sábado, 28 de novembro de 2015

Quando eu também tinha medo

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É comum eu ouvir ou ler críticas de cristãos (de várias denominações) feitas a adventistas como eu, dizendo que a guarda do sábado é um fardo desnecessário que carrego, pois "Cristo aboliu isso na cruz". Eu também já acreditei nisso. Hoje acho curioso como o ser humano é capaz de chamar de fardo um dia de descanso. Mais curioso é que cristãos que amam a presença de Cristo considerem fardo ter um dia na semana para se desligar do trabalho, dos estudos e dos interesses estritamente seculares, para se concentrarem mais em Deus.

Quando eu tinha este pensamento, dizia que era apenas uma oposição teológica, interpretativa. Mas não era só isso. No fundo, eu não queria que fosse verdade. Passar a crer na validade do sábado implicava mudar toda a minha vida. Para começar, por mais que eu amasse a Cristo, não estava muito a fim de devotar a Ele um dia inteiro, assim como muitos não estão a fim de devotarem o dízimo, as ofertas, seus dons, sua boa vontade, seu perdão para com os irmãos que pisam no seu pé, sua oração aos inimigos. No fundo eu queria que o sábado continuasse sendo meu, para que eu pudesse escolher não passar o dia focado em Deus. Dar a Deus o sábado seria empurrar meus interesses próprios para outros dias.

Além disso, tinha a raiva e do medo. Eu sentia raiva dessa ideia de que apenas uma minoria está correta em relação ao sábado. Soa muito pretensioso aos ouvidos de quem nunca guardou o sábado. Aliás, soa muito pretensioso a qualquer um que descubra uma nova verdade informada por uma minoria.

Imaginem como se sentiu aquele católico piedoso, que acreditou nas palavras do Papa a vida toda e, de repente, se deparou com um Martinho Lutero e uma minoria de protestantes, dizendo existiam erros no catolicismo! O catolicismo, religião de centenas de anos, seguida por milhões de pessoas! Imaginem como se sentiu aquele judeu piedoso, que sempre acreditou nas palavras dos seus rabinos e, de repente, se deparou com uma minoria de judeus iletrados, discípulos de um crucificado, dizendo que os rabinos estavam errados e que o Messias era esse homem morto pelos romanos! Os rabinos, aqueles que lideravam o povo e carregavam uma tradição centenária.

É sempre uma pedrada isso. Olhamos para a minoria que nos deu a nova verdade e sentimos raiva de sua suposta pretensão. Gritamos indignados: "Ah, então só vocês estão certos!? O mundo inteiro, por centenas de anos, esteve errado e continua errado hoje!?".

Logo após vem o medo. Nos perguntamos: “E quem não guarda? Como fica? E quem não sabe? E as pessoas que eu amo? E todos os cristãos sinceros que eu conheço, mas que não guardam o sábado? O que acontecerá com todos esses? Irão para o inferno?”. Essas perguntas ecoam os questionamentos de milhões de pessoas de diversas épocas. Se o protestantismo está certo, como ficam os católicos? Se os cristãos estão certos, como ficam os judeus? Se os judeus estão certos, como ficam os não-judeus?
“Só vocês estão certos?”. Essa é a expressão da raiva e do medo.

Nós nos acostumamos a nossa maneira de fazer as coisas, às nossas crenças. Não queremos mudar. Não queremos ver o nosso mundo virar de cabeça para baixo e ter que reajustar toda a nossa vida à nova verdade descoberta.

Mas sabemos que isso não é racional. Então, tratamos de racionalizar nossas crenças.

“Minha oposição é meramente teológica”, eu dizia.

Não, não era.

Hoje, revendo meus argumentos contra a guarda do sábado, percebo o quão cego eu me fiz. Meus argumentos eram fracos, incoerentes, ilógicos, irracionais. Eram sofismas, fugas do contexto, interpretações ridículas. E me armando de todas essas inverdades, eu não conseguia enxergar as verdades mais claras.

Foram necessários vários empurrões de Deus, coincidências improváveis e uma sensação de incômodo espiritual, para que eu decidisse (após estudar com um pastor por mais de seis meses e tentar fugir de Deus por dois meses) estudar sozinho, com a mente aberta, para ver se eu achava a verdade. Só assim me abri à razão e comecei um estudo pessoal que durou mais de um ano.

