quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O cristão pode usar armas de fogo, reagir e se proteger?

Um comentário:
Alguns cristãos acreditam que seria errado buscar a autoproteção e reagir à agressões físicas, principalmente utilizando armas de fogo. Um dos textos utilizados para se defender essa concepção passiva em relação à agressões está em Mateus 5:39-41. Nesse texto, Jesus afirma: "Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas".

Bom, se Jesus foi literal ao dizer estas palavras, devemos considerar que elas se estendem para todo e qualquer tipo de agressão sofrida. Isso quer dizer que, embora Jesus tenha dado apenas três exemplos, devemos aplicar o pensamento a outros. Sendo assim, segue-se que: (1) Se alguém vier com um pedaço de pau, te der uma cacetada na cabeça e você não desmaiar, ofereça o outro lado da cabeça também; (2) Se alguém vier com um caco de vidro e te cegar um olho, ofereça o outro olho também; (3) Se você é uma menina e um rapaz vem te beijar à força, ofereça outro beijo; (4) Se uma pessoa do seu mesmo sexo que você quiser te beijar à força, também deixe e ofereça outro beijo; (5) Se um estuprador quiser te violentar...

Como fica claro, interpretar as palavras de Jesus como sendo literais traz implicações nefastas. E essas implicações não parecem possuir qualquer ligação com os preceitos cristãos, tampouco possuem alguma utilidade racional. Ao contrário, quando interpretamos Mateus 5:39-41, estamos dizendo que os cristãos devem assumir uma postura de covardia e desvalorização da própria vida, o que não são virtudes cristãs. O cristão, como criatura de Deus, deve zelar por sua vida, a qual não pertence a si mesmo, mas é um dom de Deus. Deve ainda cultivar a coragem em todos os sentidos, já que a própria Palavra ensina que de fora do céu ficarão os covardes (Ap. 21:8). Ser corajoso, no sentido cristão, é não permitir que o medo nos paralise e nos impeça de fazer nossas obrigações. Isso inclui, evidentemente, a obrigação de proteger nosso corpo, nossa saúde, nossa vida, bem como nossa família, nosso próximo e nossos bens (sim, os bens, já que eles também provém de Deus).

Alguém poderá argumentar aqui que os mártires entregaram seus corpos e suas vidas em nome de Cristo e que, portanto, não seria correto tomar uma atitude de proteção da própria vida. Talvez até me citem Mateus 16:25: "Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará". A argumentação não é válida. Em primeiro lugar, porque eu não estabeleci a autoproteção como princípio máximo. Há ocasiões em que o sacrifício do próprio corpo ou da própria vida será necessário a fim de alcançar um bem maior. A autoproteção vigora como princípio básico apenas enquanto não há nada mais importante que a sua própria vida em jogo. No momento em que sua vida se torna secundária em função de algo superior, o sacrifício não só é permitido como é a cosia certa a se fazer. Num caso desse, negar a sua vida torna-se egoísmo. Essa é, aliás, a argumentação que faz G. K. Chesterton (grande pensador cristão) em um trecho de "Ortodoxia", onde pontua a diferença entre um mártir e um suicida. Em um dos parágrafos ele afirma:

"O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. E o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo". Na sequencia, Chesterton continua enfatizando o quão hediondo é o suicidio e então confronta o suicidio com o martírio cristão:

"Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe. Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo".

Então, não, não existe contradição entre o principio da autoproteção e o martírio cristão. O que existe são ocasiões distintas. Há ocasiões em que o martírio suplanta a autoproteção porque o que está em jogo é algo mais importante que a vida. E o que seria mais importante que a nossa própria vida? A lealdade a Deus é o maior exemplo. A vida de um filho geralmente é colocada num patamar acima da autoproteção também. E há quem nobremente coloque sua proteção em risco em prol de pessoas doentes ou em situação de perigo. A isso se chama amar ao próximo. Parafraseando Chesterton, quem age dessa maneira está morrendo para que algo viva. 

Infelizmente, às vezes a autoproteção implicará a morte do agressor. Mas não se trata aqui de um caso de assassinato. O mandamento de Deus proíbe o assassinato, que seria um homicídio por motivo torpe ou vingança. Mas Deus outorga o direito de tirar a vida de outro ser humano quando esta é a única maneira de sobreviver a um ataque do mesmo. Isso é legítima defesa. Aliás, abro parênteses para ressaltar que Deus também outorga o direito de tirar vidas ao Estado, quando determinada sociedade resolve que crimes hediondos devem ser punidos com a pena capital. Há quem pense que a pena de morte é proibida pela Bíblia. O fato, no entanto, é que a Bíblia joga essa questão para o âmbito civil, a ser resolvida pela sociedade. Não há qualquer condenação da pena capital nas Escrituras. No Antigo Testamento ela era prescrita na sociedade israelita para alguns crimes. E no Novo Testamento, as poucas passagens que mencionam o assunto, deixam claro que o assunto é de âmbito civil. Em Atos 25:11, por exemplo, Paulo afirma: "Contudo, se fiz qualquer mal ou pratiquei algum crime que mereça a pena de morte, estou pronto para morrer. Mas, se não são verdadeiras as acusações que me afrontam esses homens, ninguém tem o direito de me entregar a eles. Portanto, apelo para César!". Já em Romanos 13:3-4: "Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal". Em suma, ser contra ou a favor da pena de morte não é irrelevante no tocante à vida cristã, pois não é discussão de cunho religioso, mas civil. Os argumentos, portanto, devem ser de outra natureza que não teológica.

Mas voltando ao texto de Mateus 5, é importante ressaltar que Jesus costumava a usar analogias para enfatizar suas verdades. Algumas delas recorriam à imagens absurdas para impactar as pessoas. Por exemplo, em Mateus 5:29-30 lemos: "Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o fora de ti; pois te é mais proveitoso perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno". É evidente que esse texto não é literal, pois a automutilação é um pecado. Jesus jamais a receitaria como método para vencer outro pecado. O que Jesus faz aqui é utilizar uma hipótese absurda para enfatizar que, na verdade, só há uma alternativa: abandonar o pecado. As analogias feitas por Jesus em Mateus 5:39-41 são do mesmo tipo; não devem ser entendidas literalmente. A essência do ensinamento de Jesus é bem clara e simples: não devemos procurar vingança pessoal contra as pessoas, mesmo que elas nos causem grandes danos. 

Outro texto utilizado pelos cristãos defensores da passividade se encontra em Mateus 26:52, onde Pedro recebe uma advertência de Jesus ao tentar defendê-lo dos  soldados romanos no Jardim das Oliveiras: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão". Esse texto, inclusive, é o preferido de cristãos que acreditam ser um pecado possuir armas de fogo. O que se deve perceber aqui é que essa assertiva de Jesus não é um mandamento geral para todas as pessoas de todas as épocas em todas as situações. Na verdade, a assertiva de Jesus é bem mais específica para o contexto do que os cristãos passivos supõem. Vamos analisar.

Em primeiro lugar, a preocupação central de Jesus não é com o fato de que Pedro está armado, nem com o uso que o mesmo faz da arma para enfrentar o soldado que prendia Cristo. A preocupação central de Jesus está no fato de que Ele possuía uma missão clara e que não poderia ser frustrada: morrer pela humanidade. Em outras palavras, ele precisava se entregar. Qualquer pessoa que, naquele momento, intentasse salvá-lo estaria se tornando literalmente um obstáculo aos planos de Deus. O contexto do da própria passagem de Mateus deixa isso claro. Nos versos que se seguem Jesus afirma: "Acaso, pensas que não posso rogar ao meu Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, no entanto, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?" (Mateus 26:53-54). Aqui Jesus deixa claro que está se deixando prender porque faz parte de sua missão. Cristo está literalmente dizendo: "Não quero sua ajuda, Pedro. Eu vim exatamente para isso".

A mesma ideia é expressa de modo mais direto no evangelho de João. Ele relata o episódio da seguinte maneira: "Mas Jesus disse a Pedro: 'Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?'" (João 18:11). Ou seja, a parte central da repreensão é que Pedro estava lutando contra os planos de Deus. O problema não estava no uso da espada, mas no momento, que era inoportuno. Marcos, ao narrar a mesma cena, sequer vê a necessidade de relatar a repreensão de Jesus feita a Pedro. Limita-se a descrever: "Nisto, um dos circunstantes, sacando da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha" (Marcos 14:47). Já Lucas resume a repreensão de Cristo na seguinte frase: "Mas Jesus acudiu, dizendo: 'Deixai, basta'. E, tocando-lhe a orelha, o curou" (Lucas 22:51). Em suma, nenhum dos textos oferece qualquer margem para que Jesus estivesse fazendo uma teologia antirreação e antiarmas. Supor isso é forçar os textos a dizerem o que eles não dizem; enfatizar nos textos o que eles não enfatizam; deixar de lado o que realmente os escritores bíblicos querem chamar a atenção no evento narrado.

