domingo, 19 de agosto de 2012

Os tipos de leis da Torá e sua relação com o sacrifício de Jesus - Parte 1

Nenhum comentário:
E daí? Havemos de pecar porque não estamos debaixo da lei, e sim da graça? De modo nenhum! Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a vida? Mas graças a Deus porque, outrora, escravos do pecado, contudo, vistes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues; e, uma vez libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça (Romanos 6:15-18).

Quando o apóstolo Paulo escreveu sua epístola aos romanos, estava preocupado com a depravação moral das pessoas daquele lugar. A terra de Roma era a capital da iniqüidade e a Igreja formada ali estava cercada de abominações. Como Paulo gostava de enfatizar bastante que o homem era salvo apenas pela graça de Deus, mediante a fé no sacrifício de Cristo, era necessário que também deixasse claro que isso não significava que o homem estava livre para pecar. E é exatamente isso que vemos no decorrer da epístola aos Romanos. Paulo faz questão de mostrar que o fato de os cristãos não estarem mais debaixo da condenação da lei, não significava que as pessoas poderiam continuar em suas transgressões. A partir da aceitação do sacrifício de Jesus, cada indivíduo deveria permitir que o Espírito Santo de Deus renovasse o seu interior, conduzindo-o a obediência da lei moral eterna, baseada no amor.



No entanto, embora Paulo tenha sido tão enfático em dizer que a cruz de Cristo não havia crucificado a lei moral, muitos cristãos sinceros não conseguem entender perfeitamente o que realmente o apóstolo queria dizer sobre esse assunto. Então, sendo ensinados a pensar que Jesus aboliu todas as leis, ajudam a criar uma sociedade, onde se proliferam aqueles que abusam da graça de Deus.



Os questionamentos são: O que Jesus modificou após cumprir o seu ministério? Como é possível alcançar uma boa conduta cristã sem se tornar um legalista? Qual a relação entre a lei moral e a graça de Deus, entre a lei e o Espírito Santo? O que fazer com a depravação moral que tem se estendido no mundo e muitas vezes influenciando a Igreja de Cristo? Estas e outras perguntas serão tratadas aqui.



Os tipos de leis



Quando Moisés foi comissionado para libertar e guiar o povo hebreu até a terra prometida por Deus a Abraão, já existiam leis de Deus a serem seguidas. Mas a escravidão na terra do Egito e o fato de não haver um código escrito, dificultava o seu cumprimento. O quadro só começou a mudar quando os hebreus cruzaram o mar vermelho e iniciaram a longa trajetória do Egito à Canaã. Moisés, inspirado por Deus, então, passou a escrever a Torá (também chamada de Pentateuco), que são os cinco primeiros livros da Bíblia, onde também estão as leis de Deus.



A Torá pode ser definida como um código de leis gerais, pois ali existem leis de cunho civil, cerimonial, de saúde e moral também. Cada um desses tipos de leis existentes na Torá serve para uma função diferente. Vejamos:



As leis civis compreendem aquelas que visavam única-mente o bem e a ordem de Israel como nação. Ou seja, como sendo um Estado independente, com política, economia e idio-ma próprios, não lhe poderia faltar um conjunto de leis civis, que equivaleria hoje aos códigos civil, penal e a constituição de um país. Um exemplo desse tipo de lei pode ser visto em Êxodo 21:22-25, onde lemos:
Se homens brigarem e ferirem mulher grávida e forem causa de aborto, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. Mas, se houver dano grave, então, dará vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe.
Como se pode perceber acima, a lei era de cunho estrita-mente civil. Fala-se em agressão a uma mulher, em juízes para julgar a causa, em indenização e em punição conforme o dano que fora feito. Aliás, é bom ressaltar como que a expressão “olho por olho, dente por dente” dentro de seu contexto, deixa claro que não era um incentivo a vingança e muito menos uma permissão para que cada um pudesse fazer justiça com as pró-prias mãos. Não, a expressão era para demonstrar o modo como o juiz deveria agir ao punir o criminoso, a depender do dano que ele havia feito.



As leis cerimoniais englobam todo o sistema de rituais do judaísmo, como: sacrifícios de animais para oferta e remissão de pecados, circuncisão de meninos, festas e feriados religiosos, meses e anos sagrados, o sacerdócio, os utensílios especiais do templo e todo o tipo de cerimônia, que, como já vimos, apontava para o sacrifício de Jesus Cristo. Um exemplo desse tipo de lei pode ser encontrado em Levítico 22:17-20:
Disse mais o Senhor a Moisés: Fala a Arão e a seus filhos e a todos os filhos de Israel, e dize-lhes: Qualquer que, da casa de Israel ou dos estrangeiros em Israel, apresentar a sua oferta, quer em cumprimento de seus votos ou como ofertas voluntárias, que apresentar ao Senhor em holocausto, para que seja aceitável, oferecerá macho sem defeito, ou do gado, ou do rebanho de ovelhas, ou de cabras. Porém todo o que tiver defeito, esse não oferecerais; porque não seria aceito a vosso favor.
Note que o texto está falando sobre conteúdo de cunho cerimonial-religioso. Estas cerimônias eram um símbolo do sacrifício supremo que Cristo faria na cruz. Por isso as ofertas de animais deveriam ser sempre assim: um macho e sem defeitos; tal como Jesus Cristo.



As leis de saúde era uma lista de prevenções e boas práticas no âmbito da higiene e da saúde em geral. No contexto em que viviam os hebreus, onde os cuidados com a higiene e a saúde no mundo eram tão precários, essas leis desempenhavam um papel fundamental para a preservação da vida. Entretanto, tais leis continuam tendo a mesma utilidade hoje. Cuidados com a higiene e a saúde são importantes em todas as épocas. Um ótimo exemplo desse tipo de lei pode ser visto em todo o capítulo 11 de Levítico, que falam sobre animais que não devem ser usados para alimentação. Entre eles estão o porco, o camarão e o urubu, que todo mundo sabe que são animais bem sujos. Não comê-los, portanto, é uma boa prevenção contra doenças.



Por fim, temos as leis morais, que podemos considerar como o tipo mais importante de lei. Este tipo de lei se refere aos comportamentos morais que cada indivíduo deve ter para com o próximo e para com Deus. Os dez mandamentos são a base para este tipo de lei, já que todas as leis de âmbito moral (ou mesmo ético) se relacionam com algum mandamento do decálogo. Em outras palavras, os dez mandamentos são o resumo da conduta que Deus deseja que os homens tenham; a síntese de todos os mandamentos de âmbito moral.



Algo que é interessante ressaltar aqui a respeito dos dez mandamentos é que, diferentemente das demais leis da Bíblia, eles não foram escritos pela mão de Moisés. Todas as outras leis foram inspiradas por Deus e escritas pela mão de Moisés, mas os dez mandamentos foram escritos pela própria mão de Deus e dados a Moisés no monte Sinai, conforme nós podemos ler em Êxodo 31:18:
E, tendo acabado de falar com ele no monte Sinai, deu a Moisés as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus.
Mais tarde, tendo Moisés se enfurecido com o povo por conta de sua idolatria, ele quebra as tábuas da lei. E, então, mais outro acontecimento interessante ocorre:
Então disse o Senhor a Moisés: Lavra as duas tábuas de pedra, como as primeiras; e eu escreverei nelas as mesmas palavras que estavam nas primeiras tábuas, que quebraste (Êxodo 34:1).
O que esses dois textos nos confirmam com clareza é que Deus considera muito importante o decálogo. Tão importante que ele mesmo fez questão de escrevê-los. E não foi uma vez só, mas duas. A importância do decálogo fica ainda mais clara quando Jesus vem a Terra. No famoso capítulo do Sermão do Monte, Cristo mostra como que os dez mandamentos são apenas o resumo da lei moral. Podemos ler:
Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela (Mateus 5:27-28).
O leitor percebe como que Jesus, no Novo Testamento, eleva os dez mandamentos? Ele confirma que o adultério é um pecado, mas estende isso para além do contato físico. Em outras palavras, ele diz “não fique só na casca dos dez mandamentos, porque eles revelam condutas morais muito mais profundas do que parecem mostrar à primeira vista”.



Concluímos, com essa pequena explanação, que existem tipos de leis diferentes na Bíblia, cada qual para atender a uma função diferente. Saber disso é essencial para que prossigamos em nosso estudo, a saber, qual a relação entre as leis, a graça e a fé, bem como se as leis da Torá foram abolidas por Jesus ou se permanecem nos dias de hoje.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os porquês da virgindade antes do casamento

4 comentários:
Freqüentemente nós, cristãos, somos criticados por nossa postura em relação à prática sexual. Para nós, o sexo foi criado por Deus e é bom, contudo, não deve ser praticado antes e/ou fora do que conhecemos como casamento. Por casamento podemos entender: uma relação de amor ampla e perpétua entre um casal. Em teoria, pelo menos, é isso que um casamento deve ser; se na prática muitos casamentos não seguem essa definição, isso não é um assunto relevante para esse texto.