O sábado, hoje vejo, jamais poderia ser chamado de mandamento cerimonial, de ritual criado para simbolizar o sacrifício de Jesus. Jamais poderia ser chamado de mandamento para judeus, de símbolo vinculado à antiga aliança. Afinal, ele foi criado antes de existir Israel, Isaque, Abraão; antes mesmo de existir pecado. Foi instituído por Deus no mundo perfeito. Não pecasse o homem, todo o mundo estaria guardando o sábado normalmente hoje.

Não, o sábado não foi instituído para ser símbolo redentivo, mas para ser símbolo de Deus como o Criador. Através do sábado, Deus pretendia (e pretende ainda) nos ensinar duas verdades básicas: que Ele é o Criador e que nós precisamos separar um dia para nos desligar das coisas seculares, focalizando as coisas de Deus. Não estou inventando isso. Está na Bíblia. E o primeiro texto que confirma isso está logo em Gênesis 2:1-3. Ali é dito que Deus abençoou e santificou o sétimo dia, o sábado, antes de haver pecado no mundo. Santificar significa tornar separado, distinto. Como eu poderia dizer algo diferente? Como eu poderia afirmar que para Deus, todos os dias são iguais, se ele mesmo estabeleceu a diferença?

Não é minha intenção fazer uma análise detalhada do assunto aqui. Já fiz diversos textos analisando detalhadamente cada passagem bíblica que embasa a guarda do sábado, e cada passagem bíblica que supostamente o anula. Minha intenção aqui é mais reflexiva que analítica. Hoje, aqui, expus um pouco do que eu fui, do que eu pensei e de como eu sei o que é descobrir uma nova verdade e não desejar que ela seja mesmo verdade.

Minhas razões para me opor ao sábado não eram teológicas. E as razões teológicas que eu tentei juntar, eram apenas sofismas. Essa é a minha história. Talvez seja o seu caso. Não o afirmo, apenas suponho. Sugiro a você que chegou ao fim dessa leitura que faça uma análise das suas razões contra o sábado. São racionais? São meramente teológicas? Ou será que você apenas tem medo?

Eu tive medo. Hoje estou em paz.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Não, a Crise de 1929 não foi causada pelo liberalismo econômico

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Na escola e na faculdade, geralmente aprendemos que a Crise de 29 foi causada pelo liberalismo econômico extremo (o laissez-faire). A explicação que nos dão é que a economia cresceu tanto que gerou superprodução pelas empresas. Daí sobrava coisa e ninguém comprava. Alguns adicionam na explicação que a produção crescia mais do que os salários das pessoas. Então, elas não podiam comprar.

Aprendemos isso como se fosse a explicação uma explicação perfeita e como se não existisse nenhuma explicação concorrente para ser analisada. Assim pensamos que ela é a verdade e acabou. Mas vamos analisar algumas coisas.

Primeiro: como superprodução pode ser um problema? Se eu tenho uma fabrica e ela produz mais que suficiente, tudo o que eu preciso fazer é produzir menos. Agora, reduzir produção não traz mais dinheiro. Então, é óbvio que a causa da crise não pode ter sido superprodução. A superprodução é um dos efeitos da crise. Mas o que causou a superprodução?

Superprodução pode ser causada por má administração da empresa, ou por queda no poder de compra dos clientes, ou por redução do mercado consumidor, ou ainda, por saturação de um ramo do mercado. O primeiro caso é facilmente resolvido e não explica uma crise generalizada num país. Queda no poder de compra dos clientes e redução do mercado consumidor foram dois fatores que ocorreram justamente dois fatores que ocorreram por causa da crise. A crise levou pessoas a serem demitidas e outras a se endividarem, reduzindo-se o consumo. Então, até aqui ainda estamos tratando dos efeitos da crise e não de sua causa.

O último caso é o da saturação de um ramo do mercado, isto é, muitas empresas disputando num mesmo ramo até o ponto em que não há mais como disputar. A hipótese é que com uma concorrência tão grande, as empresas teriam começado a lucrar menos e falido. Essa opção também não explica a crise. Quando um ramo está saturado, a tendência é que novos empresários não entrem nele, pois sabem que não conseguirão lucrar. Ademais, o natural não é que em um ramo saturado todos os empresários entrem em falência, mas sim os menos aptos a enfrentar a concorrência (que geralmente não são aqueles que já chegaram no topo). E se, porventura, uma empresa do topo não resistir e ir à falência, outra empresa entrará no seu lugar e ela simplesmente sairá do ramo, tornando o mercado menos saturado. A falência de uma grande empresa por perder na concorrência não leva diversas outras grandes empresas (incluindo concorrentes) a falirem, criando uma crise; apenas põe outra em seu lugar. Então, a saturação também não explica a crise de 1929.