Em segundo lugar, quando Cristo afirma que "todos os que empunham a espada, pela espada morrerão", deve-se ter em mente o contexto histórico da época. Israel vivia sob domínio do Império Romano, cujo poderio militar era incrivelmente grande. Roma tinha poder para massacrar qualquer grupo de rebeldes que desejasse. Se, portanto, os discípulos iniciassem seu ministério empunhando espadas por aí, rapidamente seriam vistos por Roma como rebeldes. Principalmente se esses discípulos viessem a matar algum soldado romano. O resultado disso seria, sem dúvida alguma, um rápido extermínio por parte do Império. As palavras de Jesus estavam, na verdade, traçando uma distinção entre a missão de um soldado e a missão de missionário. A missão do soldado é lutar fisicamente e o seu fim geralmente é a morte pelas próprias armas que utiliza. A missão do missionário, entretanto, era viajar por centenas de lugares pregando o evangelho. Longe de estar condenando a missão de um soldado, Jesus estava apenas enfatizando que os discípulos não eram soldados, mas missionários. Não há como ser as duas coisas. Não por haver alguma contradição moral, mas por haver uma incompatibilidade de missões. 

Se os discípulos fossem caraterizados e rotulados, desde o início, como uma organização paramilitar, não teriam sequer um momento de paz para pregar o evangelho. O império romano, historicamente, perseguiu os cristãos não de maneira initerrupta, absoluta e geral, mas sim de maneiras localizadas no tempo e no espaço. Houve períodos e lugares com forte perseguição, mas também períodos e lugares em que os cristãos gozaram de liberdade. Mas isso só se deu porque os cristãos não eram soldados. Se fossem, o império romano teria sido absolutamente implacável desde o início, em todos os lugares e o tempo todo. O resultado teria sido a morte do cristianismo logo no seu surgimento. 

Ademais, se os discípulos tivessem se caracterizado como soldados, o evangelho adquiriria um caráter distorcido, não mais de uma transformação espiritual e de um volver da mente às coisas celestiais, mas sim de luta política e militar, de guerra terrena, de batalha física, de revolta, conquista e ambição. Tal distorção era, aliás, o que havia tomado conta da teologia judaica sobre o Messias. Os judeus esperavam justamente um Messias político-militar, com uma frota de soldados fieis, que comandaria a destruição dos romanos e a libertação terrena de Israel. A militarização dos discípulos só faria consolidar esta ideia, dando ao evangelho a mesma significação que "revolta civil", "revolução" e "luta armada". Neste sentido, deixaria de ser uma fonte de salvação espiritual para ser meramente um movimento terreno por libertação efêmera. E um movimento desses, longe de criar gerar transformação interior e de ligar os homens intimamente a Deus, geraria lutas vis e homens que se uniriam ao movimento unicamente por razões terrenas e até egoístas. Talvez aqui deva-se enfatizar que esta foi a grande diferença entre o cristianismo e o islamismo em suas origens. Enquanto o cristianismo se inicou com missionários, interessados unicamente em pregar a salvação por meio do sacríficio de Cristo Jesus, o islamismo se iniciou com soldados interessados em coisas diversas. A diferença é notável.

Em suma, Jesus não queria que Pedro ou seus demais discípulos fossem soldados, mas missionários. A expansão da Igreja necessitava disso. Cristo necessitava de homens dispostos a abnegar até mesmo seus direitos mais básicos, como o da autoproteção e o da reação, a fim de unicamente anunciar o evangelho e manter intacto o caráter do mesmo. O contexto exigia isso. E ser missionário requer essa abnegação. 

De tal fato não se pode depreender que todas as pessoas devem ser missionárias. Missionário, no senso estrito da palavra, é aquele que trabalha integralmente com o evangelho. Este é totalmente guiado pela missão evangelítica. Ele não pregará onde mora; morará onde precisa pregar. Ele não pregará para onde viaja; viajará para onde precisa pregar. Se precisar trabalhar, ele trabalhará para sustentar sua missão. Não pregará onde trabalha, trabalhará onde precisa pregar. O missionário estará pronto para abnegar todos os seus direitos/desejos se for necessário. Talvez o sonho de fazer faculdade, de ser juiz, de ir à Disney, de morar na Suíça, de ser rico, de casar, de ser um jogador de futebol. Ele não é mais um homem da sociedade. Ele é um ambulante, um peregrino, um nômade de futuro incerto que se movimenta em função de sua missão. O missionário é o oposto do homem cristão da sociedade, que desempenha a missão evangelística de acordo com as raízes que fincou na sociedade.

Ambos, no entanto, são importantes. O homem cristão da sociedade precisa existir justamente porque precisa compor a sociedade. A sociedade carece de cristãos espalhados por ela, com suas raízes fincadas, com suas relações na família, na vizinhança, na escola, no trabalho e etc. Nem só de nômades se faz o cristianismo. Além do mais, são os homens da sociedade que, com seu trabalho e sua fixidez social, financiam o trabalho do missionário. Para que haja missionário em tempo integral é necessário haver o cristão da sociedade. Para que haja recursos suficientes para a missão é necessário haver o cristão da sociedade. Repare que os discípulos tornaram-se nômades, mas as igrejas que plantavam em cada região eram feitas de cristãos da sociedade. Nem todo mundo nasceu para ser missionário. Nem todo mundo nasceu para ser cristão de sociedade. Cada qual tem sua importância nos planos de Deus. O evangelho deve ser pregado por ambos, mas as funções são distintas.

Aqui fica clara a distinção. O missionário, ao abnegar direitos dados ao cristão de sociedade, acaba por ter de abnegar também o uso de armas para autoproteção e reação. Como já dito, ele encontrou ali um contexto em que sua vida já não é mais prioridade. As armas tornam-se inconvenientes e o sacrifício, a única opção viável. Tal como ocorreu com Jesus. 

Em suma, não há como utilizar o texto de Mateus 26:52 para sustentar que seria pecado buscar autoproteção ou reagir a agressões físicas. A passagem deve ser entendida dentro de seu contexto bem específico, no qual: (1) Pedro não deveria sacar sua arma naquele momento, pois Cristo necessitava morrer pelo ser humano; (2) os discípulos não deveriam parecer um grupo paramilitar, a fim de não distorcerem o caráter do evangelho, nem serem vistos pelo Império Romano como uma ameaça; (3) os discípulos não deveriam ser soldados, mas como missionários, abdicando de alguns direitos legítimos para pregar o evangelho intensa e integralmente, espalhando-o pelo mundo. Interpretar além disso é forçar o texto.

O cristão passivo pode tentar argumentar ainda com base em algumas ideias extraídas da Bíblia tais como: "O cristão deve ter fé em Deus e não em armas para protegê-lo", ou ainda: "O cristão não deve agredir ninguém, mas amar". Ora, essas ideias são distorções das Escrituras. Analisemos a primeira. Apela-se para a fé em Deus para protegê-lo. É óbvio que devemos ter fé em Deus sempre, mas isso não nos proíbe, tampouco nos exime de fazer a nossa parte. Se a fé em Deus nos desobrigasse de tomar medidas para nossa proteção, não faria sentido trancar a porta de casa com chave, ter extintor no carro, usar cinto de segurança, comprar um computador com garantia de fábrica, guardar pertences valiosos em um cofre, ir ao médico e etc. Na verdade, o próprio Jesus diz a Satanás: "Não tentarás o Senhor teu Deus". E o texto bíblico que afirma: "Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela" (Salmo 127:1), não exclui a necessidade de um sentinela, embora ele nada possa se Deus não estender sua proteção. O mundo que Deus criou funciona por meio de leis naturais. Não devemos viver nele como se vigorasse a magia. Na vida real devemos fazer a nossa parte à todo o momento. Deus fará a dEle. Ter uma arma ou aprender artes marciais podem ser atitudes importantes para se proteger ou proteger a outros. Não há qualquer passagem bíblica que desabone esse tipo de conduta. Pelo contrário, trata-se de algo prudente. E Deus poderá salvar pessoas através disso, inclusive.