Ora, talvez quem mais sofra críticas desse tipo são os jovens. Conforme o tempo foi passando, grande parte da juventude passou a mergulhar mais cedo no mundo sexo e achar errada a concepção de que devemos esperar por um casamento para ter relações sexuais. Deste modo, os jovens cristãos foram empurrados contra a parede: se um jovem não adota a nova concepção de sexo é taxado de retrógrado, imbecil e retardado.

O problema, no entanto, se torna ainda mais incômodo quando percebemos que toda vez que um jovem cristão vai defender a sua concepção cristã de sexo, acaba tendo que apelar para a Bíblia. Não estou dizendo que isso é ruim. Creio plenamente que este livro magnífico é verdadeiro em cada uma de suas palavras. Mas a dificuldade está em utilizar a Bíblia como base para defender sua concepção quando a pessoa com quem o cristão debate não acredita nela. Neste caso, não há como prosseguir argumentando, a não ser que, ou (1) ambos aceitem discutir argumentos para a veracidade da Bíblia (o que exige algum conhecimento sobre apologética por parte do cristão), ou (2) o cristão passe a defender sua concepção se baseando em algo que a outra pessoa acredite e não mais na Bíblia.

Aqui está o drama da história: pouquíssimos cristãos conhecem ou tem interesse em apologética, o que os impede de defender a Bíblia com argumentos fortes. E também pouquíssimos cristãos têm a perspicácia de defender alguma concepção cristã utilizando apenas as bases em que os não-cristãos se apóiam. Assim, quando um cristão argumenta perante um não-cristão que é errado fazer sexo antes do casamento, a discussão não vai adiante e o cristão vira motivo de chacota.

O objetivo desse texto, portanto, é fazer uma defesa da concepção cristã de sexo, sem, contudo, utilizar a Bíblia como base para a argumentação. O leitor crê que isso seja possível? Bem, vamos ver se dá mesmo para cumprir esse objetivo.

A primeira coisa que devemos fazer para iniciar essa discussão é considerar os argumentos nos quais os não-cristãos se baseiam para afirmar que o sexo pode (e até mesmo deve) ser feito antes do casamento. Penso que os dois argumentos mais usados são os seguintes:
(1) Para se casar com uma pessoa é necessário saber se ela é “boa de cama”. Por isso, é importante que o casal transe algumas vezes antes de se casar. 
(2) Uma pessoa tende a ficar melhor na cama conforme tem mais experiências sexuais. Por isso, é bom que as pessoas transem bastante antes de se casarem para que no dia em que se casarem sejam bons parceiros sexuais.
Escolhi estes dois argumentos para a nossa análise porque, de fato, já os ouvi dos lábios de várias pessoas. E eles parecem ser as bases do pensamento liberal dos que não são cristãos. Vale ressaltar, ainda, que estes dois argumentos têm como objetivo defender o sexo antes do casamento sem, no entanto, desprezar o casamento. Tanto um quanto o outro argumento procuram entender o casamento como algo importante e se adaptar à concepção de relacionamentos sérios. Esse detalhe é importante que o leitor tenha em mente. Agora, vamos analisar o primeiro argumento.

Suponhamos que duas pessoas iniciem um namoro, descubram muitas afinidades entre si e desenvolvem uma relação amorosa saudável em diversos aspectos. Então, um dia esse casal resolve ter sua primeira relação sexual e, lamentavelmente, um deles dois (tanto faz se o homem ou a mulher) não apresenta um desempenho na cama (nada que tenha a ver com a saúde, mas com o sexo em si). Bem, baseado no primeiro argumento, o que deve acontecer? O namoro vai acabar. Afinal, se um dos dois é ruim na cama, não serve para casar. E se não serve para casar, também não serve para namorar. Aqui não importa o quanto o casal se amava, nem o quanto se dava bem, o sexo é determinante para acabar com o relacionamento.

Diante da frieza desse quadro, o liberal pode afirmar: “Mas se o casal se ama de verdade, eles podem ter mais experiências sexuais entre eles e assim melhorarem a cada dia. Isso, inclusive, é o que diz o segundo argumento: quanto mais experiências sexuais, melhor uma pessoa fica na cama”.

O problema aqui é que, sem perceber, o liberal acaba utilizando a mesma linha de raciocínio que os cristãos usam para defender a virgindade antes do casamento: a de que o casal irá melhorar o seu desempenho sexual dentro do casamento à medida que praticarem um com o outro. Em outras palavras, se o liberal quiser defender esta idéia de melhora do desempenho sexual com o parceiro que ele ama (só por causa do amor), ficará sem argumento contra a concepção de sexo apenas dentro casamento. Afinal, são os cristãos que, por amarem alguém, estão dispostos a se casarem virgens e terem paci-ência com seu cônjuge naquilo que for necessário.

O que podemos concluir aqui é que o primeiro argumento no qual se ancoram os liberais para defender o sexo antes do casamento se baseia no egoísmo. É por pensar apenas em seu próprio prazer que uma pessoa não deseja um parceiro que necessite de algum tempinho para melhorar seu desempenho. Este argumento coloca o desempenho sexual em um patamar tão alto que é capaz de ignorar o amor entre um homem e uma mulher caso as expectativas sexuais não sejam alcançadas na primeira noite. Sim, na primeira noite, porque se o liberal quiser tentar outras vezes (porque ama a pessoa e crê na melhora do desempenho sexual dela), estará concordando com uma base importante do pensamento cristão sobre a virgindade antes do casamento.

Agora, vamos analisar o segundo argumento dos liberais. Conforme vimos, ele sustenta que as pessoas devem ter experiências sexuais antes de se casarem para serem bons parceiros sexuais quando estiverem casadas. O primeiro ponto que deve ser visto aqui é que, mais uma vez a base desse argumento é o egoísmo. As pessoas não querem ter o mínimo de paciência com seus parceiros, então preferem que toda a experiência em relações sexuais de seu cônjuge tenha sido conquistada com outras pessoas. Isso só reforça o quadro feio que pintei há pouco: não importa se um casal se ama, se a relação sexual não for boa na primeira noite, o relacionamento deve acabar. Então, a pessoa que foi chutada terá que arrumar vários parceiros sexuais diferentes até que fique experiente e possa, quem sabe, retornar para a pessoa que amava. Aqui o egoísmo suplanta o amor, a paciência e o respeito; e as pessoas se tornam objetos.

O segundo ponto que podemos ressaltar nesse argumento é que ele não leva em consideração o casamento entre duas pessoas virgens. Mas perceba que se o problema do desempenho sexual das pessoas está relacionado à falta de experiências sexuais (que é o que este argumento afirma), a solução está justamente na virgindade do homem e da mulher até o casamento; afinal, se nenhum dos dois tem experiência em sexo, nenhum deles será superior ao outro. Em outras palavras, a concepção de virgindade antes do casamento, quando bem compreendida, leva os casais a se concentrarem mais no amor que sentem um pelo outro, a se casarem virgens e a ganharem experiência em sexo um com o outro, sem que haja superioridade por parte de algum deles durante o processo.

Portanto, vemos que esse argumento, tal como o primeiro, se baseia no egoísmo, milita contra o amor, a paciência e o respeito, transforma as pessoas em objeto, o sexo em moeda de troca, e ainda cria uma “desigualdade sexual” entre as pessoas que não seria comum na sociedade se incentivássemos mais a virgindade do homem e da mulher antes do casamento.

Perceba que até aqui eu não utilizei a Bíblia em nenhum momento. Eu apenas peguei dois argumentos comumente utilizados pelos liberais na defesa do sexo antes do casamento e mostrei como que eles estão intimamente ligados ao egoísmo e a atitudes imorais; além de não lograrem muito êxito contra concepção cristã de sexo. Vimos, sem o uso da Bíblia, que a virgindade antes do casamento está ligada ao amor, ao respeito, a valorização do indivíduo e da própria prática sexual; e não à existência de dogmas sem sentido.

Não obstante, nossas análises não devem parar por aqui. Ainda existem alguns pontos importantes que precisam ser abordados. O primeiro ponto com o qual gostaria de trabalhar diz respeito ao desempenho sexual. Como já dito anteriormente, não estou me referindo à saúde do indivíduo, mas sim à qualidade da prática sexual em si. Para os liberais, existe o “sexo bom” e o “sexo ruim” e por isso é importante “testar” antes de casar. A minha pergunta é muito simples: O que faz o sexo ser bom ou ruim? Aqui está o grande problema do liberal. Na busca desesperada por validar a prática sexual antes do casamento, ele cria um padrão de qualidade que não existe. Vamos analisar.