Segundo: a explicação da superprodução apresenta algumas inconsistências lógicas. Como explicar que estava tudo bem enquanto se produzia menos, mas quando se passou a produzir mais e se baratear o consumo, as pessoas deixaram de ter condição para comprar? Isso não faz sentido. E como explicar que os maiores empresários de um país, que são aqueles que melhor fazem os investimentos (não é à toa que estão no topo), irão quebrar quase simultaneamente? Como todos erraram tão feio ao mesmo tempo? E logo após um período de muita prosperidade. Não é estranho? Há também uma inconsistência histórica. As primeiras empresas a serem afetadas pela crise não foram as de bens de consumo, mas as indústrias de base. Essas que produzem ferramentas e máquinas para outras empresas. Se o problema tivesse a ver com superprodução, o mais lógico era que as empresas de bem de consumo fossem afetadas primeiro, já que é o setor onde há maior produção.

Felizmente, essa explicação da superprodução não é a única que existe. Ela é apenas uma teoria (bem frágil, como pudemos ver). Outra explicação mais plausível é sustentada pela Escola Austríaca de Economia, tendo expoentes como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Passo a expô-la agora.

Embora os EUA tivessem a economia muito mais liberal do que hoje em dia, o período de ouro do liberalismo americano não foi nos anos 20. Foi sim no fim do século 19 e início do século 20 até 1913. Em 1913 foi criado do FED (o Banco Central Americano) para regular os bancos. A criação do FED era, em tese, para evitar que os bancos inflassem moedas. Isso acontecia com alguma frequência e por isso muitos bancos iam à falência. O problema é que o FED, tal como todos os Bancos Centrais pelo mundo, acabam servindo como um regulamentador de cartel. Afinal, ele mesmo infla a moeda, mas para todos os bancos, o que evita a falência deles. E para quem isso é bom? Para os bancos e para o governo, pois com a inflação de moeda, as taxas de juros são reduzidas (quanto mais moeda circulando, mais barato ele fica). Com as taxas reduzidas, as empresas pegam mais empréstimos (e empréstimos altos) para seus projetos. E assim a economia cresce, mais empregos são gerados e há mais consumo. Então, é comum que os governos intervenham na economia através dos Bancos Centrais para acelerá-la.

Entretanto, todo crescimento artificial dá problema um dia. A expansão desordenada de crédito e a derrubada artificial de juros não podem continuar para sempre, pois acabarão gerando uma hiperinflação. Essa hiperinflação pode ser evitada, retardada e até maquiada por um tempo quando a economia está muito produtiva e em crescimento. Mas uma hora ela pedirá as contas pela distorção causada pela expansão creditícia. Prevendo isso, o governo americano travou a expansão. É nesse momento que a crise começa. Vamos entender o panorama.

Várias grandes empresas haviam pego empréstimos gigantes para implementar seus projetos, por conta das baixas taxas de juros. Quando o governo trava a expansão de moeda, as taxas de juros começam a subir. Então, em pouco tempo, os empresários se veem impossibilitados de pagar pelos seus empréstimos que pegaram. As primeiras empresas a sofrerem são as indústrias de base, pois seus investimentos são muito mais caros. Sem poder pagar aos bancos, essas empresas começam a demitir funcionários e cortar custos. O crescimento do desemprego reduz o poder de compra dos clientes e o mercado consumidor, criando mais dívidas para as empresas. Entretanto, com o ritmo acelerado de produção das indústrias em geral, da abundância de produtos e da grande concorrência, essas empresas se veem obrigadas a manter os preços baixos. É neste ínterim que os produtos começam a sobrar. Com as empresas sem poderem pagar suas dívidas e muitas indo à falência, os bancos também começam a ficar em situação ruim, já que não estão tendo de volta os seus empréstimos.

A situação piora com o crescimento de cidadãos desempregados querendo pegar o dinheiro que guardavam nos bancos. Aqui abrimos parênteses. Como se reduz a taxa de juros naturalmente? Através da poupança das pessoas. Num período em que as pessoas estão estimuladas a poupar, o banco tem bastante dinheiro. E assim o preço do dinheiro (os juros) se torna mais baixo. Mas quando os juros são baixados artificialmente (através de inflação de moeda), não há poupança suficiente no banco. Então, uma vez que o banco empreste muito dinheiro e os devedores não devolvam, haverá pouco dinheiro para os correntistas. Pois foi isso o que aconteceu. Os correntistas queriam pegar seus valores, mas o banco não tinha como atender a todos, pois não havia poupança suficiente. Os bancos começam, então, a quebrar.