Quanto à segunda ideia, perceba que ela distorce o amor. É evidente que amar não implica permitir que coloquem em risco sua vida ou a vida de alguém ao redor. Imagine que você está andando na rua e encontra um sujeito tentando se aproveitar de sua filha. Qual será sua postura? Deixar que o sujeito abuse de sua filha, alegando que precisa amá-lo e não agredi-lo? Ou tentará salvar sua filha, apartando-o com sua força física ou algum instrumento de proteção? Tenho certeza de que sua postura será a segunda. Não é diferente quando se trata de nossa própria vida em jogo. É perfeitamente possível ser um cristão amoroso, perdoador e que ajuda ao próximo, mas, ao mesmo tempo, que reage quando sua vida ou a vida de pessoas ao seu redor está em perigo.

Enfatizo que toda essa reflexão se refere à autoproteção e não ao uso da violência como forma de vingança, justiça própria e retaliação. A Bíblia é bem clara ao dizer que não devemos nos vingar, no âmbito moral, pois a "vingança" pertence a Deus. E, no âmbito civil, também não devemos buscar justiça com as próprias mãos, pois cabe ao Estado julgar, através do corpo de leis vigentes e de juízes preparados para isso. O próprio princípio do Antigo Testamento "olho por olho, dente por dente", não passava de uma regra jurídica aplicada apenas por juízes, após um julgamento formal, para determinados tipos de crimes - a saber, crimes de agressão física à inocentes ou falso testemunho (Êxodo 21:22-25, Levítico 24:19-20 e Deuteronômio 19:15-21). Aliás, a crítica de Jesus, no Sermão do Monte, ao princípio "olho por olho, dente por dente" não se referia a sua aplicação jurídica, a qual era legal, mas sim à sua aplicação no âmbito moral. Em outras palavras, muitos utilizavam o princípio como uma justificativa para odiar e retaliar, buscando vingança e justiça com as próprias mãos. Jesus, portanto, faz uma clara distinção entre princípio jurídico e princípio moral, estabelecendo que, no âmbito moral, o individuo deveria estar pronto para liberar perdão, e no âmbito jurídico, deveria deixar o julgamento e a punição à cargo dos juízes. Essa deve ser a postura cristã.

É curioso como que cristãos que sustentam a passividade gostam de pintar um "Jesus Cristo paz e amor" que jamais faria nada agressivo. Um colega chegou mesmo a me dizer, dia desses, que não conseguiria imaginar Jesus andando com uma Ak-47. Pois creio que esses cristãos nunca devem ter lido Apocalipse, por exemplo, que descreve Jesus voltando com uma espada que mata todos os ímpios da terra. A cena é simbólica, claro, mas o morticínio não. E a imagem utilizada para simbolizar essa terrível e gigantesca punição derradeira é justamente a de Jesus armado. Não com uma Ak-47, já que esse tipo de armamento não existia à época que João escreveu o Apocalipse. Mas com uma espada. Sim, a espada, a arma antiga, a arma utilizada pelos exércitos israelitas ao longo de todo o Antigo Testamento. A arma utilizada pelos discípulos enquanto andavam com Jesus. A arma com a qual todo o homem protegia a sua família de perigos. A arma que todo mundo tinha. 

Demonizar a autoproteção e os meios com os quais pode-se torná-la efetiva não é uma postura que encontre base bíblica, tampouco lógica. Quando fazemos isso, encontramos inúmeras incoerências pela frente. Uma delas se refere ao próprio trabalho da polícia. Ora, se proteger e reagir são dois pecados e todos deveriam ser passivos em relação aos agressores, então todos os policiais estão em pecado. Sob essa interpretação, a atividade policial é, em si mesma, pecaminosa, imoral, anticristã, pois se baseia justamente em proteger e reagir. Posso imaginar um policial que tenha acabado de se tornar cristão e vê um homem agredindo fisicamente uma mulher. Ele corre para defendê-la, mas então se lembra: "Cristo me ensinou a não reagir". Então, com a consciência tranquila, deixa que a mulher morra nas mãos de seu agressor. Será mesmo que foi isso que Cristo ensinou? Certamente não! E, sem dúvida, o raciocínio serve para qualquer cidadão. É dever do cristão estar disposto a reagir e proteger, sempre que a situação não requerer a passividade. Fugir a essa obrigação é ser covarde. E os covardes, como já dito, não herdarão o Reino dos Céus.

Concluímos, portanto, que não há absolutamente nenhum ponto na Bíblia em que seja proibido ao cristão buscar a autoproteção, reagir à agressões físicas e utilizar armas para isso. A questão das armas (e atualmente, das armas de fogo) não é uma discussão teológica, mas uma questão civil. A Bíblia não proíbe, como também não impõe, cabendo à sociedade julgar se deve possuir o direito de portar armas ou não.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dez argumentos católicos ruins contra o protestatismo

Nenhum comentário:
Quero tecer minhas respostas a alguns argumentos católicos comumente usados para atacar o protestantismo. São argumentos que julgo bem frágeis e que eu pediria aos meus prezados amigos católicos que não os utilizem. A intenção do post não é provar que a Igreja Católica não é a verdadeira, mas apenas colaborar para que argumentos ridículos sejam postos de lado nos debates.

1) A Igreja Protestante não pode ser a Igreja verdadeira porque ela é toda dividida.

R.: Esse argumento não faz o menor sentido pelo simples fato de que não existe uma "Igreja Protestante". O protestantismo não é uma instituição formal, nem mesmo uma instituição. O protestantismo foi o nome cunhado para se referir à instituições cristãs distintas que surgiram de dissidências com a Igreja Católica a partir de 1517. Há, na verdade, não uma Igreja Protestante, mas um movimento protestante. Então, não se pode dizer que "a Igreja Protestante é uma Igreja dividida". Estamos falando de várias instituições e não apenas de uma. O movimento protestante não é um análogo à Igreja Católica.

2) O protestantismo relativiza a verdade.

R.: Esse argumento provém justamente da pressuposição errônea de que o protestantismo é uma instituição, tal como a ICAR. Daí deduz-se que dentro da mesma instituição cada um tem a sua verdade. Como já mostrei, a pressuposição está errada, o que invalida a dedução. Longe de haver relativismo da verdade no movimento protestante, o que ocorre é que cada instituição julga o seu próprio corpo de regras correto, o que implica que o corpo de regras dos demais está errado em um ou mais aspectos. É exatamente a mesma visão que a ICAR tem de sua instituição e das demais. Não há diferença aqui. Não há relativização da verdade.

3) A divisão do protestantismo em várias instituições implica a falsidade do movimento.

R.: Sustentar este ponto coloca o católico em problemas. Ora, se um movimento torna-se falso por ter se separado de um movimento original, então o próprio cristianismo é falso, pois se separou do judaísmo. E talvez até o judaísmo seja falso, pois se separou do monoteísmo primitivo, vivido por clãs isoladas. Não me parece lógico apostar nesse argumento.

4) A Igreja Católica, diferentemente da Igreja Protestante, nunca se dividiu. Permanece una.

R.: É claro que houve divisão! A Igreja Cristã se dividiu em Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, na chamada grande cisma do Oriente (1054). Fez-se duas instituições diferentes, cada qual alegando estar correta. Posteriormente, após 1517, surgiram diversas instituições protestantes do seio da ICAR. Mais divisões. Quando uma divisão é feita, obviamente, as duas partes não são mais uma coisa só. Não se pode dizer, portanto, que a ICAR não se dividiu. Ora, a divisão em si mesma não é algo ruim. Seria preferível que ela não existisse, mas quando a verdade está em jogo, a divisão é necessária.

O argumento católico aqui pretende, na realidade, afirmar meramente que a ICAR é a Igreja verdadeira. Não importa quantas divisões ocorram em seu seio, quantos movimentos sejam excomungados, quantos grupos sejam desligados, ela permanece sendo a Igreja verdadeira. Isso pode até ser verdade, mas a questão é que não há um argumento aqui e sim uma mera afirmação travestida de argumento. Quando alguém afirma que a ICAR nunca se dividiu, mesmo tendo havido diversas divisões no seio dela (e sendo ela própria proveniente de divisões), o que está querendo dizer é simplesmente que ela é a igreja verdadeira e, portanto, todas as que dela saíram são falsas, o que implica que a igreja verdadeira em si não foi dividida. E nunca será, já que qualquer cisão que ocorrer implicará falsidade não dela, mas da outra parte. Isso é o que o católico quer dizer.