Em primeiro lugar, não há diferenças básicas na relação sexual das diferentes pessoas. Sexo é a penetração do órgão sexual masculino no órgão sexual feminino. Isso é básico; e não é necessário ter alguma virtude extraordinária para desempenhar essa função. Então, já não é aqui que reside uma diferença básica entre o sexo bom e o sexo ruim. Será mesmo que essa diferença existe?

Em segundo lugar, e este é um ponto essencial, tudo o que não é básico no sexo diz respeito apenas ao casal. A qualidade de uma relação sexual não depende de um padrão pré-estabelecido pela sociedade. Essa qualidade vai depender do modo como cada casal prefere sua relação. Aspectos como: se o sexo será rápido ou devagar, intenso ou tranqüilo, carinhoso ou bruto, profundo ou superficial, romântico ou seco; se haverá preliminares ou não, se será no escuro ou no claro, se haverá fantasias, se será na cama ou no sofá, se existirá mais contato entre os corpos, se haverá falas, se haverá beijos, cafuné, carinho, massagem, brincadeiras... Enfim, tudo isso é secundário e diz respeito unicamente ao casal. E o casal só descobre qual a preferência um do outro (e chegam a acordos) através de diálogo e das próprias experiências sexuais.

O que quero dizer com estes pontos é que não passa de um mito a idéia de que existe sexo bom e sexo ruim. O básico do sexo é sempre o mesmo. O que muda são seus aspectos secundários, aspectos esses que são definidos pelo casal. Cada casal fará aquilo que acha mais prazeroso; e isso só se descobre através de um relacionamento profundo, direto, amplo e com muito diálogo. É isso o que define se o sexo será bom ou ruim e não um padrão pré-estabelecido por liberais apenas para jogar fora as pessoas que não fazem sexo da maneira como eles preferem.

Neste ponto, o liberal tem duas opções de argumentação: ou ele tenta fazer sua concepção se tornar menos egoísta ou ele tenta justificar esse egoísmo. Vamos analisar os argumentos da primeira opção. Como exemplo, eu posso citar o pensamento de uma conhecida minha. Segundo a sua concepção, o sexo não deve ser visto como algo tão “sagrado”, mas como algo mais acessível: as pessoas se conhecem, se beijam, namoram e fazem sexo. Se não der certo, não deu, mas o sexo faz parte. Não se trata de tentar usar a pessoa. Esse é o pensamento do liberal que quer fugir do egoísmo.

A primeira dificuldade desse pensamento é que ele tenta rebaixar a intimidade da relação sexual ao ponto de compará-la a beijos e abraços. Ora, está claro que isso não condiz com a realidade. O sexo é o que há de mais intimo entre um casal. É ali que se revela tudo o que escondemos do resto do mundo. É ali que dois corpos se tocam com tanta profundidade que se tornam um só corpo. Dizer que isso é quase como um beijo é uma comparação totalmente desproporcional.

Aqui está o ponto-chave. Os liberais querem tornar mais acessível o sexo, que é tão íntimo, mas não tem capacidade de desenvolverem uma intimidade completa; aquela intimidade que não leva só em conta o corpo de seu parceiro, mas todo o ser do seu parceiro. O liberal quer ser íntimo fisicamente, mas tem medo de se envolver com a mesma intensidade com uma pessoa no âmbito não-físico. O liberal ostenta um orgulho enorme por não ter vergonha de ter intimidade sexual, mas não percebe o quão medroso e egoísta é por não querer o mesmo nível de intimidade no âmbito não-físico.

O que nos diferencia dos animais é justamente essa capacidade de não agirmos só por instinto; de sermos morais e sensíveis; de necessitarmos do amor verdadeiro, que vai muito além do simples contato físico. Independentemente de religião não devemos ver o sexo como os animais o vêem. O sexo humano é o selo do amor entre um homem e uma mulher. Não fazemos sexo apenas para procriar ou para sentir prazer, mas porque amamos o nosso parceiro. 

Podemos provar o quão íntimo é sexo nos lembrando de alguns poucos fatos tais como o de que não transamos com qualquer pessoa, a qualquer momento e em qualquer lugar; o de que estupros e pedofilia são crimes; o de que os casais não transam na frente dos filhos, dos pais ou de seus conhecidos; o de que as crianças não são incentivadas a manterem relações sexuais; o de que é menos traumático uma moça ser assaltada do que ser estuprada. Sim, o sexo é uma relação física íntima demais entre duas pessoas; e por isso requer o mesmo nível de intimidade não-física. É isso que faz do sexo uma relação tão sagrada. Se alguém não concorda com esses fatos, está discordando, antes de tudo, da própria moral; moral esta que até quem não tem religião gosta de sustentar.

A pessoa que escolhe perder a virgindade apenas no casamento está dizendo o seguinte para o mundo: “Eu não tenho medo de ter intimidade total com a pessoa que eu amo”. A intimidade dessa pessoa para com o seu parceiro será muito maior do que a intimidade sexual de qualquer viciado em sexo que exista. Será muito maior, muito mais ampla, muito mais verdadeira, muito mais forte, muito mais duradoura, muito mais amorosa e, sobretudo, muito mais corajosa. Ora, quanto amor e coragem uma pessoa não precisaria para resolver ter uma intimidade completa com seu parceiro? Trata-se de algo definitivamente íntimo... Mas completo.

Nós, humanos, não somos feitos apenas de corpos. Somos feitos de sentimentos, pensamentos, emoções, percepções, necessidades psicológicas; de amor, de carinho, de afeto, de moral. Assim, cada estágio de nossos relacionamentos deve conciliar a intimi-dade física com esses aspectos não-físicos. O erro de minha conhecida é tentar inverter todo o processo que existe em um relacionamento amoroso e forçar-nos a acreditar que isso é perfeitamente normal. A ordem mais correta é que duas pessoas se conheçam, descubram afinidades e empatia entre si, namorem, noivem, casem e selem o casamento com o relacionamento sexual. O que diríamos, pois, se alguém namorasse uma pessoa que não conhece, ou se casasse após namorar por um mês? O que diríamos se um amigo agisse como namorado ou se um namorado agisse apenas como amigo? É certo que as ordens estão trocadas e, queira ou não, isso não costuma trazer bons resultados.

É por esse motivo que não me admira o fato de essa minha conhecida ter quase 50 anos e não ser casada. Tal como também não me admira o fato de ela já ter se casado três vezes e em não ter tido sorte em nenhum dos três relacionamentos. É provável que o principal motivo dessa infelicidade tenha sido a falta de uma intimidade completa em cada um desses casamentos. Aqui vale se lembrar da paciência e do respeito, que, em geral, são diminuídos pela importância que se dá ao “aproveitamento sexual”. 

Portanto, parece plausível afirmar que se alguém quer ter intimidade física com seu parceiro, deve investir primeiramente em conhecer bem seus aspectos não-físicos. E esse é o pressuposto máximo da concepção de virgindade. Conheça seu parceiro, ame-o de verdade e então se comprometa a ter uma intimidade total no casamento.

Bem, se o liberal não consegue tornar menos egoísta a sua concepção, mas ao contrário, torna-a mais egoísta, covarde e problemática, então a opção que resta para ele é a de tentar justificar seu egoísmo. Justificar significa “tornar justo”. Ou seja, o liberal vai tentar aqui mostrar que alguma coisa faz com que o sexo antes do casamento não seja algo errado. É neste ponto que vamos conhecer outro tipo de liberal. Este não está mais interessado em defender sua concepção sem desvalorizar o casamento. Para ele, o casamento não é algo muito importante. Ele não sabe se vai se casar um dia ou não. Ele apenas está interessado em se divertir.

Mas antes que alguém afirme que esse é um pensamento extremamente egoísta, este tipo de liberal irá justificar sua concepção da seguinte forma:
(1) Se faço sexo com uma pessoa que, assim como eu, está atrás apenas de um divertimento (que pode ou não se tornar sério), então ambos estamos consentindo nessa relação. Assim, trata-se de uma relação honesta, consciente e concedida. 
(2) Se meu divertimento não ocorre à custa da felicidade dos outros, não há nada de errado no que faço.
Esses são os dois motivos que esse tipo liberal usa para tentar justificar o seu comportamento egoísta. De fato, parecem motivos coerentes. Porém vamos analisá-los com mais profundidade. Tanto no primeiro como no segundo argumento, o que o liberal faz é recorrer há um efeito psicológico. Note: O meu ato deixa de ser um erro se (1) a pessoa com quem pratiquei quis e (2) se eu não entristeci ninguém. Tudo bem, concordo que no que diz respeito à consciência é possível, com esse pensamento, não se sentir mal após um erro. Mas no que diz respeito à moral, se você se sente bem ou não com o erro não faz de seu erro um acerto. Moralmente falando um erro é sempre um erro.