Com a quebra dos bancos, começaram a sofrer com mais intensidade as empresas de bens de consumo e os cidadãos que perderam o dinheiro que tinham nos bancos que faliram. Mas como havia muitas empresas e a economia tinha crescido muito até ali, a produção permaneceu mais alta do que o nível de consumo, desacelerando em um nível sempre mais lento que a capacidade de compra dos clientes. Em outras palavras, as empresas e os clientes quebraram com maior velocidade do que a produção desacelerou. A quebra, como se pode ver, não foi causada pela superprodução. Esta foi um efeito da crise. Tal estado de coisas causou a deflação nos preços.

É interessante comparar a crise americana de 29 com a do Brasil atual. Elas tem a mesma causa. No governo Lula, o crédito foi expandido irresponsavelmente. O breve aceleração econômica conteve o aumento de preços por um tempo, mas logo a a política intervencionista se mostrou danosa. A diferença é está no grau de liberdade econômica e competitividade. Como nos EUA de 29 estes eram bem superiores ao Brasil de hoje, o efeito da crise foi superprodução e a consequente deflação de preços. No Brasil, o efeito tem sido a inflação de preços, já que sua pouca liberdade econômica não gerou um cenário competitivo o suficiente para, em uma crise, gerar superprodução. Isso não é, no entanto, um louvor à crise americana. Os efeitos da crise, sejam inflação ou deflação, são ruins do mesmo jeito, pois em ambos os casos o poder de compra do consumidor está afetado, o desemprego cresce e a economia começa a se desacelerar.

A crise de 29 poderia ter sido menos extensa. O problema é que as teorias utilizadas para entendê-la e controlá-la seguiram uma linha de raciocínio baseada nas ideias de Karl Marx e do economista John Maynard Keynes. Nessa linha de raciocínio, os efeitos da crise (superprodução e deflação de preços) foram tomados como suas causas. E o intervencionismo estatal (que causou a crise) foi tomado como uma forma de resolver o problema. A partir de então se disseminou a ideia de que se o governo não intervém, graves crises econômicas podem surgir. No entanto, como vimos, a crise foi causada por conta de intervenções irresponsáveis do governo. E se prolongou por conta das mesmas. O melhor que se poderia ter feito diante daquela crise (e o melhor que se tem a fazer quando há uma crise) é reduzir a intervenção e deixar o mercado voltar ao seu rumo natural.

A lição que a Escola Austríaca nos deixa é que quando você derruba juros artificialmente, através expansão de moeda, você está criando uma economia distorcida, uma economia falsa. Quando você parar de distorcê-la, é a hora do acerto de contas. Ela começará o caminho de retorno. Esse caminho será dolorido, mas é necessário. A economia precisa se tornar real. É aqui que entendemos porque um número tão grande de megaempresas afundaram quase ao mesmo tempo. Elas fizeram projeções de longo prazo baseadas em uma economia falsa. Se planejaram baseados em dados mentirosos. Não tinham como prever que eram mentirosos. Mentiras plantadas pelo governo.

Obs.: Este artigo é um resumo das ideias contidas em um artigo mais antigo: "Como seria um bom governo de direita? - Parte 3", que fala sobre este e outros temas. Vi a necessidade de fazer um novo texto sobre o assunto, com explicação mais simples, linguagem mais dinâmica e focando apenas na Crise de 1929.

domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre o marxismo heterodoxo (ou: o que alguns pretensos estudantes de história ignoram)

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Quando um conservador diz que ainda existe socialismo marxista hoje, sempre aparece algum sujeito para dizer: "Vá estudar história!", como se o conservador estivesse dizendo uma grande baboseira do ponto de vista historiográfico e como se ele, o sujeito a proferir a imperativa frase, fosse um expert. É compreensível essa postura. Afinal, esses indivíduos acreditam que só existe um único marxismo: o marxismo ortodoxo. Mas por que pensam isso?

Pensam isso porque nunca leram obras como "Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism", de Antony James Gregor, que explora o conceito de marxismo heterodoxo.