O fato ululante é que para quem quer discutir justamente se a ICAR é ou não a Igreja verdadeira, em um debate, inicar a discussão já pressupondo que ela é verdadeira se constitui raciocínio circular. Neste caso o debate não existe e não há nada o que se discutir.

5) A Igreja Católica foi a responsável por escolher os livros que iriam compor a Bíblia. Mais que isso: ela foi responsável por inspirar os livros do Novo Testamento. Logo, todos devem a Bíblia à ICAR, por consequencia ela é a Igreja verdadeira e, portanto, só ela tem aptidão para interpretar as Escrituras Sagradas.

R.: Mais uma vez, o argumento só faz sentido quando se pressupõe a cosmovisão católica. Na cosmovisão católica, a ICAR foi instituída por Jesus Cristo, tendo o anúncio sido formalizado por ele mesmo à Pedro, em Mateus 16. Iniciar o debate já com essa pressuposição é raciocínio circular, já que é justamente esse um dos pontos que precisa ser provado.

A cosmovisão protestante é distinta. Ela entende que Jesus não instituiu a ICAR, mas sim a Igreja Cristã, a qual, em sua primeira fase, se guiou puramente pelas pelas doutrinas apostólicas. Na medida em que o tempo foi seguindo, a Igreja Cristã foi passando por outras fases, nas quais elementos estranhos começaram a compor à doutrina cristã.

O processo de romanização da Igreja cristã se inicia, segundo a cosmovisão protestante, décadas após a era apostólica e de maneira bastante gradual e sutil. Nos primórdios do cristianismo, não havia um poder central formal instituído na Igreja. Cada cidade ou região possuía sim um bispo, que era simplesmente um membro local com bons atributos cristãos e que havia recebido instrução e preparo de algum missionário. Na era apostólica, os primeiros missionários foram os próprios apóstolos. Coube a eles a tarefa inicial de plantar igrejas nas cidades, preparar um líder e partir para outras cidades, deixando a Igreja plantada se virar sozinha. Havia, evidentemente, o cuidado, por parte dos apóstolos, de orientar de longe através de cartas, e de visitar as igrejas plantadas tempos depois, a fim de observar o funcionamento delas. As igrejas, por seu turno, enxergavam os apóstolos com grande respeito, já que eles haviam estado com Jesus e, portanto, conheciam a sua doutrina. Não havia, entretanto, uma hierarquia bem definida, um líder supremo dentre os apóstolos e uma sucessão formal. E cada igreja era bastante autônoma, apenas recebendo orientações de longe vez ou outra.

Com a morte dos apóstolos, a Igreja passou a se formalizar um pouco mais e os bispos de cada cidade ou região ganharam maior importância. Mas, segundo a cosmovisão protestante, a Igreja ainda seguiu por um tempo descentralizada, não possuindo um bispo supremo dentre os bispos, conquanto houvesse unidade nas doutrinas.

O bispo de Roma passaria, gradativamente, a ganhar maior relevância dentre os bispos por pertencer à capital do Império e pelo cristianismo já não contar mais com uma Igreja forte em Jerusalém (a qual foi, na fase apostólica, Igreja central do cristianismo). Considera-se, dentro dessa cosmovisão, que apenas lá pela década de 530 o processo de romanização se consolidaria, transformando efetivamente o bispo de Roma no bispo dos bispos. Esse reconhecimento, portanto, foi sendo construído ao longo de um processo que durou séculos. Então, podemos dizer, dentro dessa cosmovisão, que a ICAR só surge, no mínimo, após o ano 500. Antes disso, o que se havia era uma Igreja cristã em processo de romanização, ou ainda, uma Igreja Proto Romanizada (e, por consequencia evidenete, não mais apostólica). Ou seja, nessa cosmovisão, quem fez selecionou os livros que iriam compor a Bíblia não foi a Igreja Católica, mas sim a Igreja cristã. O máximo que se pode dizer, nesta cosmovisão, é que a Igreja cristã que o fez estava em processo de romanização.

Exponho essa cosmovisão não para afirmar que ela seja a correta (pois não é este o intuito do post), mas apenas para alertar que não existe apenas a cosmovisão católica. Portanto, iniciar um debate pressupondo que há apenas uma cosmovisão possível causa um desequilíbrio no debate. Ora, a ideia não é provar qual das duas está correta? Então, o debate deve partir do zero, sem suposições iniciais não provadas no próprio debate.

6) É logicamente necessário que Deus tenha instituído uma Igreja infalível doutrinariamente. Senão o cristianismo não vigoraria.

R.: Não, não é necessário. Na Antiga Aliança, o povo judeu passou algum tempo crendo na doutrina errônea de que o Messias seria um líder militarista que destruiria o Império Romano. Era o povo de Deus, mas estavam em erro doutrinário. No mesmo judaísmo, surgiram divisões. As duas principais eram a dos fariseus e a dos saduceus. Ambos possuíam erros doutrinários. E o povo absorvia esses erros. Durante o ministério de Jesus, o povo judeu, no geral, continuou sustentando doutrinas erradas, incluindo a visão distorcida da missão do Messias. Felizmente, Jesus reuniu um grupinho de judeus que aceitou as doutrinas corretas. Esses judeus pregaram a outros judeus, que também aceitaram, e depois partiram para evangelizar o restante do mundo. Isso evidencia que, no interior do povo de Deus, pode haver erros doutrinários. O povo quase inteiro pode abraçar doutrinas erradas. É possível e já aconteceu. Mas, apesar disso, os planos de Deus não foram inviabilizados.

Podemos voltar um pouco mais no tempo e pensar no monoteísmo primitivo, seguido pelas primeiras clãs do mundo. Formavam o povo de Deus. Mas aos poucos elas foram agregando ideias erradas também. Foi, aliás, este motivo que levou Deus a usar Abraão, membro de uma dessas clãs monoteístas, para formar um povo específico para Ele; um povo que pudesse manter as suas verdades ao longo do tempo e dar ao mundo o Messias. Este novo povo, como vimos, não se tornou infalível à nível doutrinário. E à nível moral foi um povo bastante problemático. Entretanto, Deus cumpriu seus planos através dele, não foi? O judaísmo vigorou até a vinda do Messias, não é? Do judaísmo saíram os primeiros cristão, correto? A primeira Igreja era majoritariamente formada por judeus, não é mesmo? Pois é.

A ideia de que uma instituição falível à nível de doutrina não pode servir aos planos de Deus não parece corresponder à realidade histórica e bíblica. Na comovisão protestante, Deus permanece sendo o guia supremo da história. Não importa o quanto o homem seja falível moral e doutrinariamente, o quanto o seu povo se engane com mentiras, o quanto a humanidade crie problemas, Ele sempre irá levantar homens para resgatar suas verdades e até mesmo agir por meio de quem não tem as ideias totalmente certas. Isso não é, de forma alguma, um incentivo ao erro. É apenas uma constatação: Deus age até em instituições erradas usando homens errados. Homens como Arão, Sansão, Davi e Jonas, embora falhos e com ideias tortas, foram muitas vezes usados pelo Espírito Santo para que Deus cumprisse seus objetivos. Até mesmo o problemático Saul (que no fim da vida se perdeu), quando intentava matar a Davi, foi tomado pela influência do Espírito de Deus, desistindo do mau intento e passando a profetizar (I Samuel 19:18-24). Isso mostra que o Espírito de Deus age em quem Ele quiser e alcança seus planos do modo como quiser. Quem somos nós para limitar a Deus?

7) A Igreja Católica é verdadeira porque deu ao mundo um enorme legado de boas obras e avanços nas mais diversas áreas do conhecimento, sendo este legado muito superior ao deixado pelos protestantes.