Alguns exemplos interessantes podem ser dados para clarear o tema. O primeiro vem da série de televisão House M.D. Em certo episódio, o doutor House cuida de um paciente que tem agido com uma bondade extrema. Sua bondade fora do normal leva o doutor a postular que ela se deve a um problema de saúde que gera esse tipo de com-portamento. No entanto, House se vê numa “encruzilhada ética”, já que o paciente havia lhe prometido um milhão de dólares para restabelecer sua antiga equipe no hospital. Ora, se o paciente estava mesmo sendo bom por sintoma de uma doença, seria antiético que o doutor aceitasse o dinheiro.

Tentando justificar o seu possível futuro erro, House vai até a sala de seu amigo Wilson e lança uma analogia. Ele pede a Wilson imagine que uma viciada em sexo lhe propusesse sexo oral. Deveria ele aceitar? Uma recusa traria infelicidade para ambos, ao passo que a aceitação traria prazer para os dois.

Já sabendo onde House queria chegar, o doutor Wilson responde que ele não deveria aceitar a proposta da viciada em sexo, assim como não deveria dar álcool a uma pessoa alcoólatra, e assim como não deveria aceitar o dinheiro daquele homem. O que Wilson nos mostra aqui é que o que está em jogo em discussões morais e éticas não é o modo como nos sentimos ou como se sente a outra pessoa, mas se a atitude está certa ou errada.

O segundo exemplo pode ser tirado de nossas vidas reais. Muitas coisas que nós fazemos podem causar sentimentos ruins, mas serem boas, ou causarem sensações boas, mas serem ruins. Quando brigo com um filho por alguma desobediência, isso causa um sentimento ruim tanto nele quanto em mim, porém trata-se de uma atitude necessária e moralmente boa. Se meu filho fica doente e eu resolvo não levá-lo no médico só porque tanto eu quanto ele não sentimos prazer em injeções, isso será uma atitude moralmente ruim, ainda que nos sintamos bem com isso. Aqui a bronca e a injeção são boas, mesmo causando sensações ruins. Em contraponto, álcool e drogas podem até causar sensações prazerosas, mas são coisas ruins.

O que estou querendo dizer é que, se de fato o sexo antes do casamento é algo egoísta, covarde e incompleto, que muitas vezes coloca as pessoas como objetos e que pouco valoriza o amor, a paciência e o respeito, então ele é moralmente errado. E se ele é moralmente errado, não importa se dois liberais se sentem felizes quando o fazem e se ambos consentem; continua sendo errado.

Alguém aqui pode contestar dizendo: “Ah, mas você está se baseando em uma moral bíblica”. Isso não é verdade. Não existe moral bíblica. A moral é uma só e existe antes da Bíblia. Não é necessário acreditar na Bíblia para que alguém acredite que existe moral. Penso que a grande maioria das pessoas que não são cristãs considera a mentira, a hipocrisia, a traição, a desonestidade, o egoísmo, a covardia, o desrespeito, a falta de amor, a impaciência, a incompreensão e a indiferença como sendo atitudes erradas. Ora, isso é julgamento de âmbito moral e ético. Se alguém faz esse tipo de julgamento, não precisa ser cristão, tem que concordar que os relacionamentos humanos devem evitar se basearem nessas atitudes. Tratar uma pessoa como se fosse um objeto, ainda que esta pessoa consinta com isso, não é uma atitude correta. Pessoas são pessoas e não coisas.

Então, chegamos a um ponto em que o liberal não tem mais para onde correr. Ou ele aceita que sua concepção está errada e muda de postura ou ele aceita que está errado, mas continua errando, sem importar. Porém, argumentos para defender o sexo antes do casamento, neste ponto, não existem mais.

Agora, o leitor perceba que até aqui eu defendi a concepção de virgindade antes do casamento apenas atacando os argumentos dos liberais. Então, é possível que o leitor queira que eu sintetize os argumentos da virgindade em si. Sendo assim, vou sintetizar a partir de agora tudo o que disse até aqui. Por que devemos esperar pelo casamento para ter relações sexuais? 
(1) Porque em um relacionamento amoroso deve-se prezar em primeiro lugar virtudes como o amor de uma pessoa, a paciência e o respeito. Neste aspecto, o sexo passa a ser secundário; não secundário no sentido de não ser importante, mas no sentido de só ter importância quando estas virtudes já estão bem desenvolvidas;
(2) porque a relação sexual é extremamente íntima e não pode ser comparada a meros beijos e abraços. Por ser a máxima intimidade física entre duas pessoas, ela deve estar acompanhada da máxima intimidade não-física;
(3) porque a concepção de virgindade antes do casamento ajuda o casal a focar mais no amor, na paciência e no respeito, elementos essenciais para que se consiga um bom casamento;
(4) porque quem tem amor, paciência e respeito, não terá problema algum para aprender ou para ensinar o que sabe em matéria de sexo para o seu companheiro;
(5) porque quando duas pessoas se casam virgem, não há no casamento nenhuma superioridade sexual por parte dos cônjuges;
(6) porque na realidade não existe sexo bom e sexo ruim. O sexo é sempre a mesma coisa, o que muda são aqueles aspectos secundários, que serão feitos conforme a vontade de cada casal;
(7) porque não importa se alguém consente em ser tratado como objeto: isso continua sendo moralmente errado e contrário aos próprios julgamentos que a maioria dos não-cristãos faz.
Ora, chegando ao fim desse texto, devo dizer que cumpri com a minha missão de não me basear na Bíblia para defender a concepção cristã de sexo. O leitor pode reler o texto inteiro e, se for honesto, verá que tudo o que foi discutido aqui teve como base os próprios julgamentos que os não-cristãos fazem; julgamentos morais. Abra mão de sua moral e você poderá dizer que está certo, mas se quiser ser moral, não há como escapar da conclusão: a concepção cristã está correta.

O resultado prático da concepção cristã de sexo é que as pessoas passam a ter mais importância. Os relacionamentos passam a ser mais sérios e o próprio sexo não se torna algo banal, mas uma prática sagrada que sela o amor verdadeiro que um homem e uma mulher sentem um pelo outro. Este é o sexo que vem acompanhado com o amor e que não se baseia apenas no prazer próprio. Este é o sexo onde um pensa no prazer do outro também. Este é o sexo que pode ser comentado, analisado e conversado entre o casal, sem vergonha alguma, sem embaraço, para que se torne cada vez melhor. Este é o verdadeiro sexo humano, moral e amoroso e, por isso, da vontade de Deus.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Definição de Direita e Esquerda

9 comentários:
O leitor com certeza já ouviu falar que uma ideologia, partido ou governo pode ser de “direita” ou de “esquerda”. Mas o que exatamente significa esses dois termos? De onde esses termos surgiram? Como podemos definir o que é direita e o que é esquerda no campo da política?

Bem, a primeira coisa que nós devemos ter em mente quando vamos definir esses dois termos é o seguinte: direita não é a mesma coisa que capitalismo e esquerda não é a mesma coisa que comunismo. Aqueles que definem direita e esquerda desta maneira jamais conseguirão compreender plenamente o que se passa na política. E não são poucos os que apresentam esta definição.

O motivo pelo qual esta errônea e simplista definição é tão aceita pelas pessoas é bem mais simples do que o leitor pode imaginar. Quando Karl Marx e Friedrich Engels criaram o que podemos chamar de comunismo, não demorou muito para que essa ideologia se tornasse a mais ampla e influente das ideologias de esquerda. Isso porque o comunismo conseguia agregar bem quase todas as bases do esquerdismo. Mais tarde, com a bipolarização político-econômica do mundo pelos EUA e URSS, o comunismo passou a ser oficialmente o ápice da esquerda. Estes dois fatos geraram a impressão de que a esquerda era o próprio comunismo. E se a esquerda era o comunismo, então a direita era o capitalismo.