Pensam isso porque desconhecem as ideias de Georges Eugene Sorel, marxista heterodoxo que fundou as bases do chamado sindicalismo revolucionário. Entre suas ideias se encontra o conceito de exploração dos mitos políticos como força motriz para mobilizar o povo. Seu movimento influenciaria o pensamento de grandes ideólogos marxistas (como Antonio Gramsci, Walter Benjamin e José Carlos Mariategui) e também de Benito Mussolini, o qual, fora marxista ortodoxo durante muitos anos.

Pensam isso porque não tomaram conhecimento das bases da social-democracia e do trabalhismo, que pretendiam alcançar o socialismo através de reformas graduais dentro do próprio capitalismo.

Pensam isso porque não leram as obras do teórico marxista Antonio Gramsci, ou dos teóricos marxistas da Escola de Frankfurt, que fizeram releituras do marxismo, criaram novas estratégias e abordaram a necessidade do combate cultural para a tomada de poder pelos partidos socialistas.

Pensam isso porque não chegaram a estudar sobre a falibilidade prática de sistemas econômicos totalmente estatizados e as consequentes concessões feitas ao setor privado pelos dirigentes comunistas, a fim de conseguirem manter a economia de seus Estados. Não estudaram isso, tampouco estudaram que estes fatos já eram previstos e explicados, em parte, pelos estudos do economista Ludwig von Mises (na década de 1920) a respeito do cálculo econômico em sistemas socialistas. Esses estudos, aliás, continuaram sendo feitos pelo economista Friedrich Hayek, ganhador do Nobel de Economia em 1974 e autor do clássico livro "O Caminho da Servidão", no qual explica com clareza porque o crescente controle da economia pelo Estado leva a sistemas políticos totalitários.

Pensam isso porque eles ignoram que a falibilidade do modelo econômico socialista contribuiu para reformulações na teoria marxista e a adoção de estratégias mais pragmáticas e gradualistas por parte dos novos pensadores e políticos marxistas.

Pensam isso porque não prestaram sequer atenção ao próprio "Manifesto do Partido Comunista", em que Marx e Engels demonstram, no final, que em todos os países os comunistas estavam dispostos a colaborar até mesmo com capitalistas, se isso se mostrasse efetivo para os planos do partido no futuro. Ali estava a gênese do pragmatismo marxista e do surgimento de marxismos heterodoxos.

Acreditam esses indivíduos que nos mandam estudar história que o comunismo acabou juntamente com a URSS e que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, marxistas de todo o mundo se conformaram com o capitalismo, abandonaram todas as ligações com as ideias de Karl Marx e deixaram de lado qualquer pretensão de mudar o mundo. Esquecem-se (ou ignoram propositalmente) que os principais conceitos marxistas continuam sendo ensinados amplamente, como é o caso da luta de classes, da mais-valia, do materialismo dialético, do materialismo histórico, da sociedade dividida em superestrutura e infraestrutura, da religião como ópio do povo, da capacidade do ser humano de remodelar o mundo, do Estado como ferramenta para implementar as políticas da revolução proletária, do forte controle da economia pelo Estado e da centralização do poder nas mãos do proletariado (representados pelo Partido).

Os simples fatos de (1) não se falar mais em estatização completa da economia, (2) tolerar a existência de empresas privadas e (3) deixar de lado a utilização do mito de um estágio final do socialismo onde o Estado é superado, é entendido por esses sujeitos como prova irrefutável de que o socialismo marxista não existe mais. Tolice. O que isso na verdade mostra é que marxistas compreenderam que a estatização completa da economia é inviável e, ao mesmo tempo, desnecessária. Para quê estatizar tudo se o Estado pode controlar empresas privadas através de regulamentações, altos impostos, troca de favores com grandes empresas, proteção de cartéis, oposição ao livre mercado e grande poder de intervenção na economia? Para quê estatizar tudo se o Estado pode estatizar (ou manter estatizado) apenas aquilo que julgar mais importante? Para quê o Estado terá o trabalho de administrar tanta coisa, se é possível delegar essa função à empresas privadas sem prejuízo algum de seu plano de poder? Para quê estatizar tudo se o Estado pode contar com a existência de empresas privadas para resolver os problemas econômicos causados por sua ineficiência e corrupção?