R.: Acho esse argumento bastante bobo. Não porque eu discorde do tamanho do legado positivo que a ICAR deu ao mundo (embora eu também creia que ela cometeu muitas falhas, sobretudo no quesito doutrinário). Mas eu acho um argumento bobo porque este legado positivo não é, definitivamente, um argumento para provar que a ICAR é a Igreja verdadeira. A cosmovisão protestante, por exemplo, não crê que tudo o que sai da Igreja Romanizada seja ruim. Ao contrário, uma vez que ela faz parte da Igreja Cristã, ela sempre possuiu membros cristãos verdadeiros e fervorosos que foram utilizados por Deus para a sua obra. Então, dentro da cosmovisão protestante, a ICAR fez muitas coisas boas para a sociedade não porque é uma instituição romanizada, mas sim porque, apesar dos seus erros doutrinários, é uma instituição que faz parte da Igreja Cristã e que possui membros cristãos verdadeiros e fervorosos.

Nenhum protestante honesto e minimamente estudioso negará o peso positivo que a ICAR teve em muitos aspectos da nossa sociedade ao longo dos séculos. E é óbvio que o legado dela tende a ser maior que o protestante, já que sua instituição é mais antiga. Mas antiguidade não comprova originalidade, tampouco pureza doutrinária. Por isso o argumento é inválido.

Só para lembrar: para a cosmovisão protestante, Jesus não instituiu a Igreja Católica Romana, ou a Igreja Católica Ortodoxa, ou alguma das Igrejas Protestantes. Ele instituiu a instituiu a Igreja Cristã, lá no primeiro século (e que era, aliás, formada majoritariamente por judeus e cujo centro foi por muito tempo em Jerusalém). A Igreja Cristã deixou sua fase apostólica e começou a se romanizar. Esse processo se consolidou lá para os anos 530, quando toda a cristandade reconheceu o bispo de Roma como bispo dos bispos. Ou seja, a Igreja Cristã não surgiu romanizada, mas tornou-se romanizada - pelo menos, majoritariamente, já que sempre existiram grupos cristãos fora da ICAR (muitos dos quais eram heréticos, mas não todos).

8) Os protestantes acreditam na livre interpretação da Bíblia, o que é uma prova de relativismo da verdade. A Igreja Católica acredita em uma só interpretação da Bíblia, portanto, é a Igreja verdadeira.

R.: Errado. Os protestantes acreditam no livre exame da Bíblia. Isso significa que, para a cosmovisão protestante, todo cristão tem o direito de estudar a sua Bíblia e procurar base escriturística para as doutrinas da Igreja. O livre exame não deve ser confundido com a livre interpretação. O cristão não é livre intelectual e moralmente para interpretar a Bíblia como bem lhe aprouver. A correta interpretação bíblica requer domínio de regras interpretativas lógicas, bom conhecimento histórico, bom conhecimento da própria Bíblia, hábito de leitura, honestidade intelectual, humildade de espírito e um bom relacionamento com Deus. Sobre as regras lógicas de interpretação, podemos citar as mais conhecidas: avaliação do contexto histórico, do contexto da passagem, do estilo do livro estudado, da finalidade do livro, do autor, dos destinatários, da cultura e do idioma em questão e da relação do texto com outros textos da Bíblia.

É evidente que muitos cristãos, ao terem livre acesso à Bíblia, procurarão interpretá-la sem um ou mais desses requisitos básicos. É daí que surgem as heresias. Mas veja que isso é um pecado exclusivo da pessoa que resolve assim proceder e não da cosmovisão protestante. Nenhum protestante honesto e minimamente inteligente defende que as pessoas interpretem à Bíblia de qualquer maneira, sem os requisitos básicos. Na verdade, o bom protestante deseja que todos os cristãos aprendam os requisitos básicos para se interpretar corretamente e, uma vez dispondo dessas ferramentas fundamentais, sejam livres para avaliar a Bíblia. Longe de ser um erro, tal postura é honesta, pois dá a cada um a oportunidade de zelar pelo bom cumprimento da Palavra de Deus, averiguando se ela está sendo seguida por sua comunidade. Isso não exclui, evidentemente, que cada um peça ajuda à pessoas que tem maior capacidade intelectual e espiritual para fazer avaliações. Ter humildade de espírito também se trata disso.

Os católicos geralmente batem na tecla de que o problema dessa liberdade de exame é justamente o perigo de insensatos deturparem a Bíblia. Mas esse risco é o preço da liberdade. E sempre foi. A liberdade sempre implica riscos. Quando Deus fez o Jardim do Éden para Adão e Eva, deixou no centro do jardim uma árvore cujo fruto não deveria ser comido. Mas, uma vez que ela estava ali, havia a liberdade de Adão e Eva comerem. Deus poderia não ter dado a eles essa liberdade, impedindo que aquela árvore estivesse no jardim (ou cercando-a com grades intransponíveis). Mas não foi assim que Deus agiu. Ele preferiu deixar que a escolha ao alcance das mãos do homem. O risco era a queda da humanidade no pecado. Pois foi exatamente o que ocorreu (e Deus já sabia desde sempre).

Após o pecado a questão não muda. Ecoam na minha cabeça as palavras do próprio Deus a Caim: "Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo" (Gênesis 4:7). Ou ainda as palavras de Deus ao povo hebreu, no deserto: "Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência"
(Deuteronômio 30:19).

Lembro ainda que o autor inspirado Lucas afirma sobre os cristãos bereanos: "Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses, porquanto, receberam a mensagem com vívido interesse, e dedicaram-se ao estudo diário das Escrituras, com o propósito de avaliar se tudo correspondia à verdade" (Atos 17:11). Parece-me que a Bíblia dá muita ênfase à avaliação para descobrir se algo é verdadeiro. Em Provérbios Salomão já dizia: "O simples dá crédito a cada palavra, mas o prudente atenta para os seus passos" (Provérbios 14:15). Eu poderia citar várias outras passagens do gênero.

A suma é: não parece haver qualquer condenação bíblica ou lógica ao livre exame das Escrituras. E o fato de existirem pessoas que irão distorcer a Palavra de Deus é apenas uma consequencia da liberdade. Devemos aprender a lidar com isso e, através do estudo sério e da oração fervorosa, nos manter longe dos erros e abertos à verdade. Como Pedro já orientava no primeiro século: "[...] tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (I Pedro 15:18).

9) Uma Igreja falível (como sustentam os protestantes) não poderia produzir uma Bíblia infalível.

R.: Não vejo razão para concordar com isso. Lanço mão de uma analogia para explicar. Eu fiz cerca de 230 provas nos meus três anos de ensino médio. Embora eu tenha sido um bom aluno, é óbvio que não tirei 10 em todas essas provas (tampouco na maioria). Mas eu gabaritei algumas sim. Acredito que umas 40 ou mais. Nessas provas, portanto, eu fui perfeito, acertei tudo. Produzi uma prova sem falhas. No entanto, isso não muda o fato de que eu sou falível, imperfeito e que na maioria das provas eu não acertei todas as questões. É possível concluir daí que o ser humano, mesmo sendo falível e falho, pode produzir alguns resultados isentos de erros em determinadas ocasiões.

Da mesma maneira, todo cristão é passível de erros morais, administrativos e doutrinários, tanto na condução da sua vida individual, como na condução da Igreja de Cristo. Ser passível de erros não significa viver errando, ou jamais conseguir um resultado perfeito em determinada ocasião. Significa apenas que é possível cair e que, com muita probabilidade, isso vai acontecer em um ou mais momentos. O que define a intensidade dos erros e o tempo para consertá-los é uma palavrinha chamada "humildade". Quando o cristão é humilde e reconhece ser passível de erros, tenderá a cometer erros menores e a consertá-los com mais rapidez. Uma instituição, no entanto, que não reconheça essa possibilidade de desvio, poderá cair em um e nunca sair. O erro se consolida como verdade, torna-se tradição sagrada e vira um dos pilares inamovíveis da Igreja. É um perigo real.

Mas voltando à questão principal: se cristãos falíveis podem produzir resultados perfeitos em algumas ocasiões da vida, seja no âmbito moral, administrativo ou doutrinário, então é perfeitamente aceitável que alguns bons cristãos tenham recebido inspiração de Deus para compor as Escrituras, de modo que, ao fazê-lo, foram perfeitos doutrinariamente. Isso não muda o fato de que tais cristãos eram falíveis. Mas em determinadas ocasiões escreveram coisas perfeitas que os demais cristãos, majoritariamente, perceberam ser inspiradas. Não há qualquer contradição lógica nesta cosmovisão. Em tempo: o povo israelita era falível e compôs o Antigo Testamento. É sempre bom lembrar disso.

10) Mas se a ICAR não é a Igreja instituída por Deus, qual é? Como encontrá-la num mar de igrejas rivais?