Mas vamos aos fatos: (1) a esquerda surgiu antes de o comunismo ser formulado por Marx e Engels, o que deixa bem claro que esquerda e comunismo não podem ser a mesma coisa; (2) quando a direita surgiu, já existia o capitalismo, o que mostra que também estes dois não são a mesma coisa; (3) a esquerda não surgiu como uma posição contrária à burguesia ou ao capitalismo, mas antes, surgiu como uma posição favorável à pequena burguesia, que era a principal classe social representada pelo partido jacobino (o primeiro partido de esquerda que existiu); (4) a esquerda não-comunista sempre se mesclou muito bem com o capitalismo (a social-democracia é um exemplo).

Outras definições errôneas e simplistas também devem ser descartadas aqui. Por exemplo, há aqueles que definem a esquerda como “governo para os pobres” e a direita como “governo para os ricos”. Existe a definição de esquerda como o posicionamento a favor de mudanças e a direita como o posicionamento contrário a elas. Todas essas definições são tendenciosas e nos afastam do significado real dos termos, devendo assim ser descartadas.

Bem, se ficou bem claro para o leitor o que a esquerda e a direita não são, nós podemos começar definir o que a esquerda e a direita são sem que idéias pré-concebidas atrapalhem nosso raciocínio.

O surgimento dos termos e das definições

Os termos Direita e Esquerda política surgem a partir do contexto da Revolução Francesa (1789 – 1799). A França, tal como a maior parte do continente europeu, vivia sob o domínio da velha política absolutista, na qual o rei é soberano sobre seu Estado, detendo o poder absoluto. Nesse sistema, sempre há uma classe de nobres que apóia a manutenção do regime em troca de privilégios concedidos pelo rei. E estes privilégios, evidentemente, são obtidos através dos impostos do povo.

Esse antigo regime também se diferia dos atuais por se basear em premissas que hoje nos são estranhas como a de que Estado e religião devem andar juntas e a de que o rei era o representante máximo de Deus aqui na terra (o que seria a explicação para que o monarca tivesse o poder absoluto). Vale lembrar que, este regime, embora intentasse encontrar apoio na Bíblia, jamais apresentou base bíblica legítima. Em nenhum ponto, a Bíblia dá todo o poder a um rei e, no Novo Testamento, Jesus Cristo deixa muito claro que religião e política são coisas que não deveriam se misturar.

Agora, o fato da Bíblia não incitar esse tipo de regime não é, evidentemente, uma garantia de que alguém não deturpará o livro sagrado dos cristãos, a fim de “legitimar” seu poder. E também não é garantia de que alguns cristãos ingênuos não irão ser enganados por esse tipo de argumento, ajudando a dar poder ao regime. Foi o que aconteceu durante séculos na Europa. E, uma vez tornado tradição esta prática, a dificuldade de se mudar a mentalidade e o medo de se almejar uma reforma são grandes.

Mas voltando ao contexto histórico da Revolução Francesa, a França enfrentava uma forte crise econômica. Sem saber como resolvê-la, o então rei absoluto Luís XVI, convocou uma assembléia com os representantes das três classes da época (o clero, a nobreza e o restante do povo), a fim de obter aconselhamento sobre o que fazer.

Nesta assembléia, os que representavam a nobreza, favorável à manutenção de todo o sistema absolutista, assentaram-se à direita do rei. Já os representantes do povo, influenciados pelos ideais iluministas que surgiam e contrários a esse sistema vigente da época, sentaram-se à esquerda do rei.

A tal assembléia acabou sendo violentamente dissolvida pelos representantes do povo e a França deixou de ser uma monarquia absolutista para se tornar uma república, através do sangrento golpe dos revolucionários (que se estendeu pelas ruas de Paris e outras cidades da França). A partir de então, os revolucionários franceses se dividiram em três partidos: Gironda, Planície e Montanha; e formaram uma assembléia chamada Convenção, que passou a governar o país.

Os deputados da Gironda (girondinos) passaram a se assentar na parte direita da Convenção. Eram deputados mais conservadores (isto é, menos radicais), que estavam de acordo com a queda da monarquia absolutista, mas que temiam o aprofundamento da revolução e a agitação das massas.

Os deputados da Planície passaram a ocupar o centro da Convenção. Não tinham posições muito firmes e, por isso, costumavam a votar nas propostas que acreditavam ter mais chances de vencer, oscilando assim, freqüentemente, entre o partido da direita (Gironda) e o partido da esquerda (Montanha).

Finalmente, os deputados da Montanha, chamados de montanheses ou jacobinos, eram os que se sentavam na ala esquerda da Convenção, na parte mais alta. Eles eram os mais radicais dos revolucionários franceses. Pouco satisfeitos com as conquistas da revolução, defendiam o aprofundamento e a radicalização da mesma.

Pois bem, como podemos perceber, antes da França se tornar uma república, os absolutistas se assentavam à direita e os revolucionários à esquerda. Tendo os revolucionários derrubado o absolutismo e instaurado a república, os próprios se dividiram em três partidos: um partido mais radical, que se assentou à esquerda; um partido mediano, que se assentou no centro; e um partido mais conservador (no sentido de querer conter a mentalidade de agitação, afobação e violência que eles próprios ajudaram a criar), que se assentou à direita.

Ora, em função dessa disposição espacial na assembléia francesa, onde os mais conservadores tinham o costume de se assentar à direita e os mais radicais de se assentar à esquerda, os dois termos passaram a ser relacionados, inicialmente, a postura de um político. Em outras palavras, quem tinha a postura mais conservadora, era chamado de político de Direita. Quem tinha a postura mais radical e revolucionária era chamado de político de Esquerda. O mesmo servia para partidos e ideologias.

Entretanto, tal acepção destas palavras logo se mostrou problemática. Afinal, ser conservador e ser radical são duas posturas contextuais. Um exemplo interessante disso é a postura do político e pensador Edmund Burke (1729-1797). Este é considerado o pai do conservadorismo anglo-americano. Este tipo de conservadorismo, também chamado de conservadorismo burkeano, é definido como, principalmente, uma postura contrária a mudanças bruscas, e respeitosa para com a experiência e para com o tradicional (já que o futuro é incerto, mas o passado pode nos ensinar muito). Edmund Burke também foi um ferrenho crítico da Revolução Francesa, em função de sua violência e de sua quebra geral com o passado.

Com apenas estas informações, nós poderíamos acreditar que Edmund Burke foi um absolutista, não é mesmo? No entanto, este homem foi também um ferrenho crítico do absolutismo e um dos principais integrantes do partido Whig, da Inglaterra, que fazia oposição ao partido absolutista Tory. Ora, foi justamente o partido Whig que derrubou o absolutismo inglês, na chamada Revolução Gloriosa.

Então, fica a pergunta: Edmund Burke era conservador ou era radical? Para os revolucionários franceses ele era conservador, mas para o partido Tory e os defensores do absolutismo ele era radical e revolucionário. O leitor percebe como esses termos são contextuais? Assim, dizer que os conservadores eram de Direita e os radicais eram de Esquerda não definia absolutamente nada.

Por esse motivo, não demorou muito e os termos Direita e Esquerda deixaram de ser utilizados para definir questões contextuais, passando a designar duas vertentes diferentes da nova política europeia que surgia: a vertente humanista e a vertente cética. Tais vertentes tinham em comum serem contrárias ao absolutismo. No entanto, diferiam radicalmente em sua visão de mundo.

A vertente humanista acreditava que o ser humano era plenamente capaz de criar uma sociedade totalmente nova, sem mais desigualdade e injustiças. A fé na capacidade, na racionalidade e na natureza boa do homem tornava esse sonho possível. E se o ser humano tinha essa capacidade toda de transformar o mundo, ele tinha como obrigação buscar essa transformação. Por essa razão, humanistas logo começaram a defender uma maior participação do Estado revolucionário na economia, um governo intervencionista, a radicalização das ações revolucionárias, uma maior valorização do coletivismo, um discurso voltado para a defesa das minorias, a excitação das massas e a luta pela igualdade social. Eram ações que visavam o alcance dessa sociedade paradisíaca que eles almejavam.

Essa vertente humanista da nova política passou a ser chamada de Esquerda. E é deste modo até os dias de atuais. A definição é fixa e concreta. Esquerda é o posicionamento político pós-absolutista que se baseia nos ideais humanistas de um ser humano perfectível, capaz de transformar o mundo, de um radicalismo político que quebre com as bases da sociedade atual e de um governo revolucionário forte e interventor que consiga servir de meio para o ser humano mudar o mundo. A Revolução Francesa é um ótimo exemplo desse tipo de iluminismo; e o partido jacobino francês é a encarnação do espírito humanista da Revolução Francesa.