Não é preciso estatizar tudo para conquistar o controle político e econômico que marxistas almejam para, supostamente, tornar a sociedade mais justa e igualitária. E isso, por mais heterodoxo que possa soar, encontra sua gênese no "Manifesto do Partido Comunista". Lá Marx e Engels já falavam sobre o gradualismo. O controle político e econômico do Estado seria conquistado aos poucos. As empresas privadas não seriam todas destruídas ao mesmo tempo, mas conviveriam com o governo socialista por período indeterminado, sendo cada vez mais controladas pelo Estado e reduzidas em número, até que tudo passasse diretamente para as mãos dos dirigentes estatais. A diferença entre o marxista ortodoxo e o heterodoxo aqui é que o primeiro vê o controle direto do Estado sobre as empresas como uma necessidade, ao passo que o último crê que é possível e conveniente que parte do controle sobre as empresas seja indireto. Em outras palavras, é possível fazer uso do capital privado para benefício do Estado e da manutenção do poder.

Quando voltamos a Gramsci e lemos sobre suas estratégias para a manutenção do Partido no poder (inclusive dizendo que o Partido é o novo Princípe, de Maquiavel) e a transformação gradual da mentalidade do proletariado através da cultura, confirmamos o parágrafo acima e percebemos que o socialismo marxista ainda existe e tem sido implementado por diversos partidos, embora por meios mais gradualistas, pragmáticos e aparentemente despretensiosos. Uma vez que os sujeitos dos quais falamos nesse texto, não admitem a existência de heterodoxia no marxismo, zombam dos conservadores e olham para governos de orientação socialista como se não o fossem. O resultado se verá à longo prazo. Economias cada vez menos livres, crises econômicas e governos com poderes despóticos. Temos visto prévias desse cenário na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e no próprio Brasil.

Obs.: O leitor mais atento certamente percebeu que as semelhanças entre o fascismo italiano de Benito Mussolini e o marxismo heterodoxo. Na verdade, é exatamente isso. O fascismo italiano é um tipo de marxismo heterodoxo. Suas raízes estão fincadas nas ideias do sindicalismo revolucionário de Sorel, que serviu de inspiração para que Mussolini remodelasse o marxismo que seguia. Mussolini percebeu o que os marxistas perceberiam em massa após a falência da URSS: que não era necessário estatizar toda a economia, destruir as empresas privadas e utilizar o mito do fim do Estado após a ditadura do proletariado. A diferença entre Mussolini e os marxistas heterodoxos atuais reside na escolha dos mitos políticos para empurrar o povo. O Duce italiano utilizou-se do nacionalismo e da guerra. 

Algumas das obras que dão conta desta análise são: "Revolutionary Fascism", de Erik Norling; "The birth of fascist ideology”, de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri; e o já citado "Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism", de Antony James Gregor. Deixo como indicação alguns artigos sobre o tema:

Quando o Fascismo era de Esquerda
Tudo que você deveria saber sobre o Fascismo, mas não quer 
O Fascismo nasce da Esquerda
Fascismo do Século XXI
O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A graça e a boa conduta moral

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A mesma Bíblia que nos ordena um código moral amplo e rígido, também nos avisa de que a salvação é pela graça. Aquele orgulhoso que pretende salvar-se por bondade e esforços próprios descobre que jamais será bom o suficiente para isso. Mesmo que um dia ele se tornasse perfeito, isso não apagaria os pecados que cometera antes de chegar a este nível, tampouco anularia o fato de que sua bondade só foi alcançada através da influência do Espírito Santo. Em outras palavras, é impossível salvar-se sozinho.

Em contrapartida, aquele malandro que pretende salvar-se sem deixar de lado seus desejos pecaminosos descobre que a graça só alcança os dispostos a seguir o código moral bíblico. Curiosamente, o mesmo Deus que não cobra nota máxima, cobra disposição máxima. Como dizia minha mãe: "Não me importo que você tire notas baixas, desde que eu veja que você está se esforçando ao máximo para tirar notas altas".

Em meio ao orgulhoso e o malandro, quem sai mais feliz nessa história toda é aquele indivíduo humilde, que reconhece seu estado pecaminoso e sua total incapacidade de alcançar sozinho a salvação. Ele aceita a salvação pela graça de Deus e, por amor e gratidão ao Deus que o salvou sem merecer, ele torna sua conduta moral cada vez mais elevada. E quanto mais o indivíduo reconhece sua miséria e total dependência de Deus, mais virtuoso passa a ser.

Este equilíbrio entre a salvação pela graça e a manutenção de uma boa conduta moral é uma dos ensinos que mais admiro na Bíblia. Que nós todos possamos aprender a agir deste modo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O inferno é um lugar de tormento eterno?