R.: Primeiramente, é preciso entender qual a concepção de Igreja para a cosmovisão protestante. Igreja não é uma instituição formal, com CNPJ, Razão Social, templos e hierarquia. Não que essas coisas sejam erradas ou não tenham relevância. Mas elas, na verdade, são acessórios. Igreja é, antes de qualquer coisa, o conjunto de todos aqueles que creem verdadeiramente em Jesus como Senhor e Salvador do mundo, bem como na Bíblia (Antigo e Novo Testamento). Em suma, Igreja é o nome que se dá ao coletivo de todos os cristãos espalhados na face da Terra, independentemente se todos mantém contato ou não. Se três cristãos, por exemplo, forem parar cada qual em uma ilha deserta diferente, eles continuam sendo parte da Igreja de Cristo.

Entendido isso, fica claro que a Igreja de Cristo transcende os inúmeros grupos e facções que existem no cristianismo. Os cristãos verdadeiros de cada facção (Católica Romana, Católica Ortodoxa, Luterana e etc.) fazem parte da mesma e única Igreja: a Igreja de Cristo. Isso não implica, evidentemente, que todas as faccções contém o corpo correto de doutrinas. Já falamos sobre isso. E aqui está o desafio: como encontrar a congregação cristã que possui as doutrinas bíblicas corretas? Só há um caminho: estudar a Bíblia com afinco e fervorosa oração. A congregação correta há de se pautar inteiramente na Bíblia ou, no mínimo, demonstrar tal disposição.

Eu, como Adventista do Sétimo Dia, acredito que esta é a congregação na qual (e com a qual) Deus tem terminado de resgatar suas santas doutrinas bíblicas. Na cosmovisão adventista, Deus não deixa de agir durante toda a história, procurando fazer a Igreja Cristã como um todo retornar à pureza doutrinária da Era Apostólica. Neste sentido, o movimento protestante foi muito importante, embora não tenha completado a reforma. Esta reforma continuaria nos séculos seguintes, através de outros movimentos e grupos, todos falhos e falíveis, mas em busca da verdade. Para nós, a Igreja Adventista, vem para dar a contribuição final à Igreja Cristã, espalhando verdades não reformadas como a guarda do sábado, a mortalidade da alma, a mentira do inferno como lugar de tormento eterno, a importância da mensagem de saúde e etc. Mas isso é assunto para outra postagem. Em suma, cada igreja acredita deter o correto corpo de doutrinas. Apenas o estudo sério, honesto e unido à oração fervorosa pode provar este tipo de afirmação. E isso é a obrigação moral e espiritual de todo o cristão.

No final de tudo, entretanto, todas essas facções e grupos desaparecerão; tornar-se-ão fúteis. Os cristãos verdadeiros, espalhados por todas as igrejas, sairão de suas instituições formais corrompidas, aceitando o verdadeiro evangelho e recusando-se a seguir outra coisa que não a Palavra de Deus. Então, todos estes estarão juntos e juntos sofrerão a perseguição daqueles que preferirão a falsa religião e seu prazeres. Neste período da história, ficará claro que a Igreja de Cristo transcende paredes e que o verdadeiro cristão é aquele que "guarda os mandamentos de Deus e a fé em Jesus" (Ap. 12:17 e 14:12).

Considerações Finais

Como já dito, o intuito desse post não foi provar que a ICAR não é a Igreja verdadeira, mas apenas fazer uma crítica de alguns argumentos frágeis que são comumente usados por católicos em debates contra protestantes. Nos debates que já travei, invariavelmente a argumentação católica se resumiu à seguinte linha de raciocínio:

(1) A ICAR é a única que sabe interpretar as Escrituras Sagradas;

(2) Logo, a interpretação da ICAR sobre a instituição dela mesma por Jesus em Mateus 16 está correta;

(3) Logo, a ICAR existia antes do Novo Testamento ser escrito;

(4) Logo, a tradição da ICAR gerou o Novo Testamento;

(5) Logo, a tradição da ICAR é tão importante quanto a Bíblia e não a contradiz;

(6) Logo, a tradição da ICAR pode ser usada, juntamente com a Bíblia para provar que a ICAR é verdadeira.

Percebe o raciocínio circular? Pois é, a argumentação dos católicos com os quais já debati sempre se baseou nesse tipo de raciocínio. Que fique claro que isso não é uma generalização. Não estou dizendo que todos os católicos argumentam assim. Refiro-me apenas aos que já debati (e alguns que já vi debatendo por aí). E enfatizo que não eram católicos ignorantes em teologia, apologética e história da própria instituição deles. Mas cometiam esses erros. Ora, assim como argumentos católicos ruins me incomodam bastante, argumentos protestantes ruins também me deixam irritado. Quando vejo um protestante acusando os católicos de crerem que o Papa não peca, fico para morrer. Não é isso que diz o dogma da infalibilidade papal. É preciso conhecer o que se critica. A minha intenção, portanto, é sempre tornar o debate mais rico.

Como um debate entre católicos e protestantes deveria ser? Quero terminar o post falando sobre isso. A questão principal a ser discutida é: a ICAR foi realmente instituída por Jesus? Para responder a essa questão é preciso:

(1) fazer uma análise do texto de Mateus 16 (a principal passagem bíblica usada por católicos para sustentar sua cosmovisão), avaliando e confrontando todas as suas interpretações possíveis;

(2) fazer uma análise histórica profunda para saber se há textos do primeiro século que comprovem a posição soberana do bispo de Roma e a sucessão papal a partir de Pedro;

(3) avaliar, perante uma análise interpretativa séria, lógica e acurada da Bíblia, se as doutrinas e a tradição católicas estão de acordo com as Escrituras Sagradas.

Esses são os três pontos básicos. O que se espera é que, tendo a ICAR sido fundada por Jesus Cristo, essas três análises podem ser feitas e suas respostas demonstrarão, inquestionavelmente, a veracidade da teologia e cosmovisão católicas. Do contrário, segue-se que a cosmovisão protestante está correta. Os debates que se pautarem nesses três pontos serão, sem dúvida, muito construtivos e enriquecedores. Deixo aqui o meu pedido, à protestantes e católicos, que invistam nesse nível alto de discussão.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Quando eu aconselho ler mais sobre um assunto

Nenhum comentário:
Às vezes, em discussões pela internet, eu pergunto ao oponente se ele já leu determinados livros sobre o assunto (os quais eu já li). O intuito não é exaltar a "minha erudição". Até porque, se eu realmente fizesse questão de ser um intelectual (no sentido estrito do termo), eu precisaria ler muito mais, o que exigiria disposição e dedicação que hoje não tenho. O intuito dessas minhas perguntas é realmente mostrar à pessoa (ou ao público que vê o debate) que o tema em questão está sendo tratado de maneira superficial; que há uma montanha de informações importantes em livros básicos que o oponente não está levando em consideração.

É óbvio que poucas pessoas (raríssimas mesmo) tem tempo e/ou disposição para ler os principais livros dos principais temas que existem. E eu seria hipócrita se pretendesse me passar por uma espécie de leitor universal, conhecedor supremo da essência de quase todos os assuntos. Estou longe disso. Grande parte do nosso conhecimento se baseia em resumos, apanhados rápidos, leituras breves, passadas de olho, aparências, comentários das obras e coleções de "ouvi dizer", "vi por aí", "dizem". E eu não sou a exceção dessa tendência. Estou ciente disso.

No entanto, estou convencido de que é possível aumentar a qualidade de nossos conhecimentos em diversas áreas, mesmo sem se tornar expert no assunto. Se, por um lado, é preciso conhecer bem algo para poder analisar, por outro lado conhecer bem nem sempre requer a leitura de 20, 30 obras distintas sobre o tema. Dito à grosso modo, não é necessário comer fezes para saber que é fezes.
Quando pergunto a um oponente se ele já leu determinados livros, a ideia não é cobrar dele uma erudição impossível de ser alcançada. É apenas indicá-lo algumas obras básicas sobre o tema. Nem sempre é necessário. Às vezes alguns poucos resumos sobre um tema são suficientes para que se apreenda a essência. Mas, outras vezes, a leitura de uma ou duas obras mais detalhadas são imprescindíveis.