A visão da vertente cética era exatamente a oposta. Era uma vertente mais pessimista da nova política no que se refere à natureza do ser humano e a sua capacidade de transformar totalmente o mundo. Para o cético político, o ser humano não era bom por natureza, mas sim naturalmente inclinado ao mal e incapaz de mudar sua natureza. Ou, mesmo que não inclinado naturalmente ao mal, ainda assim corrompido e falho demais como espécie para conseguir transformar o mundo em um paraíso. Isso não quer dizer que o cético político não acreitava na existência de uma moral a ser seguida. Entretanto, ele reconhecia no ser humano uma tendência (social ou natural) a não obedecer a essa moral.

Portanto, o cético era extremamente desconfiado do ser humano e do governo. Ele não acreditava que os homens poderiam formar um paraíso na terra e tinha aversão a um governo que tomasse para si muitas funções, porque isso gerava um risco muito grande de o governo abusar de seu poder, tornando-se despótico. Essa vertente cética defendia as idéias do liberalismo clássico (livre comércio, autonomia do indivíduo, Estado pouco intervencionista, governo com o poder bem limitado pelas leis e etc.) e as idéias do conservadorismo de Edmund Burke (respeito às tradições e à experiência, ceticismo em relação ao homem, mudanças não bruscas e etc).

A vertente cética da nova política passou a ser chamada de Direita, em oposição à vertente humanista (Esquerda). E do mesmo modo é assim até os dias atuais. A definição é fixa e concreta. Direita é o posicionamento que se distancia do humanismo, baseando-se no conservadorismo de Burke e no liberalismo clássico, visões que encaram com pessimismo a natureza do homem e sua capacidade de transformar o mundo em um paraíso, contudo, entendem que o mundo pode ser um pouco melhorado através de um governo limitado e uma economia livre. A Revolução Gloriosa, na Inglaterra, e a Revolução Americana, nos EUA, são exemplos de movimentos orientados por essa vertente

A vertente cética, importa ressaltar, muitas vezes é conhecida como iluminismo britânico, já que muitos dos seus principais defensores eram iluministas da Grã-Bretanha, como Adam Smith, David Hume e Edmund Burke. E foi justamente na Grã-Bretanha que esta vertente melhor se desenvolveu, derrubando, inclusive, o absolutismo. A vertente humanista, por sua vez, é muitas vezes conhecida como iluminismo francês, pelos mesmos motivos: muitos de seus defensores eram iluministas franceses e foi lá, na França, que o humanismo mais se desenvolveu, derrubando também o absolutismo e influenciando muitas nações.

Voltando à Revolução Francesa

Voltando à Revolução Francesa, é possível aplicar essa nova definição, mais fixa e concreta na oposição entre jacobinos e girondinos dentro da Convenção. Embora os dois partidos defendessem os interesses da burguesia (foi uma revolução burguesa, não se esqueça disso), os jacobinos acreditavam que as propostas dos girondinos não eram suficientes para dar prosseguimento à revolução. Na visão jacobina, o governo deveria agir de maneira radical (o mesmo radicalismo sangrento com o qual os revolucionários derrubaram a monarquia absolutista).

Um ponto deve ser ressaltado aqui: embora o partido girondino tenha sido mais cético que o partido jacobino, fazendo oposição à manutenção da política radicalista herdada pela derrubada violenta da monarquia absolutista, os girondinos não podem ser considerados expoentes do conservadorismo de Direita. Afinal de contas, girondinos e jacobinos estavam juntos na violenta derrubada da monarquia absolutista.

Muito mais influente para o desenvolvimento do conservadorismo de Direita foi o escritor francês Alexis de Tocqueville, que via com maus olhos os excessos cometidos pelos revolucionários franceses como um todo. O já citado Edmund do Burke também foi um pensador muito importante para o conservadorismo direitista. Para tais autores, a revolução na França foi um movimento de muitos aspectos negativos, o oposto do que pensavam sobre movimentos como a Revolução Inglesa e a independência dos Estados Unidos, que foram, para eles, revoluções mais prudentes.

Nesse sentido, pode-se dizer que os girondinos não eram conservadores, mas sim menos radicais que os jacobinos. O partido girondino era, na realidade, um partido que percebeu que a manutenção de todo aquele espírito revolucionário poderia trazer alguns problemas desagradáveis. Seja como for, o partido girondino era bem menos radical que o jacobino, o que levava muitos de seus integrantes a aceitarem melhor o chamado liberalismo clássico.

A rivalidade existente entre os dois partidos tomou maiores proporções quando algumas potências absolutistas da Europa uniram as forças para atacar a França e acabar com a revolução. Com as fronteiras derrubadas e os exércitos inimigos avançando, os jacobinos propuseram tomar “empréstimos” dos ricos (para equipar o exército popular) e limitar o preço dos cereais.

Os girondinos discordaram de ambas as propostas, por julgarem ser propostas de cunho autoritário, agressivo e contrárias ao liberalismo clássico. Como os girondinos eram sempre menos radicais, os jacobinos acusaram os girondinos de serem os responsáveis pelas derrotas do exército francês. A acusação foi aceita pelo povo e o resultado foi uma invasão popular à Convenção e o aprisionamento dos deputados girondinos. Assim, os jacobinos passaram a governar sozinhos.

Com o partido jacobino no poder, diversas medidas foram tomadas com o intuito de proteger a revolução. Uma delas foi a formação do Comitê de Salvação Pública, cujo objetivo era dar início a uma repressão implacável contra os “inimigos da revolução”, isto é, qualquer pessoa que aparentasse não estar de acordo com os jacobinos. O tribunal funcionou por pouco mais de um ano e estima-se que pelo menos 20 mil pessoas foram levadas à morte; o período ficou conhecido como Terror.

Estas ações políticas por parte dos jacobinos deixam claro o quanto que o partido se baseava no ideal da construção de uma sociedade sem desigualdades. O magnífico futuro imaginado pelos jacobinos deveria ser o objetivo supremo de cada pessoa. Assim, qualquer um que aparentasse ser um obstáculo ao alcance desse objetivo deveria ser eliminado. Trata-se de um pensamento fincado nos pilares da Esquerda que observamos: o humanismo, o radicalismo político e o Estado interventor. E é exatamente o oposto do pensamento de direita, cujos pilares são o conservadorismo burkeano e o liberalismo clássico.

A revolução foi protegida e algumas reformas sociais foram feitas, mas o terror imposto pelos jacobinos à população enfraqueceu o partido e fez com que as massas deixassem de apoiá-los, o que possibilitou o retorno dos girondinos ao poder.

Contudo, a crise política vivida pela França não permitiu que os girondinos firmassem sua autoridade sobre o país. Assim, temendo pela ameaça de mais um golpe do partido jacobino e sem capacidade de continuar administrando a nação, os girondinos afastaram-se de vez do liberalismo clássico e apoiaram a ascensão de um governo ditatorial que resolvesse essas dificuldades de modo rápido e bruto (provando que, de fato, o partido girondino ainda conservava as suas raízes autoritárias que foram herdadas pelo iluminismo francês).

No fim das contas, fica claro que girondinos e jacobinos, por terem raízes comuns, acabaram se mostrando iguais em termos de autoritarismo. É por esse motivo que pessoas como Burke e Tocqueville criticavam a Revolução Francesa. Eles acreditavam que uma revolução fundamentada na violência, na agitação, na quebra geral do passado e na busca por mudanças através do autoritarismo, jamais poderia ser bem sucedida.

Pois bem, em 1799 o general Napoleão Bonaparte assume o poder na França e finaliza a Revolução Francesa, tornando-se ditador. Nossa viajem pelo contexto histórico termina aqui. Tendo feito esse mergulho no contexto que originou as definições de Direita e Esquerda, não corremos riscos de cometer erros na classificação de um partido, governo, político ou ideologia.

Considerações Finais

Vamos resumir o que aprendemos. Direita e esquerda são vertentes de uma nova política europeia que surge com a crise e o declínio do sistema absolutista de governo. As duas vertentes perduram até hoje. Direita é o posicionamento político baseado no (1) conservadorismo burkeano (ou anglo-americano, ou moderno), uma política da prudência, da valorização da experiência e do ceticismo em relação a capacidade do ser humano de transformar plenamente o mundo; (2) no ideal de Estado limitado, a fim de evitar despotismos; e (3) na defesa de uma economia mais livre. Esquerda é um posicionamento político baseado nos (1) ideais humanistas de um ser humano perfectível, capaz de construir uma nova sociedade; (2) em um radicalismo político que quebre com as bases da sociedade atual; e (3) na defesa de um Estado forte e interventor que sirva como meio para que o ser humano possa transformar o mundo.

