemos temê-los. Afinal, se aquilo em que cremos é verdade, a verdade sempre vai se impor sobre a mentira. No fim, quem estuda não tem medo de ter fé. E quem tem fé não tem medo de estudar.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Sejamos Cristãos Racionais

Um comentário:
Existem cristãos que acham que ser mansos como Jesus é deixarem que todas as pessoas "espanquem intelectualmente" a sua fé. Isso é uma mentira. "Dar a face" se refere a não nutrir sentimento de vingança, não maquinar formas de alcançar justiça com a própria mão. "Dar a face" não quer dizer ser passivo, ser imbecil. 


O que o cristão de hoje precisa, desesperadamente entender é que ele também é um ser pensante e racional e por isso não só pode como deve se preparar intelectualmente para defender racionalmente aquilo em que acredita. Afinal, se cremos que Deus é o criador, ele também criou a razão. Dizer que a fé deve ser irracional, é querer acreditar em um Deus burro. E isso é uma blasfêmia.


Portanto, sejamos espiritualmente sensatos e inteligentes. Deixemos a ignorância de lado. Investiguemos nossas crenças. Permitamos que o Espírito Santo de Deus nos guie pelo caminho do saber, e não pelo caminho da idiotice.