Em geral, quanto mais polêmico o assunto discutido, mais necessário se faz ler ao menos duas obras boas. E quando falo de leitura, nem estou falando de uma leitura completa. Aprendi com C. S. Lewis que não há nada de errado em não ler uma obra toda. Pode-se ler a maior parte, focando nos pontos essenciais e deixando pontos secundários de fora. Quem já fez TCC (Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia) sabe o que é isso. Esse método pode falhar? Pode. Mas uma das funções do debate é essa: descobrir que talvez seu conhecimento deva ser aprimorado.

É por isso que indico leituras. E geralmente, as leituras que indico são curtas e de fácil linguagem. Quando não são, eu aviso. Penso que todo o debatedor deveria levar essas indicações mais à sério. Muitos fazem para tentar humilhar, para tentar ganhar o debate na aparência. Não é o meu caso. Mas ainda que fosse, por que não procurar as leituras sugeridas? Se em um debate eu menciono informações importantes que você desconhece, é bastante provável que essas leituras realmente sejam relevantes.

O que me deixa chateado é a postura orgulhosa de muitos que desejam debater sem terem conhecimentos básicos sobre a questão. Eu entendo que às vezes podemos achar que conhecemos bem um tema e, repentinamente, percebermos que não, não conhecemos. Já ocorreu bastante comigo. E, inclusive, algumas das opiniões que mudei ao longo da vida se devem ao fato de eu ter me debruçado melhor sobre a questão e descoberto riquezas que eu desconhecia. Mas é triste quando, mesmo vendo exposta sua ignorância, um oponente permanece agarrado aos seus preconceitos e forte orgulho.

Nenhum de nós está livre de cometer esse erro ao longo dos debates da vida. No entanto, a construção da honestidade e humildade intelectual está em reconhecer esses erros (o mais rápido possível de preferência) e não fazer deles um hábito. Um bom antídoto para isso é sempre entrar num debate de maneira serena, educada, aberta e disposta a saber mais sobre o que o outro pensa.

Nós sempre entramos em um debate achando que estamos certos. E isso não é ruim. Mas devemos considerar a hipótese de estarmos errados ou de estarmos certos, mas não termos mecanismos suficientes para provar nosso acerto e refutar o erro do oponente. A humildade e a disposição de aprender mais com o outro serão essenciais para mudar esse quadro, nos fazendo estudar mais. É o que tenho tentado fazer. Não com a aplicação que eu deveria ter, mas vida que seque. O importante é tentar melhorar sempre.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pobre de direita

4 comentários:
"Pobre não pode ser de direita". Meu filho, uma das razões para eu ser de direita é justamente o fato de eu ser pobre. Por eu ser pobre eu não quero um governo que dificulte a vida de pequenas e médias empresas com excesso de impostos e burocracia, pois isso reduz o número de empregos e torna os preços dos produtos mais alto. Quem sofre mais com isso? O pobre. 

Por eu ser pobre eu não quero um governo com a mentalidade criminosa de imprimir dinheiro às pampas para pagar dívida pública e derrubar taxas de juros, pois isso gera inflação de preços à médio e longo prazo. Quem sofre mais com a inflação? O pobre.

Por eu ser pobre eu não quero um governo mantendo um monte de empresas estatais ineficientes, que comem dinheiro dos meus impostos e que também servem aos interesses de corruptos e totalitários que as aparelham. Quem mais sofre por ter que pagar pelos rombos dessas empresas? O pobre.

Por eu ser pobre eu não quero um governo que veja vagabundo criminoso como vítima da sociedade, pois a maioria dos pobres é honesta e não se torna criminosa por conta de condição social. Por outro lado, a classe mais criminosa que existe (a classe política) é também a mais rica. Enquanto criminoso é tratado como vítima, as reais vítimas (cidadãos inocentes) permanecem à mercê dos criminosos. E qual o tipo de cidadão inocente que está mais à mercê da violência dos criminosos? O pobre. 

Por eu ser pobre eu não quero um governo que crie incentivos para que os alunos de escolas públicas (pagas com o meu dinheiro de impostos) não tenham limites, fazendo da sala de aula um inferno e dificultando assim a vida dos bons alunos que desejam aprender e dos bons professores que desejam ensinar. Quem mais sofre com essa falta de limites permitida e estimulada pelo governo nas escolas públicas? O pobre.

Por eu ser pobre eu não quero um governo que use as escolas públicas também como centros de doutrinação sexual e marxista, a fim de que professores desonestos destruam a inteligência e a moralidade daquela parcela pequena de alunos esforçados que ainda resta nesse inferno que se tornou a escola pública. Quem mais sofre com essa doutrinação nas escolas públicas? O pobre.

Por eu ser pobre eu não quero um governo que utilize bolsas importantes para pessoas carentes sem critérios sólidos, de forma populista, como moeda de troca para votos. Isso é chantagem. E quem mais sofre com essa chantagem? O pobre.

Por eu ser pobre eu não quero um governo que supervalorize os concursos públicos, enquanto menospreza a atividade empreendedora. Ao fazer isso, o governo fomenta a cultura exdrúxula de desejar trabalhar pouco (e sem riscos) ganhando muito através dos impostos de quem trabalha muito e ganha pouco. Esse tipo de cultura perpetua uma desigualdade social criada pelo próprio Estado, desestimula o empreendedorismo, lota o setor público (o que significa mais impostos para sustentar a máquina estatal) e, ademais, uma vez que quem passa em concurso geralmente é quem tem mais grana, quem é que mais sofre com isso adivinha quem é? O pobre.

Por eu ser pobre, eu não quero um governo que faça de tudo para me proibir de ter uma arma de fogo. Cabe ao Estado a segurança pública. Mas cabe ao cidadão a segurança individual. Ao me privar do direito de autoproteção (ou me criar grandes dificuldades para obtê-lo), o governo me faz refém do Estado, bem como de corruptos, déspotas e vagabundos. Uma vez que o pobre não tem condições de contratar seguranças individuais para o proteger, quem mais sofre com um governo que ataca o seu direito de autoproteção? O pobre. 

Por eu ser pobre, eu não quero um governo ache errado o sistema de vouchers escolares e o homeschooling. O cidadão não é um capacho do governo e sua liberdade deve ser respeitada. O voucher escolar nada mais é do que uma bolsa dada pelo governo para cidadaõs carentes em um colégio privado de sua escolha. Substituir parte das escoals públicas pelo sistema de vouchers é uma forma de esvaziar as salas de escolas públicas (que são muito cheias), reduzir o desvio de verba (já que o financiamento passa a ser individual) e dar ao cidadão o poder de escolha. Já o homeschooling é o ensino em casa, a educação provida pelos pais aos seus filhos, no caso de não desejarem que ele frequente uma escola formal. Uma vez que a família é quem educa, em primeiro lugar, ela deve ter primazia sobre essa escolha. Quando o governo proíbe essas duas modalidades, retira da família o poder de escolher uma educação que julgue melhor para seus filhos. Quem mais sofre com isso? O pobre.

Por ser pobre, eu não quero que o governo me obrigue a "contribuir" com o INSS, pois o sistema previdenciário público é uma pirâmide, vive cheio de rombos (pois o governo usa dinheiro de aposentadoria para cobrir suas despesas) e eu acharia mais seguro aplicar em algum investimento bancário ou numa previdência privada. Quem mais sofre com essa obrigação trabalhista? O pobre.

Por ser pobre, eu não quero que o governo proíba que novos serviços melhores e mais baratos surjam em diversas áreas. O Estado não deve proibir o UBER, não deve taxar a NETFlIX, não deve meter a mão no Whatsapp. Aliás, o Estado não deve impedir que novas empresas entrem e concorram entre si na telefonia (como faz hoje através da Anatel), na TV fechada, na internet, nos transportes, nos serviços postais ou seja lá o que for. Quando o governo fecha esses mercados, criam-se monopólios e o povo fica na mão de algumas poucas grandes empresas. Quem mais sofre com isso? O pobre.

Por ser pobre, eu não quero um governo que ataque os valores familiares. Quando o governo faz isso, desestrutura as famílias, estimula a geração de filhos rebeldes e acaba por fragilizar uma das colunas da sociedade. Quem mais sofre com a desestruturação das famílias? Ora, quem tem menos dinheiro claro. O pobre.

Por ser pobre, eu não quero um governo que enxergue a ordem, o respeito à autoridade, o civismo e a hierarquia como formas de opressão. Não quero um governo, alías, que menospreze as forças militares, ignorando suas virtudes, retirando sua moral e sucateando-as. Quando o governo faz isso, fragiliza as relações entre os cidadãos entre si e dos indivíduos para com as leis. Quem mais sofre com isso? Ora, quem já sofre com a falta de condições. O pobre.