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A palavra “inferno” é usada nas Bíblias da Língua Portuguesa para traduzir três palavras originais:

- Sheol (do hebraico), que significa "sepultura, sepulcro, cova";

- Hades (do grego), que também pode ser usado como sinônimo de sepultura. Essa palavra foi escolhida pelos tradutores judeus da Bíblia Septuaginta (a primeira tradução do Antigo Testamento hebraico para o grego, em cerca de 250 a.C.);

- Geena (do grego), que era o nome de um vale que existia em Israel. À época de Jesus, esse vale era usado para se jogar lixo, bem como corpos de criminosos e indigentes.

Como se pode ver, nenhuma dessas palavras significa: “lugar de tormento eterno”.

Sheol e Hades designam simplesmente “sepultura”. O lugar para onde todos nós vamos quando morremos. Uma vez que a Bíblia também não ensina a imortalidade da alma, então quando morremos, nossa mente morre e ficamos inconscientes. Isso está claro em diversos textos, como Eclesiastes 9:5-6 e 10. Morremos de verdade. E ficamos mortos até Deus nos ressuscitar no dia do juízo final. Esse é o ensino bíblico. Ninguém que morre vai para o céu ou para o inferno direto. A morte é um sono. Um sonho sem sonhos, sem consciência. Não há atividade cerebral nesse período. Nossa consciência é desativada e retorna a Deus juntamente com nosso fôlego de vida, que ele nos dá.

Já a palavra Geena, não indica sepultura. Como eu disse, ela era um vale em que se jogava lixo e se queimava corpos. Geena (Ge Hinnon, em hebraico) ficava numa região chamada Tofete. No passado, quando Israel caiu em graves pecados, passando a seguir um deus pagão chamado Moloque, muitos israelitas sacrificaram crianças queimadas naquele local (Jeremias 7:31-32). Por essa razão, o vale virou sinônimo de um lugar amaldiçoado. Um lugar de morte.

Jesus usou esse vale como metáfora para indicar de que forma morreriam para sempre os ímpios. Assim como criminosos e indigentes eram queimados em Geena (e crianças, no passado), os ímpios também serão queimados, no juízo final, em local semelhante (o lago de fogo).

Jesus enfatiza que em Geena o fogo não se apaga, nem o verme morre. Ele diz isso porque Geena era um lugar em que constantemente se jogava lixo e corpos. Por isso sempre havia vermes e fogo.

A ideia dessa metáfora não é indicar que os ímpios seriam queimados eternamente. A ideia é enfatizar que enquanto houver o que queimar, o fogo queimará. Enquanto houver o que ser comido pelo verme, o verme comerá. Mas obviamente copos não são comidos e queimados para sempre. Um dia eles se acabam.

O Antigo Testamento está repleto de textos que indicam que os ímpios serão totalmente consumidos pelo fogo, morrendo. O melhor deles, na minha opinião, está em Malaquias 4:1-3. O texto diz que os ímpios serão totalmente abrasados, não sobrando nem raiz, nem ramos; se tornarão cinzas.

Com relação aos textos que usam termos como "fogo eterno", "fogo inextinguível", "fumaça que sobe pelos séculos dos séculos" e etc., entenda o seguinte: no hebraico e no grego é comum que palavras que significam "para sempre" e "eterno" tenham um sentido diferente quando aplicadas a coisas que são, por natureza, efêmeras (ou seja, coisas que não são eternas).

É o caso da palavra hebraica "olam" e das palavras gregas "aion", "aionio" e "aiones" (todas com o mesmo radical).

Por exemplo, no Antigo Testamento uma lei civil determinava que o servo que quisesse continuar trabalhando para o seu senhor após os seis anos que a legislação traçava como limite, deveria oficializar essa decisão perante um juiz através de um furo na orelha. Isso está em Êxodo 21:1-6. O verso 6 diz que após essa oficialização, o servo iria servir seu senhor “para sempre” (olam). Mas esse para sempre é, obviamente, só enquanto o servo viver. Se o servo morresse dez dias depois, não poderia mais servir.

Outro exemplo está no Salmo 23 em que Davi diz que habitará na Casa do Senhor para sempre. Algumas versões traduzem como "por longos dias". Não se sabe ao certo, pois não fica claro se Davi estava se referindo à eternidade com Deus ou à sua vida aqui na terra.