Para se tornar mais fácil a distinção, vejamos um quadro comparativo expondo o que cada posicionamento defende:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

When I Fall in Love

Nenhum comentário:
Daqui há dois dias vai fazer um ano que escrevi uma postagem chamada “O bom e o velho romantismo”. De lá para cá, não postei muito no blog, de modo que a última postagem da seção “Reflexões” é esta mesma. A pequena e sucinta postagem expressava a minha espera por uma companheira que conservasse o bom e o velho romantismo.

Mas por que essa questão do romantismo era tão importante para mim? É no mínimo estranho que um jovem, do sexo masculino, em pleno século XXI se preocupe tanto com uma característica que nem mesmo as mulheres dão tanta importância como davam há 70 ou 80 anos atrás. O normal, tendo em vista os padrões modernos, era que eu estivesse disputando quem pega o maior número de mulheres em uma festa ou, pelo menos, enrolando mulheres um pouco mais apaixonadas dizendo coisas como: “Você é muito especial para mim, mas estou um pouco confuso para começar algo sério agora”.

Isso é o que a maioria dos homens faz. Investem em diversões egoístas, usam as mulheres como objetos e depois procuram algo mais interessante. Não há vínculo, não há dor de cabeça, não há preocupações. E não são poucas as mulheres que começaram a enxergar isso como uma atitude interessante. “Se os homens sempre foram cachorros, por que as mulheres não podem ser também?”.

O mundo expandiu e democratizou a “cachorragem”. Hoje todos podem ser cachorros e não há mais motivos se importar com o romantismo. Os mais resistentes são taxados de retrógrados, imbecis e até errados. Coisas como amor, respeito, companheirismo e, sobretudo, a paciência são cada vez mais ignoradas, esquecidas e renegadas. “Agora, o importante é ser feliz”. Egoísta e miseravelmente feliz; com uma garrafa de álcool na mão, um cigarro na boca e uma “pessoa-objeto” do lado para aguentar o peso dessa felicidade estúpida.

Por que eu não optei por esse quadro. Teria sido tão mais fácil... “Todo mundo faz, não é?”. Por que que é que essa questão do romantismo era tão importante para mim?

Bem, hoje, dia 10 de agosto de 2012, eu faço três meses de namoro. Não tenho vergonha de dizer que ela é minha primeira namorada. E o meu tipo de namoro com ela é exatamente o tipo de namoro que me completa. Eu não preciso de álcool, de cigarro ou de uma mulher-objeto. Tudo o que eu preciso, tudo o que sei que irá me completar, é poder amar verdadeiramente uma mulher e ser amado por ela; respeitar e ser respeitado; ser paciente e receber paciência também. É por isso que essa questão do romantismo era tão importante para mim. E é por isso que ainda é.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Um pouquinho sobre os Adventistas do Sétimo Dia

39 comentários:
Todas as doutrinas adventistas são baseadas na Bíblia Sagrada que, para nós, é a única regra de fé e prática. Esta pequena postagem tem como objetivo mostrar como as principais doutrinas adventistas estão fundamentadas na Palavra de Deus. Trata-se de um resumo, é verdade, mas está bem explicado e fácil de entender. Dúvidas mais específicas e aprofundadas serão respondidas em outras postagens.


(1) Por que os adventistas do sétimo dia guardam o sábado?



O sábado foi o dia escolhido por Deus para que o homem cessasse seus trabalhos seculares e se dedicasse a Deus, à família e ao próximo (Êxodo 20:8-11). O objetivo é que cada ser humano possa descansar fisicamente, mentalmente e espiritualmente, além de poder ser descanso para o seu próximo também. Por esse motivo é que Jesus insistia que o sábado não era um dia de descaso, mas de descanso. Por isso, era permitido fazer o bem. Um mandamento que nos impedisse de sermos bons, não seria um bom manda-mento, por certo.



Muitos cristãos sinceros acreditam que Jesus Cristo aboliu o sábado após morrer na cruz. Essas pessoas se dividem em dois grupos. Um grupo acredita que não existe mais um dia específico para se guardar. Já outro grupo acredita que esse dia de guarda ainda existe, mas que ele deixou de ser o sábado e passou a ser o domingo, em função da ressurreição de Cristo ter ocorrido no domingo.



Mas a Bíblia mostra que os dois grupos estão errados. Em primeiro lugar, porque não há nenhuma passagem do Novo Testamento que afirme que Jesus aboliu a guarda do sétimo dia semana. A única passagem do Novo Testamento que parece indicar que os sábados foram abolidos (Colossenses 2:16-17), na realidade, se refere a feriados religiosos (que também eram chamados de sábados pelos judeus – ler Levítico 23:26-32 e 37-38, por exemplo), conforme o contexto deixa muito claro.



Em segundo lugar, no que diz respeito à santidade do primeiro dia da semana, a Novo Testamento simplesmente não diz nada. Existem 8 passagens que falam sobre o primeiro dia da semana no Novo Testamento. Nenhuma delas afirma que esse dia ficou no lugar do sábado.



Em terceiro lugar, o simples fato de Jesus ter ressuscitado no domingo, não é uma prova de que o domingo passou a ser o dia de guarda. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Prova, por assim dizer, seria se Jesus dissesse: “Como eu ressuscitei no domingo, agora quero que guardem o domingo, em lugar do sábado”. Mas Jesus jamais disse isso na Bíblia.



Portanto, não há nada que indique que o sábado foi abolido. E ao contrário do que se pensa o sábado não é um fardo. Os fariseus o tinham tornado um fardo, com tradições que não se encontravam nas escrituras. Mas quando Jesus veio, mostrou como que se deve guardá-lo de maneira a satisfazer o ser humano (ler com atenção os textos de Marcos 2:27-28; Mateus 12:9-14).



(2) Por que os adventistas do sétimo dia enfatizam tanto o cumprimento da lei, se não vivemos mais debaixo da lei e sim debaixo da graça de Jesus?



Os adventistas concordam que a lei não tem poder para perdoar, nem para salvar e nem para purificar uma pessoa. Jesus Cristo é o único capaz de nos perdoar perante o Pai, nos salvar da morte eterna e nos purificar através do Espírito Santo. Ele é capaz disso porque se tornou homem como nós, mas sem pecado, e se sacrificou para que nós tivéssemos vida por meio dele. Isso é básico para nós.



Agora, isso não significa que a lei não tem sua função. Conforme Paulo afirma em Romanos 3:20, a lei tem o objetivo de nos mostrar o que é certo e o que é errado. Ou seja, ela é um padrão de conduta. Isso é tão claro no Novo Testamento que o apóstolo João afirma que “o pecado é a transgressão da lei” (João 3:4). Então, ainda há uma lei que deve ser seguida; e quando não a seguimos, estamos pecando.



É claro que as leis civis e as leis cerimoniais contidas na Bíblia não precisam mais ser seguidas porque foram dadas para contextos específicos. As leis civis do Velho Testamento eram leis feitas para o funcionamento de Israel como nação, obedecendo o contexto histórico-cultural. Em nosso contexto, seguimos as leis civis de nosso país e de seus estados membros. As leis cerimoniais eram os rituais judaicos que simbolizavam o sacrifício de Jesus ou a antiga aliança e que, obviamente, se tornaram obsoletos quando Jesus operou o seu sacrifício santo. Mas as leis morais (os 10 mandamentos) continuam de pé. Tiago confirma isso em Tiago 2:8-12. Paulo confirma isso em Romanos 7:7-14 e em Romanos 13:8-10. Jesus confirma isso em Lucas 17:19-20, em Mateus 24:20-21 e em Mateus 5:17-20. 



Assim, quando enfatizamos que existe uma lei, não estamos querendo dizer que essa lei perdoa, salva ou purifica. Isso quem faz é Jesus. A lei apenas diz o que é certo e o que é errado.



Vamos a um exemplo. Digamos que eu pratique um furto. Por que eu sei que o ato de furtar é errado? Porque existe uma lei nos 10 mandamentos que deixa claro que eu não devo furtar. Por isso, eu sei que furtar não é do agrado de Deus. Agora, só o fato de eu saber disso é o suficiente para que eu seja perdoado, salvo e purificado? Não! Para que isso aconteça, eu preciso de Jesus. Eu preciso crer que Jesus morreu por mim para que eu fosse salvo. Eu preciso confessar a Jesus o meu pecado. Eu preciso aceitar que o Espírito Santo trabalhe em mim para que eu me afaste desse pecado.



E quanto à graça? A graça é justamente o fato de que quando eu peco, tenho a condição de ser perdoado por Jesus Cristo. Se existisse apenas a lei, eu jamais poderia ser perdoado, salvo e purificado. Isso é graça. E é uma dádiva imerecida, pois o salário do pecado é a morte, mas se simplesmente confessamos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça.



(3) Por que os adventistas do sétimo dia insistem em manter a dieta do Antigo Testamento que Deus havia ordenado aos judeus?