Por ser pobre, eu não quero um governo para o qual seja bom que existam pobres. O governo não deve ser um defensor dos pobres, mas sim um defensor da criação de condições, a fim de que a sociedade prospere. Quem mais sofre com governos que desejam a existência de pobres? O pobre. 

Por ser pobre, eu não quero um governo que exalte regimes totalitários que cometeram os maiores genocídios do mundo. Nesses regimes, o pobre sempre foi tratado como número. Passou fome, sofreu perseguição do governo, violação dos direitos humanos e virou adubo. Quem mais sofre com um governo que apoia essa mentalidade? O pobre.

Por ser pobre, eu não quero um governo que utiliza bancos públicos para financiar projetos de grandes empresários e obras em países totalitários e ditatoriais. Afinal, trata-se do meu dinheiro de impostos. Não é justo que eu, pobre, trabalhe tanto para sustentar o populismo de ditadores e os projetos de empresas bilionárias. Quem mais sofre com esse por ser obrigado a financiar esta imoralidade? O pobre.

Por eu ser pobre, não quero um governo que usa meu dinheiro para financiar artistas, projetos artísiticos e clubes de desportos. Se o dinheiro é meu, devo financiar os artistas, projetos e clubes que eu admiro e desejo financiar, e não os que o governo crê que eu devo ajudar. É um absurdo trabalhar tanto, tendo tantas contas para pagar, e ser obrigado a pagar pelos salários e projetos de quem não presta nenhum serviço para você. Quem mais sofre com esse dinheiro tirado à força? O pobre.

Por eu ser pobre, não quero um governo que usa meu dinheiro para financiar mais de trinta partidos políticos. Partidos políticos devem ser sustentados por doações espontâneas. Não é justo que meu dinheiro suado seja perdido para sustentar partidos que sequer me representam. Quem mais sofre mais uma vez com esse dinheiro tirado à força? O pobre.

Por eu ser pobre, não quero um governo que gaste bilhões anualmente com para sustentar seus próprios cargos. Grande parte do dinheiro suado do povo vai para inúmeros gabinetes de políticos, secretarias, ministérios, além de salários e benefícios vergonhosos de toda essa gente. A classe política traz um peso enorme para o bolso do pagador de impostos. E quem mais sofre com isso? O pobre. 

Por eu ser pobre, não quero um governo que gaste bilhões anualmente com presidiários vagabundos. Não é justo sustentar pessoas que mataram, roubaram, estupraram, sequestraram. Preso precisa trabalhar para sustentar sua estadia na prisão, para produzir riqueza para a sociedade e, claro, para aprender a ganhar as coisas através do trabalho honesto. O trabalho dignifica o homem; a vagabundagem não. Quando o governo sustenta vagabundo na prisão gera custos altos para a sociedade e nada faz para torná-lo uma pessoa melhor. E quem mais sofre com esses custos altos e essa verdadeira fábrica de vagabundos? O pobre.

Por eu ser pobre, eu não quero um governo que se utilize de argumentos econômicos para legalizar o aborto. Aborto é assassinato de inocentes. Usar argumentos econômicos para assassinar crianças é uma forma de banalizar a vida, a maternidade, a paternidade, a família, além de dinamitar a moral e usar mais uma veaz a pobreza para justificar atrocidades. Quem mais sofre com esse oportunismo e banalização da vida? O pobre. 

Por eu ser pobre, eu não quero um governo que nos divida em classes e subclasses, criando ódio mútuo e nos impedindo de lutar contra o verdadeiro inimigo, contra a verdadeira elite, que é a classe burocrata. É a classe burocrata que nos tem mantido na pobreza, na miséria, na humilhação, tolhendo nossa liberdade e sugando nosso dinheiro para se manter no poder e sustentar seus luxos. O inimigo nunca foi o patrão ou o empregado, o homem ou a mulher, o hetero ou gay, o negro ou o branco. O inimigo é o Estado inchado, é a classe política poderosa, são os beneficiados da burocracia. Quem mais sofre com essas divisões e ódio mútuo que o governo estimula para nos cegar? O pobre.

Por eu ser pobre, eu não quero um governo que deseja centralizar tudo (direta ou indiretamente). A sociedade deve ter autonomia para resolver seus problemas em suas cidades, bairros, vizinhanças. As escolas devem ser mais independentes, as universidades, as empresas, os hospitais, as famílias, os comerciantes, os indivíduos. Não precisamos do Estado para observar cada passo que damos. Quem mais sofre com todo esse controle ferrenho é o pobre. O rico também é roubado (e muito) pelo governo. Mas ele ainda pode chorar confortável dentro de seu carro de luxo. O pobre chora no ônibus ou trem lotado, todos os dias, sob a escravidão de um Estado inchado mantido e alimentado pela esquerda. Para mim, ser pobre e de esquerda é que é o absurdo. Eu desejo liberdade.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pré-candidato à prefeitura do Rio pleiteia na Justiça concorrer sem partido

Nenhum comentário:
O advogado e professor universitário Rodrigo Mezzomo, pré-candidato à prefeito da cidade do Rio de Janeiro,  entregou hoje (15/08) um requerimento à Justiça Eleitoral para pleitear o direito de disputar as eleições sem se filiar a um partido político. Em sua página no Facebook o pré-candidato escreveu:
Inicia-se aqui uma importante jornada por liberdade individual.
Estamos pleiteando ao Judiciário o reconhecimento do direito de um cidadão se candidatar SEM PARTIDO. 
Entendemos que a candidatura independente deriva diretamente dos fundamentos da República brasileira (CF/88 Art. 1º), em especial a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político. 
Além disso, lembramos que ninguém pode ser compelido a associar-se ou permanecer associado (CF/art. 5º, XX) e, assim sendo, nem mesmo a lei pode compelir alguém a se filiar a um partido para poder gozar da plenitude de sua cidadania política. 
Poucos lembram que o (i) Pacto de São José da Costa Rica, o (ii) Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e a (iii) Declaração Universal dos Direitos do Homem asseguram aos indivíduos o direito de participarem diretamente das eleições, votando e sendo votados, livres de injustos obstáculos ou infundados entraves.
Poucos lembram que os partidos políticos são entidades de natureza privada e, portanto, atribuir-lhes o monopólio do acesso à vida pública significa a privatização da própria cidadania, justamente aquilo que não pode ser privatizado! 
É preciso mencionar, ainda, um imperativo de ordem lógica: se nossa legislação permite que um indivíduo exerça um mandato sem partido, deve, por razões lógicas, poder pleiteá-lo sem estar filiado a um partido. Lembre-se: aquele que pode “o mais” também pode “o menos”; 
O reconhecimento do direito à candidatura independente não retira, priva ou afeta direitos dos candidatos que se lançam por partidos políticos, portanto, não há nenhum prejuízo aos candidatos partidários; 
Assim sendo, em suma, no tocante à filiação partidária prevista como condição de elegibilidade (CF de 1988, Art. 14, §3º, V), deve a mesma ser interpretada como alternativa, ou seja, como escolha ou preferência do candidato, jamais como obstáculo, impeditivo ou restrição. 
A correta interpretação da lei implica entender a FILIAÇÃO PARTIDÁRIA COMO UMA OPÇÃO DO CANDIDATO, NÃO COMO UMA OBRIGAÇÃO. 
A filiação partidária deve ser um bônus, não um ônus. Em suma, filiação partidária não pode ser embaraço ao cidadão que deseja se lançar candidato aos cargos nos Poderes Executivo ou Legislativo.
Se seu requerimento for aprovado, isso significará uma grande vitória para a liberdade individual e um ataque importante ao atual sistema partidário, dando ao cidadão um leque maior de escolhas.

Ademais, no caso de Mezzomo conseguir a candidatura avulsa, a cidade do Rio de Janeiro contará com dois candidatos de direita disputando as Eleições Municipais: o próprio Rodrigo Mezzomo e Flávio Bolsonaro, atualmente deputado estadual pelo PSC-RJ. Com fichas limpas, boas propostas e posições à direita, os dois candidatos proporcionarão aos cariocas a oportunidade não precisarem votar em candidatos de esquerda ou de centro por falta de uma opção de direita.