No Novo Testamento há um exemplo que está no livro de Judas, verso 7. Ali diz que as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas pelo fogo eterno. Mas essas cidades não estão queimando até hoje. Eterno aqui pode ser traduzido como "constante". Ou seja, o fogo queimou as cidades completamente, sem parar. Ele não se extinguiu até que tivesse queimado tudo.

O termo serve para mostrar que nada, nem ninguém escapou. Não houve uma chuva que tenha apagado o fogo em algumas áreas ou durante algum breve período de tempo, de modo que algumas pessoas pudessem escapar. Esse é o sentido de eterno aqui. Nada pode parar o fogo. Nada pode extingui-lo. Ele queima até não haver mais o que ser queimado. O fogo é eterno sim, mas não o material que ele consome.

Mesmo no português, existem alguns exemplos do gênero. Quando dizemos que um casal foi feliz para sempre, queremos dizer que ele foi feliz enquanto viveram. Quando digo que fulano sempre foi legal, esse sempre compreende apenas o tempo de vida dele (ou o tempo que eu o conhece). Não compreende a eternidade. Eu posso dizer, por exemplo, que meu primo sempre me levou ao parque quando eu era criança. Aqui o sempre compreende apenas o tempo em que eu era criança, não é um período que nunca teve fim. Da mesma forma, a Bíblia ensina que o lago de fogo queimará os ímpios apenas enquanto houver o que queimar.

O Apocalipse deixa isso mais claro quando diz que o inferno (Hades = Sepultura) e a morte serão lançadas no lago de fogo (Ap. 20:14). Ora, se o próprio Hades será lançado no lago de fogo, então ele não pode ser o próprio lago de fogo. Ele é a sepultura.
Se a sepultura e a morte serão lançadas no lago de fogo, isso quer dizer duas coisas: (1) há morte e sepultura para quem está no lago de fogo e (2) a morte e a sepultura, elas mesmas, morrerão no lago de fogo. Como? Logo após todos morrerem, pois não haverá mais ninguém para morrer e ser sepultado após a morte de todos. É por isso esse mesmo versículo diz que ser lançado no lago de fogo é a “segunda morte”. Ou seja, o que é lançado ali, morre de vez.

Aqueles que aceitam a teoria do inferno como um local de tormento eterno, esbarram em várias dificuldades, a maioria das quais eu não irei comentar neste post em benefício da concisão. Mas quero citar uma para terminar o texto: a Bíblia afirma que os salvos serão transformados, ganhando um corpo incorruptível e imortal (I Co 15:51-53). Esse benefício não é dado aos perdidos. Então, o corpo deles será queimado pelo fogo e eles morrerão. Se, de fato, existisse uma parte imaterial que sobrevivesse à morte do nosso corpo (alma), ela não seria queimada e atormentada pelas chamas do inferno, pois almas não são constituídas de matéria. E agora? Como fica a doutrina do tormento eterno da alma através do fogo?

Para resolver isso, é preciso ou (1) afirmar que o lago de fogo e o tormento nas chamas são uma metáfora para algum outro tipo de sofrimento que será infligido às chamadas “almas”, ou (2) afirmar que Deus dará também aos ímpios um corpo incorruptível e imortal, a fim de que eles queimem eternamente, sem serem consumidos. Tanto uma ideia como a outra não têm qualquer respaldo bíblico, bem como se constituem grandes erros de interpretação e lógica.

Então, em suma: o inferno como lugar de tormento eterno não existe. Tampouco o ser humano é um “fantasminha”, preso em um corpo físico, que vai para o céu ou para o inferno após morrer. O que acontece na morte é que, de fato, morremos. Quando Jesus ressuscitar, os salvos se tornarão eternos e viverão com ele; os ímpios e descrentes serão lançados no lago de fogo, que os consumirá até a morte. Então, serão exterminados.

Obs. 1: Quem discordar e quiser debater, o faça com educação, sem vir com ofensas e rótulos de herege. Use educação e Bíblia.

Obs. 2: Isso é um resumo. Há várias questões não analisadas aqui, tais como os textos que aparentam dar suporte à ideia de imortalidade da alma. Também não expus aqui as dezenas de textos do Antigo e do Novo Testamento que dão suporte às ideias que estou defendendo.

Obs. 3: As ideias aqui expostas não foram criadas por mim. Elas tem sido defendidas por uma série de teólogos sérios de diversas confissões genuinamente cristãs.