Os adventistas crêem que tudo o que temos é de Deus e que por isso devemos cuidar bem do que temos. A isso chamamos de mordomia. Através da mordomia nós somos convidados a cuidar bem do nosso tempo, do nosso dinheiro, da nossa saúde, do nosso intelecto; tudo isso sempre como uma forma de agradecimento e serviço a Deus, que nos dá todas essas coisas.



Afora isso, a Bíblia deixa bem claro que nós, cristãos, somos o povo escolhido de Deus, raça eleita, além de “o Israel espiritual de Deus”. Sendo assim, é necessário que o cristão seja realmente diferente dos não-cristãos, tal como os judeus deveriam ser diferentes dos povos pagãos.



Tudo isso corrobora para que os adventistas entendam que também devemos ter um cuidado diferente com a saúde. Mas isso não é tudo. O Novo Testamento ainda vai mais longe que o Antigo na questão da nossa santidade, dizendo que o nosso corpo é templo do Espírito Santo (I Coríntios 6:19-20) e que nós devemos manter nossos corpos íntegros (I Tessalonicenses 5:23). Tais coisas não se referem só à pureza sexual, mas a tudo o que se relaciona ao seu corpo; porque todo o nosso corpo é propriedade de Deus, já que ele nos criou, ele nos comprou com o seu sangue e ele habita dentro de nós.



Como se esses motivos não bastassem, ainda é bom ressaltar que não há nenhum lugar no Novo Testamento que indique que as leis de saúde foram abolidas. O que há são passagens mal interpretadas. Por exemplo, a passagem em que Pedro tem um sonho com os animais puros e impuros juntos é muito usada para dizer que as leis de saúde perderam o vigor. Mas a própria passagem deixa claro que o sonho era uma metáfora para uma verdade maior, a saber, que Pedro deveria pregar também para os gentios, pois em Cristo não “há judeu, nem grego”, todos são iguais. Ou seja, o contexto da passagem não tinha nada a ver com leis de saúde, mas com a pregação do evangelho.



Agora, é claro que a igreja adventista não impõe como mandamento aquilo que a Bíblia não diz. Por isso, você não vai ver um adventista sóbrio dizendo que é lei você não comer produtos com agrotóxicos, ou que é lei não beber refrigerante. Essas coisas, embora sejam importantes para a saúde, por não se encontrarem na Bíblia (obviamente), são apenas práticas aconselháveis, mas não impostas pelos adventistas.



Por fim, quando as leis de saúde são seguidas pelo cristão, elas aumentam a sua expectativa e qualidade de vida. Isso é positivo para ele e importante para que Deus possa abençoá-lo. Alguém que não cuida de sua saúde, por exemplo, dificilmente será abençoado com longevidade, boa saúde e cura de doenças. Deus muito faz por nós, mas jamais irá fazer aquilo que nós mesmos precisamos fazer.



(4) Por que os adventistas do sétimo dia não acreditam na imortalidade da alma humana?



Nós, adventistas, não acreditamos na imortalidade da alma porque a Bíblia não sustenta essa doutrina. A Bíblia deixa claro que o homem foi feito a partir da união do barro com fôlego de Deus (Gênesis 2:7 e Gênesis 3:19). Quando essa união é desfeita a pessoa deixa de existir e a sua consciência fica desativada até o dia da ressurreição dos mortos. Isso é enfatizado em diversas passagens como Salmos 146:3-4; Salmo 17:15 Salmo 6:4-5; Salmo 115:17-18; Eclesiastes 3:18-20; Eclesiastes 9:5-6 e 10; Eclesiastes 12:1-7; Isaías 38:18-19; Daniel 12:2; Lucas 8:49-55; Atos 2:25-35; I Coríntios 15:20-26; I Coríntios 15:50-54; I Tessalonicenses 4:13-17; I Timóteo 6:13-16; Hebreus 9:27-28; Apocalipse 20:4-6 e etc.



Com relação às passagens que supostamente provam que o ser humano possui uma parte imaterial que continua viva após a morte do corpo, elas são mal interpretadas e, ainda que não fossem, não afirmam enfaticamente que a alma é imortal. Ora, como se trata de uma doutrina importante seria esperado que a Bíblia dissesse enfaticamente que a alma é imortal, caso ela realmente fosse. Mas o que a Bíblia afirma enfaticamente é que um dia Jesus vai voltar e vai ressuscitar todos os mortos. É nesse dia que aqueles que aceitaram Jesus se tornarão imortais.



(5) Por que os adventistas do sétimo dia não acreditam na existência de um inferno eterno?



A idéia de que Deus preparou um lugar de fogo que queimará eternamente as almas pecadoras não advém da Bíblia. Ela é fruto de (1) crenças das religiões pagãs somadas a (2) más interpretações de passagens bíblicas.



Com relação às passagens bíblicas é necessário começar dizendo que a palavra inferno não existe nos idiomas oficiais em que a Bíblia foi escrita. Ela provém da palavra latina “inferum”, que quer dizer “mundo inferior”; e é utilizada no lugar de três palavras bíblicas oficiais: Sheol, Hades e Geena.



Sheol é uma palavra hebraica e significa literalmente sepulcro, sepultura, lugar inferior. Hades é uma palavra grega e significa a mesma coisa. Quanto à Geena, este era um vale localizado em Jerusalém onde o povo jogava lixo e restos de animais. Por causa do vasto material orgânico que lá havia, o lugar vivia pegando fogo.



Então, todas as vezes que lemos a palavra “inferno” na Bíblia, o texto original se referia ou à sepultura ou à Geena. Até aqui, portanto, nada que indique a existência de um lugar onde os homens vão queimar para sempre.



No caso de Geena, Jesus utilizou essa palavra como metáfora para indicar o que aconteceria com os ímpios. Na época, corpos de criminosos eram jogados no vale de Geena e incinerados. Assim, Jesus queria indicar que o ímpio também seria incinerado no último dia. Isso nem de longe indica que o ímpio queimará eternamente até porque, se o fogo consome algo, um dia esse algo terminará de ser consumido. É lógico. 



Com relação a expressões como “fogo eterno”, “fogo inextinguível”, “queimar pelos séculos dos séculos” e etc., todas elas, no grego, apresentam o mesmo radical, a saber, aión (eterno). E a palavra aión tem um sentido que vai pode diferir dependendo de a quem ou ao quê ela é aplicada. Por exemplo, se aplico a palavra aión à existência de Deus, isso significa que Deus nunca morrerá. Agora, se aplico essa palavra à queima de palha do meu celeiro, isso significa que a palha queimará “eternamente” enquanto houver palha para queimar.



Em outras palavras, se algo não é eterno por natureza, não pode queimar para sempre. Queimará até onde existir. A expressão é utilizada dessa maneira para mostrar o caráter da punição do ímpio. Ela não é uma espécie de purgatório, no qual o ímpio queimará um pouco e depois poderá ir para o céu. Não. Ele queimará “eternamente” sem que nada atrapalhe essa queima. E quando essa queima acabar, o ímpio não existirá nunca mais. Não haverá volta.



(6) Os adventistas do sétimo dia acreditam na Trindade?



Com certeza. Nós acreditamos na Trindade porque a Bíblia é muito clara a este respeito, mostrando que Jesus é um com o Pai e com o Espírito Santo, e que os três são iguais em essência, poder e existência; pois formam o mesmo Deus.



Infelizmente muitos cristãos nos associam às Testemunhas de Jeová. Mas isso pode ser facilmente refutado através das 28 crenças fundamentais adventistas, que é um documento no qual mostramos as principais doutrinas bíblicas em que cremos; ou então através dos livros da escritora Ellen White, uma mulher extremamente importante no desenvolvimento da igreja adventista do sétimo dia. Nesses locais é possível averiguar que a igreja adventista crê plenamente na Trindade.



(7) Os adventistas se guiam pelos livros de Ellen White?



Definitivamente não. A igreja adventista crê que apenas na Bíblia está a Palavra de Deus. Por conseguinte, tudo o que qualquer pessoa fale deve estar de acordo com o que está escrito na Bíblia. Se não estiver, não será seguido.



A senhora Ellen White foi uma peça importante no desenvolvimento da igreja adventista, pois era uma cristã fervorosa e que, ao longo de sua vida, recebeu visões por parte de Deus. Não obstante, isso não faz dela a mulher mais perfeita que já existiu e muito menos alguém que deva ser adorada. Ela foi simplesmente um ser humano como nós. E seus escritos só são de serventia para os adventistas porque estão todos baseados na Palavra de Deus (a Bíblia). Não fosse assim, seriam renegados.